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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Conto: A Bruxa de Trevões


A bruxa de Trevões
Em qualquer história aparece sempre uma personagem que se destaca das restantes por uma qualquer saliência da personalidade ou por uma qualquer qualidade especial, seja ela de natureza comportamental, temperamental, anímica ou de uma outra variante psicológica, das muitas que compõem o tipo humano.
Neste caso, é o senhor F, um homem que, naquela aldeia duriense, situada na bordadura da fronteira com o planalto transmontano, sobressaía entre os demais, por ser muito esperto e matreiro e ter o olho muito fino para o negócio. Destemido, bem-falante, arrojado e possuidor de uma grande autoconfiança, seria assim que ele seria descrito por quem estivesse, fora da história, a observar-lhe o grau de superioridade que exibia, onde quer que se encontrasse. Apostou ele, numa roda de amigos, à volta de uma mesa de uma taberna da Carrapatosa - e já depois de ter dado as últimas notícias sobre a guerra do Hitler, ouvidas em outros sítios, das suas constantes andanças - que iria desmascarar o raio da velha bruxa de Trevões, cuja fama de advinha e de curandeira se espalhara por muitas léguas em redor.
Foi só descer, por um caminho de cabras, a íngreme ladeira do vale do Douro, contratar o serviço ao barqueiro da Valeira, para atravessar o rio, subir a encosta até o Santo Salvador do Mundo - possivelmente um antigo local de culto celta, recuperado depois pelo cristianismo, que ali ergueu doze capelinhas, tantas quantas são as estações da Via Sacra, mas que agora estava votado ao abandono, devido à concorrência de outros santuários mais sumptuários e melhor situados estrategicamente, em lugares de acesso fácil - e ei-lo a apanhar a nova estrada de maquedame, que o levaria, já depois de uma légua a andar a pé, à aldeia de Trevões.
Quando a velha o mandou franquear a porta que dava para uma salinha, onde recebia os clientes, já ele tinha mudado de semblante, agora carregado de fingida tristeza e de recatada humildade. A tal personagem, fora da história, que o visse agora, poderia dizer que o senhor F já não era o mesmo homem exuberante, que vira na Carrapatosa, mostrando-se agora cabisbaixo, tímido e exibindo até uma certa dificuldade em falar.
Feita a saudação do costume, com muita reverência de parte a parte, e depois de ambos se sentarem à volta de uma mesinha, coberta por uma camilha vermelha, a velha, de olhos vivos e perscrutadores, à procura de um qualquer sinal importante e inspirador, perguntou-lhe ao que vinha.
O senhor F torceu-se no assento, colocou no movimento das mãos, sobre o tampo da mesa, toda a sua encenada hesitação, e respondeu: sabe, minha senhora! O meu pai foi para o Brasil, quando eu era muito pequeno, ao ponto de nem sequer me lembrar muito da sua cara. Depois de algumas cartas, enviadas para a minha mãe, ele deixou de escrever e nunca mais soubemos nada sobre a sua vida. Não sabemos se é vivo ou se é morto.
A velha, depois de perguntar qual a terra do senhor F, e o que fazia, assim como o nome completo do seu pai e o ano em que ele emigrara para o Brasil, e dando sinal de estar satisfeita com as respostas recebidas, pediu licença para retirar-se por uns momentos e entrou para uma outra dependência da casa, fechando a porta, o que levou o senhor F a pensar que a bruxa deveria ter ido consultar os recortes necrológicos dos jornais, que ele sabia que ela guardava, só assim se explicando o facto de ela pedir o envio dos jornais de terras tão estranhas e longínquas, a quem decidia ir para o Brasil ou para África, depois de ouvir o seu vaticínio.
Uma vez regressada à sala, e compenetrando-se na solenidade do momento do anúncio do augúrio, que, como se saberá, será infalível e irrevogável, a velha disse: Sabe, senhor F!... O seu pai está vivo, está com muita boa saúde e é um homem muito rico. Brevemente, ele regressará a Portugal, para se juntar à família.
Palavras não eram ditas, e já o senhor F, com um ar triunfalista, e batendo com os nós dos dedos no tampo da mesa, largou uma sonora gargalhada e retomou o seu ar altivo e descontraído. Oh, minha senhora! O meu pai já morreu há uns anos e nunca foi para o Brasil. E, quando já se levantava, exibindo descarado desdém e dando mostras de que se iria embora, mesmo sem pagar o serviço, a velha, com uma serenidade profunda, adquirida nas catacumbas do tempo, por herança dos seculares segredos da profissão, travou-lhe o ímpeto e a afronta do escárnio: O senhor F está enganado! O seu pai, aquele que já morreu há uns anos, não era o seu pai…    
Alexandre de Castro
Maio de 2014

***«»***
Uma nota a propósito: Trevões, uma aldeia mergulhada na sua obscuridade secular, anda agora nas bocas do mundo, a propósito do homicida que tem conseguido escapar aos cercos e às perseguições policiais. Só quem conhece a instintiva capacidade de sobrevivência daqueles povos e o acidentado terreno do Alto Douro poderá perceber a situação de inferioridade das forças da GNR e da PSP. Por aqueles montes, que parecem o teto do mundo, há esconderijos escavados nas rochas pelo tempo e cercados de mato denso, que só os caçadores, como é o caso do homicida, conhecem. E nessa faina (trata-se de caçadores profissionais, pois vendem a caça que apanham), eles recuperam os sentidos e os instintos do Homem pré-Histórico.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Conto: A Partida - por Franz Kafka

Franz kafka
(03/07/1883 - 03/06/1924)

A PARTIDA

Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu. Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou:
- Para onde cavalga, senhor?
- Não sei direito - eu disse - só sei que é para fora daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar: só assim posso atingir meu objetivo.
- Conhece então seu objetivo? - perguntou ele.
- Sim - respondi -. Eu já disse: “fora-daqui", é esse o meu objetivo.
- O senhor não leva provisões - disse ele.
- Não preciso de nenhuma - disse eu -. A viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. Nenhuma provisão me pode salvar. Por sorte esta viagem é realmente imensa.

 Franz Kafka

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Conto: enanito - por Ana Cássia Rebelo

El enanito (1)
O meu amigo anão telefonou-me a semana passada de Buenos Aires. Contou-me as novidades. Tivera sucesso na indústria pornográfica. A vida correu-lhe bem durante os primeiros tempos. Mas, depois, teve assim uma espécie de esgotamento, passou a ter dificuldades de hasteamento, custava-lhe muito a enrijecer o instrumento. Ainda lhe deram a tomar uns comprimidos a ver se a coisa se compunha. Porém, no momento da verdade, estava sempre de mangalho encolhido, uma serpente velha, sem serventia alguma. O realizador decidiu tirar-lhe o protagonismo. Meteram-no num filme de furry fandom, cheio de figuras híbridas; ele de figura secundária, usava uma bandolete de crina, calções justinhos de cabedal e botins a fingir de cascos de cavalo. A princípio, não se importou com a mudança: dava descanso ao seu monumental instrumento, estava para ali, só tinha de ser passeado por uma gorducha que usava um chicote com brandura; às vezes, relinchava. O pior é que os botins com forma de casco apertavam-lhe muito os penantes. Eram tão apertados que a determinada altura lhe pareceu que os pés encolhiam, passou a sentir tonturas e, constantemente, uma sensação de desequilíbrio durante a marcha. À noite, tinha pesadelos em que aparecia vestido de quimono, olhos rasgados de chinesinha, os pés minguando, minguando, cada vez mais pequenos, pés de lírio entrapados em sapatos de cetim vermelho. Percebeu que se continuasse a fazer de cavalgadura miniatura, a usar os detestáveis botins, em breve, deixaria de andar. Foi explicar ao realizador que não aguentava tamanhas dores, não estava para ser pónei a vida toda, a bandoleta ainda vá que não vá, agora as botinhas de casco nem pensar, ia-se embora. Julgou que o realizador reconsiderasse, lhe arranjasse outro papel, afinal o seu primeiro filme El enanito e las siete monjas peludas fora um sucesso. Um anão, melhor dizendo, um enanito como ele, tão bem apetrechado, não era nada fácil de encontrar. Para sua surpresa o outro aceitou sem mais a sua demissão. As figuras híbridas já cansavam. Homens touros, centauros, harpias. Estava tudo visto. Era um entusiasta da cultura clássica, decidira fazer uma adaptação livre do asno de ouro e arriscava usar um burro a sério. Já tinha em vista um burro abissínio, raça de robustez provada, erecto, o burro abissínio era animal para ter um pénis com quase cinquenta centímetros de comprimento e vinte de diâmetro. Engoli em seco, confessou do outro lado da linha o meu amigo anão, bem vês, não é fácil ser-se ultrapassado por um burro. E continuou: ainda me senti tentado a pedinchar que me deixassem ficar, nem que fosse a tomar conta do asno, porém, depois lembrei-me de que um homem, mesmo sendo anão, tem o seu orgulho e por isso despedi-me. Estou sem trabalho há mais de dois meses. Volto na próxima semana. Pedia-me, se não fosse muito incómodo, para o ir buscar ao aeroporto. Pensei com os meus botões: estás nas lonas, por isso regressas, vens-me pedir batatinhas depois de me teres partido o coração, ah, meu bijouzinho malandro, a tua sorte é que eu sou uma mulher apaixonada, incapaz de guardar rancor! Não te preocupes, lá estarei para te ir buscar, disse-lhe e desliguei o telefone com o corpo cheio de alegria.

