Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

sábado, 19 de janeiro de 2019

A Revolta da Marinha Grande em 1934


A 18 de Janeiro de 1934, a Marinha Grande acordou com um levantamento operário vidreiro contra a fascização dos sindicatos enquadrada pelo Estatuto Nacional do Trabalho. Os revoltosos conseguiram tomar o poder por algumas horas, mas a repressão de Salazar acabaria por esmagar a revolta e enclausurar os revoltosos nos cárceres do fascismo, onde alguns jaziram. Em 29 de Outubro desse ano, 57 marinhenses que participaram no 18 de Janeiro inauguraram o Campo do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde
Jornal AbrilAbril 

***«»***
Estes homens foram os “Heróis” de um tempo em que a fome não era uma metáfora.
Alexandre de Castro
2019 01 19

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Curiosidades sobre o Aqueduto das Aguas Livres (*)


Curiosidades sobre o Aqueduto das Aguas Livres

Geometria Divina, símbolos misteriosos, lendas, homicídios em série. Obras de engenharia notáveis e conflitos memoráveis entre os maiores arquitetos do século XVIII. O Aqueduto das Águas Livres - em todos os seus 58 quilómetros de troços,
de Belas às Amoreiras - é um monumento "ao melhor e ao pior" dos homens.

O troço mais conhecido, sobre o vale de Alcântara, tem o maior arco em ogiva de pedra do mundo!
Caminhamos sobre o vale de Alcântara, num dia de calor tórrido, mas a sombra do gigante de pedra protege-nos. A marcha é lenta porque, a cada passo, a nossa "guia" tem uma história para contar. O Bairro da Serafina homenageia "uma estalajadeira, com talento para a cozinha", que alimentou sucessivas gerações de mestres e operários da obra do aqueduto. A ogiva central "é a maior do mundo - estamos no Guiness Book por causa disso - mas conta a lenda que é fechada unicamente por três pedras, que só um som pode apartar".

Margarida Ruas não sabe que som é esse. Provavelmente será das poucas questões sobre o Aqueduto das Águas Livres para as quais não tem resposta. E se a tivesse guardaria o segredo até ao fim dos seus dias. Especialista em comunicação política, criadora do extinto Contra Informação, da RTP, foi durante muitos anos diretora do Museu da Água, da EPAL. E deve-se a ela o facto de os lisboetas poderem voltar a percorrer aquele caminho público, outrora maldito, devido à memória de um assassino cruel…

Em 1996, quando a empresa a nomeou diretora de comunicação, com o pelouro do museu, o único espaço visitável em todo o complexo das Águas Livres era a Estação Elevatória dos Barbadinhos. Numa semana, abriu ao público um novo museu polinuclear, integrando a passagem de Alcântara, a Mãe de Água das Amoreiras e o Reservatório da Patriarcal, no Príncipe Real.

Já não tem responsabilidades diretas no museu. Mas continua a defender o monumento pelo qual um dia se apaixonou "perdidamente". Em 2004, os Guardiães do Aqueduto, um grupo que lidera, conseguiram travar um projeto que previa a demolição de um troço de dois quilómetros, perto de Belas, para dar lugar a um acesso à CRIL e a um shopping. Hoje, é a porta-voz de um movimento internacional que quer fazer daquele monumento - em todos os seus 58 quilómetros de canais - Património da Humanidade reconhecido pela UNESCO. "É obrigação nossa, dos portugueses, deixá-lo para a humanidade, tal como foi deixado por todos aqueles fantásticos mestres e pedreiros, e por todas as vidas que se perderam na construção."

A nascente de Belas, onde tem início o percurso de
58 km de canais do aqueduto, numa imagem
do arquiteto e músico Emanuel Pimenta

O sonho de fazer chegar as "águas livres"a Lisboa - cidade banhada por um rio cuja água é salobra desde Santarém - começou no último quarto do século XVII, ditando a criação do real da água - uma espécie de imposto sobre o valor acrescentado aplicado a produtos como o vinho, a carne e o azeite - para financiar o projeto. Mas só em 1731, com o alvará régio de D. João V, foram criadas as condições.

O projeto foi entregue a um trio de notáveis: o italiano Antonio Canevarique, por essa altura, concluia a construção da Torre da Universidade de Coimbra; o coronel Manuel da Maia que, anos mais tarde, seria decisivo na reconstrução da Baixa lisboeta após o terramoto de 1755; e o alemãoJohann Friedrich Ludwig, ligado a obras como o Convento de Mafra.

Canevari era o mestre entre os mestres. Mas perdeu o estatuto ao fim de um ano. A sua conceção de uma estrutura hidráulica acionada por sifões para bombear a água até Lisboa era demasiado mundana para as aspirações do rei, que governou num dos períodos mais ricos da história de Portugal, graças ao ouro do Brasil. D. João V queria uma obra que perdurasse. E em retrospetiva tinha razão porque, do muito que mandou construir, o aqueduto foi das poucas edificações a escapar ao sismo de 1755.
O mestre português convenceu o rei com o mais monumental sistema de desnível, que viria a vingar, mas revelou-se ineficaz na execução: "Manuel da Maia tinha o problema de querer abrir demasiadas frentes de obra ao mesmo tempo, não conseguindo dar andamento a nenhuma."

Obra foi pensada para fazer refletir o mundo exterior na água, através de janelas.

Obra foi pensada para fazer refletir o mundo exterior na água, através de janelas.
Em 1736 avançou o engenheiro militar Custódio Vieira: "Era uma figura notável e um dos nomes mais importantes da história do aqueduto. Inventou uma estrutura para conseguir transportar os carrilhões [sinos do Convento] de Mafra. E foi graças a essa estrutura que se conseguiram erguer também estas colunas". Como o fez, não se sabe ao certo, porque os planos da maravilha da engenharia viriam a desaparecer, em 1755, entre os escombros do Paço da Ribeira, onde se guardava boa parte dos documentos mais importantes da capital.

Custódio Vieira ainda concluiu o Arco Grande, em 1744, mas morreu nesse mesmo ano, já não assistindo à inauguração do Aqueduto , em 1748. Seriam necessárias várias décadas ainda, até que, às portas do XIX, a obra cumprisse em pleno a missão de abastecer Lisboa, que depois manteve até ao fim da sua "vida funcional", em 1964.
"A história do aqueduto consubstancia o melhor e o pior de nós portugueses", diz Margarida Ruas. "O melhor porque é uma obra notável, feita - tal como afirmavam-, dando o melhor de nós para chegar a Deus, para construir a beleza máxima e a pureza máxima. O pior porque, na realidade, as lutas internas foram tão grandes, entre os mestres, entre os donos da obra, que acabou por ser solucionada passados quase cem anos com a intervenção do patriarcado."

