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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Testamento Político de D. Luía da Cunha [antecedido por um comentário]

D. Luís da Cunha
(Busto em mármore deJan Baptist Xavery)

O testamento político de D. Luís da Cunha é um dos textos políticos doutrinários mais importantes da História de Portugal. Nele, o aristocrata e diplomata, o homem culto e com uma clara visão estratégica, define a nova concepção do poder político para Portugal, importando e adaptando sabiamente as ideias que já estavam a ser implementadas na Europa no século XVIII: um poder autoritário, centrado na figura do monarca, mas que, ao assumir-se como agente conciliador dos interesses contraditórios das várias classes sociais, promovesse o avanço económico, fomentasse a formação de elites esclarecidas e melhorasse o bem-estar geral da população (de acordo com o contexto dominante e a escala de valores da época).
Foi neste caldo político e cultural da Europa de setecentos que ocorreu o advento da primeira revolução industrial e se fomentou o aparecimento de novas concepções do comércio nacional e internacional (a globalização daquele tempo). Foi também durante a época do Iluminismo que começaram a surgir, com os enciclopedistas, as novas ideias liberais, abrindo-se assim o caminho para a grande Revolução Francesa.
D. Luís da Cunha, ao propôr o nome do futuro Marquês do Pombal ao príncipe herdeiro, D. José, para ministro do Reino, e aconselhando uma investidura com ampla delegação de poderes, estava a sugerir a assumpção da figura do “déspota esclarecido”, que, com a razão da Luzes e uma vontade política assente numa férrea autoridade, conduzisse o atrasado e empobrecido Reino pela senda do progresso. E Pombal desempenhou bem esse papel, apesar de ter recorrido a métodos brutais para impor a sua vontade. Mas, com a morte do Rei e com a subida ao trono da beata D. Maria I, o clero e a nobreza – portadores de um atavismo secular, de que ainda hoje sobram resquícios na sociedade portuguesa, impenitentemente avessos ao progresso económico e social, curtos de vista e de inteligência, e avaramente instaladas no cómodo e favorável sistema de rendas, que extorquiam às classes laboriosas – depressa derrubaram Sebastião José de Mello, humilhando-o publicamente, através da sua grotesca exposição aos insultos de uma populaça enfurecida, devidamente açulada dos púlpitos, para o efeito, e acabando por o desterrar para as suas terras de Pombal, onde viria a falecer.
Portugal regrediu novamente, afundando-se no seu endémico e secular marasmo e ostracismo.
O importante texto de D. Luís da Cunha também permite compreender a história política, económica e diplomática do século XVIII, a do Reino e a da Europa. É um documento longo, que se aconselha a ler faseadamente, para, ao mesmo tempo, se poder saborear o magnífico manejo da língua portuguesa por parte do autor, digno herdeiro de Vieira, na elegância e rigor das frases, na lógica discursiva e na profundidade e amplitude das ideias expressas.
Como diplomata, registe-se a sua astúcia e determinação, bem ilustrada no episódio em que o cardeal-ministro Alberoni, de Espanha, lhe voltou ostensivamente as costas durante uma audiência. D. Luís da Cunha não desarmou. Avaliando a fragilidade do governo de Madrid, a braços com um uma guerra com a França, exigiu vigorosamente públicas desculpas pela ofensa feita, na sua pessoa, ao governo de Portugal, e ameaçou com o corte de relações diplomáricas, o que logo foi entendido, pelos espanhóis, como uma ameaça velada ao estabelecimento de uma aliança de Portugal com a inimiga França. D. Luís da Cunha acabou por obter a rectificação do incidente, assim vergando a espinha do cardeal-ministro e domesticando a arrogância da orgulhosa Espanha.
Verney, Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e o Marquês do Pombal foram, em Portugal, as figuras marcantes do século das Luzes, figuras estas que, depois, tiveram o seu contrapeso, já no final do século, no sinistro Pina Manique, o célebre Intendente-Geral, que via pedreiros-livres por baixo de todas as pedras das calçadas.
Ocorreu-me esta ideia, a de ressuscitar o documento de D. Luís da Cunha (documento e personalidade, ambos mal conhecidos pela opinião pública) e de tecer breves considerações sobre o Portugal do século XVIII, no momento em que decorre a farsa televisiva da eleição do melhor português de sempre, e onde se assistiu à glorificação de mafiosos célebres, de futebolistas e fadistas analfabetos e de antigos governantes bolorentos, de má memória, e ignorando-se muitas personalidades ilustres que, no passado, dignificaram o País.
Eu, por mim, votei no Zé do Telhado, lendário salteador de Entre-Douro e Minho, cuja imagem melhor retrata este país. Para mais, este bandoleiro simpático tinha por hábito redistribuir uma parte do pecúlio dos seus saques pela gente pobre e necessitada. Também Camilo Castelo-Branco, que o conheceu, e sobre ele escreveu, não foi insensível à sua aura.

