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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Globalização: quem ganha e quem perde…


Globalização: quem ganha e quem perde…

Neste insano esforço de defender a desregulamentação dos mercados, promovida pela globalização, em que se enaltecem, e bem, os benefícios recebidos pelos países subdesenvolvidos, para onde foram deslocalizadas as indústrias dos países desenvolvidos, e, ao mesmo tempo, se destaca o baixo preço dos produtos, importados desses países, esquecem-se dois aspectos importantes:

1- Os milhões de desempregados que a deslocalização das indústrias provocou nos países ricos, e que ficaram sem alternativa de emprego compatível, assim empobrecendo. Foram estes segmentos populacional que, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, deram a vitória, respectivamente, a Donald Trump e ao Brexit. Cá se fazem, cá se pagam.

2- Também é necessário contabilizar o aumento exponencial de lucros verificado, o que enriqueceu ainda mais os accionistas dessas empresas deslocalizadas, essencialmente, as grandes multinacionais.
Poder-se-à dizer que que esses ganhos foram conseguidos à custa do empobrecimento dos trabalhadores despedidos, o que foi injusto E pouco se fala desta injustiça, porque o sistema quer resguardar a imagem pública do neoliberalismo e a desregulamentação dos mercados, provocada pela globalização.
Alexandre de Castro


terça-feira, 4 de março de 2014

O caminho para a 3ª Guerra Mundial


Amabilidade de João Fráguas

A propósito deste tema, remeto o leitor para o meu apontamento em Notas do meu rodapé de 19 de Janeiro de 2013, que a seguir transcrevo: 

As causas remotas da crise financeira internacional

Qualquer acontecimento (na vida, na política, na economia e em tudo) tem causas e consequências. E a atual crise económica e financeira internacional também teve causas, as próximas (mais conhecidas) e as remotas (pouco divulgadas e pensadas), embora os corifeus do sistema tentem apresentá-la como se de um fatalismo se tratasse, imprevisível e inevitável, sem culpados e sem tratantes. E o excesso de liquidez, ocorrido a partir dos finais dos anos setenta, é uma das causas remotas da crise. Aquele aumento de liquidez resultou de vários fatores: da enorme acumulação de capitais nos bancos dos EUA, proporcionada pela remessa de avultados lucros proporcionados pela deslocalização das indústrias para a Ásia; da então recente formação dos off shore financeiros, em diversas partes do mundo, a fim de captar poupanças dos países menos desenvolvidos; da decisão unilateral da desvinculação do dólar do padrão ouro, para poder valorizar especulativamente aquela moeda; e, também, pelo facto dos pagamentos do petróleo a nível internacional começarem a ser feitos em dólares, por imposição dos EUA (houve, nesse sentido, uma negociação do governo dos EUA com a Arábia Saudita e com outros países árabes do Golfo).
Neste novo quadro, concebido pelos arquitetos do neoliberalismo, os EUA, cujo Tesouro saiu depauperado da guerra do Vietname, reforçaram a liderança económica e financeira a nível planetário, liderança essa que agora está a ser seriamente ameaçada pela ascensão meteórica e sustentada da fulgurante economia chinesa.
Para rentabilizar rapidamente o dinheiro, e uma vez que a economia, já amputada pelo efeito da deslocalização, não podia absorvê-lo na forma de créditos às empresas, os bancos americanos conceberam então a máquina financeira de multiplicar o dinheiro: o subprime. Iniciou-se um processo gigantesco de crédito fácil e de risco, às famílias, para a compra de casa própria. Os respetivos títulos, sem que os operadores se questionassem sobre o seu valor real, entraram no jogo da roleta da Bolsa de Valores, dando origem à economia de casino. Parecia que o mundo nunca iria acabar, pois todos ganhavam dinheiro a rodos, com destaque para os bancos e os seus acionistas, que trataram de colocar os seus dividendos em lugares seguros, não fosse o céu desabar. E tinha que desabar, pois toda aquela sumptuosa riqueza era falsa, uma vez que não tinha sustentabilidade na economia real.
E o que se seguiu, já é conhecido. Falência em cadeia do sistema financeiro americano, que foi salvo pelos impostos dos cidadãos, num processo injusto e escandaloso da socialização dos prejuízos. Os acionistas dos bancos, os verdadeiros donos do mundo, ganharam mais uma vez.
Como esta crise era estrutural e não conjuntural, e como a globalização aumentou a interdependência das economias mundiais, a Europa não poderia passar incólume ao seu efeito sistémico, principalmente os países periféricos, onde o subprime foi incrementado. No entanto, existe uma diferença entre o que aconteceu nos EUA e na Europa. Por um lado, a liquidez dos bancos europeus não atingiu o nível dos seus congéneres norte-americanos, que muito beneficiaram com a internacionalização do dólar. Por outro lado, a economia europeia começou a viver um processo económico autofágico, a viver para si própria (e este é o seu verdadeiro problema). Basta dizer que a Alemanha só exporta para o exterior do espaço europeu trinta por cento do total das suas exportações. Por outro lado, na Europa, a Alemanha e a França exportaram o subprime para os países periféricos, promovendo o endividamento agressivo desses países. Tal como aqui denunciámos (ver esta hiperligação), a Alemanha, num processo inédito de engenharia financeira, e violando o Tratado de Maastricht, emitiu uma quantidade enorme de dinheiro (marcos, depois convertidos em euros), que escondeu em depósitos bancários, tendo-o utilizado, posteriormente, para forçar subtilmente o endividamento de Portugal, Espanha e Grécia (a Itália defronta-se, principalmente, com o problema da dívida interna), países que agora se encontram submetidos, por imposição da Alemanha e de alguns países ricos da UE, a uma dura, penosa e asfixiante austeridade, cujo obejetivo declarado será a promoção da redução dos seus défices orçamentais, num horizonte temporal muito curto.