Faz sentido que, a determinada altura, "um padre tenha também sido o coordenador da obra". É que, explica, o aqueduto está entre alguns monumentos do mundo, "tal como as pirâmides de Gizé, no Egito, tal como Notre Dame, em Paris", construídos de acordo com a geometria sagrada: a crença de que a geometria e a matemática estão intimamente ligadas a toda a realidade que nos rodeia. "Na geometria sagrada partimos do caos para a ordem. E para isso foi preciso dividir por números, os chamados números-ideia". O homem é "o agente integrador". E no caso do aqueduto, "único no mundo", essa integração "dá-se através de uma dimensão imaterial. Quando passeamos nas nascentes, com a água de um lado e do outro, as janelas refletem todo o mundo exterior".

Margarida Ruas reabriu o Aqueduto aos lisboetas e é uma das suas “guardiãs”

A dimensão mística desta obra de homens imperfeitos não deixa ninguém indiferente. O luso-brasileiro Emanuel Dimas Pimenta,especialista em arquitetura espacial e membro do comité técnico desta área no Comité Norte-Americano de Astronáutica e Aeronáutica, não se considera "nada esotérico". Mas recentemente publicou o ensaio: O Mistério das Águas Livres - O mágico aqueduto de Lisboa. "O aqueduto foi construído num período em que estavam em voga os universos esotéricos, como o universo Rosacruz. E historicamente ilustra um período do pensamento europeu de que poucas pessoas se dão conta", explica ao DN.

As próprias pedras do monumento remetem-nos para um universo misterioso. Várias têm símbolos que facilmente associamos à maçonaria, a ordem dos pedreiros livres. José Medeiros, historiador e presidente da Academia dos Saberes, esclarece que a maioria deles não eram mais do que "marcas de obra deixadas aos pedreiros pelos canteiros, que trabalhavam a pedra, algumas das quais acabaram por ser incorporadas pela maçonaria especulativa, ganhando significados completamente diferentes". Mas há também "símbolos especiais, de consagração, como o círculo com a cruz no meio e os três planos com a cruz em cima".

"O pancadas", o sociopata que matou dezenas por uma moeda Diogo Alves, mais conhecido pela alcunha de "O Pancadas", ficou para a história como um dos piores sociopatas portugueses. Roubava mulheres no passeio público do Aqueduto, em Alcântara e, "por uma moeda", lançava dezenas de vítimas para a morte.

O processo de Diogo Alves está em exposição na Torre do Tombo

"Era um assassino em série. Era um homem de dupla personalidade. Durante o dia era boieiro e, ao que parece, de um profissionalismo extremo, e à noite transformava-se no pior dos assassinos", conta Margarida Ruas.

O modus operandi do homicida era sempre o mesmo: esperava pela passagem das lavadeiras de Caneças, "que vinham ou buscar ou entregar as roupas aos aristocratas em Lisboa", roubava-as e lançava-as do viaduto abaixo.

Inicialmente, as mortes chegaram a ser atribuídas a uma estranha vaga de suicídios. Mas quando as vítimas começaram a totalizar várias dezenas as autoridades perceberam que estavam a lidar com um homicida em série e o caminho público sobre o aqueduto foi interdito.

Diogo Alves nunca chegou a ser apanhado por estes crimes. Viria a ser detido, sim, pela morte da família de um médico, na Rua das Flores, durante um assalto conduzido por ele e por vários membros do seu gangue. Foi por este último crime que acabou por ser condenado e executado, em 1841. O processo que conduziu à sua condenação está atualmente em exposição na Torre do Tombo, em Lisboa.

Há uma lenda urbana que o identifica como o último condenado à morte em Portugal. Na realidade, esta pena foi abolida mais de uma década depois, em 1852, por D. Maria - mas apenas para crimes políticos - só sendo abolida para crimes civis em 1867, já no reinado de D. Luís. Vários homens foram ainda condenados e executados depois do "Pancadas". Mas o seu lugar na história ficou ainda assim assegurado, pelos piores motivos.

Aliás, por ironia do destino, entre centenas de figuras históricas ligadas ao aqueduto, Diogo Alves é mesmo a única cujo rosto podemos ainda contemplar. A sua cabeça foi decepada após a execução, a fim de ser estudada pela comunidade científica, e continua ainda conservada em formol no teatro Anatómico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Galego de nascença, "O Pancadas" - pela gravidade dos seus crimes - acabaria por contribuir para uma animosidade, que durou décadas, contra os imigrantes da Galiza, que não só eram os aguadeiros de Lisboa - antes do aqueduto - como foram os primeiros bombeiros da cidade.

(*) Amabilidade de Lara  Raquel Caldeira Ferraz

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O "Fogo do Céu" de 1593, na ilha da Madeira


1593 - 26 de Julho. «Deu-se nesta ilha um fenómeno de incandescência atmosférica, que nas cronicas madeirenses ficou conhecido pelo nome de Fogo do Céu. Nos dias 24 e 25 do mês e ano referidos soprara violentamente o conhecido ‘vento leste’ acompanhado de tão intenso calor, que, no dizer duma testemunha coeva do acontecimento, ‘não havia pessoa viva que sahisse de casa nem abrisse janela, nem se podia sofrer dentro das casas, nem se podia nestas estar por ser o ar tão quente que tudo era cuidarem que pereciam e o vento era tal que parecia queimava os ossos, cousa que jamais os homens viram nestas partes’.Tornou-se cada vez mais intenso o calor e pelo começo da noite no dia 26 era já bem visível o raro mas conhecido fenómeno de incandescência atmosférica, que pelas 11 horas se transformou num pavoroso incêndio, queimando toda a vegetação e reduzindo a um enorme braseiro um numero considerável de habitações»,
Elucidário Madeirense

***«»***
Esta incandescência atmosférica, que o povo madeirense adoptou com a designação “Fogo do Céu”, teve causas meteorológicas, e provocou a total destruição do manto vegetal da ilha. O calor era de tal maneira intenso, que os madeirenses da orla marítima passaram a noite, mergulhados nas águas da beira-mar.    

domingo, 27 de março de 2016

A histórica cidade síria de Palmira regressa ao seio da civilização

Ruínas de Palmira

O dia de hoje não poderia ter trazido melhor notícia: a histórica cidade de Palmira foi reconquistada aos vândalos do Estado Islâmico, pelo exército sírio, que contou com a preciosa ajuda da aviação da Rússia, a única potência estrangeira, envolvida naquela guerra, que está verdadeiramente interessada em combater o terrorismo islâmico na região (as outras potências apenas vão fazendo umas cócegas, até porque foram elas, em colaboração com a Arábia Saudita, a fonte inspiradora e financiadora daquela organização criminosa).
Aquelas ruínas históricas do mundo antigo e do mundo romano, que os vândalos chegaram a danificar, regressam assim ao mundo da civilização.
Por outro lado, em termos militares, a Síria ganhou uma nova supremacia estratégica sobre o invasor, já que, a partir da cidade de Palmira, situada num oásis, consegue controlar um vasto território, um deserto, que se estende até à fronteira com o Iraque.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Arqueólogos desenterraram três antigos mosaicos gregos numa escavação em Zeugma, na Turquia


Mosaico representando as nove musas em retratos

Mosaico representando Océsno Tetis

Mosaico representando um jovem, sem nenhuma informação
Ver texto aqui.