Alexandre de Castro
Fevereiro de 2007

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A propósito do Testamento Político de D. Luís da Cunha

D. Luís da Cunha
(Busto em mármore deJan Baptist Xavery)
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O testamento político de D. Luís da Cunha é um dos textos políticos doutrinários mais importantes da História de Portugal. Nele, o aristocrata e diplomata, o homem culto e com uma clara visão estratégica, define a nova concepção do poder político para Portugal, importando e adaptando sabiamente as ideias que já estavam a ser implementadas na Europa no século XVIII: um poder autoritário, centrado na figura do monarca, mas que, ao assumir-se como agente conciliador dos interesses contraditórios das várias classes sociais, promovesse o avanço económico, fomentasse a formação de elites esclarecidas e melhorasse o bem-estar geral da população (de acordo com o contexto dominante e a escala de valores da época).
Foi neste caldo político e cultural da Europa de setecentos que ocorreu o advento da primeira revolução industrial e se fomentou o aparecimento de novas concepções do comércio nacional e internacional (a globalização daquele tempo). Foi também durante a época do Iluminismo que começaram a surgir, com os enciclopedistas, as novas ideias liberais, abrindo-se assim o caminho para a grande Revolução Francesa.
D. Luís da Cunha, ao propôr o nome do futuro Marquês do Pombal ao príncipe herdeiro, D. José, para ministro do Reino, e aconselhando uma investidura com ampla delegação de poderes, estava a sugerir a assumpção da figura do “déspota esclarecido”, que, com a razão da Luzes e uma vontade política assente numa férrea autoridade, conduzisse o atrasado e empobrecido Reino pela senda do progresso. E Pombal desempenhou bem esse papel, apesar de ter recorrido a métodos brutais para impor a sua vontade. Mas, com a morte do Rei e com a subida ao trono da beata D. Maria I, o clero e a nobreza – portadores de um atavismo secular, de que ainda hoje sobram resquícios na sociedade portuguesa, impenitentemente avessos ao progresso económico e social, curtos de vista e de inteligência, e avaramente instaladas no cómodo e favorável sistema de rendas, que extorquiam às classes laboriosas – depressa derrubaram Sebastião José de Mello, humilhando-o publicamente, através da sua grotesca exposição aos insultos de uma populaça enfurecida, devidamente açulada dos púlpitos, para o efeito, e acabando por o desterrar para as suas terras de Pombal, onde viria a falecer.
Portugal regrediu novamente, afundando-se no seu endémico e secular marasmo e ostracismo.
O importante texto de D. Luís da Cunha também permite compreender a história política, económica e diplomática do século XVIII, a do Reino e a da Europa. É um documento longo, que se aconselha a ler faseadamente, para, ao mesmo tempo, se poder saborear o magnífico manejo da língua portuguesa por parte do autor, digno herdeiro de Vieira, na elegância e rigor das frases, na lógica discursiva e na profundidade e amplitude das ideias expressas.
Como diplomata, registe-se a sua astúcia e determinação, bem ilustrada no episódio em que o cardeal-ministro Alberoni, de Espanha, lhe voltou ostensivamente as costas durante uma audiência. D. Luís da Cunha não desarmou. Avaliando a fragilidade do governo de Madrid, a braços com um uma guerra com a França, exigiu vigorosamente públicas desculpas pela ofensa feita, na sua pessoa, ao governo de Portugal, e ameaçou com o corte de relações diplomáricas, o que logo foi entendido, pelos espanhóis, como uma ameaça velada ao estabelecimento de uma aliança de Portugal com a inimiga França. D. Luís da Cunha acabou por obter a rectificação do incidente, assim vergando a espinha do cardeal-ministro e domesticando a arrogância da orgulhosa Espanha.
Verney, Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e o Marquês do Pombal foram, em Portugal, as figuras marcantes do século das Luzes, figuras estas que, depois, tiveram o seu contrapeso, já no final do século, no sinistro Pina Manique, o célebre Intendente-Geral, que via pedreiros-livres por baixo de todas as pedras das calçadas.
Ocorreu-me esta ideia, a de ressuscitar o documento de D. Luís da Cunha (documento e personalidade, ambos mal conhecidos pela opinião pública) e de tecer breves considerações sobre o Portugal do século XVIII, no momento em que decorre a farsa televisiva da eleição do melhor português de sempre, e onde se assistiu à glorificação de mafiosos célebres, futebolistas e fadistas analfabetos e antigos governantes bolorentos e de má memória e ignorar muitas personalidades ilustres que dignificaram o País.
Eu, por mim, votei no Zé do Telhado, lendário salteador de Entre-Douro e Minho, cuja imagem melhor retrata este país. Para mais, este bandoleiro simpático tinha por hábito redistribuir uma parte do pecúlio dos seus saques pela gente pobre e necessitada. Também Camilo Castelo-Branco, que o conheceu, e sobre ele escreveu, não foi insensível à sua aura.

Alexandre de Castro
Fevereiro de 2007
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Nos próximos dias, serão publicadas, em separado. as três partes que compõem o "Testamento Político de D. Luís da Cunha".