Adenda: Recebi do meu sobrinho, João de Castro Mota, a seguinte observação, que acrescento aqui:
"Deixe-me só acrescentar um elemento à sua análise: para além da criação das offshores, da queda do padrão ouro, e de todos os factores que menciona, tomei conhecimento de outro elemento no excelente livro http://www.webofdebt.com/. A reserva federal americana tem andado a suportar as bolsas de valores nos EUA. De todas as vezes que parece que vai haver um "crash" na bolsa de valores, isso nunca acontece (seriamente). Por exemplo, não aconteceu com os atentados de Londres ou das torres gémeas. Nessas alturas, a Reserva Federal cria dinheiro e envia-o para fora do país (de modo a parecer um investidor exterior) e compra acções nas bolsas, de modo a parecer que a confiança está em alta". 
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Ver também aqui

domingo, 17 de novembro de 2013

Esta merda tem de acabar!...

Amabilidade de Jorge M. Ribeiro
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O diagnóstico está feito, pelos cientistas. O mundo está doente! A terapêutica pertence aos povos e às suas vanguardas.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

OXFAM: Portugal tem beneficiado “elites económicas” e arrisca-se a ser um dos países mais desiguais


Ou a Europa arrepia caminho em relação à austeridade ou o resultado da receita será apenas mais pobreza. Esta é a principal conclusão do último relatório da organização não governamental (ONG) Oxfam, que destaca Portugal como um dos casos onde as políticas seguidas estão a beneficiar apenas os mais ricos e a colocar o país em risco de se tornar num dos mais desiguais do mundo.
De acordo com o relatório da Oxfam, se nada for feito e as medidas de austeridade actualmente em vigor continuarem a ser implementas, em 2025 vão estar em risco de pobreza cerca de 25 milhões de europeus. “Apelamos aos Governos europeus que liderem um novo modelo social e económico que invista nas pessoas, reforce a democracia e procure um sistema fiscal justo”, afirma Natalia Alonso, responsável pela Oxfam na União Europeia.
Outro problema é que a organização, que foi formada em 1995 por 17 ONG internacionais espalhadas por 90 países, estima que possam ser necessários 25 anos para que se recupere o nível de vida que se tinha antes da crise económica e financeira – um caminho que só poderá ser invertido com medidas muito bem estruturadas de combate à pobreza.

Mais endividamento, menos crescimento
O relatório intitulado A Cautionary Tale: The true cost of austerity and inequality in Europe surge nas vésperas do encontro dos ministros europeus da Economia e pretende alertar os responsáveis políticos para que os resgates financeiros que têm vindo a ser feitos apenas estão a causar níveis de pobreza e de desigualdade que podem perdurar décadas. “Pelo contrário, as medidas de austeridade não estão a conseguir reduzir o nível de endividamento tal como se supunha que fariam, nem a impulsionar um crescimento económico inclusivo”, diz a Oxfam.
Ainda em relação a Portugal, a ONG salienta que a crise está a afectar muitos jovens, mas também a dificultar a vida a populações que são sempre mais vulneráveis nestas alturas, como as mulheres. Além disso, mesmo quando se mantêm os apoios sociais “adoptam-se diversas medidas que aumentam os requisitos que devem cumprir os desempregados” para poderem aceder às ajudas.

Desigualdade nos rendimentos
O relatório salienta também a pressão internacional para Portugal privatizar serviços como a energia, água e transportes, assim como alguns serviços de saúde, ao mesmo tempo que deveria liberalizar o mercado laboral. Só que aponta que tudo isto foi feito sem a garantia das devidas protecções ao emprego e sem uma vigilância apertada.
“Grécia, Portugal e Espanha aplicaram políticas dirigidas a desmantelar os sistemas de negociação colectiva, o que provavelmente se traduzirá no aumento da desigualdade e na queda contínua do valor real dos salários”, lê-se no documento – que refere ainda o aumento o IVA como mais um factor que dificultou o poder de compra no país.
Sobre Portugal é ainda dito que entre 2010 e 2011 a desigualdade nos rendimentos tem beneficiado as “elites económicas”, dando-se como exemplo o crescimento do mercado de bens de luxo, e é dito que após as crises financeiras em geral os mais ricos vêem os seus rendimentos crescer 10% enquanto os mais pobres os perdem na mesma proporção.

Lições da América Latina, Sudeste Asiático e África
Para esta organização a União Europeia deve tirar lições de outros períodos de austeridade que foram, por exemplo, vividos em países da América Latina, do Sudeste Asiático ou de África durante as décadas de 1980 e 1990, para evitar cair nos mesmos erros.
“A gestão europeia da crise económica ameaça reverter décadas de progresso em matéria de direitos sociais. Os agressivos cortes na segurança social, na saúde e na educação, as reduções nos direitos dos trabalhadores e um sistema fiscal injusto estão a envolver milhões de cidadãos europeus num ciclo vicioso de pobreza que pode perdurar durante gerações. Não faz nenhum sentido nem do ponto de vista moral nem económico”, reforça Natalia Alonso. A responsável insiste que as medidas tomadas apenas beneficiam os 10% da população mais rica.
No relatório são citados exemplos concretos de países, além de Portugal, como Espanha, Grécia, Irlanda e Reino Unido, onde a austeridade está a ser aplicada de forma mais rigorosa, defendendo-se que “rapidamente estarão entre os países com maior desigualdade do mundo se os seus líderes não mudarem de rumo”.
Aliás, o documento lembra que as próprias instâncias internacionais, como o Fundo Monetário Internacional, três anos após os memorandos de entendimento com alguns países “estão a reconhecer que as suas medidas não só não conseguiram reduzir o endividamento público e os défices orçamentais, como pelo contrário aumentaram a desigualdade e travaram o crescimento económico”.
O próprio prefácio deste relatório é feito pelo Nobel da Economia Joseph Stiglitz que escreve que “a onda de austeridade económica que varreu a Europa corre o risco de provocar danos sérios e permanentes ao modelo social”, insistindo que “está a contribuir para a desigualdade que vai tornar as fraquezas económicas mais duradouras”.