***«»***

A rota da seda

Aquela milenar rota da seda não deixa de nos surpreender com as sucessivas revelações dos seus tesouros arqueológicos, que são imensos, e com muitos ainda por desvendar. Não admira que assim seja. Foi por aquela rota que, até ao século XVI, quando os portugueses "abriram" o caminho marítimo para o Oriente, que a economia euro-asiática circulava. A rota da seda era o veio da transação de mercadorias entre um Oriente opulento e um Ocidente em franco e rápido desenvolvimento civilizacional, e que teve a sua máxima expressão com o império de Alexandre Magno e o império de Roma. Foram as repúblicas do norte de Itália, com a Sereníssima República de Veneza à cabeça, já na ponta final da Idade Média europeia (sec. XV), as últimas beneficiárias do comércio dessa rota. Esse monopólio (o comércio com o Oriente) transferiu-se para Lisboa, que por sua vez o transferiu para o norte da Europa. Por isso, a liderança do mundo, nesse tempo, passou para Portugal, de uma forma efémera, para a Holanda e para a Inglaterra, de uma forma mais persistente, e para a Espanha, que expandiu o seu domínio para as Américas e que "ergueu", no ponto de vista territorial, o maior império de todos os tempos. Dizia-se que no império de Carlos V - que ia da Europa à Ásia (Filipinas) e passava pelas Américas - "o Sol nunca se punha".
Como podemos ver, nesta visão alargada do tempo histórico, as coisas não são imutáveis. Tal como as pessoas, os impérios nascem, crescem, mas acabam por morrer, facto que não é percetível no curto tempo de uma, duas ou três gerações. E no tempo atual, já há sinais evidentes de uma nova mudança do sentido da História, com o centro da liderança a passar para a Ásia, onde a História, na verdade, começou. A Europa entrou em declínio. Apenas resta saber se esse declínio irá ser mais rápido ou mais lento. Mas nenhum de nós o irá testemunhar.
AC

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A propósito do Testamento Político de D. Luís da Cunha

D. Luís da Cunha
(Busto em mármore deJan Baptist Xavery)
***
O testamento político de D. Luís da Cunha é um dos textos políticos doutrinários mais importantes da História de Portugal. Nele, o aristocrata e diplomata, o homem culto e com uma clara visão estratégica, define a nova concepção do poder político para Portugal, importando e adaptando sabiamente as ideias que já estavam a ser implementadas na Europa no século XVIII: um poder autoritário, centrado na figura do monarca, mas que, ao assumir-se como agente conciliador dos interesses contraditórios das várias classes sociais, promovesse o avanço económico, fomentasse a formação de elites esclarecidas e melhorasse o bem-estar geral da população (de acordo com o contexto dominante e a escala de valores da época).
Foi neste caldo político e cultural da Europa de setecentos que ocorreu o advento da primeira revolução industrial e se fomentou o aparecimento de novas concepções do comércio nacional e internacional (a globalização daquele tempo). Foi também durante a época do Iluminismo que começaram a surgir, com os enciclopedistas, as novas ideias liberais, abrindo-se assim o caminho para a grande Revolução Francesa.
D. Luís da Cunha, ao propôr o nome do futuro Marquês do Pombal ao príncipe herdeiro, D. José, para ministro do Reino, e aconselhando uma investidura com ampla delegação de poderes, estava a sugerir a assumpção da figura do “déspota esclarecido”, que, com a razão da Luzes e uma vontade política assente numa férrea autoridade, conduzisse o atrasado e empobrecido Reino pela senda do progresso. E Pombal desempenhou bem esse papel, apesar de ter recorrido a métodos brutais para impor a sua vontade. Mas, com a morte do Rei e com a subida ao trono da beata D. Maria I, o clero e a nobreza – portadores de um atavismo secular, de que ainda hoje sobram resquícios na sociedade portuguesa, impenitentemente avessos ao progresso económico e social, curtos de vista e de inteligência, e avaramente instaladas no cómodo e favorável sistema de rendas, que extorquiam às classes laboriosas – depressa derrubaram Sebastião José de Mello, humilhando-o publicamente, através da sua grotesca exposição aos insultos de uma populaça enfurecida, devidamente açulada dos púlpitos, para o efeito, e acabando por o desterrar para as suas terras de Pombal, onde viria a falecer.
Portugal regrediu novamente, afundando-se no seu endémico e secular marasmo e ostracismo.
O importante texto de D. Luís da Cunha também permite compreender a história política, económica e diplomática do século XVIII, a do Reino e a da Europa. É um documento longo, que se aconselha a ler faseadamente, para, ao mesmo tempo, se poder saborear o magnífico manejo da língua portuguesa por parte do autor, digno herdeiro de Vieira, na elegância e rigor das frases, na lógica discursiva e na profundidade e amplitude das ideias expressas.
Como diplomata, registe-se a sua astúcia e determinação, bem ilustrada no episódio em que o cardeal-ministro Alberoni, de Espanha, lhe voltou ostensivamente as costas durante uma audiência. D. Luís da Cunha não desarmou. Avaliando a fragilidade do governo de Madrid, a braços com um uma guerra com a França, exigiu vigorosamente públicas desculpas pela ofensa feita, na sua pessoa, ao governo de Portugal, e ameaçou com o corte de relações diplomáricas, o que logo foi entendido, pelos espanhóis, como uma ameaça velada ao estabelecimento de uma aliança de Portugal com a inimiga França. D. Luís da Cunha acabou por obter a rectificação do incidente, assim vergando a espinha do cardeal-ministro e domesticando a arrogância da orgulhosa Espanha.
Verney, Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e o Marquês do Pombal foram, em Portugal, as figuras marcantes do século das Luzes, figuras estas que, depois, tiveram o seu contrapeso, já no final do século, no sinistro Pina Manique, o célebre Intendente-Geral, que via pedreiros-livres por baixo de todas as pedras das calçadas.
Ocorreu-me esta ideia, a de ressuscitar o documento de D. Luís da Cunha (documento e personalidade, ambos mal conhecidos pela opinião pública) e de tecer breves considerações sobre o Portugal do século XVIII, no momento em que decorre a farsa televisiva da eleição do melhor português de sempre, e onde se assistiu à glorificação de mafiosos célebres, futebolistas e fadistas analfabetos e antigos governantes bolorentos e de má memória e ignorar muitas personalidades ilustres que dignificaram o País.
Eu, por mim, votei no Zé do Telhado, lendário salteador de Entre-Douro e Minho, cuja imagem melhor retrata este país. Para mais, este bandoleiro simpático tinha por hábito redistribuir uma parte do pecúlio dos seus saques pela gente pobre e necessitada. Também Camilo Castelo-Branco, que o conheceu, e sobre ele escreveu, não foi insensível à sua aura.