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Carta de um amigo: Sobre as teocracias


Caro P...
Subscrevo inteiramente o texto enviado em anexo, no que diz respeito ao martirizado povo da Palestina. No entanto, coloco algumas reservas à bondade do autor em relação ao regime dos ayhatolas do Irão. Aí a história é outra, pois repudio qualquer tipo de teocracia, seja ela islâmica, cristã ou de qualquer outra religião. As teocracias degeneram sempre em brutais ditaduras, não admitindo desvios às rígidas normas impostas, invocando-se sempre o nome de Deus. E eu defendo intransigentemente os valores da Liberdade, da Laicidade e da Democracia.
Um abraço
Alexandre de Castro

sexta-feira, 25 de março de 2011

Coisas que eu escrevi: Mais uma oportunidade perdida na Educação

A propósito da aprovação do fim do modelo de avaliação dos professores pela Assembleia da República, achei oportuno recuperar para aqui um texto que publiquei no Jornal do Douro, em 18 de Fevereiro de 2009, onde abordo, de forma genérica, o enquadramento metodológico de um processo de avaliação.
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Mais uma oportunidade perdida na Educação
O diferendo entre os professores e o Ministério da Educação chegou ao ponto do vómito.
Sou dos que defendem a adopção do processo de avaliação em todas as actividades e profissões e em todos os escalões hierárquicos, exceptuando aqueles que, derivando da nomeação política, são avaliados pelos mecanismos eleitorais, e, no caso das empresas privadas, os dirigentes superiores, os o topo, que são os respectivos proprietários ou os que por eles são designados.
Mas, para que o processo não seja desvirtuado por favoritismos nem inquinado por pressupostos subjectivos, defendo que todo o processo de avaliação, na forma e no conteúdo, deve obedecer aos seguintes princípios gerais:
- A avaliação é um processo contínuo que deve acompanhar a evolução de toda actividade profissional, mas que implica a obrigatoriedade da existência de uma formação inicial e de um escalonado processo de formação contínua.
- A avaliação tem por objectivo único melhorar os desempenhos profissionais, estimulando e gratificando os aspectos positivos, tentando recuperar os aspectos negativos, através de estratégias simples e convenientemente dirigidas, e nunca podendo ser utilizada para reprimir ou humilhar.
- A avaliação será sempre da responsabilidade do superior hierárquico imediato, que será solidário com os objectivos dos seus subordinados, uma vez que o seu próprio êxito depende do êxito de todos eles. É nesta partilha obrigatória das responsabilidades que repousa a garantia de independência da avaliação. Quem dirige subordinados e lhes avalia desempenho também será avaliado, ao nível do escalão imediatamente superior, pela forma como dirige e avalia. Aqui reside uma outra garantia para despistar erros, prepotências ou favoritismos.
- Os parâmetros a avaliar devem ser desenhados na base de um profundo conhecimento dos perfis das respectivas actividades profissionais, recorrendo-se às mais diversas fontes de informação para os elaborar, a que se acrescentarão todos aqueles que são comuns a todas elas e também os que o bom senso aconselhar.
- O processo de avaliação é uma importante ferramenta da gestão de recursos humanos e não pode estar desligada dos planos de actividades, quer os gerais e de longo prazo, quer os específicos e de médio ou curto prazo, estes últimos preferencialmente orientados para a correcção das deficiências entretanto diagnosticadas. E qualquer plano de actividades deve conter obrigatoriamente os objectivos, realisticamente definidos com clareza e rigor e perfeitamente alcançáveis com o desenvolvimento das performances esperadas. Evitar os exageros da ambição desmesurada e, em sentido contrário, os da modéstia paralisante é a regra de ouro da tarefa do estabelecimento de um qualquer objectivo. Ignorar esta regra é contribuir para o insucesso e para a frustração de quem trabalha.
Os meios necessários a utilizar para atingir os objectivos constituem o segundo pilar do plano de actividades. Sem os meios considerados minimamente necessários é impossível, à partida, atingir os objectivos. O terceiro pilar, o do desenvolvimento das acções, será monitorizado e acompanhado, no sentido de avaliar e de corrigir a sua implementação. E é nesta fase que devem surgir planos específicos para ultrapassar pormenores do desempenho, mas que se revelam decisivos para o cumprimento dos objectivos finais do plano de actividades. Por fim, o plano de actividades contempla a avaliação final, na base dos parâmetros previamente escolhidos e que digam respeito à actividade desenvolvida.
- Todas as etapas deste processo, os planos de actividades e os resultados das avaliações serão reduzidas a escrito de uma maneira simples e objectiva, renunciando-se à sua burocratização. O processo tem de ser visto como um compromisso entre quem dirige e avalia e de quem executa e é avaliado. Como se trata de um compromisso, o processo exige um diálogo franco e aberto e a plena aceitação por ambas as partes, exigência esta que é indispensável para garantir a credibilidade e a fiabilidade da avaliação.
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Cultura institucional e empresarialEnumerados os principais princípios que devem nortear o processo de avaliação profissional, e não abordando outros por manifesta impossibilidade de sobredimensionar este texto, impõe-se uma advertência ao nível das atitudes e dos comportamentos de quem trabalha numa instituição pública ou privada. Trata-se do ambiente cultural orientado para o rigor e para a eficiência, ambiente cultural este que se vai desenvolvendo à medida que progride o enraizamento das boas práticas da gestão de pessoal, de que os diferentes planos de actividades e os processos de avaliação são peças importantes.
Outra advertência importante reflecte-se na necessidade flexibilizar o processo de avaliação, adaptando-o constantemente à necessidade de o utilizar no sentido de valorizar o desempenho, de recuperar os pontos negativos e de motivar quem trabalha, e recusando liminarmente modelos rígidos, modelos autoritários e modelos permissivos.
Nenhum modelo poderá ser considerado totalmente adquirido e definitivo. Para ser válido e útil, ele tem de ser aperfeiçoado ao longo do tempo, após o cruzamento das experiências anteriores e da discussão dos problemas surgidos, discussão essa a desenvolver-se na estrutura organizacional, a vertical e a horizontal. Ninguém pode considerar-se diminuído por ter errado, e isto deve aplicar-se ao avaliado e ao avaliador. O importante é reconhecer-se o erro e encontrar uma solução para o ultrapassar.
Acima de tudo tem de imperar o bom senso e evitar as decisões precipitadas que desacreditem os fundamentos de um processo de avaliação sério, construtivo, dinâmico e maleável, e de reconhecida utilidade para quem pretenda trabalhar com método, rigor e entusiasmo. Um processo de avaliação atinge o seu “ponto de rebuçado”, quando todos, avaliadores e avaliados, nele se reconhecerem, depois de, na prática, o terem interiorizado e assimilado.