Mais pobres que os pais
Para a Oxfam os recordes atingidos no desemprego são o maior exemplo disso, sobretudo entre os mais jovens, assim como a redução de salário. “Pelo menos um em cada dez famílias europeias com trabalho vive na pobreza e esta estatística pode piorar gravemente”, alerta o relatório, que diz que mesmo as pessoas com trabalho serão muito mais pobres que os seus pais.

A Oxfam insiste que a história se está a repetir e que “os nossos líderes estão a ignorar as consequências das medidas de austeridade”, voltando a citar casos em que houve cortes ou privatizações na saúde e na educação e em que a consequência foi “um fosso entre pobres e ricos”. “A Indonésia demorou dez anos a voltar aos níveis de pobreza de 1997 enquanto alguns países latino-americanos demoraram 25 anos a voltar ao que tinham antes de 1981”, defende Natalia Alonso.

***«»***
Um relatório arrasador e demolidor que projeta para o futuro um cenário dantesco e aterrador.
Com a insistência obsessiva de aplicar duras políticas de austeridade, invocando o álibi da correção de défices públicos excessivos e também a solvência das enormes dívidas externas, que o próprio sistema bancário internacional provocou, para delas obter elevados juros, muitos deles já cobrados, o imperialismo financeiro ocidental procura agora a desvalorização salarial, principalmente a dos salários mais baixos (mantendo intocáveis os rendimentos do capital), para poder ganhar competitividade, a nível económico, em relação aos países emergentes, principalmente os do leste da Ásia, que, com salários mais baixos e com o acesso já garantido às tecnologias de ponta e a todas as áreas do conhecimento, ameaçam a economia da Europa e a dos Estados Unidos. O que está a ser feito com a austeridade é provocar o nivelamento por baixo, reduzindo salários e pensões de reformas e libertando as correspondentes disponibilidades financeiras dos estados, através da destruição do Estado Social, para disponibilizar para os bancos e para os projetos dos grupos económicos. Em Portugal, já se percebeu que o governo vai destruir parte do Serviço Nacional de Saúde (a parte mas rentável), e a escola pública para outorgar ao setor privado a respetiva gestão e exploração. O mesmo se irá passar com a Segurança Social, com as seguradoras a abocanharem a parte de leão. Tudo isto em prejuízo da classe média e das camadas populacionais mais frágeis.
Prossegue, pois, por parte do imperialismo financeiro ocidental, a tentativa de promover a transferência da riqueza dos países pobres para os países mais ricos, e, dentro de cada país, transferir os rendimentos do trabalho para os rendimentos do capital.
É este o grande plano do capitalismo, que, para melhor atingir os seus objetivos, se serve da cumplicidade de governos liberais, socialistas e sociais democratas, engajados ao sistema, e da complexa rede de off shores, que, na década de setenta do século passado, criou e espalhou pelo mundo, para resguardar os capitais da cobrança de impostos, nos seus respetivos países de origem, como a ONG Oxfam denunciou em Maio último (ver aqui).
AC

sábado, 29 de junho de 2013

O Problema em Portugal (e no Mundo)

Amabilidade de Diamantino Silva, que enviou este vídeo.
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A subordinação dos povos aos donos do mundo é o objetivo da ação de todas as instâncias dos diferentes poderes (o financeiro, o político, o educacional, o comunicacional e o religioso), que funcionam de forma articulada. Essa ação já tem uma dimensão global, o que lhe aumenta a eficácia, ao contrário das instâncias representativas dos trabalhadores e dos cidadãos inconformados, que ainda atuam numa dimensão nacional e, nalguns casos, até numa escala setorial e corporativa, o que lhes limita a força. 
O caminho para a globalização da luta ainda não está a ser percorrido!  

terça-feira, 28 de maio de 2013

Colapso Econômico, Fome e Miséria Programados e Iminentes

Amabilidade de Campos de Sousa
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Impressiona a enormidade da gigantesca burla e assusta a gravidade das suas consequências, que poderão desembocar na eclosão de uma Guerra Global. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Noam Chomsky explica o que está em causa em Portugal e na Europa...

*
Noam Chomsky é professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e destacou-se, durante a segunda metade do século passado, pelos seus trabalhos na área da Linguística, desenvolvendo uma teoria baseada na abordagem das propriedades da Matemática, aplicadas às linguagens formais. É um militante político de esquerda e a suas análises sobre a crise endémica do sistema capitalista caracterizam-se pelo rigor dialético que as enforma.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Notas do meu rodapé: As causas remotas da crise financeira internacional...