Alexandre de Castro
Fevereiro de 2007
***
Nos próximos dias, serão publicadas, em separado. as três partes que compõem o "Testamento Político de D. Luís da Cunha".

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Dieta mediterrânica: "Mais do que um padrão alimentar, é um modelo cultural"


O autor da obra "Dieta Mediterrânica -- Uma herança milenar para a humanidade", que é apresentada na quinta-feira, em Lisboa, defende que este regime alimentar é "mais do que um padrão alimentar, é um modelo cultural de inestimável valor".

***«»***
Um livro a não perder. Pelo perfil académico do autor e pelas declarações já proferidas, estamos perante uma obra importante, que aborda de uma forma sistemática a identidade mediterrânica - que nos envolve - num contexto sociológico, histórico e cultural, a partir da base da "alimentação", o que é uma originalidade. 
Esta mesma identidade mediterrânica já foi abordada, sob outros prismas, por outros historiadores e sociólogos, que lhe traçaram o perfil e o longo percurso evolutivo. 
Podemos até falar de uma civilização mediterrânica, que se desenvolveu desde há 36 séculos. Se olharmos para o passado, reconhecemos que o mar mediterrâneo foi o centro da evolução da História, uma História exaltante, feita de grandezas e de misérias, que começou a ser construída, ainda na sua forma incipiente, pelos Fenícios, nos finais do século XVI A.C. Coube aos Romanos estabelecer a unidade política e administrativa de toda a bacia do Mare Nostrum, feito que nunca mais foi conseguido. Mas ficou como herança a cultura dos povos, com as suas semelhanças e as suas diferenças, e que é urgente e necessário preservar, sem renunciar à modernidade e às conveniências dos novos tempos.

sábado, 1 de novembro de 2014

A tortura na Idade Média



As 10 técnicas de tortura mais assustadoras da Idade Média

Métodos terríveis marcaram o período conhecido como "Idade das Trevas"

1 – Empalamento
 
EMPALAMENTO: UMA DAS TÉCNICAS
MAIS TERRÍVEIS DA IDADE MÉDIA 

Uma das mais conhecidas técnicas de tortura é a do empalamento. Durante a Idade Média, inimigos tinham seus corpos atravessados por enormes estacas. Normalmente, o processo começava pelo ânus e seguia até a boca. E o mais assustador: a vítima poderia levar até três dias para morrer.
O personagem que ficou mais conhecido pela técnica foi Vlad III, o Empalador (o sujeito que inspirou Drácula). O tirano costumava apreciar uma refeição enquanto observava as estacas atravessando os orifícios de seus inimigos. Estima-se que Vlad tenha matado de 20 a 300 mil pessoas dessa maneira.

2 – Berço de Judas
 
BRUTAL ARTEFATO UTILIZADO NA IDADE MÉDIA

Chamado de Berço ou Cadeira de Judas, essa técnica pode ser considerada uma “prima distante” da empalação. Com um pouco mais de sadismo, as vítimas eram obrigadas a sentar em pirâmides de madeiras lentamente até a morte. Presas por cordas, elas tinham seus orifícios anais ou vaginais “esticados” pelo tronco pontudo de madeira durante dias.
A intenção do efeito era empalar lentamente. Para isso, algumas delas recebiam pesos nas pernas a fim de aumentar a dor e a velocidade. E fora a humilhação, o Berço de Judas dificilmente era higienizado, assim podendo gerar infecções dolorosíssimas.

3 – O Caixão da Tortura
 
EXPOSTOS EM PRAÇA PÚBLICA EM UM CAIXÃO DE FERRO 

Usado como sentença para crimes como blasfêmia e roubo, o Caixão da Tortura funcionava assim: as pessoas julgadas eram obrigadas a ficar dentro da “cela móvel” durante dias até a morte. Extremamente apertadas, as gaiolas eram penduradas em praça pública para que sofressem exposição ao sol e também para que animais pudessem se alimentar do ser humano, enquanto vivo.

4 – O Balcão da Tortura
 
O BALCÃO DA TORTURA FOI CONSIDERADO O MAIS DOLOROSO
INSTRUMENTO DE TORTURA DO PERÍODO 

Consistindo em uma mesa de madeira com cordas fixadas nas áreas superiores e inferiores, o Balcão da Tortura chegou a ser considerado o mais doloroso método de toda cultura medieval.
As cordas se prendiam aos pés e mãos da vítima em uma ponta e a roldanas em outra. Ao torturador, bastava girar as maçanetas para que os membros dos torturados se esticassem em pura agonia. Muitas vezes, os membros chegavam a ser arrancados pelo dispositivo.
No final da Idade Média, a mesa ganhou uma variante: com espinhos de ferro que penetravam nas costas da vítima. Tudo isso para que confessassem seus crimes.

5 – O Estripador de Seios

EXPERIÊNCIA BRUTAL: O ESTRIPADOR DE SEIOS

Esse terrível aparato costumava ser utilizado para punir mulheres acusadas de realizar bruxaria, aborto ou adultério. As garras – aquecidas por brasas ou em temperatura comum – do aparelho eram usadas para arrancar os seios dessas mulheres.
O artefato também ganhou uma variante, chamada de ‘The Spider’. Exatamente como o outro instrumento, mas com as garras acopladas a uma parede. Isso fazia com que o torturador pudesse puxar as mulheres até que o estripador ficasse com os seios pendurados. Muitas morriam de hemorragia ou de infecção.

6 – Pera da Angústia
 
PERA DE METAL REALIZADA PARA TRAZER
MUITA DOR ÀS VÍTIMAS

Esse brutal equipamento era utilizado para iniciar a punição de mulheres, mentirosos, e homossexuais. O aparelho em formato de pera era inserido nas vaginas femininas, no ânus dos homossexuais e na boca dos blasfemadores.
Para que as quatro folhas de metal se abrissem, bastava à vítima “entortar” um parafuso. A pera era capaz de arrancar a pele com sua expansão e mutilar os orifícios das pessoas que a recebiam. O método era conhecido por apenas “abrir” a sequência de torturas.