El enanito (2)

O regresso do meu amigo animou-me. Costumávamos dar belas passeatas ali pela Almirante Reis, encontrávamo-nos pelo meio-dia na esquina do Banco de Portugal, descíamos a avenida até ao Martim Moniz, comíamos qualquer coisa ao balcão, era, quase sempre, um prego e um copo de vinho verde no quiosque do chinês vesgo, depois, subíamos de novo até ao Intendente à cata de prostitutas, heroinómanos, chulos, alcoólicos, velhas de pele curtida; olhava-os como se fossem objectos preciosos, raridades de feira, tirava notas numa agenda, o meu amigo ria-se do meu entusiasmo, mas não o estranhava, percebia que por ali passava a minha emancipação. No final, acabávamos a tarde na Pensão S. Miguel, no quarto 27, tinha uma cama estreita, que nos chegava; num varandim enferrujado, duas floreiras com petúnias floridas disfarçavam o cheiro de mijo antigo que chegava da rua. Ele, a meio da entretenga, às vezes, dizia gostar de mim sobretudo por eu precisar da miséria dos outros para viver. Toda a gente tem válvulas de escape para aguentar a vida, mas a tua é de uma sofreguidão e tristeza que me comove. Deixava-o fazer análises, que fingisse à vontade ser discípulo de Freud se isso lhe enchia o ego, mas, sempre que se alongava na merdice psicanalítica, pedia-lhe que se calasse e para, com empenho, continuar a desempenhar o seu papel de cobridor. Eram umas tardes deliciosas, assim confortada, custava-me menos regressar ao meu bairro de empregadas brasileiras passeando pela tardinha meninas loiras de sobretudo azul, porsches cayenne rodando em avenidas floridas, como mamutes, gente saindo da mercearia gourmet com sacos cheios de iogurtes biológicos, massas frescas com tinta de choco, abacates, anonas e tomatinhos cereja.
Fiquei, pois, muito animada. Com sorte, voltaria a ter tardes de decadência e indecência para me consolar. Depois, há qualquer coisa no meu amigo anão que me atrai. Quando descemos a avenida de mãos dadas toda a gente nos olha: eu, razoavelmente portentosa - digo-o, sem exagero, por ser a mais pura das verdades -, rabo redondinho, cabelo muito preto, ondulando pelas costas, lábios vermelhos a desabrochar, olhos líquidos de fêmea infeliz; ele, pequenote, arqueado, hedionda cabeçorra, já meio careca, dentes tortos numa boca que saliva excessivamente. Devem achar que formamos um par insólito e estranho. O certo é que roubamos o protagonismo das putas retintas, dos bêbados, dos sem-abrigo que costumam parar à porta do talho do Karim que, jóia de rapaz, ao fim da tarde, faz panelonas de borrego guisado para matar a fome a quem a tem e ganhar o apreço de Alá. Roubar o protagonismo aos indigentes é sempre bom. Enche-me de vaidade e orgulho.
O meu amigo chegou no dia 1 de Maio. Passei uma hora em frente do espelho a escolher a indumentária certa, coisa simples, sem grandes arrebiques de sofisticação, mas que lhe acicatasse o desejo, entumecesse à primeira vista o mais que tudo e o fizesse esquecer o cansaço da viagem. Escolhi um vestido preto, justo, decotado, botas de cano alto. Pedi à minha irmã para cuidar dos miúdos. É que vou buscar o meu enanito ao aeroporto, expliquei. Ela aceitou prontamente, que não me preocupasse, ficaria com eles o tempo que fosse preciso, se precisares da noite para matar as saudades eu cá me arranjo, encomendo uma piza familiar, uma garrafa de dois litros de coca-cola e meto-os a ver filmes de enfiada. Agradeci-lhe. É uma irmã como não há outra, a minha única amiga, faz muita questão que, no meio da maternidade sufocante, arranje tempo para continuar a ser mulher. Quando cheguei ao aeroporto, estranhei um grupo de hare krishnas que para ali estava em cânticos mântricos. Esperei quase uma hora. Sentei-me num banco desconfortável e entretive-me a ver as carecas dos seguidores do guru indiano, tufos solitários de cabelos claros, dotis e kurtas cor de açafrão, dançavam e cantavam com a inépcia própria dos ocidentais tresmalhados. Senti fome, pedi uma empada de galinha e um sumol de laranja num café vazio. Enquanto comia lembrei-me das tardes na Pensão S. Miguel, ali ao lado do talho do Karim. O meu amigo anão, para além de sobredotado nas partes baixas, arrepio-me só de pensar, é um mineteiro muitíssimo experiente, sabe dar à língua, o que não é nada fácil de encontrar. Há homens que a entesam, um horror, fica aquele pedúnculo arroxeado, hirto e triangular, uma pichotinha de gato a fazer parelha com a outra, lambem-nos como se fôssemos um calipo de limão. Não se lambe uma vulva, não se percorrem os pequenos e grandes lábios, como se a língua, em vez de o ser, fosse um cajado de dureza hercúlea. O meu amigo anão nunca tentara metamorfosear sua língua, a sua mantinha a languidez própria e esperada de um músculo que não conhece a fadiga, a leveza do toque, sabia o que fazia e acertava sempre em cheio, nunca precisei de lhe agarrar na cabeça para lhe corrigir a pontaria. Enquanto ele cunilinguiava eu suspirava baixinho, mal se notava o meu prazer; na verdade, nunca fui mulher de exagerar, com urros, gritos e rolar de olhos, os meus folguedos. Atingia o orgasmo com intensidade, mas, ainda assim, nunca me libertava da envolvência. Pela janela aberta chegava o alarido dos miseráveis que, arengando, disputavam o segundo prato de guisado de borrego do Karim.

El enanito (3)

Estava eu sentada de novo no banco desconfortável, lendo o livro que trazia dentro da mala, obra aclamada de um escritor suíço morto há pouco, coisa séria, densa, cheia de referências literárias e deambulações intimistas, fazendo um esforço para ler duas frases seguidas e as compreender, quando, finalmente, vi chegar o meu amigo. Vestia bermudas, calçava umas alpercatas coloridas que lhe sobravam nos pés, chinelava, por isso, perdera o pouco cabelo que tinha, chegava cansado, via-se bem, o rosto feio sulcado por muitas rugas finas, percebi que passara as passinhas do algarve lá pelas américas. Trazia pouca coisa, arrastava apenas um trolley médio que rolava devagarinho, chiando, pela rampa da saída e, coisa estranha, um cacho de bananas debaixo do braço. Corri para ele, meu bijouzinho, meu rico enanito, finalmente voltaste; abracei-o e, por hábito doméstico, levantei-o para o pegar ao colo, tal como faço com os meus filhos mais pequenos, senti-o, porém, espernear furiosamente, põe-me no chão, se faz favor, ordenou com uma frieza que não lhe conhecia. Obedeci, envergonhada do meu gesto. Baixei-me e, de cócoras, fechando os olhos, preparei-me para o beijar. Fiquei, no entanto, de boca à banda, o beijo perdido no espaço cosmopolita da aerogare. Sabes, Ana Clara, vim acompanhado, justificou-se. Estranhei a conversa, olhei em redor e não vi ninguém. O meu amigo, antes que pudesse perguntar-lhe pela companhia, começou a andar em direcção ao parque de estacionamento à procura do meu carro. Tenho uma carrinha velha, uma Toyota Hiace cor de ferrugem que dá nas vistas, herdei-a de um tio que era construtor civil e a usava para transportar o pessoal para os prédios que construía na outra banda, Corroios, Seixal e Coina; é uma carrinha antiga, gasta muito gasóleo, deita fumo preto ao arrancar, custa a estacionar e, sobretudo, embaraça os meus filhos quando me vêem chegar ao portão da escola onde uma manada de porsches cayennes espera a saída das crias. Não é uma viatura adequada ao meu bairro, nem sequer à minha rotina, mas não sou capaz de me desfazer dela. Razões sentimentais. Na verdade, gostava muito do meu tio. O meu amigo parou quando finalmente topou com a carrinha estacionada entre um mercedes de estofos de couro e um smart amarelo, conhecia-a bem porque, às vezes, por desfastio, para não enjoarmos da cama estreita do quarto 27 da Pensão S. Miguel, acabávamos a tarde em cabriolices lá dentro. Olhou em volta, com um ar muito comprometido. Só tínhamos dinheiro para uma passagem, explicou e a voz tinha uma quentura, certos arabescos e espirais, que eu também não conhecia. Curvou-se sobre o trolley, fez deslizar o fecho, abriu o saco e mostrou o conteúdo: era uma anã surpreendentemente pequena, vinha encolhida, dobrada sobre o corpo adormecido, parecia um feto aconchegado no ventre materno. Abriu os olhos e saltou do saco com desenvoltura, ajeitou a saia e explicou que trazia as pernas trôpegas de vir encolhida tantas horas dentro da sacola do companheiro. Uma anã proporcionada, sem cabeçorra, sem pernas curtas, sem braços curtos, mínima, ínfima, dava-me pela barriga da perna, muito bonita, cheia de curvas, parecia uma bonequinha. É a minha companheira, chama-se Maria Ivone, mas eu chamo-lhe Moranguita. Conhecia-a numa casa de penhores, onde trabalhava como contorcionista.

El enanito (4)

Fiquei ensimesmada, a pensar como se conjuga o contorcionismo com o prestamismo, sul-americanices, concluí, coisa de povos que ainda não evoluíram o bastante para chegar ao patamar da seriedade, do rigor, das contas certas, do défice controlado, tamanha liberdade e imaginação já não se usa por cá. Apaixonei-me mal a vi, continuava o meu amigo, vamos casar pela igreja, arranjar empregos, poupar para alugar um T1 e comprar dois passes sociais. Foi então que a sua Moranguita largou a fugir entre os carros, preciso dar às pernas, gritava num espanhol açucarado que me encantou, fonética cheia de modismos, quase parecia italiano, os trópicos nas línguas mãe dão-lhe outro sainete, um travo de rebelião de dígrafos e fonemas, até parece que as letras são gente. Porém, quando a vi em correria descontrolada, feliz por recuperar a marcha, começou a palpitar-me o coração, tal e qual como quando vou de passeio com o meu filho mais pequeno e o patife me larga a mão ao atravessar à rua. Temi que se perdesse ou, pior, tão pequenita, algum condutor, a bagageira cheia de malas, a pressa de chegar a casa, em manobra de arrecuo, a não visse e a atropelasse. A tragédia que seria. O meu amigo, percebendo a minha inquietação, sossegou-me, não te preocupes Ana Clara, a Moranguita está muito habituada, vivia numa urbe furiosa, cheia de chevrolets e cryslers, apesar de pequena, é mulher que nunca passa despercebida. Mudou de assunto com rapidez, nem imaginas a quantidade de pretendentes que tinha por lá, quando a conheci, andava a ser cortejada, mas à séria, com flores, mails dengosos e caixas de bombons recheados com creme de marula, por um protésico que ganhava rios de dinheiro a fazer dentaduras caninas; havia também o padre da sua paróquia, rapaz novo, empenhado na conversão dos infiéis, muito pior do que o protésico dentário, nunca me enganou, eu bem via como se animava quando levava a minha Moranguita para a confissão. Andava a tentar convencê-la a ir na procissão da Nossa Senhora del Bueno Parto, em cima de um estrado de tabuinhas, a fazer as vezes da santa, dizia que seria um quadro vivo da virgem santíssima, coisa nunca vista, havia de comover multidões, trazer a paz aos corações malsãos; tudo sem grande dispêndio, já que era exactamente do tamanho da imagem que estava no altar da igreja, servia-lhe a túnica branca, com cercadura dourada e também o véu que parecia feito de encomenda, não precisava de nenhum arranjo, por outro lado, não pesava mais do que a imagem feita em marfinite, podia usar-se o mesmo estrado de tabuinhas. O padre ainda lhe ofereceu uma caixa de bombons com recheio de creme de avelã. Ela não aceitou, para já, por gostar muito mais de bombons recheados com creme de marula, depois, porque lhe expliquei que não autorizava tamanho disparate, era o que mais faltava a minha Moranguita vestida de santa, a tarde inteira sob o sol abrasador, passeando por calles apinhadas de gente, mãos de velhas más, de bêbados, de tarados recalcados, de mães de família e de empregados bancários, a quererem tocar-lhe o manto para se livrarem da degenerescência e do pecado.