Faltou sensibilidade à ministraQuem se der ao trabalho de examinar com atenção o encavalitado questionário que o Ministério da Educação pretendeu implementar por decreto, evidenciando uma obsessão centralizadora e pouco clarividente, e não deixando margem de manobra para que, verticalmente, se envolvessem todas as estruturas intermédias na discussão criativa do respectivo processo, irá reparar que não obedece aos princípios aqui enunciados. E a ministra da Educação veio de uma escola superior onde existem especialistas consagrados nesta matéria. Bastava ouvi-los e pedir-lhes a colaboração.
O questionário tem a mesma estrutura do check list que os pilotos utilizam antes de levantar voo. E os professores, que se saiba, não são máquinas nem têm vocação para voar.
A intenção subjacente é repressiva e não contempla nenhum modelo de correcção e de recuperação dos erros e defeitos evidenciados pelo avaliado, nem também contempla o acompanhamento construtivo, por parte do avaliador, que aparece aqui, apenas porque pertence a um escalão superior, o de professor titular, e que não se encontra comprometido com os resultados finais dos avaliados que lhe calharam na rifa. Este processo tortuoso tem todos os ingredientes para se prestar a favoritismos de toda a ordem e ao nepotismo silencioso daqueles que detêm poder e influência.
Mas se o Ministério, ao desvirtuar a nobre essência da avaliação dos professores, avaliação esta que é urgente implementar para que a Educação ultrapasse as suas entorses, provocou uma onda de justos protestos, os sindicatos, por outro lado, com alguma arrogância e arrivismo, obrigaram a deslocar o problema para o plano político, descentrando-o do patamar técnico onde ele deve situar-se, ao mesmo tempo que “proletarizaram” uma classe que, acima de tudo, necessita do reconhecimento público da sua importante e estratégica função, a de educar as novas gerações, com exigência e rigor.
Ninguém ignora que há bons e maus professores. Também é consensual que os maus resultados dos nossos alunos, em relação ao espaço político e económico em que nos inserimos, resultam também da má preparação de muitos professores. Também sabemos o que significam as promoções automáticas num exército onde todos os soldados têm garantido o generalato. Também não escapou à atenção dos cidadãos mais interessados a partidarização e os consequentes favoritismos que o processo de eleição dos corpos directivos das escolas tem fomentado.
Não se sabe ainda qual o desfecho desta luta, que incomodou a sociedade portuguesa. O que já se sabe, é que, mais uma vez, se perdeu uma oportunidade para valorizar o nosso sistema de ensino, valorização que é urgente e imperiosa se não quisermos afastarmo-nos mais dos nossos parceiros europeus. E não nos admiremos se, amanhã, os alunos também começarem a recusar a sua avaliação.

Nota: Quando um qualquer procedimento, neste caso um procedimento administrativo, relativo ao processo de avaliação, se torna obsessivo, na sua tentativa de impor um modelo totalitário, de pensamento único, ultrapassa-se a fronteira do tolerável e do bom senso.
Foi o que se passou num hospital público de Lisboa, onde o processo de avaliação já está a ser aplicado ao pessoal administrativo (já adivinho o deflagrar da próxima guerra, quando a avaliação se alargar aos profissionais de saúde).
Um diligente administrador hospitalar resolveu querer aplicar ao capelão a respectiva grelha de avaliação, já que este prestava um serviço remunerado pelo Estado. Indignou-se o padre com a afronta, que, de tal maneira irado, não a escondeu do conhecimento de terceiros e não se sabe se, até, não fez estremecer de medo o próprio Deus.
Também ainda não se sabe se o dito administrador, perante a impossibilidade de poder presenciar certos actos do múnus sacerdotal, para os poder avaliar, usufrui de alguma prerrogativa especial de acesso a uma qualquer porta celestial, onde do próprio Deus pudesse vir a recolher o testemunho directo sobre o desempenho profissional do capelão, a saber: se ele confessava os crentes bem ou mal, se as penitências eram as mais acertadas, de acordo com a doutrina, e, também, se as extremas-unções tinham atingido os objectivos pretendidos, o da remissão dos pecados do moribundo.
Este é um exemplo de como a cegueira, que não a visual, pode, de repente, transformar uma boa ideia numa má prática, transformando assim a realidade numa aberrante caricatura.
Alexandre de Castro