7 – A Roda da Tortura
 
RODA DA TORTURA FAZIA COM QUE PESSOAS TIVESSEM
SEUS MEMBROS QUEBRADOS EM PRAÇA PÚBLICA 

Conhecido por sempre matar a vítima de forma bem lenta, essa era a Roda da Tortura. Com os membros presos em uma roda de madeira, as pessoas viam seus braços e pernas serem atingidos pelos torturadores com grandes martelos de metal. Depois disso, eram pendurados – ainda na roda – em praça pública, para que animais se alimentassem das vítimas vivas.

8 – Serra para cortar ao meio
 
PESSOAS ERAM SERRADAS AO MEIO
NA IDADE MÉDIA

Por serras serem muito comuns na Idade Média, a técnica de tortura foi muito utilizada para matar pessoas acusadas de bruxaria, adultério, assassinato e blasfêmia. Além disso, era costumeiramente usada para ameaçar os acusados, colocando seus familiares nos dentes afiados da serra.
Como funcionava: dois torturadores amarravam as pessoas de cabeça para baixo a fim de deixar todo o sangue fluir; depois disso, pegavam uma serra e atravessavam as vítimas começando pelo meio das pernas. A tortura costumava levar horas.

9 – O Esmaga Cabeças
 
O ESMAGA CABEÇAS, MAIS UM ARTEFATO
EXTREMAMENTE BRUTAL

Altamente utilizado durante a Inquisição Espanhola, o Esmaga Cabeças – como ficou conhecido – era capaz de causar dores e danos irreparáveis. O instrumento consistia em um capacete ligado à uma barra onde se apoiava o queixo da vítima. Depois disso, o parafuso apertava o capacete comprimindo a cabeça da vítima.
Com isso, os torturadores conseguiam destruir as arcadas dentárias e as mandíbulas. E caso a tortura não parasse, os globos oculares saltavam dos olhos e o cérebro saía despedaçado pelo crânio.

10 – Tortura do Garrote

 TORTURA DO GARROTE MATOU MUITAS PESSOAS
NA INQU
ISIÇÃO ESPANHOLA

Também muito usado na Espanha, o “garrote espanhol” servia para provocar uma morte lenta nas vítimas. Como o torturador possuía controle da corda amarrada no pescoço da pessoa, aos poucos ela ia sendo apertada para que as vítimas morressem asfixiadas.
A técnica foi utilizada durante a Inquisição com o objetivo de conseguir confissões dos acusados. O dispositivo esteve presente no país espanhol até 1975.
GALILEU

***«»***
Na Idade Média, a inovação tecnológica dos processos da tortura ultrapassou os que estavam ligados à economia, e os tecnocratas da Santa Inquisição, em nome da Fé, assumiram a liderança inventiva de prolongar a agonia dos condenados com o maior sofrimento possível. Foi um verdadeiro horror!..
A selvajaria e a barbárie caíram na Terra, de escantilhão, vindas do Céu.


domingo, 15 de junho de 2014

“Acusações de Kruschev contra Stálin são falsas”, afirma o historiador Grover Furr


A Verdade entrevistou Grover Furr, professor da Universidade de Montclair, no Estado de Nova Jersey, EUA, e autor do livroAntistalinskaia Podlost (“A infâmia antistalinista”), lançado recentemente em Moscou, na Rússia. Grover Furr é ph.D. em literatura comparada (medieval) pela Universidade de Princeton, e, desde 1970, ensina na Universidade de Montclair, sendo responsável pelos cursos de Guerra do Vietnã e Literatura de Protesto Social, entre outros. Suas principais áreas de pesquisa são o marxismo, a história da URSS e do movimento comunista internacional e os movimentos políticos e sociais. Nesta entrevista, o professor Grover fala de sua pesquisa e afirma que “60 de 61 acusações que  o primeiro-ministro Nikita Kruschev fez contra Stálin são comprovadamente falsas”.

A Verdade – Recentemente, um grande número de livros tem sido publicado atacando a pessoa e a obra de Josef Stálin. Como o senhor explica a intensificação desse antistalinismo nos EUA e no mundo?

Grover Furr – Desde o fim da década de 1920, Stálin tem sido o maior alvo do anticomunismo ideológico e acadêmico. Leon Trótsky atacava Stálin para justificar sua própria incapacidade de ganhar as massas trabalhadoras da União Soviética [URSS]. A verdadeira causa da derrota de Trótsky é que sua interpretação do marxismo – um tipo de determinismo econômico extremado – predizia que a revolução estava fadada ao fracasso a não ser que fosse seguida por outras revoluções nos países industrialmente avançados. Mas a liderança do Partido preferiu o plano de Stálin para primeiro construir o socialismo em um só país. As ideias de Trótsky tiveram (e ainda têm) uma grande influência sobre todos aqueles declaradamente capitalistas e anticomunistas. Os historiadores trotskistas são muito bem acolhidos pelos historiadores capitalistas. Pierre Broué e Vadim Rogovin, os mais proeminentes historiadores trotskistas das últimas décadas, já foram louvados e ainda são frequentemente citados por historiadores abertamente reacionários. Muitos na liderança do Partido em 1930 combateram Stálin quando este lutava por democracia interna no Partido e, especialmente, por eleições democráticas para os sovietes. As grandes conspirações da década de 1930 revelaram a existência de uma ampla corrente de oposição às políticas associadas a Stálin. Essas conspirações de fato existiam: os oposicionistas realmente estavam tentando derrubar o partido soviético e assassinar a liderança do governo, ou tomar o poder liderando uma revolta na retaguarda, em colaboração com os alemães e os japoneses. Nikolai Ezhov, líder da NKVD (o Comissariado do Povo para Assuntos Internos), tinha sua própria conspiração direitista, incluindo colaboração com o Eixo. Visando aos seus próprios fins; ele executou centenas de milhares de cidadãos soviéticos completamente inocentes para minar a confiança e a lealdade ao governo soviético. Quando Stálin morreu, Kruschev e muitos líderes do Partido viram que poderiam jogar a culpa por essas grandes repressões em cima de Stálin. Eles também inventaram muitas outras mentiras escancaradas sobre Stálin, Lavrentii Béria e pessoas próximas aos dois. Quando, bem mais tarde (1985), [Mikhail] Gorbachev assumiu o poder, ele também percebeu que as suas “reformas” capitalistas – o distanciamento do socialismo em direção a relações capitalistas de mercado– poderiam ser justificadas se sua campanha anticomunista fosse descrita como uma tentativa de “corrigir os crimes de Stálin”. Essas mentiras e histórias de horror permanecem como a principal forma de propaganda anticomunista, hoje, no mundo. A tendência é que elas se intensifiquem, pois os capitalistas estão diminuindo os salários e retirando benefícios sociais dos trabalhadores, caminhando em direção a um exacerbado nacionalismo, ao racismo e à guerra.