El enanito (5)

Parou um bocadinho. Estava cansado. Ele falava, falava. Eu escutava, escutava. A Moranguita corria, corria. O meu amigo alçou a perninha curta, pôs-se em biquinhos de pés e, antes que pudesse ajudá-lo, dando impulso ao corpo atarracado, sentou-se na bagageira da Hiace. Depois, baixou a voz e explicou-me que resolvera abandonar em definitivo a indústria pornográfica, já não queria ser uma porno star, não estava para isso, não fora só a humilhação de o terem trocado por um burro, chegou o bicho como se fosse uma estrela, vagaroso e arrogante, puxado por uma arreata do mais macio couro, havia uma meda de feno chileno à porta do estúdio, para lhe encher o bandulho depois de cada cena, era sobretudo por estar farto de contracenar com mulheres de estatura maior. Cansava-se muito. As actrizes pornográficas, mais do que as outras, à conta de tanto enchimento e recauchutagem, eram autênticas cavalonas; injectavam-se com silicone, colágeno, às vezes, até com gordura animal, sobretudo de porco, que encomendavam pela internet, chegava um kit com seringa, duas bisnagas de sebo e um livrinho de instruções, não custava nada, só era preciso inspeccionar bem o produto antes da aplicação, às vezes, ganhava verdete, assim umas manchas jaspeadas que indicavam estar fora do prazo de validade. Pois essas mulheres insufladas tinham corpos que eram uma longura, não acabavam, intermináveis como o deserto do Kalahari e gelados como a tundra gronelandesa, nem imaginas, as mamas eram verdadeiras montanhas, as nádegas têm-nas infindáveis, gelatinosas, mas redondas e colossais, as vaginas são secretas, mas no pior sentido, fundas, buracos negros, autênticas cavernas, uma pessoa é capaz de se perder lá dentro e nunca mais ver a luz.
Por exemplo, Ana Clara - tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?
Era por isso, por causa dessa fadiga, que, por mais estimulantes que lhe dessem a tomar, lhe custava a puxar o gatilho. Ali, no corpo da sua Moranguita, tudo estava mais à mão, concentrado. E, depois, isso é que era mesmo importante, amava-a. Foi aqui que achei que chegava de confissões. Enojou-me ligeiramente a conversa porque não acredito no amor. Acredito no amor parental, filial, fraternal, no amor que se baseia no sangue. Entre um homem e uma mulher não há amor. Há apenas rituais de acasalamento, uns breves, outros longos, capazes de durar a vida inteira. Tenho pois um leve desprezo por quem ama, mais ainda por quem desespera por não amar. Em todo o caso, para não o melindrar, disfarcei o enfado que a conversa me provocava. Pedi-lhe que chamasse a Morangita, tivera tempo mais do que suficiente para desentorpecer as pernas, tardava, ainda tinha de ir buscar os miúdos a Caxias, levar a do meio a uma festa de anos naquele centro comercial novo perto da Falagueira e passar por uma drogaria a comprar ácido muriático para a minha empregada limpar as juntas dos azulejos. Ele a falar-me da anã contorcionista, do burro de ouro, de sialorreia, do seu fracasso nos filmes pornográficos; eu a falar-lhe de filhos, de festas de aniversário em centros comerciais, da limpeza das juntas do chão da minha cozinha. Tive noção do remanso que é a minha vida e, naquela tarde, por breves instantes, senti um saracotear por dentro, vontade de chorar. Existência como a minha não se devia admitir.

El enanito (6)

Pediu-me para o deixar na Almirante Reis. Larguei a melancolia que, assim como a acolho, também a despacho rapidamente, enxoto-a como insecto insignificante que é, muitos anos de depressão dão nisto, é o hábito, ganha-se calo, frieza e distância, uma pessoa aprende a relativizar o sofrimento, não há dor a que a gente não se habitue. Não vais para a Pensão S. Miguel, pois não? perguntei e finquei-lhe um olhar indignado, furibundo, chispante, como que a dizer largo-te já no meio da rua, ali ao pé daquele rapaz que passeia, sem trela e açaime, um pit-bull, se me disseres que a levas para o lugar dos nossos encontros. Não, olha que ideia, vamos ficar na Casa de Hóspedes Mirabel, é um sítio de gente séria, sem putedo, sem máquina de preservativos na entrada, sem lençóis amarelos a cheirar a lixívia, sem caixinhas de toalhetes em cima das mesas de cabeceira, fica um bocadinho mais abaixo, é um prédio azul antes de chegar àquele supermercado chinês onde tu gostas de comprar caldinhos de massa, barras de sésamo e novelas escritas em cantonês para teres a ilusão do mundo de lá. Sosseguei. Passou-me a irritação. A Moranguita chegou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, peguei-a ao colo e sentei-a na cadeira do meu filho mais novo, uma isofix da Chico, maravilha de cadeira, comprei-a numa promoção, ainda assim custou quase duzentos euros, mas não me arrependi, material ventilado, reforço lateral, apoio regulado para a cabeça, tem um arnês forrado, imobilidade absoluta, cinco anos de garantia; bati já duas vezes depois de a comprar, o mais velho rebentou com o lábio, a do meio deu um gangão violento, andei durante vários dias com o peito dorido, mas o mais pequeno, instalado no seu trono, nada. Segurança total.
Desci a Gago Coutinho devagar. Íamos em silêncio. A Moranguita dormitava lá atrás; pelo retrovisor, reparei que um quelóide avermelhado, lagartinha fibrosa, lhe marcava o peito. Sempre que vejo uma cicatriz, o relevo monstruoso, sinal de abertura, tenho vontade de lhe tocar. Uma cicatriz escarifica, é marca de imperfeição, tumefacção permanente, reconduz-nos à nossa fragilidade e insignificância. Fui o resto do caminho a espiar-lhe a rasgadura do corpo. O meu amigo, sentado ao meu lado, emudecera. De vez em quando, limpava os cantos da boca com um lenço de papel. Chegámos por fim aos Anjos, estacionei a Hiace em frente de um prédio pintado de azul claro, varandas de ferro, janelas de alumínio com venezianas amarelas. A Casa de Hóspedes Maribel era ali. Já no passeio, o meu amigo pediu-me emprestados quinhentos euros, que me pagaria assim que pudesse, era só para os primeiros tempos. Passei-lhe um cheque. Deu-me um beijo no rosto, és uma amiga impecável, Ana Clara, explicou, perdigotando, a adjectivação ficou-me a latejar na pele. Depois, pondo um ar sério, ofereceu-me o tal cacho de bananas, eram bananas especiais, não tinham nada a ver com as bananas chiquita que crescem em plantações infindáveis e são regadas com chuva de antibióticos e insecticidas, nada disso, fora apanhá-las mesmo antes de ir para aeroporto ao quintal do seu amigo Pablo, descendente directo de mapuches e olmecas, eram mágicas, quem as comia ganhava poderes esotéricos, a nefanda capacidade de adivinhar o futuro. Agradeci o presente, muito obrigada, tu sabes bem o que gosto de bananas. Começava a preocupar-me o delírio do meu amigo. Andei o resto da tarde de passeio com o cacho de bananas mágicas. Cheguei a Caxias passava das dez. Tive vergonha de confessar à minha irmã que o enanito do meu coração me trocara por outra. Mal me viram os miúdos enrolaram-se nas minhas pernas, veio-me assim uma sensação de estrangulamento e desmerecimento, de ingratidão insuportável, tanto que eu gostava de ser uma fêmea como deve ser, falando de criancinhas de manhã à noite, o meu João tem um coração de ouro, a minha Dá tem cinco a tudo e toca violino, o meu Joaquim canta todas as canções do Chico Buarque. Levei-os para casa. No dia seguinte, pedi à empregada que panasse as bananas mágicas com pão ralado e as fritasse em azeite para acompanhar um pedaço de picanha nacional. Sempre é mais barata. A minha filha gostou muito e, ao contrário do que é habitual, nessa noite, pediu para repetir o jantar.