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Coisas que eu escrevi: A vida desalmada de Jorge Burriços


Jorge Burriços, olhos vidrados pelo efeito dos dois bagaços bebidos, logo de manhã, no café da praça, aguarda pacientemente o seu lugar na longa fila de espera para marcar uma consulta encomendada no centro de saúde de Sacavém. Ocupa o meio de fila, o que indicia ter chegado por volta das seis horas da manhã, e aguarda pacientemente que um diligente funcionário franqueie a porta às mais de oitenta pessoas que ordenadamente marcam a sua posição de chegada através de uma senha de presença.
Mas, Jorge Burriços, mal alcança a almejada senha, esgueira-se pela porta e vai direitinho entregá-la a casa do cliente que lhe encomendou aquele serviço. Cobra cinco euros pelo incómodo da chuva, do vento, do frio e do tempo de espera. Desta vez até tirou duas senhas, recorrendo a um hábil estratagema, e este serviço vai render-lhe 10 euros para gastar no festival de álcool a que se entrega diariamente. “Apanho duas bebedeiras por dia”, afirmou convicto, assumindo a sua relação viciada com o álcool, embora por vezes o dissimule num pacote de leite.
Foi por causa do álcool que desfez o seu casamento, engendrado pela tia que o criou, e “que o queria ver arrumado e com juízo antes de morrer”. No meio de mais uma embriaguez que lhe atiçou a coragem, disse à mulher, num rompante, para se ir embora com o filho e a filha, pois a vida para ele “resumia-se ao álcool e às putas”. Deu-lhe dinheiro suficiente para comprar um andar, acordou uma pensão, e, Jorge Burrico, ficou com a vida livre para se entregar à boémia, na qual esbanjou perdulariamente a choruda herança de seu pai, que esteve cativa nas mãos da sua tia-tutora até à sua maioridade. Sucessivamente, à medida que o vício progredia e requeria mais requinte, aumentava a voragem da delapidação dos bens herdados. E nessa vertigem, desfez-se do estabelecimento do pai, onde se teceu parte da fortuna, e de cinco andares de habitação. “Só não vendo um andar”, afirma, lançando um desafio à curiosidade do interlocutor, através daquele olhar vesgo. E responde, mal reprimindo o gozo de lhe adivinharem uma réstia de submissão aos princípios da boa gestão de bens patrimoniais: “Só não vendo o andar das minhas pernas”.
E é entre mais dois golos de bagaço, “para aquecer, que a manhã está fria”, que confessa o estratagema do negócio das senhas de marcação de consultas médicas no centro de saúde, negócio este que não iguala em subtileza a venda da sua carta de condução e do seu bilhete de identidade a um cigano, que queria ser cidadão encartado, ou a plena assumpção do papel de testemunha perante o Registo Civil de um casamento de conveniência, para efeitos de aquisição de nacionalidade, entre um indiano e uma portuguesa.
E se lhe apontam o comportamento incorrecto dos seus estratagemas, incluindo o da marcação de consultas no centro de saúde ou a venda aos restaurantes de embalagens de leite e de carne, à beira da expiração do respectivo prazo de validade, recolhidas nos contentores de um grande hipermercado de Sacavém, responde serenamente que ao longo da sua vida também já teve muitos actos de generosidade para com o seu semelhante. E no meio dos vapores de mais outro bagaço, este emborcado num travo, recorda a oferta de 100 contos, há mais de 20 anos, a uma prostituta do Intendente, que lhe confessara no meio do fogo dos amores comprados, “ter-se metido na vida” para amealhar algum dinheiro “para uma operação aos olhos do filho, em Espanha”.
E quando Jorge Burriços se atrevia a descrever a saga de uma louca paixão por uma linda cigana, com quem fugiu, e a consequente perseguição, com intuitos vingativos, que lhe foi movida pelos familiares desonrados, que não admitiam casamentos fora do clã, a voz da dona do café avisou: “Jorge, amanhã vais marcar-me uma consulta ao centro”.
Com o negócio selado para o dia seguinte, Jorge Burriços, atravessou a praça com destino ao mercado, onde os seus amigos ciganos lhe garantem “alguns biscates”.
***
Este texto, publicado no jornal A Capital, em 25 de Janeiro de 2003, constituiu um nota à margem de uma reportagem no centro de saúde de Sacavém, onde procurei retratar, tal como fiz nos centros de saúde de Sintra e de Paço d'Arcos, o emergente problema da falta de médicos de família nas zonas limítrofes de Lisboa, o que obrigava os utentes a marcar posição muito cedo para se inscreverem na consulta do médico de turno. Testemunhei o sofrimento de idosos doentes à espera da sua vez, numa fila interminável, sofrendo resignadamente na pele as inclemências da invernia, que era o preço que tinham de pagar para usufruirem de um direito que a Constituição da República lhes outorgou. Fui o primeiro jornalista a levantar o assunto na comunicação social, mas as minhas reportagens não comoveram os poderes instituídos. Hoje, em 2011, a falta de médicos de família constitui a maior entorse do funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Coisas que eu escrevi: Homenagem a João Abel Manta