A Verdade – O que o levou a se interessar pela história da URSS?

Grover Furr – Quando estava na faculdade, de 1965 a 1969, eu fazia protestos contra a guerra dos EUA no Vietnã. Um dia, alguém me disse que os comunistas vietnamitas não poderiam ser “caras legais” porque eram todos “stalinistas”, e “Stálin tinha matado milhões de pessoas inocentes”. Isso ficou na minha cabeça. Foi provavelmente por isso que, no início da década de 1970, li a primeira edição do livro O grande terror, de Robert Conquest. Fiquei impressionado quando o li! Mas eu já tinha um certo domínio do russo e podia ler neste idioma, pois já vinha estudando literatura russa desde o ensino médio. Então examinei o livro de Robert Conquest com muito cuidado. Aparentemente ninguém ainda havia feito isso! Descobri, então. que Conquest fora desonesto no uso de suas fontes. Suas notas de rodapé não davam suporte a nenhuma de suas conclusões “anti-Stálin”. Ele basicamente fez uso de qualquer fonte que fosse hostil a Stálin, independentemente de se era confiável ou não. Decidi, então, escrever alguma coisa sobre o “grande terror”. Demorou um longo tempo, mas finalmente foi publicado em 1988. Durante este tempo estudei as pesquisas que estavam sendo feitas por novos historiadores da URSS, entre os quais Arch Getty, Robert Thurston e vários outros.

A Verdade – Seu livro Antistalinskaia Podlost (“A infâmia anti-stalinista”) foi recentemente publicado em Moscou. Conte um pouco sobre ele.

Grover Furr – Há aproximadamente uma década fiquei sabendo da grande quantidade de documentos que estavam sendo revelados dos antigos arquivos secretos soviéticos, e comecei a estudá-los. Li em algum lugar que uma ou duas das declarações de Kruschev em sua famosa “fala secreta”, de 1956, foram identificadas como falsas do início ao fim. Daí, pensei que poderia fazer algumas pesquisas e escrever um artigo apontando alguns outros erros de seu pronunciamento da “sessão secreta”. Nunca esperei descobrir que tudo o que Kruschev disse – 60 de 61 acusações que ele fez contra Stálin e Béria – eram comprovadamente falsas (não pude encontrar nada que comprovasse a 61ª)! Percebi que este fato mudava tudo, uma vez que praticamente toda a “história” anticomunista desde 1956 se baseia ou em Kruschev ou em escritores de sua época. Verifiquei que a história soviética do período de Stálin que todos aprendemos era completamente falsa. Não apenas “um erro aqui e outro ali”, mas fundamentalmente uma fraude gigantesca, a maior fraude histórica do século! E meus agradecimentos ao colega de Moscou Vladimir L. Bobrov, que foi o primeiro a me mostrar esses documentos, me deu inestimáveis conselhos, várias vezes, e fez um excelente trabalho de tradução de todo o livro. Sem o dedicado trabalho de Vladimir, nada disso teria acontecido.

A Verdade – Em suas pesquisas o senhor teve acesso direto a arquivos soviéticos abertos recentemente.  O que esses documentos revelam sobre os “milhões de mortos” sob o socialismo, especificamente no período de Stálin?

Grover Furr – Considerando que pessoas morrem a todo instante, eu suponho que você esteja falando de mortes “excedentes”. A Rússia e a Ucrânia sempre experimentaram fomes a cada três, quatro anos. A fome de 1932-33 ocorreu durante a coletivização. Sem dúvida, que um número maior de pessoas morreu do que teria morrido naturalmente. No entanto, muito mais pessoas iriam morrer em sucessivas fomes – a cada três, quatro anos, indefinidamente, no futuro – se não fosse feita a coletivização. A coletivização significou que a fome de 1932-33 foi a última, com exceção da grave fome de 1946-1947, que foi muito pior, mas isso devido à guerra. E, como mencionei anteriormente, Nikolai Ezhov deliberadamente matou milhares de pessoas inocentes. É interessante considerar o que poderia ter sucedido se a URSS não houvesse coletivizado a agricultura e não tivesse acelerado seu programa de industrialização, e se as conspirações da oposição nos anos 1930 não tivessem sido esmagadas. Se a URSS não tivesse feito a coletivização, os nazistas e os japoneses a teriam conquistado. Se o governo de Stálin não houvesse contido as conspirações direitistas, trotskistas, nacionalistas e militares, os japoneses e os alemães teriam conquistado o país. Em qualquer um desses casos, as vítimas entre os cidadãos soviéticos teriam sido muito, muito mais numerosas do que os 28 milhões mortos na guerra. Os nazistas teriam matado muito mais  eslavos ou  judeus do que mataram. Com os recursos, e talvez até mesmo com os exércitos da URSS do seu lado, os nazistas teriam sido muito, muito mais fortes contra a Inglaterra, a França e os EUA. Com os recursos soviéticos e o petróleo de Sakhalin, os japoneses teriam matado muito, muito mais americanos do que fizeram. O fato é que a URSS sob Stálin salvou o mundo do fascismo não apenas uma vez, durante a guerra, mas três vezes: pela coletivização; pelo desbaratamento das oposições direitista-trotskista-militares e também na guerra. Quantos milhões isso dá?

A Verdade – Alguns autores vêm tentando encontrar semelhanças entre Stálin e Hitler, e alguns até chegam a afirmar que o suposto “stalinismo” foi “pior” que o nazismo. Existia realmente alguma ligação entre Stálin e Hitler? 

Grover Furr – Os anticomunistas e os pró-capitalistas não discutem a luta de classes e a exploração. De fato, eles ou fingem que essas coisas não existem ou que não são importantes. Mas a luta de classes causada pela exploração é o motor da história. Então omitir isso significa falsificar a história. Hitler era um capitalista, um anticomunista autoritário de um tipo que é comum em vários países capitalistas. Stálin liderou o Partido Bolchevique e a URSS quando os comunistas em todo o mundo estavam lutando contra todo tipo de exploração capitalista. Sempre que dizemos “pior”, devemos sempre nos perguntar: “Pior para quem?” A URSS e o movimento comunista durante o período de Stálin foram definitivamente “piores que o nazismo”, para os capitalistas. Essa é a razão de os capitalistas odiarem tanto Stálin e o comunismo. O movimento comunista durante o período de Lênin e Stálin, e ainda por um bom tempo depois, foi a maior força de libertação humana da história. E novamente devemos nos perguntar: “Libertação de quem? Libertação do quê?” A resposta é: libertação da classe trabalhadora de todo o mundo, da exploração capitalista, da miséria e das guerras.