El enanito (7)
Depois de dias de hesitação, vou, não vou, vou, não vou, voltei à Almirante Reis. Pouca, nenhuma, a vontade de encontrar o meu amigo e a sua Moranguita. Custa-me a felicidade dos outros. Lisboa não é a minha cidade, nunca será, mas a Almirante Reis é a minha rua. Metamorfoseio-me se estou quinze dias sem lá ir. Começa a pele a secar, ganho impingens pruriginosas, coço-as até sangrar, os pêlos do buço crescem mais depressa, muito pretos e arrepiados, incham-me os olhos, até a voz se altera, perde robustez, fica um esganiço que se enrola nas palavras. Na quarta-feira, acordei com duas manchas alaranjadas no braço direito, resolvi meter um dia de férias. Larguei os miúdos na escola, o mais pequenino disse-me um segredo ao ouvido, e rumei à Almirante Reis. Fui descendo a avenida devagar. Mal cheguei à esquina com a Antero de Quental, encontrei o meu amigo, vestia uma bata ensanguentada, vinha de fazer uma entrega na Marisqueira do Lis, mas tinha tempo para uma bebida. Sentámo-nos na esplanada do chinês vesgo, cá fora, a gozar o fresco do mês de Outubro, eu a matar saudades da indigência, ele, perninhas bambas, baloiçando, sem chegar ao chão, a contar-me as novidades. Arranjei trabalho no talho do Karim. Ele tinha, como ajudante, um costa marfinense, uma besta grande, fazia para aí dez de mim, quatro dentes de ouro, evaporou-se de um dia para o outro, levou três frangos do campo, uma palete de codornizes e uma carcaça de vaca ainda por desmanchar. Deixou o Karim numa aflição. Ofereci-me para o ajudar. Ele aceitou e mandou fazer um estrado para eu chegar ao balcão; anda tão satisfeito com o meu trabalho que até já encomendou a um artífice lá da terra dele, cuteleiro do melhor que há, um estojo de facas para o retalhe de animais de pequeno porte: patos, coelhos, frangos, galinhas.
A Moranguita, continuou, é que ainda não encontrou trabalho. Vai fazendo uns biscates. Entretém-se a fazer croché, é muito habilidosa, umas mãos de oiro, faz pegas, bolsinhas para os telemóveis, vende-as na entrada do metro. Anda a bordar uma toalha, toda a ponto richelieu, encomenda de uma finória qualquer, encavalita-se em cima de um bastidor especial que comprámos na Rua da Conceição, passa a noite naquilo. Também ajuda a limpar o altar da Igreja dos Anjos uma vez por semana. Para além de contorcionista, é exímia trepadora, mete-se em buraquinhos, nichos de santas, amarinha por ali acima, parece um sagui, leva uma flanela embebida em óleo de linhaça, deixa tudo num brinquinho. O padre, um velho jesuíta, diz que nunca teve a igreja tão limpa, os rostos dos santos andam luzidios e os ornatos da talha dourada parecem feitos de sol e luz. Parou um pouco. Limpou a saliva que se acumulara na comissura dos lábios e cumprimentou uma matulona que ia a passar. Sabes, nos dias em que faz a limpeza aos santinhos, à noite, quando se deita, ainda leva aquele cheiro perfumado, cheiro de mirra, incenso, um cheiro muito oriental. Enfio o nariz nos pentelhinhos, andam tão macios, e perece que estou numa medina magrebina, cestos cheios de tâmaras, latoeiros, homens de cócoras fumando, como lagartas azuis, narguilés. Cheirá-la nesses dias basta-me. Depois, abruptamente, deu um salto, fez uma momice que me pareceu escusada, e despediu-se, desculpa, mas tenho de voltar ao trabalho que o Karim prometeu que, se houvesse pouco clientela, me ensinava a desossar uma galinha.
Dei-lhe um abraço, bebi mais um sumol e pedi a conta. Voltei a subir a Almirante Reis. Olhando a montra de uma sapataria, encontrei-me do outro lado, achei-me feia como um xarroco, primitiva como um rascasso, plana como uma tremelga. Estava eu na habitual comiseração, quando alguém me chamou. Olhei e vi um velho abonecado, lenço de seda, casaco assertoado, apoiado num andarilho de quatro pés. Reconheci-o imediatamente. Era o velho do açafate de fruta, o quase defunto da empregada brasileira, o miserável que me escorraçara sem dó nem piedade do seu apartamento sombrio da Passos Manuel, furioso com a minha iliteracia, como se pode viver, gritou-me naquela tarde, sem conhecer o decandentismo e o vitalismo moderno? Tivera uma franca melhoria, a brasileira dera-lhe a experimentar um chá de flor de fava, estava muito melhor, já não usava algália, largara de vez a literatura, tomava apenas o vigamed e o tryptanol para o coração. Estou como novo, rematou, vou ali abaixo à procura de carninha, alcatra, chambão do bom, tenho comido do melhor. Escutei-o em silêncio. Depois - não sei explicar porque o fiz - perguntei-lhe se lhe apetecia a minha companhia. Disse que sim. Pegou no andarilho de alumínio, largou um pingo de baba e pôs-se a andar a meu lado muito devagar.
Ana Cássia Rebelo
Do blogue ana de amsterdam

sexta-feira, 16 de março de 2012

Fábulas para as Nações Jovens: O SEGREDO DE ROMA - Fernando Pessoa


O SEGREDO DE ROMA

Quando César chegou tarde ao fim do campo de (…) ergueram rápidos perante ele a cabeça de Pompeu. César abriu em lágrimas, e os que estavam pasmaram. O que erguera a cabeça, baixou-a um pouco; estava atónito, e além d'isso ela pesava, porque ele a erguera a braço largo.
— Assim, que vale uma vitória? perguntou César.
— É certo, respondeu o que o seguia, pois não sabia que dizer.
E César continuou. «Foi meu amigo, meu companheiro, era romano e soldado...»
E depois disse, «Cheguei tarde...»
O companheiro esboçou um gesto sem nada, e César voltou as costas curvas de dor.
«Cheguei tarde» repetiu. «Queria tê-lo eu matado com minhas mãos.»

Moralidade:
Cuidado com as lágrimas, quando são estadistas os que as choram.
Fernando Pessoa
s.d.
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 266.
«Fábulas para as Nações Jovens».

sábado, 28 de janeiro de 2012

Micro contos: Sem título

Farta de toda aquela homogeneidade, despiu-se e caminhou nua pelas ruas da cidade. Entre olhares de censura e de espanto, um homem de figura esguia ofereceu-lhe um jornal e um olhar reconfortante. Sorrindo, pegou no papel tisnado por notícias feias e fez um lindo vestido. Deu um beijo na testa do homem e este começou a chorar. Ela secou-lhe as lágrimas com uma folha que dizia que no dia seguinte o sol iria brilhar num céu sem nuvens.
Micro Contos

sábado, 19 de novembro de 2011

Fábulas para as Nações Jovens: O SARAIVA - Fernando Pessoa

O SARAIVA
Havia em tempos, no Porto, um rapaz estudante, vindo das províncias do Norte, chamado Saraiva. Este rapaz tornara-se notável entre os companheiros pela certeza da própria perspicácia e a sua igual certeza de seus talentos de declamador. A cada frase, por simples que fosse, que lhe parecesse envolver uma mentira, tomava a mentira como dirigida inutilmente contra a rocha da sua esperteza; e, levando o indicador direito à pálpebra do olho direito, descia-a, no gesto dos alacres, e dizia ao interlocutor, em aviso e ameaça alegre, «Eu sou o Saraiva!» E o outro ficava sabendo que o não conseguira enganar. O indicador erguia-se livre.
Esta ciência certa, considerada pelos outros rapazes como ridícula em si-mesma, levou-os a combinar, servindo-se da preocupação que o Saraiva tinha de declamador, uma cena cómica, destinada a, de vez, pôr o Saraiva em salmoura social. Sabendo o horror do ridículo, que estava latente naquela constante preocupação de que não era enganado, combinaram com várias raparigas das suas relações, de boas famílias e condição decentíssima, uma sessão em casa dos pais de umas d'elas, para a qual convidariam o Saraiva para declamar. E estava combinado que, apresentado o Saraiva e convidado a mostrar seus dotes de declamador, eles fossem, por fim, reconhecidos com uma gargalhada geral. D'esta, fixaram bem, o Saraiva se não escaparia, e ficariam pagos de tanta irritação de certeza.
Expuseram ao Saraiva que havia várias senhoras que gostariam de o ouvir declamar, pois lhes constara o que valia na matéria, e com ele estabeleceram que o apresentariam em casa d'essas senhoras, podendo ele aparecer, em tal noite e a tais horas.
Grato, o Saraiva acedeu e a combinação ficou feita. Sucede, porém, que, chegado a casa, começou a meditar no convite, e, desde logo, a desconfiar d'ele. «Ali há coisa», pensou o Saraiva. E, sozinho, diante do espelho, levou o indicador direito ao olho direito, no gesto baixante da esperteza, «Mas eu sou o Saraiva!» apontou para si mesmo.
E meditou, «Que diabo será a partida?». Não tardou que descobrisse. Tratava-se de encher uma casa qualquer de uma quantidade de meretrizes, dispostas com aparência de senhoras e meninas, e de o convidar (a ele Saraiva!) para ir fazer diante d'elas o papel de recitador. Conclusão lógica, conclusão natural. E o Saraiva tomou mentalmente as suas precauções.
Chegou a noite, e chegou o Saraiva. E, junto com os vários camaradas, foram dar à casa onde estavam reunidas as senhoras todas que os esperavam. Para entrada e deslumbramento, os apresentantes, aberta subitamente a porta da sala, que se revelou cheia de senhoras, apresentaram, «Minhas senhoras, o sr. Saraiva!», com o ar de quem apresenta um dos homens célebres do mundo.
Então o Saraiva, alacre, deu um pulo para o meio da sala, e braços abertos, gritante e alegre, bradou para as senhoras todas, «Eh, putedo!»
E depois, voltando-se a rir para os apresentantes lívidos, inclinou a cabeça e levou à eterna pálpebra direita o eterno indicador direito, «Vocês esqueceram-se que eu sou o Saraiva»...

Moralidade
1. Não ser Saraiva.
2. Na dúvida ser Saraiva, porque aqui o Saraiva foi o parvo e os outros é que ficaram atrapalhados.
Quando uma nação crê firmemente em si mesma, humilha os outros ainda quando se engana e é ridícula. Na dúvida, mais vale ser Saraiva.
Porque é preciso não esquecer o resultado prático de tudo isto. As raparigas ficaram insultadas, os rapazes ficaram envergonhados: quem ficou vencedor foi o Saraiva.
Fernando Pessoa
1932?
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.- 268.
«Fábulas para as Nações Jovens».