As causas remotas da crise financeira internacional

Qualquer acontecimento (na vida, na política, na economia e em tudo) tem causas e consequências. E a atual crise económica e financeira internacional também teve causas, as próximas (mais conhecidas) e as remotas (pouco divulgadas e pensadas), embora os corifeus do sistema tentem apresentá-la como se de um fatalismo se tratasse, imprevisível e inevitável, sem culpados e sem tratantes. E o excesso de liquidez, ocorrido a partir dos finais dos anos setenta, é uma das causas remotas da crise. Aquele aumento de liquidez resultou de vários fatores: da enorme acumulação de capitais nos bancos dos EUA, proporcionada pela remessa de avultados lucros proporcionados pela deslocalização das indústrias para a Ásia; da então recente formação dos off shore financeiros, em diversas partes do mundo, a fim de captar poupanças dos países menos desenvolvidos; da decisão unilateral da desvinculação do dólar do padrão ouro, para poder valorizar especulativamente aquela moeda; e, também, pelo facto dos pagamentos do petróleo a nível internacional começarem a ser feitos em dólares, por imposição dos EUA (houve, nesse sentido, uma negociação do governo dos EUA com a Arábia Saudita e com outros países árabes do Golfo).
Neste novo quadro, concebido pelos arquitetos do neoliberalismo, os EUA, cujo Tesouro saiu depauperado da guerra do Vietname, reforçaram a liderança económica e financeira a nível planetário, liderança essa que agora está a ser seriamente ameaçada pela ascensão meteórica e sustentada da fulgurante economia chinesa.
Para rentabilizar rapidamente o dinheiro, e uma vez que a economia, já amputada pelo efeito da deslocalização, não podia absorvê-lo na forma de créditos às empresas, os bancos americanos conceberam então a máquina financeira de multiplicar o dinheiro: o subprime. Iniciou-se um processo gigantesco de crédito fácil e de risco, às famílias, para a compra de casa própria. Os respetivos títulos, sem que os operadores se questionassem sobre o seu valor real, entraram no jogo da roleta da Bolsa de Valores, dando origem à economia de casino. Parecia que o mundo nunca iria acabar, pois todos ganhavam dinheiro a rodos, com destaque para os bancos e os seus acionistas, que trataram de colocar os seus dividendos em lugares seguros, não fosse o céu desabar. E tinha que desabar, pois toda aquela sumptuosa riqueza era falsa, uma vez que não tinha sustentabilidade na economia real.
E o que se seguiu, já é conhecido. Falência em cadeia do sistema financeiro americano, que foi salvo pelos impostos dos cidadãos, num processo injusto e escandaloso da socialização dos prejuízos. Os acionistas dos bancos, os verdadeiros donos do mundo, ganharam mais uma vez.
Como esta crise era estrutural e não conjuntural, e como a globalização aumentou a interdependência das economias mundiais, a Europa não poderia passar incólume ao seu efeito sistémico, principalmente os países periféricos, onde o subprime foi incrementado. No entanto, existe uma diferença entre o que aconteceu nos EUA e na Europa. Por um lado, a liquidez dos bancos europeus não atingiu o nível dos seus congéneres norte-americanos, que muito beneficiaram com a internacionalização do dólar. Por outro lado, a economia europeia começou a viver um processo económico autofágico, a viver para si própria (e este é o seu verdadeiro problema). Basta dizer que a Alemanha só exporta para o exterior do espaço europeu trinta por cento do total das suas exportações. Por outro lado, na Europa, a Alemanha e a França exportaram o subprime para os países periféricos, promovendo o endividamento agressivo desses países. Tal como aqui denunciámos (ver esta hiperligação), a Alemanha, num processo inédito de engenharia financeira, e violando o Tratado de Maastricht, emitiu uma quantidade enorme de dinheiro (marcos, depois convertidos em euros), que escondeu em depósitos bancários, tendo-o utilizado, posteriormente, para forçar subtilmente o endividamento de Portugal, Espanha e Grécia (a Itália defronta-se, principalmente, com o problema da dívida interna), países que agora se encontram submetidos, por imposição da Alemanha e de alguns países ricos da UE, a uma dura, penosa e asfixiante austeridade, cujo obejetivo declarado será a promoção da redução dos seus défices orçamentais, num horizonte temporal muito curto.

Adenda: Recebi do meu sobrinho, João de Castro Mota, a seguinte observação, que acrescento aqui:
"Deixe-me só acrescentar um elemento à sua análise: para além da criação das offshores, da queda do padrão ouro, e de todos os factores que menciona, tomei conhecimento de outro elemento no excelente livro http://www.webofdebt.com/. A reserva federal americana tem andado a suportar as bolsas de valores nos EUA. De todas as vezes que parece que vai haver um "crash" na bolsa de valores, isso nunca acontece (seriamente). Por exemplo, não aconteceu com os atentados de Londres ou das torres gémeas. Nessas alturas, a Reserva Federal cria dinheiro e envia-o para fora do país (de modo a parecer um investidor exterior) e compra acções nas bolsas, de modo a parecer que a confiança está em alta".

domingo, 6 de janeiro de 2013

O Problema em Portugal (e no Mundo)...


Amabilidade do João Fráguas, que enviou o vídeo.
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É necessário perceber esta verdade elementar: Os cidadãos têm toda a liberdade de escolher os políticos. Mas o que a maioria dos cidadãos não sabe é que está a eleger políticos, já escolhidos previamente pelo sistema capitalista.
É necessário perceber outra verdade elementar: Os cidadãos têm todo o direito de emitir as suas opiniões. Mas o que a maioria dos cidadãos não sabe é que as suas opiniões foram subtilmente modeladas e inculcadas na sociedade pelo sistema capitalista, através das bem oleadas máquinas institucionais (as instituições políticas, económicas  culturais, comunicacionais e religiosas). 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Saída de Portugal do euro teria impacto de 2,4 biliões de euros no crescimento global