João Abel Manta – um percurso de arte e de intervenção
João Abel Manta nasceu em Lisboa em 29 de Janeiro de 1928. Filho de pintores – Abel Manta e Maria Clementina Carneiro de Moura – a sua infância e adolescência foram indelevelmente marcadas pelas influências culturais, artísticas e políticas de seus pais. Na juventude, J. Abel Manta teve a oportunidade, rara para um jovem daquela época, de viajar pela Europa culta, visitando a Espanha, França, Itália e os Países-Baixos, onde, sob a orientação dos pais, conheceu as grandes obras de pintura e de escultura da Antiguidade Clássica e da Renascença, e que vieram a moldar a sua formação.
Entretanto, concluiu, em 1951, o seu curso de Arquitectura, na Escola de Belas Artes de Lisboa.
Mas foi no desenho que J. Abel Manta se destacou, aliando a sua formação plástica, à sua cultura e à sua intervenção política. Já nos anos quarenta, ficou célebre o seu desenho caricatural de um grupo de intelectuais, ao qual pertenciam Lopes Graça, Manuel Mendes e o seu próprio pai, que ele por vezes acompanhava, e que se reuniam em tertúlia no Café Martinho e na Brasileira do Chiado. O grupo é retratado como uma banda de música, sob a batuta de Lopes Graça. É também nessas tertúlias que J. Abel Manta, com a sua potencial irreverência, desperta para a política e começa a empenhar-se em acções contra a ditadura do Estado Novo, acabando também por sofrer a repressão impiedosa da PIDE, que o manteve preso, durante alguns meses, em 1958.
As influências artísticas são múltiplas, mas J. Abel Manta construiu o seu próprio estilo, quer no desenho, quer na ilustração e nos célebres cartoons.
Ganhou, em 1961, o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, e, em 1965, na cidade de Leipzig, conquistou a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas. Para além destes certames, esteve presente na II Bienal de São Paulo, nas mostras internacionais Di Bianco e Nero, em Lugano, assim como nas exposições internacionais de Tóquio e Medellin – Colômbia. Expôs também individualmente em Londres, no I.C.A.
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OS TRÊS PILARES DO REGIME
A obra pictórica de João Abel Manta agarra toda a tragédia de um país que viveu uma feroz e castradora ditadura e que acabou por desembocar numa madrugada redentora, para reinventar a sua identidade. Atento, culto, perspicaz, J. Abel Manta faz de cada traço das suas caricaturas e dos seus desenhos uma metáfora das contradições de uma sociedade amarrada aos seus fantasmas, aos seus medos e às suas glórias passadas. Daí a sua opção pelo risco negro, pela deformação das formas anatómicas, a carregarem um cenário de pesadelo e de angústia, inserido em atmosferas lúgubres. E é desse cenário fantasmagórico que as personagens retratadas ganham vida e significado, conduzindo o observador ao pensamento crítico pretendido.
As caricaturas magistrais de Salazar, sempre de casaca preta e de nariz pronunciadamente adunco, como se tratasse de uma ave nocturna agoirenta, apresentam-no tal como ele era na realidade – um misterioso solitário, que governava sozinho, bajulado pelos poderes que o apoiavam, mas que ele próprio displicentemente desprezava. Veja-se como J. Abel Manta coloca Salazar a virar as costas aos acólitos dos três pilares do regime – as Forças Armadas, o clero, e os banqueiros – nos três cartoons que, no seu conjunto, constituem um tríptico notável, onde também sobressai, como J. Abel Manta queria dizer, a ordenada subserviência dessas teatrais personagens, ali bem enfileiradas e disciplinadas, em ordeira e solene sessão de vassalagem.
Numa penada, foi feita, para uma leitura imediata, uma caracterização perfeita do Estado Novo, onde também se manifesta, em toda a sua pujança, o subtil e corrosivo humor de J. Abel Manta.
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João Abel Manta e a revolução
João Abel Manta foi um militante anti-fascista e, como todos os democratas, recebeu com alegria e de braços abertos a revolução de Abril. No entanto, esse entusiasmo não obnubilou a sua aguda percepção da nova realidade em movimento, nem a sua perspicaz capacidade crítica, perante as contradições inerentes ao processo revolucionário. Manteve-se fiel a tudo o que se exige de um cartoonista, libertando numa gargalhada o ridículo de tudo aquilo que, sendo verdade, também era caricato. Não cedeu a tentações laudatórias, nem abdicou de fazer valer a inteligência do seu traço.O cartoon em que os notáveis do marxismo-leninismo internacional, em magote, olham com um ar muito sério para um ecrã, onde figura solitariamente o mapa de Portugal, exprime bem a subtileza do seu humor. Salta à vista a perplexidade daqueles marxistas-leninistas que não sabem o que fazer deste pequeno país que fez uma revolução. Sabendo-se que a União Soviética não estaria interessada em fazer de Portugal uma nova Cuba, a mensagem ganha a sua verdadeira actualidade satírica. O mesmo se poderá dizer do cartoon dedicado às campanhas de dinamização cultural do MFA, em que um povo analfabeto recebe de barrete na mão a elite cultural europeia de todo o século XX. A picardia está lá. A João Abel Manta não escapou a ingenuidade romântica da iniciativa, e caricaturou-a com mestria.
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Nota: Estes textos foram escritos, a pedido da minha amiga, a médica Drª Pilar Vicente, para figurarem nos painéis com as caricaturas da autoria de João Abel Manta, numa exposição em homenagem a este grande artista plástico, realizada no Hospital de S. José, em Lisboa, e integrada nas comemorações do 25 de Abril, em 2009.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Coisas que eu escrevi: Reencontro...