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Micro contos: S/Título

Compartimentado numa gaveta de betão com janelas viradas para sul, António apenas saía para trabalhar num escritório sem janelas, do outro lado do rio. Quando chegava à noite, ficava acordado até quase ao amanhecer a escrever poesia. Naquela noite de Inverno, apesar de ser ateu, rezou para que um raio o rachasse ao meio e acabasse com aquela agonia.
Micro contos
http://www.facebook.com/microcontos

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Micro contos: S/Título

Guardava os olhos em duas covas profundas cavadas no rosto. Num outro buraco escuro, escondia um coração negro e pesado. Os seus passos eram como um permanente caminhar pelo corredor da morte. Arrastava os pés, sulcando no chão regos onde semeava sementes de solidão de onde viriam a brotar tristeza. Chama-se Alzira, mas quase todos a chamavam velha cigana. Apesar de todo o amor que tinha para dar, todos a rechaçaram e ninguém a amou como merecia
Autor(a): Odemira

domingo, 23 de outubro de 2011

Fábulas para as Nações Jovens: O BURRO E AS DUAS MARGENS - Fernando Pessoa

O BURRO E AS DUAS MARGENS
É costume contar-se às crianças, quando começam a estar em idade de começar a ser estúpidas, uma história a propósito de um burro que chega à margem de um rio e não consegue passar para a outra margem.
O rio não tem ponte, o burro não sabe nadar, não há barca que o transporte. O que faz o burro? Depois de algum tempo de pensar, a criança diz que desiste. E então a pessoa adulta, que lhe pôs a adivinha, diz: O mesmo fez o burro. O que devia dizer era: És como o burro, porque assim é que a graça tem graça, se é que a tem.
Mas a história não se passou assim, e foi o burro mesmo que m'a contou.
O burro chegou à margem do rio, e queria passar para a outra margem. Verificou, efectivamente, e nesse particular a história é verídica como se narra, que (a) não havia ponte, (b) não havia barco, (c) ele, burro, não sabia nadar.
Então o burro pensou: O que faria um homem no meu caso? E, depois de pensar, pensou: Desistia. Pois bem, decidiu: Sou como o homem.
Porque, nesta adivinha, ninguém pensou numa coisa: é que o homem desistia também.

Moralidade:
A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras diferentes. O melhor é dizer em segundo lugar, porque como é o homem que faz a adivinha, adiante vai o burro.

Moralidade:
Cuidado com o avesso.
Cuidado com os tecidos políticos que se podem virar do avesso.
Fernando Pessoa
**
s.d.
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 270.
«Fábulas para as Nações Jovens».

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Fábulas para as Nações Jovens - EU, O DOUTOR - Fernando Pessoa


EU, O DOUTOR

Entrei uma tarde numa camisaria de onde gastava com o fim imaginado de comprar uma gravata. O caixeiro que estava livre de freguês, e que há muito me conhecia, cumprimentou-me alegremente: «Boa tarde, senhor doutor».
«Não sou doutor» disse-lhe, e era (a) verdade. «Porque é que me julga doutor?»
«Ah, eu realmente julgava...» respondeu ele limpidamente.
Pedi gravatas, escolhi a que preferi, paguei. Nesta altura o outro caixeiro, que também de há muito me conhecia, veio para ao pé do colega.
«Boa tarde», disse eu a ambos.
Os dois caixeiros inclinaram-se amáveis e sincrónicos, e, como um só, disseram:
«Boa tarde, senhor doutor, e muito obrigado».

Moralidade.
Quando a opinião nos faz doutores, doutores temos que ser. Na vida social, somos o que os outros nos julgam, e não o que até fingidamente somos. A nossa personalidade social, para todos, ou histórica, para os célebres, é uma ideia de nós que nada tem de nós. O estadista que saiba saber isto tem a chave do domínio do mundo. Pode, é claro, faltar-lhe a porta; isso, porém, é já destino.

31-1-1932
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 269.
«Fábulas para as Nações Jovens».

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Conto: A PINTURA DO AUTOMÓVEL- Fernando Pessoa (Ficções)


[A PINTURA DO AUTOMÓVEL]

Eu explico como foi (disse o homem triste que estava com uma cara alegre), eu explico como foi...
Quando tenho um automóvel, limpo-o. Limpo-o por diversas razões: para me divertir, para fazer exercícios, para ele não ficar sujo.
O ano passado comprei um carro muito azul. Também limpava esse carro. Mas, cada vez que o limpava, ele teimava em se ir embora. O azul ia empalidecendo, e eu e a camurça é que ficavamos azuis. Não riam... A camurça ficava realmente azul: o meu carro ia passando para a camurça. Afinal, pensei, não estou limpando este carro: estou-o desfazendo
Antes de acabar um ano, o meu carro estava metal puro: não era um carro, era uma anemia. O azul tinha passado para a camurça. Mas eu não achava graça a essa transfusão de sangue azul.
Vi que tinha que pintar o carro de novo.
Foi então que decidi orientar-me um pouco sobre esta questão dos esmaltes. Um carro pode ser muito bonito, mas, se o esmalte com que está pintado tiver tendências para a emigração, o carro poderá servir, mas a pintura é que não serve. A pintura deve estar pegada, como o cabelo, e não sujeita a uma liberdade repentina, como um chinó. Ora o meu carro tinha um esmalte chinó, que saía quando se empurrava.
Pensei eu: quem será o amigo mais apto a servir-me de empenho para um esmalte respeitável? Lembrei-me que deveria ser o Bastos, lavador de automóveis com uma Caneças de duas portas nas Avenidas Novas. Ele passa a vida a esfregar automóveis, e deve portanto saber o que vale a pena esfregar.
Procurei-o e disse-lhe: «Bastos amigo, quero pintar o meu carro de gente. Quero pintá-lo com um esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável. Com que esmalte é que o hei-de pintar?»
«Com BARRYLOID», respondeu o Bastos, «e só uma criatura muito ignorante é que tem a necessidade de me vir aqui maçar com uma pergunta a que responderia do mesmo modo o primeiro chauffeur que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata de sardinhas».
«Perfeitamente . . .»
«Com que é que você quer pintar um carro», continuou o Bastos sem me ligar importância, «senão com um esmalte que seja ao mesmo tempo brilhante e permanente? E, ainda por cima fácil de aplicar... Isto do fácil de aplicar é comigo, mas é uma virtude, e as virtudes citam-se... Vá-se embora!...»
«Bom...», disse eu.
«Isto de esmaltes de nitrocelulose», prosseguiu o Bastos, dando-me um encontrão, não é um assunto de mercenaria a retalho. Tem uma coisa maçadora a que se chama ciência. Sabe o que é? Mas é maçadora para quem prepara as coisas; para nós, que as recebemos preparadas para as aplicarmos, é um alívio e uma alegria. Este BARRYLOID é o produto de longos cuidados feitos no primeiro laboratório de tintas, lacas e vernizes. Percebeu? Não é o primeiro produto do género que apareceu, porque o ser primeiro está bem se se trata de estar numa bicha, mas não se trata de tintas ou de coisas que metam estudo e provas. Não: nas tintas e na prática, a última palavra é que é a primeira.»
«Meu caro Bastos...», disse eu.
«Só BARRYLOID», respondeu o Bastos, virando-me as costas.
«Eu queria agradecer...», prossegui.
«Traga o carro», disse o Bastos.
Levei-lhe o carro e ele pintou-o a BARRYLOID. E não há camurça, nem chuva, nem poeira da pior estrada, que consiga envergonhar esse esmalte de aço. Sim: o Bastos tratou-me mal, mas tratou bem a verdade. Não há nada como o BARRYLOID.
... Tanto assim que, quando comprei o meu segundo carro, tratei logo de saber se ele vinha já pintado a BARRYLOID. Ele aí está na base da página e no fim da minha história. Passa-se a camurça, mas é preciso usar óculos fumados: o brilho deslumbra. E, o que é mais, deslumbrará, porque dura.
A minha camurça dura eternamente. O que se tem gasto muito são os óculos fumados; e os elogios dos amigos que vêem os meus carros pintados a BARRYLOID.
Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Conto: ESCREVER (AS AGONIAS DE) - Carlos Teixeira Luís


ESCREVER (AS AGONIAS DE)

Se não contas nenhuma história, de que falas? Se contas uma história, onde estão os personagens? Quem são eles? São só personagens? Não são pessoas? Então porque achas que alguém te vai ler? Se for teu amigo, vai ler-te ou não, vai felicitar-te mas não vai continuar a ler-te, vai apenas continuar a ser teu amigo, não achas? Os melhores leitores são sempre as pessoas que não nos conhecem, porque os que nos conhecem, porque haverão de nos ler, se já nos conhecem, não é verdade? Porque haveremos de vender livros aos amigos se eles não nos lêem?
Se não consegues fazer uma frase perfeita, porque não fazes duas quase perfeitas? Se escreves uma metáfora em dois segundos, porque carga de água achas que ela nunca foi escrita? Se te achas um génio da escrita, então não sabes que génio é alguém que é diferente e consegue fazer coisas que a grande maioria não consegue, e que surge só de vez em quando, assim de cem em cem anos? Se te achas um génio, não será isso, uma evidência que não o és? Vê a história, todos os Cristos que se diziam Cristos, nenhum deles era Cristo, e só houve um e nunca se identificou a si próprio mas foram os outros que o fizeram, não consegues tirar uma lição disto? Porque não vais para casa e escreves menos mas melhor? Se não sai nada de jeito porque insistes em ser poeta ou escritor se não o és, na realidade? Porque insistes? Ao menos, sê feliz.
Carlos Teixeira Luís
(Jan. 11)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Conto: UM GRANDE PORTUGUÊS - Fernando Pessoa (Ficções)


UM GRANDE PORTUGUÊS

Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa.
Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.». «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem.
Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho.
Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as cousas todas certas. E ditou o recibo — um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar» (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário, «nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça, foi mandado em paz.
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade — nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.
Fernando Pessoa
1926
Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986

sábado, 28 de maio de 2011

Conto: Lar de putas (revisitado) - por Pastor Flores


Lar de putas (revisitado)