A Verdade – Um dos ataques mais frequentes a Stálin é que ele seria responsável pela fome na Ucrânia, em 1932-1933, também chamada de Holodomor. Esta versão da história corresponde ao que realmente ocorreu?

Grover Furr – O “Holodomor” é um mito. Nunca aconteceu. Esse mito foi inventado por ucranianos nacionalistas pró-fascistas, junto com os nazistas. Douglas Tottle comprovou isso em seu livro Fraud, Famine and Fascism(1988). Arch Getty, um dos melhores historiadores burgueses (isso é, não marxistas, não comunistas), também tem um bom artigo sobre isso. Até o próprio Robert Conquest deixou de defender sua antiga versão de que os soviéticos deliberadamente causaram a fome na Ucrânia. Nenhuma sombra de prova que poderia confirmar essa visão jamais veio à luz. O mito do “Holodomor” persiste porque ele é o “mito fundacional” do nacionalismo direitista ucraniano. Os nacionalistas ucranianos que invadiram a URSS juntamente com os nazistas mataram milhões de pessoas, incluindo muitos ucranianos. Sua única “desculpa” é propagandear a mentira de que eles “lutaram pela liberdade” contra os comunistas soviéticos, que eram “piores”.

A Verdade – Deixe uma mensagem para os trabalhadores brasileiros.

Grover Furr – Lutem pelo comunismo! Todo o poder à classe trabalhadora de todo o mundo!

***«»***
A linguagem da Propaganda, por vezes, é mais eficaz do que a força dos tanques e dos canhões.
A imagem de um Estaline, sanguinário e sem escrúpulos, foi meticulosamente trabalhada e difundida pelas centrais do imperialismo americano.
E são essas mesmas centrais que, agora, estão a operar mediaticamente na questão ucraniana, limpando a cara dos fascistas que tomaram o poder em Kiev, através da encenação de uma eleição por braço no ar, na Praça da Independência.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Os ideais dos mártires de Chicago continuam a ser a matriz inspiradora dos trabalhadores de todo o mundo...


Vídeo enviado pelo Diamantino Silva e por Ribeiro de Castro
**
Por este abanão na nossa por vezes já embutida memória colectiva. Se não temos cuidado, de degrau em degrau, de relativização em relativização, corremos o risco de não ter nada como certo, de esquecermos que, sob outras formas (mais sofisticadas), a luta de classes, se bem que diferente daquela que historicamente inspirou Marx e Engels no famoso “Manifesto”, está aí, com as ditas classes médias a proletarizarem-se sob a acção, agora do capitalismo financeiro, variante inovadora … ou decrépita do sistema que, como todos os sistema, não tem vocação suicidária nem benemérita, só largando mão daquilo que lhe é tirado â força, muitas vezes com o preço de muitas vidas.De certeza que alguém anda fora do tempo quando nos querem roubar tanta coisa que à humanidade, e a nós, em partícula, tanto nos custou a ganhar.
Diamantino Gertrudes Silva
**
Momento da história dos EUA: No dia 1 de Maio de 1886, em Chicago, principal centro industrial dos EUA naquela época, milhares de trabalhadores saíram à rua para protestar contra as desumanas condições de trabalho a que erem submetidos e exigir a redução da jornada de trabalho das 13, e que podia ir até às 17, para as 8 horas diárias. Mas a repressão policial desse movimento foi muito dura: houve prisões, feridos e mortos entre os operários e a polícia. Os líderes deste movimento foram presos e imediatamente julgados. cinco foram condenados à morte na forca, dois a prisão perpétua e um a 15 anos de prisão. Dos condenados à morte, na prisão, um suicidou-se e quatro foram enforcados.
Em memória dos mártires de Chicago, como ficaram conhecidos as vítimas das reivindicações operárias que ocorreram em Chicago em 1886 e por tudo o que esse dia significou na luta dos trabalhadores pelos seus direitos, servindo de exemplo para o Mundo inteiro, o 1º.de Maio foi instituído, em Paris, em 1889, como o Dia Mundial do Trabalho, no ano em que se comemorou o 1º.centenário da Revolução Francesa.
Ribeiro de Castro

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Carta de um amigo, acompanhada por uma dissertação sobre História - Gertudes da Silva

Amigo Castro

Atrasei-me um pouco, eu sei, na resposta àquela tua mensagem em que me remetias para o teu blogue e a propósito do vídeo que para ti reencaminhei sobre uma hipotética III Guerra Mundial lá para Julho/Agosto deste ano.
Logo de imediato comecei a teclar um comentário ao que tu ali formulavas, para te dar os parabéns e etc. e tal, mas apercebi-me que às tantas, onde é que já ia os espaço razoável para um local como é um blogue.
E então resolvi, e suponho que bem, com um pouco mais de vagar tecer mais algumas desenvolvidas considerações, que a qualidade do teu comentário bem merecia e pedia da parte de quem, não sendo praticante, andou lá pelos caminhos da História.
Fi-lo em jeito de provocação, que tenho a certeza vais tomar no melhor dos sentidos.
E, na passada, vou aproveitar, e vai ser já a seguir, para enviar este meu pequeno(grande de mais, dirás tu) a outros amigos, alguns dos quais até são comuns, e a outros que não o sendo (comuns) são companheiros fieis do 25 de Abril
E um abraço
Diamantino
***
EM JEITO DE PROVOCAÇÃO