Reencontro...

A emoção carregava-me os olhos e tolhia-me os sentidos. Um turbilhão de imagens a rasgar a dureza da memória de meio século de distância. Ali estava o velho portão do Liceu de Lamego, aquele mesmo portão que precisamente há cinquenta anos franqueei pela primeira vez, de olhos esbugalhados pelo espanto e com aqueles gestos imberbes e tímidos do alvorecer da adolescência. Fiz as contas. Eram mesmo cinquenta, os anos que mediavam entre 1954 e 2004! Meio século de ausência. Meio século de memórias repassadas, algumas diluídas pela ingrata correria do tempo, a transfigurarem a própria realidade vivida, outras, a reavivarem-se numa nitidez precisa, de cores, formas e ambiências, como se esse tempo tivesse ficado imóvel até este tardio reencontro.
Ao lado, também os velhos companheiros desse tempo, que a memória reconstituiu e identificou nos seus traços fundamentais, e que ali estavam a reconciliar-se com o passado longínquo da juventude.
E agora estou aqui, neste espaço íntimo da minha escrita dorida, a celebrar os 150 anos deste Liceu – o meu Liceu - dos anos de encantamento, dos sonhos e das ilusões, das amizades que se ergueram e se firmaram no deslumbramento da juventude - mas também a recordar aqueles que, entre professores e companheiros, definitivamente já partiram.

Alexandre de Castro

Outubro de 2005
Texto incluído numa brochura dos Antigos Alunos do Liceu de Lamego

domingo, 5 de dezembro de 2010

Coisas que eu escrevi: Uma Educação que falhou...

Em Outubro de 2007, escrevi um comentário no blogue abnoxio, a propósito de um texto do poeta Ademar Santos, e que republico aqui, por considerar que continua actual na maioria dos seus pressupostos.
Enquanto Portugal não encarar a sério o sistema educativo, através de uma reforma profunda, que lhe corrija as entorses, não poderá progredir. Recordo as palavras da presidente da Finlândia, quando ela afirmou que o seu país não tinha recursos naturais e que a sua maior riqueza era constituída pelos cidadãos finlandeses, em cuja educação se investiu muito, ao longo dos anos.
Portugal também não tem muitos recursos naturais, e, por isso, numa estratégia de longo prazo, terá de trabalhar muito para que o nível de competências, a todos os níveis, possa suprir aquela carência. Não é com universidades privadas, que mais não passam de supermercados de venda de licenciaturas, que o país poderá formar uma elite qualificada. Não é com a instabilidade criada aos jovens professores, que ainda não entraram no quadro (processo infernal que demora uma dezena de anos, obrigando-os a mudar de escola em cada ano lectivo), que se criam as condições ideais para o exercício pleno da docência. Não é com a mudança constante de currículos, que nunca chegam a amadurecer, que se garante a escolha do melhor modelo. Não é com a influência dos vários lobies, que se consegue implementar um programa nacional educativo coerente. Não é com os facilitismos dos exames e da avaliação, nem com a criação de vias paralelas ao percurso curricular principal, que se desenvolvem competências.
É necessário, urgentemente, inventar o país com uma reforma profunda do sistema educativo, quer no ponto de vista administrativo e organizacional, quer no ponto de vista pedagógico. Caso contrário, não subiremos na escala do desenvolvimento.
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abnoxio
Um murro no estômago da estupidez docente...
No essencial, concordo com a mensagem deste apelo. O que, em geral, se passa diariamente nas salas de aula (digo, nas "jaulas") das nossas escolas é um absurdo, um contra-senso. Os alunos precisam de muito mais do que aquilo que os professores, normalmente, lhes oferecem. Basta ter filhos "escolarizados" e não ser completamente idiota para o perceber.
Posted by Ademar Santos on outubro 26, 2007 09:29 PM

Comentário:
Não perceber o que Ademar Santos afirma, significa ignorar o desastre total a que conduziram as políticas educativas dos sucessivos governos depois do 25 de Abril. Pedagogias erradas, manuais errados, professores mal preparados, pais distraídos, facilitismos aberrantes, um parque escolar improvisado e degradado, na maior parte dos casos, e, ainda por cima, mal concebido para uma escola moderna, reformas sobre reformas, elaboradas numa óptica centralizadora e sem levar em linha de conta as assimetrias regionais e sociais, e uma sociedade que nunca valorizou, nem valoriza ainda, a importância do conhecimento no desenvolvimento harmonioso e equilibrado de um País, tinha de resultar nesta moléstia que é a iliteracia dos portugueses.Um ensino que não aposte no rigor e no trabalho individual de cada aluno, um ensino que não se oriente para o desenvolvimento da capacidade de aprender a saber pensar, antes optando-se por oferecer uma acumulação errática de matérias nas várias disciplinas, não pode de maneira alguma apetrechar as novas gerações para os grandes desafios impostos pela globalização total (não só a económica).Um simples exemplo para explicar o anacronismo que acaba por contaminar os próprios docentes: numa pequena cidade de província, um jovem professor, cheio de ideais, queixava-se amargamente perante um colega mais velho da má preparação em matemática de uma turma de raparigas do 9º ano que recebera para leccionar. "Não te preocupes", disse o colega mais velho, para depois acrescentar, "as raparigas apenas necessitam de conhecimentos rudimentares, porque a maior parte delas vai empregar-se como operadoras de caixa num supermercado".
Posted by: Alexandre de Castro October 26, 2007 10:42 PM