Nas casas de putas sentia-me sempre como se estivesse em casa. O pior era sempre ter odiado estar em casa. Seria fácil dizer que me sentia nela como se estivesse numa casa de putas. Mas não era verdade. Era mais como se não sentisse nada.
Onde sentia alguma coisa de verdadeiro era na casa da Madame L., a dona do meu lar de putas favorito. Raro era o dia em que não lá ia, nem que fosse para me sentar um pouco na sala de espera, naqueles sofás de veludo dos anos oitenta, a ver telenovelas brasileiras com rameiras de todas as nacionalidades.
Claro está que eu tinha por lá uma namorada. Saía-me bem cara. Apesar de manter intacto o sentido do ridículo, apurado por muitos anos de gim puro em noites impuras, estou certo de que ela apreciava a minha companhia.
Sorria sempre que me via.
- Oi! Estás por cá hoje? Sempre vieste? E eu ia sempre. Estava sempre por lá. Quando estava mais alegre, tratava-me por amor. E eu dizia-lhe que um dia casaríamos os dois, mas ela nunca alimentava essas brincadeiras.
Não só os putanheiros têm códigos. As putas também têm. E a primeira delas é nunca casar com putanheiros. O nome dela era Cyndie. Era com ela que eu gastava os meus princípios de noite e finais de ordenado. Ia sempre com ela, assim ela não estivesse ocupada. Mas, por vezes, ela estava mesmo ocupada e eu tinha que voltar ao sofá e às novelas brasileiras, acompanhado pelas outras putas em espera e pela Madame L., com quem trocava as conversas mais familiares.
Uma certa vez, porém, a Cyndie não estava disponível por ter ido para o quarto principal com três japoneses. Três japoneses. Não sei se foi da falta do gim, mas aquilo bateu-me. Incomodou-me. Senti verdadeiros ciúmes e reconheci-me num papel meu já quase esquecido. Era tudo familiar para mim. Mas, ainda assim, consegui domesticar os sentimentos e manter-me focado.
Para me vingar, resolvi traí-la também. Fui com uma das suas melhores amigas. Como não gosto de incomodar, esperei até que acabasse a telenovela e fui com ela para o quarto dos fundos, ouvindo risos a quatro, ao passar pelo quarto principal.
Podem gozar, mas não fui capaz de fazer mais do que falar. A privação do gim sempre me deu para falar. E aparentemente também me deu para a emoção, porque dei comigo a chorar. Ela ouviu-me por respeito, pois eu não era um qualquer por ali, mas nada tinha para dizer. Não fiquei sequer meia hora e saí cá para fora.
No quarto principal não se ouvia nada, agora. Abrandei o passo ao passar por ele e apurei os ouvidos. Nada. Silêncio.O pior foi depois, quando fui pagar. Sim, eu tinha regalias especiais por jogar em casa, podia pagar no fim e não no início. No fundo era como as relações normais entre namorados.
Só que nesse dia, entretanto virado noite, esse privilégio transformou-se num problema. O cartão multibanco deu de si. Não deu dinheiro. E eu já tinha consumido o que lá tinha ido consumir, ainda que, neste caso, sem qualquer consumação.
Disfarcei, dizendo que não era por falta de dinheiro. Era por causa de tudo, menos por falta de dinheiro. Era por culpa dos bancos, da crise económica mundial, do subprime, mas não por falta de dinheiro. É que a segunda regra das putas é muito clara: não dar crédito aos putanheiros que não tenham dinheiro.
Mas a Madame L. não se impressionou. Essa é a terceira regra das putas. Nunca se impressionarem. Deu-me duas opções. Ou ia, com alguma das suas putas levantar dinheiro, ou deixava lá algum documento para servir de garantia de que voltava, depois de levantar dinheiro. É bom ter opções. O mal é quando não tens opções. Quando tens opções tens tudo. Assim tenhas dinheiro.
Procurei pois alegar, que era um cliente habitual, recorrendo a uma intimidade que ela parecia desconhecer. A frieza do discurso dela fez-me perceber que não era a primeira vez que ela o aplicava. Não era propriamente virgem neste tipo de situação. E tesos entesados é que não faltam neste mundo de gajos marados e sem lar.
- Mas eu alguma vez deixei de cá vir? - perguntei-lhe, pensando que, talvez, desta feita, não voltasse mesmo, porque não tinha já dinheiro na conta, nem crédito no cartão. Mas ela não me passou cartão nem me deu crédito, também.
Havia uma certa coerência em toda a situação, reconheço.
- É como te digo! Tens duas opções. E nem é por mim. São as regras da casa. E daqui não sais sem pagar - disse a Madame L., seca e fria como as suas próprias peles.
Era assim que me tratavam, logo ali, logo em casa? E foi então que lhe disse:
- O pior é alguém convencer-se de que está em casa e depois alguém o lembrar de que não está! Aí a Madame L. voltou a sorrir e disse-me que eu podia não estar em casa, mas que, se cumprisse as regras, seria sempre muito bem-vindo.

Pastor Flores, In Nunca Nada Ninguém

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Conto: A ÚLTIMA FISCALIZAÇÃO - Gonçalo M. Tavares


A ÚLTIMA FISCALIZAÇÃO
O senhor Cortázar cruzou-se com um inspector fiscal.
Estranhamente, a primeira pergunta deste não visou questões de impostos. A primeira pergunta do inspector fiscal, com um sorriso, foi, simplesmente:
– Tem horas, senhor?
O senhor Cortázar não se iludiu com a simpatia aparente e com a pergunta pacífica.
Afastara um pouco para trás o punho da camisa e preparava-se para dizer as horas quando foi interrompido por um seco, mas não antipático:
– Passe o relógio para cá.
O senhor Cortázar, sem resistir, abriu a fivela do relógio e entregou-lhe, como pensava naquele momento, as horas todas. Que fique com elas para sempre, o maldito, pensou, então, o senhor Cortázar.
O inspector fiscal sorria ao de leve enquanto guardava o relógio no bolso.
Depois, perguntou de novo, com um tom suave demais:
– Tem pressa?
O senhor Cortázar respondeu que sim, alguma.
– Dê-me os seus sapatos - murmurou o inspector fiscal.
O senhor Cortázar dobrou-se um pouco, descalçou os sapatos e entregou-os. E o inspector, sem uma palavra, guardou a nova oferta.
– Tem frio?
O senhor Cortázar pensou que o fiscal se referia aos seus pés, agora encostados directamente ao belíssimo chão do país. Mas antes de o senhor Cortázar responder, o inspector fiscal murmurou:
– O seu casaco...
Já não eram necessários verbos, tudo estava claro entre os dois. O senhor Cortázar entregou o casaco que o fiscal de novo guardou na sua mala.
O mesmo se passou com as calças, a camisa, a carteira; enfim, tudo.
Cortázar estava agora nu, sob os olhares críticos e trocistas de quem passava. Aquela era uma vergonha de que jamais se esqueceria.
– Tem arma em casa? - perguntou o inspector fiscal, subitamente.
O senhor Cortázar respondeu que não.
– Sabe manejar uma arma?
O senhor Cortázar não era capaz de mentir:
– Sim - respondeu.
– Pois então... - disse o inspector fiscal, revelando, naquele momento, pela primeira vez, uma voz profunda, melancólica, a voz mais triste que alguma vez fora dada a ouvir ao senhor Cortázar (desde que este era vivo e capaz de ouvir).
- ...Pois então - dissera o triste inspector fiscal ao obediente senhor Cortázar, enquanto lhe passava um objecto reluzente - tome esta arma carregada, senhor Cortázar, e, por favor, com um único tiro, sem falhar, vingue-se.
Gonçalo M. Tavares
In Revista Pessoa

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Conto: Kátia & Wanderlei - por Hugo Gonçalves


Kátia & Wanderlei

kátia percebeu que cometera um erro antes de chegar à igreja, na casa dos pais, quando o fotógrafo parou na sala, apanhando pãezinhos de leite da mesa como se fosse familiar da noiva e, como os outros presentes, estagnou diante da transmissão do casamento real britânico, ficando a saber que "plebeia" ainda é uma palavra com muito uso e que o protocolo real exige que os príncipes acenem apenas com um movimento de pulso.
Kátia arrependeu-se de marcar a cerimónia para o mesmo dia do casamento do príncipe. Quando teve a ideia, julgou-se inspirada pelas revistas e considerou a possibilidade de o seu casamento aproveitar a mística das bodas com transmissão em directo para o universo. Enganou-se. Metade dos convidados ficou de fora da igreja, bebendo imperiais no café e acompanhando a charrete real num plasma. Enquanto isso, Wanderlei, que chegou a jogar na Segunda Divisão, contratado ao América, de Manaus, não cabia no smoking, transpirava no altar, enganava-se quando tinha de repetir as palavras do padre, os seus lábios - "Pode beijar a noiva" - sabiam a cachaça. O copo de água teve lugar num restaurante especializado em leitão assado. A TV estava sintonizada no casamento real. Kátia olhou para o príncipe e a sua farpela de filme da Disney, ouviu uma tia dizer "Está mais feio e mais parecido com o pai". Kátia olhou para Wanderlei que chupava uma patinha de leitão. Fechou os olhos. Os convidados começaram a bater com os talheres nos copos. Ela levantou-se e foi beijar o marido como vira os príncipes fazer na televisão.