Que é como eu gosto: assim, em jeito de provocação. E esta vai direitinha para um amigo com quem falo – é mesmo falo, do verbo falar –, infelizmente, nem tudo são virtudes, quase só através das vias de comunicação da Net.
Esse meu amigo tem um blogue – sim, é rico – para onde ele remete uma ou outra “tolice” que de vez em quando me sai da cabeça e com ele me atrevo a partilhar, trabalho não pago, mas altamente remunerador sempre que ele ali publicamente me identifica como amigo, coisa que muito me honra, como escritor, ora vejam!, coronel reformado e capitão de Abril – e deste último título é que gosto mais –, e até me admira que àqueles não acrescente o de doutor ou de licenciado, por em tempos idos me ter metido na aventura de frequentar com algum sucesso o Curso de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Estão a ver no que dão estas vaidades pessoais. Por causa disso até já me esquecia de vos deixar o endereço do tal blogue do meu amigo, e então aí vai ele, http://alpendredalua.blogspot.com e que se chama Alexandre Castro, um tipo “às esquerdas”, logo verão quando o conhecerem melhor.
E vem tudo isto a propósito – não, disto não me esquecia – de um comentário muito bem desenvolvido e fundamentado que ele lançou no seu blogue acerca de um vídeo que anda por aí no YouTube e mais por onde calha com o intrigante título de “A III Guerra mundial começará em Julho ou Agosto de 2012”, coincidência ou não, no mesmo ano em que uns adventistas e ou apocalipticistas – que agora a coisa ficou outra vez para os milenaristas – que andam por aí a anunciar aos quatro ventos, mais e mais uma vez, que o mundo vai acabar.
Vai acabando, vai, para alguns dos nossos mais queridos amigos, como aconteceu ainda há poucos dias com o grande companheiro Mário Brandão Rodrigues dos Santos (sim, tio do jornalista/escritor José Rodrigues dos Santos), um genuíno capitão de Abril, sempre e até ao fim dos seus dias neste mundo, e a quem quero deixar aqui a minha modesta mas pública homenagem. Acompanhei-o até àquela que dizem ser a última morada que nem por isso é dada de graça, é preciso comprá-la como quase tudo, isto se não quisermos ir para a vala comum de todos os indigentes deste mundo. Como vai acabando para muitos e muitos milhares de seres humanos em cada hora de cada dia por esse mundo fora por muitas e variadas razões – que a morte, de tão envolvida em mistério, carece sempre de uma explicação –, e ainda vá que não vá quando são invocadas razões naturais, não cabendo nestas as resultantes de guerras, as provocadas pelas iníquas desigualdades sociais, nem as calamidades que advêm das criminosas agressões da Natureza levadas a cabo pela ganância dos homens, que tendo aparecido aqui há uns poucos minutos, já se sentem os senhores, se não, até, os criadores e donos do mundo.
Mas, afinal, do que é que eu vinha a falar? Ah!, já sei: do meu amigo Alexandre, o tal que tem um blogue, onde incluiu o tal vídeo sobre uma hipotética 3ª Guerra mundial e acerca do qual teceu um interessantíssimo comentário. E é tal a evidência dos argumentos por ele para ali carreados que, assim, logo à primeira vista, se afiguram absolutamente inatacáveis. Que é o que normalmente acontece quando trazemos para a análise dos factos da actualidade o peso e o “respeito” – alto aí!... – dos acontecimentos passados.
Só que a História, menos ainda que outras disciplinas ditas científicas não se pode vangloriar de intocável objectividade, pelo que todo o cuidado é pouco quando com ela lidamos.
Por isso, e pelo já referido peso argumentativo e de convencimento é que ela é tantas e tantas vezes reescrita, e até virada do avesso, conforme os interesses dos regimes políticos, sempre a lançarem mão de cronistas e historiadores de serviço, não custa nada, o que lá vai lá vai, a história faz-se com base em vestígios e documentos que estão ali, quietos e calados, à espera de quem os estude e faça a sua interpretação, tarefa esta, é preciso disso termos a noção, se nos deixamos ir na onda dos interesses, muito semelhante à hermenêutica de qualquer advogado, que tanto lhe dá para salvar da prisão um inocente indiciado como inocentar o criminoso mais encartado, tudo muito justo, lindo e civilizado, princípio bom, o da presunção da inocência até ao trânsito em julgado, quando o que está em jogo é o montante da maquia, não importando donde vem o dinheiro – como diria a Madre Teresa – e que, se pensarmos um pouco no que vamos vendo por aí, só serve verdadeiramente para os afortunados.
E tudo isto para quê? Pois, no que à história diz respeito, para legitimar o poder emergente ou já instalad; e não nos esqueçamos que o poder – não será tão simples assim, eu sei – é a chave fundamental para a interpretação de quase tudo o que aconteceu e vai acontecendo tanto a nível mundial, como nacional como, até, no interior das nossas próprias casas.
Soa a provocação, não é? E é mesmo. Um exercício, aliás, que pratico mesmo que o meu interlocutor seja um livro ou uma simples folha de jornal. Ainda há dias, sem sequer pensar ainda que viria para aqui “refilar” com o meu amigo, ao ler um pequeno artigo do historiador Paulo Varela Gomes, com o título “Oito e meio” no P2 do “Público” de 4 de Fevereiro, no qual procura apresentar as raízes históricas dos comportamentos e idiossincrasias de alguns povos mais nossos conhecidos, como obedecendo a um impulso, logo escrevinhei na margem da folha do dito jornal o seguinte comentário, que também serve para aquilo de que venho aqui falando: «Percebe-se bem onde quer chegar. Mas, no que respeita aos argumentos históricos utilizados, deixa ficar muitas dúvidas», o que não tem mal nenhum, pois para o conhecimento só as dúvidas é que são frutuosas.
E era isto, mais ou menos, o que queria dizer ao meu amigo Alexandre. Em jeito de provocação, como logo no início avisei. Quem me conhece sabe bem que tenho uma intrínseca tendência para me pôr no lugar “do contra” ou, se quiserem, de fazer de advogado do diabo.
A história, suponho eu, não nos ensina. A história, quando muito, e aí já faz mais que Deus, dá-nos umas dicas e uma ou outra orientação, e só por isso já é uma grande ajuda. Nem nos permite fazer prognósticos para o futuro. Razão tinha o mestre João Pinto quando afirmava com toda a convicção que, prognósticos, só no final do jogo.
Mas nada disto diminui a sua importância. E nas suas fraquezas não está sozinha. Veja-se o que se passa com outras ciências tidas por bem mais exactas, mas, porque humanas, como é o caso da economia, mesmo socorrendo-se em maior medida das matemáticas, traça cenários e faz previsões para, logo a seguir, entrar num corrupio de revisões, em alta, em baixa, conforme calha ou dá mais jeito a quem fez a encomenda do serviço.
Dicas e orientações que, mesmo assim, devem ser aproveitadas, delas sabendo tirar o devido partido os sábios e os verdadeiros lideres – dos falsos está cheia não o inferno mas a União Europeia –, ao contrário dos néscios que põem os destinos do mundo nas mãos de cientistas e de tecnocratas seus apaniguados, esquecendo-se, ou não sabendo mesmo, que os verdadeiros agentes e motores da história continuam a ser os povos que habitam, labutam, gozam, sofrem e morrem neste lindo planeta azul, que é assim que a ele se referem os que já tiveram a fortuna de o poderem observar longe de todos os ruídos e demais poluições de todo o género, lá das siderais alturas.
E para provocação, hoje suponho que já basta.

Viseu, 09/02/12

Gertrudes da Silva
***
Obrigado, amigo Diamantino, pelo elogio, e também pela provocação, que eu entendo mais como uma brilhante dissertação sobre a falibilidade da interpretação dos factos históricos, que, quando se repetem, ou são uma tragédia ou uma comédia.
Um abraço
Alexandre