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domingo, 29 de dezembro de 2013

Conto: A Partida - por Franz Kafka

Franz kafka
(03/07/1883 - 03/06/1924)

A PARTIDA

Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu. Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou:
- Para onde cavalga, senhor?
- Não sei direito - eu disse - só sei que é para fora daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar: só assim posso atingir meu objetivo.
- Conhece então seu objetivo? - perguntou ele.
- Sim - respondi -. Eu já disse: “fora-daqui", é esse o meu objetivo.
- O senhor não leva provisões - disse ele.
- Não preciso de nenhuma - disse eu -. A viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. Nenhuma provisão me pode salvar. Por sorte esta viagem é realmente imensa.

 Franz Kafka

quarta-feira, 2 de março de 2011

Conto: O Exame - Franz Kafka


O Exame
Sou um criado, mas não há trabalho para mim. Sou medroso e não me ponho em evidência; nem sequer me coloco em fila com os outros, mas isto é apenas uma das causas de minha falta de ocupação; também é possível que minha falta de ocupação nada tenha a ver com isso; o mais importante é, em todo caso, que não sou chamado a prestar serviço; outros foram chamados e não fizeram melhor trabalho do que eu; e talvez nem mesmo tenham tido alguma vez o desejo de serem chamados, enquanto que eu o senti, às vezes, muito intensamente.
Assim permaneço, pois, no catre, no quarto de criados, o olhar fixo nas vigas do teto, durmo, desperto e, em seguida, torno a adormecer. Às vezes cruzo até a taverna onde servem cerveja azeda; algumas vezes por desfastio emborquei um copo, mas depois volto a beber. Gosto de sentar-me ali porque, atrás da pequena janela fechada e sem que ninguém me descubra, posso olhar as janelas de nossa casa. Não se vê grande coisa; sobre a rua, dão, segundo creio, apenas as janelas dos corredores, e além do mais, não daqueles que conduzem aos aposentos dos senhores; é possível também que eu me engane; alguém o sustentou certa vez, sem que eu lho perguntasse, e a impressão que se colhe, ao olhar para a fachada, assim o confirma. Apenas de vez em quando são abertas as janelas, e, quando isso acontece, é um criado que as abre, o qual, então, se inclina também sobre o parapeito para olhar para baixo um instantinho. São, pois, corredores onde não se pode ser surpreendido. Além do mais não conheço esses criados; os que são ocupados permanentemente na parte de cima, dormem em outro lugar; não no meu quarto.
Uma vez, ao chegar à hospedaria, um hóspede ocupava já o meu posto de observação; não me atrevi a olhar diretamente para onde ele estava a olhar e quis voltar-me sair pela porta, em seguida. Mas o hóspede chamou-me e, assim, então, percebi que era também um criado, que eu já tinha visto em qualquer parte, embora nunca tenha falado com ele.
- Por que queres fugir? Senta-te aqui e bebe. Eu pago.
Sentei-me, pois. Perguntou-me algo, mas não pude responder-lhe; não compreendia sequer as perguntas. Pelo menos eu disse:
- Talvez agora te aborreça o fato de me teres convidado. Vou-me, pois.
E quis erguer-me. Mas ele estendeu a mão por cima da mesa e manteve-me no meu lugar.
- Fica aí, disse. Isto era apenas um exame. Aquele que não responder às perguntas está aprovado no exame.
Franz Kafka

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Conto: O Abutre - de Franz Kafka


O Abutre

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava- me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- É que estou sem defesa – respondi. – Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor. – Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? – disse eu. – Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente – disse o senhor. – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. – respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem – disse o senhor. – Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.
Franz Kafka


***«»***
Nota: Franz Kafka foi o escritor que melhor traduziu o conflito existencial do Homem. As personagens kafkianas movimentam-se num mundo absurdo, que elas não compreendem, mas que as esmagam, pois os acontecimentos viram-se sempre contra si.
Uma das características do perfil das personagens kafkianas, é que elas não se revoltam contra o sistema. Percebem que estão a ser trituradas - seja pela máquina infernal de um Tribunal, como no caso de o Processo, seja, como no caso deste conto, por um abutre devorador, que aqui tem de ser interpretado metaforicamente - mas que, em qualquer das situações, não esboçam uma resistência ativa, “preferindo”, antes, “optar” pela interiorização pacifica do seu sofrimento e da sua perplexidade. E é a este nível ficcional que se revela a magia literária de Kafka.
AC