Hugo Gonçalves
Escritor
Conto publicado no jornal i

terça-feira, 26 de abril de 2011

Conto: A última viagem - por Alexandre de Castro


A última viagem
1
Não sei porquê, mas comecei insidiosamente a pressentir que a viagem naquele comboio não tinha destino nem fim.
O bilhete era uma pequena cartolina branca, de forma rectangular, sem qualquer indicação útil para o revisor, que, à moda antiga, o obliterou com um alicate, dizendo-me obrigado, mecanicamente, ao mesmo tempo que me desejava boa viagem. Mas não me respondeu, quando lhe perguntei qual era a última estação daquela linha de via estreita, percorrida, ora num sentido, ora no outro, por carruagens antigas, de bancos de madeira corridos, puxadas com visível esforço, principalmente nas subidas, por uma locomotiva alimentada a carvão, que um homem de tronco nu, e todo suado, atirava às pazadas para a devoradora fornalha.
No banco, à minha frente, ia uma compenetrada senhora, com um elegante chapéu preto na cabeça e uma renda da mesma cor a descer-lhe pelo rosto. Disse-me que ia visitar o marido, mas começou logo a ler a Bíblia, quando lhe perguntei em que localidade se encontrava o marido. No entanto, reparara que ela trazia duas alianças no dedo anelar da mão esquerda, o que indiciava, seguramente, a manifestação pública do seu estado de viuvez. Não deixei de ficar intrigado.
Adormeci, e, quando acordei, ouvindo o som do matraquear das rodas sobre os carris, que me parecia vir de muito longe, apercebi-me da ausência de árvores na paisagem que desfilava pela janela da carruagem. Era uma paisagem dominada por terra amarela, como nunca vira, e as rochas tinham uma cor avermelhada, como se fossem brasas de uma lareira. Lembrei-me da paisagem de Marte, que já vira em fotografias.
A viúva, afivelando uma postura de dignidade, e antes de sair no apeadeiro, onde o comboio estava agora parado, permitiu-se tirar o chapéu da cabeça e destapar o rosto, para dar um retoque no cabelo, e pude então reparar que se tratava de uma mulher que deveria ter sido muito bonita na sua juventude.
Pela janela da carruagem ainda vi o chefe da estação com a bandeirola debaixo do braço, mas na frontaria do edifício não existia nenhum letreiro a indicar o nome do apeadeiro. Aí, dei-me conta que estava sem referências espaciais para poder orientar-me. Não sabia onde estava. Também já perdera as referências temporais, e o meu medo era poder vir a perder as referências existenciais, e acabar por não ser capaz de responder a esta pergunta tão simples, mas tão fundamental: Quem sou eu?
O meu relógio parara, inexplicavelmente, durante a viagem, e na parede do edifício do apeadeiro também não havia nenhum relógio, que me devolvesse o ordenamento temporal. Apesar do céu não ter nuvens, não era visível a existência do Sol ou de qualquer outro astro luminoso, e assim eu também não podia reencontrar-me com os quatro pontos cardeais. E comecei a interrogar-me de onde vinha aquela claridade constante e uniforme, sem qualquer nuance na mudança de tom e que transmitia uma pesada imobilidade ao dia, que parecia ser perpétuo. Pela primeira vez, experimentei uma estranha sensação de vazio, por sentir-me sem as coordenadas do Tempo, que a alternância dos dias e das noites faculta. Progressivamente, sentia que estava a perder aquela noção íntima do Tempo, que permite situar-nos no antes e no depois e que separa com nitidez o que é passado, presente e o que é futuro.
Entretanto, o lugar deixado vago pela viúva tinha sido ocupado por um senhor gordo, todo esbaforido de calor a arrastar pela coxia uma pesada mala. Deixei que se acomodasse, depois de ter esperado que terminasse a tarefa de limpar o suor da cara e do pescoço com um lenço branco, exageradamente grande, para lhe colocar todas as inquietantes dúvidas a que me conduziram as minhas recentes cogitações sobre o Espaço, o Tempo e a Existência. Respondeu-me amavelmente que essas questões já não o preocupavam, tendo acrescentado que, para ser mais exacto, até já nem conseguia abarcar a extensão e a profundidade desses conceitos e, enigmaticamente, deixou o seguinte conselho:
- Para nos livrarmos de um vício, o melhor é arranjar outro que o substitua, mas, neste caso, é preciso ter cuidado para não ficarmos com os dois.
E sem me dar tempo que lhe pedisse uma clarificação sobre a sua afirmação, tirou do bolso interior do casaco a carteira, que abriu para me mostrar a fotografia de uma mulher ainda jovem, e que eu imediatamente associei à senhora que acabara de sair da carruagem no último apeadeiro:
- É a minha mulher – disse-me, antes que eu fizesse alguma referência.
- Aqui, não podemos regressar ao passado, nem podemos caminhar para o futuro, porque passado e futuro deixaram de existir. Aqui só há presente.
- Como assim? - Perguntei, intrigado.
- Transferiram-me para outro campo, uma vez que ela vinha a chegar. E isso poderia afectar a ordem estabelecida.
- Como assim? – Voltei a insistir, colocando agora na minha voz um tom imperativo, que não admitia mais subterfúgios.
- Vai compreender, quando sairmos da carruagem, no próximo apeadeiro.
- E esse é o último apeadeiro desta linha? – Perguntei, na esperança de obter uma resposta à pergunta que no início da viagem o revisor tinha ignorado.
- Tanto quanto sei, esta linha não tem fim e não há viagem de regresso, uma manobra engenhosa para esvaziar a noção do Espaço. Uma vez que eu tinha obrigatoriamente de fazer esta viagem, pediram-me para o acompanhar e de o informar das novas regras. Já lhe disse que tem de arranjar outro vício, que substitua o vício de pensar, mas deve ter muito cuidado para não ficar com dois vícios.
- Está a dizer-me que tenho de viciar-me em não pensar.
- Não!... Eu não queria dizer isso. O que é necessário é que abdique de todo o tipo de lógica e que não utilize o pensamento dialéctico.
- Mas isso equivale a renunciar ao pensamento autêntico!...
- Como queira, Mas, o meu amigo vai descobrir que esse não é o pensamento autêntico, já que através dele, não se consegue abarcar esta realidade que existe à sua volta, e que é a realidade dominante.
Encolhi-me todo no banco, parecendo um bicho-de-conta a enrolar-se sobre si mesmo. Um frio percorreu-me a espinha, o que me provocou um arrepio, que o meu interlocutor teve a oportunidade de observar.
- Não se preocupe. Vai habituar-se.
Fez-se um pequeno silêncio na carruagem, que, sem eu ter constatado antes, já ia vazia.
- Os outros passageiros? - Indaguei, alarmado.
- Já saíram todos com o comboio em andamento. Já vejo que está surpreendido, mas a lei da Física da gravitação universal não se manifesta aqui. Já vê que tem de viciar-se num outro tipo de pensamento e abandonar o que aprendeu. Não queira ficar com dois vícios. E agora eu também vou sair e nunca mais irá ver-me, embora eu continue a observá-lo, segundo as instruções que recebi. Eu, quando cheguei, também tive de fazer este percurso.
- E a sua mulher? Também vai fazer este percurso?
- Porque faz essa pergunta?
- Por nada … Por nada! Simples curiosidade, nada mais.
- Apaixonou-se por ela, durante a viagem?
- Não, não!... Apenas reparei tratar-se de uma mulher interessante.
- Talvez ela venha fazer-lhe companhia, já que ela, quando me viu, disse-me que se apaixonara por si.
- Oh!.. Não pode ser!... Está a brincar comigo!...
- Estou a falar a sério, meu caro amigo. Percebi que ela já não me aceita. E não vale a pena obrigá-la a passar a eternidade a olhar para mim com desgosto. Mas ela só virá ter consigo, quando ambos aprenderem o novo pensamento.
E o homem estendeu-me a mão, grossa e papuda. E antes de desaparecer misteriosamente, tal como fizeram antes os outros passageiros da carruagem, disse-me:
- Quando o comboio parar no apeadeiro, siga sempre as setas que estão no chão, que o conduzirão à casa do guarda.
- Está a querer dizer-me que eu vou para uma prisão?
- Não. Aqui não há prisões. Mas, agora, peço-lhe para não fazer mais perguntas. Adeus.
2
Recebi esta carta numa tarde de Agosto. Vinha numa embalagem tubular, de um material que se desagregou completamente, depois de a abrir. Não trazia remetente, e a ausência de qualquer carimbo dizia-me que não tinha chegado através do circuito normal dos correios. Não faço a mínima ideia quem seria o seu autor.

Alexandre de Castro

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Conto: O meu mundo subaquático - por Alexandre de Castro