Um estudo de um "think tank" alemão, citado pelo "Spiegel Online", prevê perdas de 17 biliões de euros caso os países do sul da Europa abandonassem a moeda única.
Caso a Grécia, Portugal, Espanha e Itália abandonassem a Zona Euro, o crescimento global teria de absorver perdas na ordem dos 17 biliões de euros. As contas partem de um novo estudo de um think tank germânico, o Prognos, citado ... pelo "Spiegel Online".
 Se Portugal seguisse a Grécia e abandonasse a região, as perdas sentidas a nível global seriam de 2,4 biliões de euros até 2020. 225 mil milhões de euros seriam suportados pela Alemanha, que teria de reconhecer imparidades na ordem dos 99 mil milhões de euros, segundo o "Spiegel Online". Os Estados Unidos teriam perdas de 365 mil milhões de euros, enquanto a China sofreria um impacto de 275 mil milhões de euros.
Jornal de Negócios
***«»***
A austeridade imposta aos gregos e aos portugueses está a pagar a recapitalização dos bancos alemães, que deveria ser paga pelos próprios alemães. A situação é, pois, muito vantajosa para a Alemanha, mas tragicamente devastadora para Portugal e para a Grécia. E o atual governo é o servil e fiel executor desta política imposta, através da UE, por Angela Merkel.
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=584839

domingo, 25 de março de 2012

Notas do meu rodapé: A globalização foi o sucedâneo natural do colonialismo

A globalização foi o sucedâneo natural do colonialismo. Politicamente esgotado o sistema da exploração dos recursos naturais e do trabalho escravo ou mal remunerado, através da ocupação dos territórios coloniais, que se operou desde o século XVI até meados do século XX, a liderança mundial do capitalismo criou um novo modelo, que lhe pudesse garantir a hegemonia na economia mundial. O modelo criado foi a globalização, sustentado por uma teoria económica, o neoliberalismo, e por uma estratégia, que defendia dogmaticamente o comércio livre, sem restrições de espécie alguma. Ao nível ideológico, operou-se a apropriação abusiva do conceito de liberdade e de democracia (a liberdade do mais forte e uma democracia viciada no topo), e glosou-se até à exaustão, como se tratasse de uma religião, a legenda desta trindade de elementos: liberdade de movimentos do capital, de mercadorias e de pessoas, o que, através de uma leitura acéfala ou descuidada, a tornava atraente e convidativa.
Na realidade, a globalização apoia-se no poder do mais forte, que é a lei da selva, podendo, pois, dizer-se que representa um retrocesso civilizacional em relação aos ideais do iluminismo, da Revolução Francesa e do marxismo. A deslocalização do processo produtivo para os países de mão de obra barata permitiu aos países mais desenvolvidos uma enorme acumulação de capitais, que acabou, através da financeirização da economia, por constituir a lenha da grande fogueira especulativa, que desencadeou a atual crise mundial. No entanto, durante os últimos cinquenta anos, e de uma forma paulatina, devidamente sistematizada e estruturada, o capitalismo conseguiu com êxito transferir a riqueza dos países mais pobres e menos desenvolvidos para os países mais ricos, e, dentro de cada país, transferir os rendimentos do trabalho para os rendimentos de capital, o que conduziu a uma gritante desigualdade redistributiva, que já começa a ser percetível e melhor compreendida pelas vítimas deste perverso modelo.
http://economia.publico.pt/Opiniao/Detalhe/as-mascaras-do-comercio-livre-1538444

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Notas do meu rodapé: A falsidade do paradigma neoliberal

O dinheiro à grande e à portuguesa [Inteiro]

Vídeo retirado do blogue Democracia Participativa
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Um filme incontornável, extremamente didático e apoiado numa argumentação coesa e insofismável. Compreender a composição do dinheiro, que, da sua original função utilitária, como medida de valor e como meio de troca, se transformou numa perversa mercadoria virtual, a sustentar um poder fático totalitário, é essencial para perceber a atual desordem financeira, provocada pela dívida, e a natureza fascista do capitalismo financeiro internacional, que tem como objetivo único, a nível planetário, promover a transferência da riqueza dos países pobres ou menos ricos para os centros financeiros dos países mais ricos, e, em cada país, através de governos cúmplices e servis, transferir os rendimentos do trabalho para os rendimentos do capital.
Do texto do filme, destaco aquela parte que se refere à natureza do atual paradigma da ordem financeira mundial, que, devido, ao seu exorbitante poder, acaba por ser determinante na formatação do modelo político e económico:
"Eis o poder de alguns paradigmas: O pior efeito de alguns paradigmas é quando um modelo de um comportamento, aparentemente inquestionável nos limita a maneira de pensar e de viver. E de todos os paradigmas que hoje nos formatam o quotidiano, o que está associado ao dinheiro é talvez aquele que mais nos molda e, ao mesmo tempo, aquele que mais nos torna alienados".
E, na realidade, o homem contemporâneo, que se julgava livre, como a democracia exige, transformou-se num escravo, como qualquer totalitarismo impõe. Vive-se um tempo de pensamento único, que até permitiu o atrevimento de alguém proclamar "o fim da História", como se, para além deste pensamento, todas as ideias não concordantes não passassem de afloramentos estéreis de alguns mentecaptos. O paradigma posto em prática a partir do último quartel do século passado transformou-se numa nova religião, endeusando o mercado, o lucro especulativo, o consumo desmedido e o dinheiro. Todas as máquinas de propaganda, que os novos meios técnicos proporcionam, quer direta ou indiretamente, quer objetivamente ou subliminarmente, quer através de uma informação distorcida ou das mensagens veiculadas pelo entretenimento alienante, trabalharam para esse fim, tentando transformar o cidadão num agente passivo, que apenas reagisse pavloviamente aos estímulos, constantemente produzidos.
Mas como o paradigma está errado, o sistema começa a abrir brechas, que os seus engenheiros não conseguem reparar. O sistema está no fim, mas na sua lenta agonia vai arrastar milhões de pessoas para  tragédia. Como ensina a História, dos escombros nascerá uma Nova Ordem. Esperamos que mais justa.
AC