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Coisas que eu escrevi: O fanatismo fundamentalista do islão...

A célebre caricatura de Lars Vilks

abnoxio
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Um comentário que subscrevo inteiramente...

Quem não suporta a ironia, mesmo que mordaz, de uma caricatura, e logo invoca o argumento defensivo do insulto proferido, para depois passar à ameaça física de retaliação, que pode comportar pura e simplesmente o assassinato, está obviamente a explorar o sentimento do medo. Os radicais islamistas, ligados ou não à rede desconcentrada de Bin Laden, sabem que esta estratégia de intimidação acaba por surtir efeito. Foi o que aconteceu na Dinamarca, a propósito das caricaturas sobre Profeta "intocável". Muitos cartoonistas iniciaram um processo lento de auto-censura, não se atrevendo a ficar ma mira desses fanáticos do islão.
Por outro lado, os superiores interesses de Estado levaram alguns políticos ocidentais a condescender com o barulho infernal da rua muçulmana, onde a multidão histérica, açulada pelos imãs, bradava desalmadamente, exigindo a morte para os prevaricadores.
Não podemos ceder a essa chantagem, e cada um de nós deve afirmar com determinação que não abdica da liberdade de pensamento e de expressão conquistada pela civilização ocidental, por mais defeitos que possua, mas que são muito menos lesivos para a dignidade humana do que as infames e absurdas sentenças de morte proferidas pelos dementes clérigos islamistas.
Alexandre de Castro
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Posted by Ademar Santos on setembro 17, 2007 11:51 AM
http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/2007/09/um_comentario_que_subscrevo

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Trata-se de um texto de 2007, na altura em que os muçulmanos, obedecendo acefalamente à demência dos seis imãs, exigiam que a liberdade de expressão fosse abolida dos países ocidentais, apenas porque um caricaturista se lembrou de fazer uns rabiscos irónicos sobre o Profeta.
E se recupero este texto, que enviei como comentário para o abnoxio, e que Ademar Santos, o poeta recentemente falecido, colocou, no dia seguinte, no frontispício do seu blogue, o que muito me honrou, é porque constato, com tristeza, que a ditadura dos imãs está a produzir os seus efeitos. Os caricaturistas ocidentais, que não se cansam de caricaturar o papa, ao ponto de lhe colocarem na cabeça um preservativo, em vez da mitra, esqueceram-se definitivamente de caricaturar os recentes julgamentos e as brutais sentenças, de ressaibos medievais, contra mulheres muçulmanas, cujo único crime foi o de se limitaram a exercer o direito à liberdade dos afectos.
Todas as religiões devem ser respeitadas, mas nenhuma delas pode reivindicar sobrepor a sua doutrina aos avanços civilizacionais das sociedades. O humor, a sátira e a caricatura são manifestações inteligentes da liberdade de pensamento e do direito inalienável à livre crítica, valores que as sociedades ocidentais conquistaram, e dos quais não devem abdicar, considerando-se ao mesmo tempo que o exercício da utilização daqueles instrumentos da liberdade de pensamento não pode ser considerado ofensivo ou calunioso. Retirar o objecto da caricatura é matar a própria caricatura e o humor crítico que lhe está associado. E isso é inadmissível numa sociedade livre.
http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/2007/09/se_quereis_viver_em_paz_acorba

domingo, 28 de novembro de 2010

Coisas que eu escrevi. Portugal ainda é uma mercearia...



Encontrei este texto, que já andava perdido e esquecido, e nem sequer me lembro a que propósito o escrevi. Talvez tivesse sido um comentário para um blogue. Mas, ao relê-lo, achei-lhe piada. A metáfora continua a ter actualidade. E agora mais do que nunca!...
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Portugal é uma mercearia. Ou melhor, um país com a mentalidade de merceeiro. Foi assim com a mercearia do cravo e da pimenta da Índia. Foi assim com a mercearia do ouro do Brasil, até que falimos desastradamente com a mercearia da África.
Com a adesão à Europa fomos, sem mérito, promovidos a gerente de supermercado. Com a globalização, entrámos num hiper, sem saber ler nem escrever e, sobretudo, sem saber contar. Não percebemos que apenas tínhamos aprendido a contar pelos dedos, a somar e a subtrair, o que era considerado suficiente para gerir a mercearia. No entanto, não conseguimos aprender as contas de multiplicar e de dividir e, muito menos, as de potenciar. Tirar a raíz quadrada, fazer uma regra de três simples ou resolver uma equação, nem pensar! O resultado entra pelos olhos dentro.