O meu mundo subaquático

Enquanto mastigava, a língua dançava-me na boca a enrolar a comida e, em movimentos mais elásticos, procurava apanhar aqueles resíduos dispersos que teimavam entalar-se nas comissuras e colar-se às gengivas e às bochechas. Foi num desses movimentos que a placa esquelética saltou do lugar e o gancho metálico, que se encontrava solto, por, há dias, se ter partido o dente canino de apoio, foi espetar-se na base da língua, rasando aquele veio azulado, que se vê, proeminente, quando a dobramos com a ponta virada para cima. Foi uma dor aguda, um fio de fogo a queimar-me por dentro, e imediatamente pensei que deveria ser essa a dor que os peixes sentiriam quando mordiam o anzol. E neste acidente, o gancho da placa funcionou, na realidade, como se fosse um autêntico anzol, pois quanto mais procurava libertar a língua, mais ele penetrava naqueles tecidos moles, já todos ensanguentados, o que aumentou o meu pânico. Tive de socorrer-me da mão, mas, por mais manobras que fizesse, o gancho rasgava cada vez mais a carne. Só com um valente e decidido esticão, a fazer estremecer de dor todo o meu corpo, uma dor a ressoar pelas entranhas e quase a provocar-me um desmaio, consegui arrancar o maldito gancho, que trouxe agarrado na ponta um pequeno pedaço de carne. Parecia uma minúscula amostra de um tecido destinado a uma biopsia.
A boca já era uma massa ensanguentada, a formar uma pasta mole, que cuspi com violência para o lavatório, indo, como se tivesse sido um espirro, salpicar o espelho e os azulejos brancos das paredes. O sangue saía aos borbotões daquele veio azul, que pulsava ao ritmo da dor. Fechei a boca, mas ainda tive tempo de ver no espelho os dentes raiados de sangue, como se fosse um drácula. Bochechei com a água fria da torneira, mas, cada vez mais, o sangue saía em maior quantidade. Meti na boca, por baixo da língua, um toalhete molhado, procurando fazer alguma pressão sobre o golpe para conseguir estancar as golfadas de sangue. De nada me valeu. O toalhete ficou encharcado de sangue, parecendo um molusco viscoso. Lembrei-me então de ir buscar uma pedra de gelo ao frigorífico, na esperança, tal como sempre ouvi dizer, que o frio contrai as artérias e as veias, e que é eficaz nas hemorragias.
Olhei para o espelho casualmente e comecei a ver os olhos marejados de lágrimas vermelhas a esconderem o branco da córnea. Entrei em pânico e comecei a pensar na melhor maneira de pedir socorro e ir ao hospital. O medo de morrer ali, sozinho, a esvair-me em sangue, aterrorizava-me. Durante a minha vida pensei várias vezes nas muitas maneiras de poder vir a morrer. Na cama, na rua, com um fulminante ataque de coração, num acidente de automóvel, na enfermaria de um hospital, na mesa de operações... Mas nunca pensei morrer assim, devido a uma hemorragia na língua, provocada por um golpe certeiro da ponta de um gancho de uma placa dentária esquelética.
Olhei novamente para o espelho, que já me devolvia a cor de cera do meu rosto, e meti os dedos nos ouvidos, para me certificar se também por ali perdia sangue. Foi quando eu reparei em duas protuberâncias membranosas, que começaram a crescer por detrás das orelhas. Ao apalpá-las, tive a sensação de sentir a pele escamosa de um peixe. Voltei a tocá-las, ao mesmo tempo que torcia o pescoço, para as ver melhor, e reparei que na sua parte inferior, aquelas duas protuberâncias apresentavam uma abertura, como se ali tivesse sido feito um golpe com uma navalha, tal era a perfeição do seu alinhamento rectilíneo. Fiquei intrigadíssimo com este fenómeno anatómico, de que nunca ouvira falar.
Por uns momentos, pensei que teria entrado num estado alucinatório, mas a evidência do sangue, que já me sujara a camisa de linho, e aquelas duas protuberâncias de uma cor acastanhada, como se fossem dois tumores, confirmavam-me a surpreendente realidade. Belisquei a perna, para ver se tudo aquilo não passava de um pesadelo. Olhei para o relógio, que marcava dez horas da manhã, e a essa hora eu não podia ainda estar a dormir. Aliás, lembro-mo muito bem do despertador tocar e de ter saltado da cama, assim como me lembro de estar a comer as torradas do pequeno-almoço, tendo sido nesse momento que ocorreu o acidente com o gancho da placa esquelética.
Cheguei à conclusão de que meter debaixo da língua um toalhete molhado seria a melhor maneira de evitar a saída do sangue pela boca, embora notasse que a hemorragia continuava, ao ponto de já ter utilizado meia dúzia de toalhetes, que ia deitando na tulha da roupa suja, devidamente embrulhados em tiras de papel higiénico. Depois, passei a embrulhá-los em papel de jornal, por me parecer que os isolava melhor, evitando assim manchar de sangue a outra roupa.
Resolvi também tirar a camisa, a única camisa de linho que possuía, e daí a razão de gostar muito dela e de a vestir mais vezes. E foi nesse momento que comecei a sentir falta de ar. Primeiro, julguei tratar-se de uma somatização dos sintomas da minha ansiedade, o aparecimento de uma anormalidade física, desencadeada pelo medo. Mas, já na rua, à procura de um táxi, que me transportasse ao banco de urgência, sentia que a dificuldade em respirar começava a aumentar. Tentei controlar o meu pensamento, pois sabia que quanto mais pensasse na hemorragia, mais agravava aquela sensação de falta de ar, que me obrigava a fazer inspirações profundas, para resistir melhor. Comecei a concentrar-me na imagem do peixe a morder o anzol, que me tinha surgido na casa de banho, quando tentava retirar da língua o gancho da placa esquelética. Tive de aplicar toda a minha energia mental, adquirida na prática do yoga, para esquecer a dor do ferimento e para superar a ansiedade.
Mas, quando já tinha iniciado o exercício de concentração, alarmei-me com a constatação de que os táxis vinham todos ocupados e que o trânsito fluía lentamente. Um novo alarme fez-me estremecer, ao ponto de sentir as pernas a fraquejar. Fiz as contas. Por este andar arriscava-me a morrer asfixiado, ali, no passeio, ou dentro do táxi, ensarilhado no tumulto do trânsito. Seria o cúmulo do azar, morrer ali, desamparado, com o hospital a uma centena de metros, apenas porque, inicialmente e por cautela, não quis arriscar fazer o respectivo percurso a pé. Mas foi isso que, perante a dificuldade de apanhar um táxi vazio, decidi fazer, confiante na minha capacidade de conseguir domesticar o ciclo respiratório, enquanto impunha um ritmo seguro e regular às minhas passadas. Desci a avenida e cortei para o jardim do Repuxo, para atalhar caminho, e ao olhar para a fonte, no meio do jardim, com uma enorme taça de pedra, na base, cheia de líquenes, fui acometido por uma sede intensa, ao ponto de não resistir a inclinar-me para a carrancona de pedra que deitava água por um cano enfiado na boca. Senti uma sensação agradável ao beber aquela água e receber os seus salpicos na cara. Um impulso mais, e de uma forma irresistível, enfiei a cabeça debaixo do cano. Deixei-me ficar ali, a saborear o prazer provocado pela água a correr-me pela cabeça, embora, assim de repente, aquelas duas protuberâncias, atrás das orelhas, tivessem começado a latejar. Ao incómodo motivado pela falta de hábito, começou a sobrepor-se a doce sensação da quietude do meu corpo, ao ponto de ter esquecido a dor na língua e de a respiração ter retomado o seu ritmo normal. O que me surpreendeu foi aquela sensação de habitar um corpo revigorado por novas forças, que já me vinham faltando, durante a caminhada.
Entretanto, a hemorragia continuava. Enfiei um novo toalhete debaixo da língua, e reiniciei a minha marcha, agora mais apressada, pois uma tão grande perda de sangue começava a preocupar-me. Mal iniciei a caminhada, um relâmpago atravessou-se no pensamento, iluminando um súbito pressentimento. Voltei atrás e olhei para o tanque e, para meu espanto, não vi na superfície da água vestígios de sangue, embora tivesse a certeza de que o toalhete, que tinha atirado, momentos antes, para o caixote do lixo, ali ao lado, parecesse o tal molusco avermelhado e viscoso.
Estranho, disse para mim. Tenho de falar ao médico deste pormenor, que não deverá ser insignificante, pois nunca se viu uma ferida deixar de sangrar subitamente, para depois, passados uns minutos, ser novamente necessário utilizar um toalhete para estancar o sangue. E foi a meio deste solilóquio que as protuberâncias começaram a doer-me, enquanto latejavam com mais intensidade, emitindo um som estranho, muito parecido com o som gutural, provocado pela libertação da expectoração. Estanquei a marcha, e um novo relâmpago atravessou-me a cabeça e o corpo, deixando no seu rasto uma queimadura profunda e inquietante. Uma nebulosa translúcida fixou-se nos olhos e comecei a ver os objectos, as casas e as pessoas a flutuarem no ar, numa realidade etérea, que eu não compreendia. As pessoas, lá nas alturas, em diversos patamares, adquiriam aquela postura repousada de quem vai numa escada rolante. Umas diziam-me adeus, outras faziam-me caretas e algumas insultavam-me. As crianças riam-se e atiravam-me pedras e pedaços de madeira. Até um polícia, lá do alto, que deslizava ao lado de uma velhinha, apoiada numa bengala, me ameaçou com o cassetete em punho. As pessoas já eram tantas, por cima da minha cabeça, vindas de todas as direcções, e cruzando-se umas com as outras, que eu comecei a correr desalmadamente, com o meu pensamento fixado na nebulosa esbranquiçada, que cobria os meus olhos. Pisei os canteiros do jardim, derrubando as plantas à minha passagem. Atravessei-me à frente dos carros, empurrei pessoas num passeio. Vi, finalmente um táxi livre. Filho da puta, que não apareceste, quando eras preciso, gritei, furioso, para o taxista, que travou de repente, ficando a olhar para mim com um ar aparvalhado, enquanto eu continuava aquela correria louca, assustando as pessoas, que faziam alas para me dar passagem.
Eu estava a ser guiado por aquela névoa, que me cobria os olhos, e ao passar por uma montra com vidros espelhados pude ver que eles eram grandes e redondos, cobertos por uma membrana gelatinosa, e era devido a essa membrana que eu via, de dentro de mim, a nebulosa translúcida e esbranquiçada, que me apontava o caminho a seguir. Ainda tive tempo de ver as duas protuberâncias que, entretanto, tinham incorporado as orelhas, dando ao meu rosto um aspecto espalmado.
Já uma multidão vinha no meu encalço, gritando e agitando freneticamente os braços. As pessoas, que flutuavam por cima da minha cabeça, como se fossem transportadas por uma passadeira rolante aérea, olhavam-me com um misto de desprezo e de comiseração.
A névoa já estava a indicar-me que o fim da correria estava a chegar ao fim, e, naquele momento, era o que mais ansiava, pois a respiração começava a claudicar e as pernas falhavam constantemente. Até que cheguei ao cais das colunas, depois de atravessar a grande praça ladrilhada. Veio o cheiro da maresia dilatar-me as narinas. O vento marítimo adoçava-me a cara afogueada. Ao longe, o silvo agudo dos navios, a entrarem no porto.
Parei no muro do cais, e olhei aquele lençol de água do estuário, uma lâmina espelhada a reverberar a luz do sol. Dei um salto e mergulhei na água, até ao fundo. Dejectos e mais dejectos, a carcaça enferrujada de um automóvel, cercado de peixes, muitas garrafas de vidro, botijas de gás e até um caixote escavacado com armamento militar. O rio era o vazadouro do lixo da cidade, pensei, enquanto dei um impulso ao corpo para vir à superfície e olhar pela última vez a cidade, para depois mergulhar definitivamente nas profundezas, pensando que só regressaria a terra, se um outro anzol viesse a prender-se na minha língua ou se ficasse enrolado nas malhas de uma rede de arrasto.
***
Lembro-me de começar a ver um ponto brilhante e um sussurro de vozes à minha volta, enquanto, num lento acordar, ouvia os meus gemidos e sentia fortes dores no corpo, como se um pesadelo se tratasse. Os olhos abriram-se lentamente, e movi os dedos da mão a tentar tactear a realidade, mas rapidamente fechei as pálpebras, agredido pela luz intensa e branca que vinha de um objecto em forma de disco. Julgo que, por breves momentos, voltei a adormecer, como se o corpo se recusasse a sair do limbo inconsciente, e quando voltei a abrir os olhos, vi a cara circunspecta de um homem a aproximar o seu rosto do meu, olhando-me fixamente, através de uns olhos muito azuis, enquadrados por uns óculos de aros metálicos e finos. Com uma pequena lanterna apontou-me um foco de luz para cada uma dos meus olhos, e com os dedos delicados, que eu senti frios, revirou-me as pálpebras. Como se sente, perguntou-me, com uma voz suave, que me pareceu longínqua, vinda como um eco do fundo do tempo.
E foi então que eu lhe disse que a sua cara estava a transfigurar-se lentamente, ficando cada vez mais espalmada, e parecendo-me estar a ver um peixe muito grande, de olhos líquidos esbugalhados. Levantou-se de repente e disse a alguém, que eu do meu lugar não podia ver, para me dar outra injecção e deixar-me amarrado à cama.
Adormeci novamente, julgando que estava no fundo do mar.

Alexandre de Castro

Lisboa, Abril de 2011