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Paul Krugmam: milhões de trabalhadores estão a pagar o preço dessa amnésia deliberada


"O que causa mais fúria nesta tragédia é que ela era absolutamente desnecessária. Há meio século, qualquer economista – ou mesmo qualquer aluno de licenciatura que tivesse lido o manual de Paul Samuelson “Economia” – podia dizer que enfrentar uma depressão com austeridade é uma má ideia. Mas os decisores políticos, os formatadores de opinião e, lamento dizê-lo, muitos economistas decidiram esquecer, em larga medida por razões políticas, o que tinham aprendido. E milhões de trabalhadores estão a pagar o preço dessa amnésia deliberada".
Paul Krugman, (Prémio Nobel da Econonomia) 
New York Times
***
O que quer dizer que a crise não é aquela entidade nebulosa e difusa, determinada por um qualquer fatalismo, ou como se fosse provocada por um catalismo natural. Nem é uma crise inocente. Tem causas objetivas e tem culpados. Mas quem está a pagar as consequências são precisamente os inocentes.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Daniel Estulin - O GOVERNO, SA e uma visão do teu futuro...

Amabilidade de Joaquim Pereira da Silva
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Este vídeo também foi enviado pelo Diamantino Silva, e que vinha acompanhado por um texto esclarecedor de João Sequeira, que aqui se publica:

Queridas Amigas e Amigos:
Para os poderes instituídos na Europa e nos EUA tudo o que se diz nesta conferência de Imprensa não passa daquilo a que sobranceiramente chamam de “teoria da conspiração”.A maior parte desses vociferadores da “verdade única” ou do “politicamente correcto” não são estúpidos, nem estão enganados. Apenas se limitam e serem a voz do dono, pois sabem bem os dividendos pessoais que daí tiram.
Não adianta nada discutir com eles. Adianta sim “avisar a malta” como canta a canção antiga, cada vez mais actual. Adianta sim “acordar a malta, que é o que faz falta”.
Como vêem já existem vozes no Parlamento Europeu a explicar o que é óbvio e quem manda de facto no Mundo. Os governos que, descaradamente, já nomeiam à revelia dos eleitores, e as assembleias nacionais que aceitam esses factos consumados, só sabem dizer que tudo isto não passa de “teoria da conspiração” e o que importa é credibilizar os países perante o poder financeiro, pagando os empréstimos a tempo, mas esquecendo que a maior parte desses empréstimos já foram pagos nos juros agiotas impostos. Entretanto os Povos vão empobrecendo “alegremente” à espera que chegue o “salvador da pátria” o messias chamado Hitler, Salazar, Franco, Mussolini, ou um seu filio adepto à ordem do capital financeiro, como o senhor Monti e o grego do Goldman Sachs, que vem “acabar com a malandragem e meter isto na ordem!” se os povos os deixarem.
Os mais novos não sabem como é que os “messias” conseguem esse “milagre”, mas nós os velhos, sabemos, porque já os vimos. Basta matar ou deixar morrer mais uns tantos judeus, árabes, ou ciganos. Hoje é diferente porque nesses grupos muitos se passaram para o outro lado... Hoje é mais fácil identificar alvos sempre actuais: São os pobres e pedintes porque não se lavam, tresandam, incomodam, mendigam, e é um grupo crescente, que não se esgota, com candidaturas sempre prontas na classe média, de onde se desce mais depressa do que se sobe. Basta agir “inteligentemente” nas políticas de saúde, da segurança social e do trabalho. Depois é só esperar que morram!
Já me esquecia que tudo isto não passa de “teoria da conspiração”, para os súbditos apátridas e alguns “xico-espertos”, muitos deles sem se darem conta de que são “os senhores que se seguem”.
Espero que divulguem o anexo.
João Sequeira

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Explicação da Crise Financeira Mundial

***
"E tudo o vento levou" seria o título que eu escolheria para este vídeo, que, através de uma fina ironia, explica linearmente a forma como tudo aconteceu. O problema surgiu, quando alguém perguntou o valor das casas, agregado a todos aqueles títulos hipotecários. Um terramoto não teria feito piores estragos. E, passados todos estes anos, tudo continua na mesma. O esquema mantém-se, apenas mudaram os destinatários, disse recentemente Carlos Tavares, o presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), quando se insurgia, numa conferência realizada no Porto, contra a falta de regulação em muitos sectores dos mercados financeiros. A privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos continua a ser a regra de ouro de um sistema que não pode reformar-se a si mesmo, sendo necessário, pois, combatê-lo revolucionariamente.

