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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Figuras proeminentes do cinco de Outubro e da República (4)

Bernardino Machado
Bernardino Machado, intelectual brilhante, formou-se politicamente na Maçonaria, tendo sido dirigente da Loja Perseverança, do Grande Oriente Lusitano. Durante a Monarquia, foi deputado pelo Partido Regenador, em 1882, par do Reino, em 1890, e ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, em 1893. Só adere ao Partido Republicano em 1903. Com o advento da República, é nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros, e, em 1913, ocupa o cargo de embaixador no Rio de Janeiro.
Foi o político da República que ocupou mais cargos de Estado, o que diz bem da sua reputação. Foi duas vezes primeiro ministro e foi eleito para dois mandatos presidenciais. Curiosamente, foi ele que teve de entregar o poder, em cada um dos seus mandatos, aos militares que, por duas vezes, derrubaram a República, instituindo governos de ditaduras. Primeiro, em 1917, a Sidónio Pais, que o obrigou ao exílio, e, mais tarde, no segundo mandato, a Mendes Cabeçadas, um dos cabecilhas do golpe de 28 de Maio, que abriu as portas a Salazar e aos quarenta e oito anos anos de ditadura.

José Relvas

Apesar de ser filho de um grande proprietário agrícola ribatejano, José Relvas abraçou com convicção o ideal republicano. Viveu a segunda metade do século XIX, tendo acompanhado toda a evolução do Partido Republicano e a degradação da vida política, enredada num rotativismo partidário estiolado, e que entravava o progresso do país. A revolução republicana apanha-o já numa idade madura, com 52 anos, e é ele e Eusébio Leão que proclamam a República, da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa.
Integrou o governo provisório, sobraçando a pasta das Finanças, tendo sido, posteriormente, nomeado embaixador em Madrid, um cargo considerado estratégico, uma vez que era necessário obter exteriormente o reconhecimento do regime, junto das principais capitais europeias. Quando deixa Madrid, afasta-se da política, regressando novamente, em 1919, para chefiar um governo, que durou dois meses.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Figuras proeminentes do 5 de Outubro e da República (3)

Teófilo de Braga


Teófilo de Braga foi um intelectual de prestígio, cujo nome dignificava a República. Licenciado em Direito, leccionou Literatura no Curso Superior de Letras de Lisboa. Como escritor, deixou obras importantes sobre a história literária, filosofia e etnografia.
Não admira, pois, que tenha sido escolhido para presidir ao governo provisório, após a implantação da República. Mais tarde, em 1915, viria a ser eleito pelo Congresso, quase por unanimidade, como Presidente da República, para terminar o mandato de Manuel Arriaga, que pedira a demissão.
A sua militância vem desde 1878, quando os republicanos iniciaram o seu processo organizativo.

Basílio Teles



Basílio Teles foi, talvez, o político republicano mais radical. Depois de ter rejeitado o convite para integrar o governo provisório, como ministro da Finanças, para o desempenho do qual estaria mais vocacionado, atendendo ao seu percurso como investigador da área económica, (pretendia a pasta do Interior, onde a Carbonária o queria colocar), Basílio Teles, no quadro das dificuldades que a República atravessava, apresentou um plano político, que previa a pena de morte, a suspensão das garantias por tempo indeterminado e o encerramento das escolas, até se completar a respectiva reforma. Era um programa político suicida, ao arrepio dos mais mais nobres valores o espírito republicano.
No entanto, teve um percurso brilhante no Partido Republicano Português, fazendo parte dos seus directórios de 1897 a 1899, e do de 1909 a 1911.