Gerald Celente: Acabemos com esta farsa de democracia

Amabilidade de Pilar Vicente
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A globalização é uma farsa, que apenas interessou e interessa ao capitalismo financeiro. Ao instituir como valor sagrado a liberdade de movimentos de capitais, o capitalismo neoliberal promoveu a descapitalização dos países com economias mais débeis, que assim se viram privados de meios para o investimento, para a poupança e para o consumo. Os lucros das empresas e os dividendos dos accionistas, que resultaram do esforço colectivo de cada país, ao migrarem livremente, através dos paraísos fiscais, para as grandes praças financeiras, engordando a economia virtual, promovida pelos bancos, debilitaram as suas respectivas economias, obrigando assim esses países a endividarem-se externamente. Também o euro foi criado para favorecer as economias europeias com excedentes, as mais ricas, em prejuízo das economias deficitárias, para às quais uma moeda muito valorizada não favorecia a sua competitividade externa.
Para garantirem o seu domínio absoluto, os grandes banqueiros globalizaram a sua actividade e, por diversas vias, subverteram a democracia, manietando os governos à sua vontade. Perante a crise instalada, esses mesmos governos implementam políticas, cujo objectivo principal é proteger os interesses desses mesmos banqueiros. Basta estar atento ao circo montado para cada reunião dos dirigentes europeus, onde não se fala de economia nem de desenvolvimento. Os discursos, obsessivamente, apenas referem as finanças e as dívidas soberanas. E, não tenhamos dúvidas: se o capitalismo financeiro europeu, através do seu braço político das instâncias comunitárias, não conseguir manter o sistema, no quadro do modelo da democracia parlamentar, devido à resistência dos povos às severas medidas de austeridade, a provável instauração de um novo tipo de fascismo será a opção. Foi o que aconteceu nas décadas de vinte e trinta do século passado, perante a ameaça que constituía para o sistema a influência crescente do comunismo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Nouriel Roubini: “Karl Marx estava certo”


Cortar os gastos do governo prematuramente feriu a economia dos EUA em 1937, ao reduzir a procura, e Roubini vê o mesmo padrão ocorrendo hoje
 
O professor de Economia que há quatro anos previu a crise financeira global diz que uma das críticas ao capitalismo feitas por Marx está a provar-se verdadeira na actual crise financeira global. Por Joseph Lazzaro
Cortar os gastos do governo prematuramente feriu a economia dos EUA em 1937, ao reduzir a procura, e Roubini vê o mesmo padrão ocorrendo hoje. Foto +ecumenix/Flickr
Na avaliação de Nouriel Roubini, professor de economia na Universidade de Nova York, a não ser que haja outra etapa de massivo incentivo fiscal ou uma reestruturação da dívida universal, o capitalismo continuará a experimentar uma crise, dado o seu defeito sistémico identificado primeiramente por Karl Marx há mais de um século.
Há um velho axioma que diz que “sábia é a pessoa que aprecia a sinceridade quase tanto como as boas notícias”, e com ele como guia, situa decididamente o futuro na categoria da sinceridade.
O professor de economia da Universidade de Nova York, Nouriel “Dr. Catástrofe” Roubini disse que, a não ser que haja outra etapa de massivo incentivo fiscal ou uma reestruturação da dívida universal, o capitalismo continuará a experimentar uma crise, dado o seu defeito sistémico identificado primeiramente pelo economista Karl Marx há mais de um século.
Roubini, que há quatro anos previu acuradamente a crise financeira global disse que uma das críticas ao capitalismo feitas por Marx está se provando verdadeira na atual crise financeira global.
A crítica de Marx em vigor, agora
Dentre outras teorias, Marx argumentou que o capitalismo tinha uma contradição interna que, ciclicamente, levaria a crises e isso, no mínimo, faria pressão sobre o sistema económico. As corporações, disse Roubini, motivam-se pelos custos mínimos, para economizar e fazer caixa, mas isso implica menos dinheiro nas mãos dos empregados, o que significa que eles terão menos dinheiro para gastar, o que repercute na diminuição da receita das companhias.
Agora, na actual crise financeira, os consumidores, além de terem menos dinheiro para gastar devido ao que foi dito acima, também estão motivados a diminuírem os custos, a economizarem e a fazerem caixa, ampliando o efeito de menos dinheiro em circulação, que assim não retornam às companhias.
“Karl Marx tinha clareza disso”, disse Roubini numa entrevista ao The Wall Street Journal: "Em certa altura o capitalismo pode destruir a si mesmo. Isso porque não se pode perseverar desviando a renda do trabalho para o capital sem haver um excesso de capacidade [de trabalho] e uma falta de procura agregada. Nós pensamos que o mercado funciona. Ele não está funcionando. O que é racional individualmente ... é um processo autodestrutivo”.
Roubini acrescentou que uma ausência forte, orgânica, de crescimento do PIB – coisa que pode aumentar salários e o gasto dos consumidores – requer um estímulo fiscal amplo, concordando com outro economista de primeira linha, o prêmio Nobel de economia Paul Krugman, em que, no caso dos Estados Unidos, o estímulo fiscal de 786 bilhões de dólares aprovado pelo Congresso em 2009 era pequeno demais para criar uma procura agregada necessária para alavancar a recuperação da economia ao nível de uma auto expansão sustentável.
Na falta de um estímulo fiscal adicional, ou sem esperar um forte crescimento do PIB, a única solução é uma reestruturação universal da dívida dos bancos, das famílias (essencialmente das economias familiares), e dos governos, disse Roubini. No entanto, não ocorreu tal reestruturação, comentou.
Sem estímulo fiscal adicional, essa falta de reestruturação levou a “economias domésticas zombies, bancos zombies e governos zombies”, disse ele.
Fora o estímulo fiscal ou a reestruturação da dívida, não há boas escolhas
Os Estados Unidos, disse Roubini, pode, em tese: a) crescer ele mesmo por fora do actual problema (mas a economia está crescendo devagar demais, daí a necessidade de mais estímulo fiscal); ou b) retrair-se economicamente, a despeito do mundo (mas se muitas companhias e cidadãos o fizerem junto, o problema identificado por Marx é ampliado); ou c) inflacionar-se (mas isso gera um extenso dano colateral, disse ele).
No entanto, Roubini disse que não pensa que os EUA ou o mundo estão actualmente num ponto em que o capitalismo esteja em autodestruição. “Ainda não chegamos lá”, disse Roubini, mas ele acrescentou que a tendência actual, caso continue, “corre o risco de repetir a segunda etapa da Grande Depressão”—o erro de ‘1937’.
Em 1937, o presidente Franklin D. Roosevelt, apesar do fato de os primeiros quatro anos de massivo incentivo fiscal do New Deal ter reduzido o desemprego nos EUA, de um cambaleante 20,6% na administração Hoover no começo da Grande Depressão, a 9,1%, foi pressionado pelos republicanos congressistas – como o actual presidente Barack Obama fez com o Tea Party, que pautou a bancada republicana no congresso em 2011 – , rendeu-se aos conservadores e cortou gastos do governo em 1937. O resultado? O desemprego estadunidense começou o ano de 1938 subindo de novo, e bateu a casa dos 12,5%.
Cortar os gastos do governo prematuramente feriu a economia dos EUA em 1937, ao reduzir a procura, e Roubini vê o mesmo padrão ocorrendo hoje, ao se seguir as medidas de austeridade implementadas pelo acordo da dívida implementadas pela nova lei.
Roubini também argumenta que os levantes sociais no Egipto e em outros países árabes, na Grécia e agora no Reino Unido têm origem económica (principalmente no desemprego, mas também, no caso do Egipto, no aumento do custo de vida). Em seguida, argumenta que, ao passo que não se deve esperar um colapso iminente do capitalismo, ou mesmo um colapso da sua versão estadunidenseexperimentando uma crise não é correcto.
ESQUERDA.NET
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Por preconceito ideológico, Karl Marx foi banido dos currículos da maioria das faculdades de Economia, ou, o que também é grave, o seu pensamento foi deliberadamente distorcido. Por influência do grande capital financeiro, a corrente doutrinária do neoliberalismo foi elevada ao estatuto de pensamento único e totalitário. É por isso que muitos economistas, que escrevem nos jornais e aparecem a comentar nas televisões, não conseguem libertar-se das baias que lhe puseram nos olhos, debitando apenas o discurso da cartilha por onde aprenderam.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Quatro anos depois… - Opinião de Serge Halimi - LE MONDE DOPLOMATIC