Figuras proeminentes do 5 de Outubro e da República (2)

Machado Santos
Machado Santos, um jovem comissário naval, inveterado conspirador, esteve na maioria das acções da Carbonária, de que era membro. No movimento militar do 5 de Outubro, assumiu a sua coordenação operacional, o que lhe trouxe uma grande popularidade. Instalado na Rotunda, depois de ter mobilizado dois importantea quartéis de Lisboa, não se deixou abater no momento em que corriam rumores do fracasso do golpe militar. Foi considerado o Herói da Rotunda e o Pai da República.
Revelando alguma imaturidade política, e não se apercebendo da inevitabilidade das contradições inerentes a um qualquer processo revolucionário, depressa se desencantou com os dirigentes do Partido Republicano, regressando à acção conspirativa. E assim o vemos a participar nos movimentos insurreccionais de Abril de 1913, de Janeiro de 1914, no Movimento das Espadas de 1915, na Revolta de Tomar, de 1916 e no golpe de 1917, que colocou Sidónio Pais no poder.

Almirante Cândido dos Reis


Se o chefe civil da revolução republicana, Miguel Bombarda, não assistiu à sua vitória, o mesmo aconteceu ao seu chefe militar, o almirante Cândido dos Reis, que se suicidou num dos arrabaldes de Lisboa, julgando que o movimento tinha fracassado. Quando se soube no directório republicano que o chefe do governo monárquico, Teixeira de Sousa, tinha sido informado da iminência do golpe, muitos dirigentes republicanos abandonaram o projecto, aconselhando o seu adiamento, ao que o almirante se opôs. No entanto, já com o movimento revolucionário em marcha, a morte de Miguel Bombarda, interpretada como assassinato político, desmobilizou muitos oficiais do exército e muitas unidades militares. Cândido dos Reis julgou tudo perdido, e como era um indivíduo de temperamento hipocondríaco, entrou em profunda depressão e escolheu o suicídio.
Apesar de ter sido distinguido, durante a sua carreira militar, com as mais altas condecorações, o Almirante Cândido dos Reis, desde muito cedo, começou a participar na luta anti-monárquica, mais como activo conspirador do que como político propagandístico. Por isso, se inscreveu na Carbonária, o movimento revolucionário que punha em pânico as forças de segurança.
A República prestou-lhe a homenagem merecida, utilizando o seu nome como topónimo, na maior parte das cidades e das vilas do país.

Figuras proeminentes do 5 de Outubro e da República (1)

Militares e populares na Rotunda
Foi na Rotunda que se ganhou a revolução. No meio de ordens e contra-ordens, de informações e contra-informações, os oficiais do Exército - que se juntaram a Machado dos Santos, quando este, com militares e civis, assaltou, na noite de 4 de Outubro, os quartéis de Infantaria 16 e de Caçadores 5, dirigindo-se, depois, para a Rotunda, onde acamparam - julgando que o golpe tinha fracassado, aconselharam o abandono do local. Machado dos Santos ficou no local com os seus homens, impedindo assim a movimentação das forças fiéis à Monarquia, que se encontravam no Rossio, encurraladas entre dois fogos dos republicanos.

Miguel Bombarda
Médico ilustre, que desenvolveu a Psiquiatria portuguesa, actualizando-a em relação aos progressos científicos, ocorridos na Europa, abraçou a causa republicana, pugnando pelo registo civil obrigatório e pela expulsão das congregações religiosas. Inscreve-se no Partido Republicano Português, em 1909, e, em 1910, é eleito deputado republicano nas eleições de Agosto. Como membro do comité revolucionário para a implantação da República, é considerado o seu chefe civil. Já não assistiu ao triunfo da revolução, por ter sido assassinado, em 3 de Outubro, por um seu doente, um antigo tenente do Exército, que tinha estado internado no Hospital Psiquiátrico de Rilhafoles, de que Miguel Bombarda era director. O seu assassínio, levou os membros da Carbonária Portuguesa a acelerarem o início das operações.


Afonso Costa
Foi o grande estadista da República e o mais coerente dirigente do Partido Republicano Português, tendo sido o seu verdadeiro ícone. Nomeado ministro da Justiça e dos Cultos no governo provisório, saído da revolução trunfante, rapidamente deu pleno cumprimento a uma das mais queridas promessas dos republicanos, que fizeram do justificado anticlericalismo uma das suas bandeiras, na luta contra a monarquia. Afonso Costa foi o autor da Lei da Separação entre o Estado e a Igreja, medida que lhe acarretou todos os ódios do clero e dos monárquicos, que viam nele a figura de Satanás. Com a instituição do registo civil obrigatório, e a publicação da lei do divórcio, Afonso Costa retirou um enorme poder à toda poderosa igreja católica, que, numa íntima e pública aliança com o poder político, contribuia para o crónico atraso do país. Já na tese de doutoramento, na Universidade de Coimbra, "A Igreja e a questão social", Afonso Costa aborda a laicidade do Estado, ao mesmo tempo que desanca a encíclica, Rerum Novarum, de Leão XIII.
Foi presidente do ministério por três vezes, além de ter sido também, num dos governos, ministro das Finanças, tendo-se notabilizado por ter corrigido o défice orçamental do Estado.

António José de Almeida
Médico e escritor, iniciou a sua actividade, ainda como estudante da Universidade de Coimbra, tendo ficado célebre um seu artigo, publicado no jornal académico Ultimatum, intitulado, "Bragança, o último", que foi considerado insultuoso para o rei D. Carlos, tendo sido, por isso, condenado a três meses de prisão. Quem o defendeu em tribunal, foi o Dr. Manuel Arriaga, que viria a ser o primeiro Presidente da República eleito.
António José de Almeida foi deputado às Cortes, onde fez valer a sua grande capacidade oratória, que o tornaram muito popular. Nomeado ministro do Interior, no primeiro governo provisório, veio, mais tarde, a criar a primera dissidência do Partido Republicano Português, chefiado por Afonso Costa. À volta do jornal República, fundou, em 1912, o Partido Evolucionista, que agregou os sectores mais moderados no campo republicano, o que fragilizou o novo regime.
No meio da constante instabilidade política, António José de Almeida foi o primeiro Presidente da República a cumprir o mandato completo (1919-1923).



Basílio Teles e Eusébio Leão

Eusébio Leão formou-se em Medicina e tirou a especialidade de Urologia e participou activamente na propaganda republicana em torno da questão do Ultimatum britânico de 1890. Entrou para a Maçonaria, em 1893, e, em 1909, foi eleito secretário do Directório do Partido Republicano Português. Coube-lhe a incumbência de ler a proclamação da República, no dia 5 de Outubro, na varanda dos Paços do concelho de Lisboa.

Viva República!...

Quem não se orgulha do seu passado, não pode ter esperança no seu futuro. E isto é válido tanto para os indivíduos, considerados isoladamente, como para os povos e as nações. Recordar e comemorar a revolução republicana de 5 de Outubro é, pois, um dever cívico da sociedade portuguesa, que não pode alhear-se do espírito associado a esta importante data.
A República, ao dar um grande salto histórico, cortando as amarras do atavismo e do conservadorismo monárquico, marcou decisivamente todo o percurso do século XX e institucionalizou no país os nobres ideais da Revolução Francesa, que os revolucionãrios de 1820 já perseguiam, ao instalarem o primeiro regime constitucional em Portugal.
A germinação do ideário da República, inspirado no jacobinismo francês, foi lenta e difícil. Um país divorciado do progresso, pobre e ignorante, dominado por uma igreja reaccionária e de pensamento medieval, um país vilependiado por uma aristocracia estéril, a remoer a sua impotência imperial e que vivia isolado da Europa, onde fervilhavam todas as vontades de mudança, despoletadas pela Revolução Francesa, exigia um grande esforço e dedicação por parte daqueles portugueses honrados e esclarecidos, que sempre acreditaram na permeabilidade das fronteiras ao avanço das ideias generosas e libertadoras.
Quando José Relvas, no dia 5 de Outubro de 1910, hasteou a bandeira verde-rubra da República, na varanda dos Paços do Concelho, em Lisboa, estava a selar a vitória dos combatentes da Rotunda e a homenagear também todos os republicanos que, ao longo dos últimos noventa anos anteriores, combateram pelo seu ideal.
Nesse dia, nasceu um novo país, que haveria de voltar a renascer, no dia 25 de Abril de 1974.