O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de o admitir: «Quase quatro anos depois do início da crise financeira, a confiança na estabilidade do sistema bancário global continua a precisar de ser restaurada» [1]. Mas aquilo que o presidente da Reserva Federal norte-americana, Ben Bernanke, qualifica como a «pior crise financeira da história mundial, incluindo a Grande Depressão» [2] de 1929, não conduziu a qualquer sanção penal nos Estados Unidos. Os bancos Goldman Sachs, Morgan Stanley e JP Morgan apostaram no colapso dos investimentos de risco que se apressavam a recomendar aos clientes… O pior que os espera são multas mas na maioria dos casos serão bónus.
No fim da década de 1980, a seguir à falência fraudulenta das caixas de poupança americanas, foram levados aos tribunais 800 banqueiros. Agora, o poder dos bancos, ainda maior depois das reestruturações que concentraram o seu poder, parece garantir-lhes a impunidade face a Estados enfraquecidos pelo peso da dívida pública. Os próximos candidatos à Casa Branca, a começar por Barack Obama, estão já a mendigar as contribuições do Goldman Sachs para a sua campanha; o director do BNP Paribas não hesita em ameaçar os governos europeus com a crise do crédito no caso de estes regularem seriamente os bancos; a agência de notação Standard & Poor, apesar de ter atribuído a melhor nota (AAA) à Enron, ao Lehman Brothers, ao Bear Sterns e a todo o tipo de obrigações especulativas (junk bonds), projecta retirar a classificação à potência norte-americana se esta não reduzir mais depressa as despesas públicas.
Três anos de reuniões do G20 que visavam criar uma «nova sinfonia planetária» conservaram portanto intacto um sistema que mistura desregulação bancária, prémios faraónicos para os geniozinhos da «inovação financeira» e pagamento de todos os danos que eles causam aos contribuintes e aos Estados. Os socialistas franceses mostram-se indignados pelo facto de «no ano a seguir à crise do subprime os governos terem atribuído mais dinheiro para apoiar os bancos e as instituições financeiras do que o mundo gastou, em meio século, para ajudar os países pobres!» [3]. Mas as soluções por eles preconizadas assemelham-se a remendos (sobretaxa fiscal de 15% para os bancos) e a votos piedosos (eliminação dos paraísos fiscais, criação de uma agência de notação pública, taxa sobre as transacções financeiras), a partir do momento em que eles condicionam a implantação destas medidas a uma muito improvável «acção concertada dos Estados-membros da União Europeia».
Assim, a crise que já devia ter sido vista como «crise a mais» foi uma crise para nada. Andrew Cheng, principal consultor da Comissão de Regulação Bancária chinesa, sugere que esta passividade resulta de um «problema de captura» dos Estados pelo seu sistema financeiro [4]. O mesmo é dizer que os responsáveis políticos se comportam demasiadas vezes como marionetas que se preocupam, sobretudo, em não incomodar o festim dos banqueiros.
Serge Halimi
Quinta-feira 5 de Maio de 2011

Notas:
[1] FMI, «Rapport sur la Stabilité Financière dans le Monde», Abril de 2011.
[2] Citado por Jeff Madrick, «The Wall Street Leviathan», The New York Review of Books, 28 de Abril de 2011.
[3] Projecto Socialista 2012. Suplemento do L’Hebdo des socialistes, n.º 610, Paris, 16 de Abril de 2011.
[4] Citado por James Saft, «Big Winners in Crises: The Banks», International Herald Tribune, Paris, 13 de Abril de 2011.