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Monday, August 12, 2024

OLÍMPICOS, MAS BEM PAGOS

Ontem no Público: 
 

Valor sentimental supera o facial, mas enfrenta séria competição quando os prémios monetários apontam o céu como limite. Casas, vacas, carros, viagens e até colonoscopias acrescentam valor.
Portugal paga 50 mil euros por uma medalha de ouro, 30 mil pela prata e 20 mil pelo bronze.

Em caixa, no mesmo artigo : A Tareg Hamedi foi atribuida a medalha de prata no karaté, (Tóquio, 2020) mas o atleta foi compensado pela Arábia Saudita como se tivesse sido campeão olímpico, com cerca de 1,2 milhões de euros.

Os Jogos Olímpicos da era moderna são um espectáculo esplêndido de competição por fama efémera de alguns e proveitos de muitos mais. Não são, se alguma vez foram, a prossecução do objectivo romântico inicial onde preponderava a participação para se tornarem em competições pela incessante tentativa de atingimento de limites sempre condicionados pelas leis da natureza. O amadorismo deu lugar ao mais intenso profissionalismo, sem, objectivamente, nenhum proveito para a espécie humana. 

Na competição pela redução de milésimos na prova de corrida de cem metros, por exemplo, o campeão olímpico masculino em Paris correu a distância em 9,79 segundos, aquém do recorde mundial, 9,58 segundos atingidos em 2009 (Berlim); a campeã olímpica em Paris correu a mesma distância em 10,72 segundos, aquém do recorde mundial, 10,49 segundos. 
Quanto tempo da sua vida dedicam estes atletas para reduzir milésimos? Muito tempo, certamente. Não só eles mas todos quantos que com eles tornam possível essa redução. E para quê? Há muitas respostas, certamente, mais ou menos convincentes consoante a perspectiva de cada observador.

Para obter uma resposta possível, reparo nos algarismos das tabelas:
 
 
1United States126
2China91
3Great Britain65
4France64
5Australia53
6Japan45
7Italy40
8Netherlands34
9Germany33
10South Korea32  
 52 Portugal       4

Número de medalhas per capita

1Grenada2

2Dominica1

3Saint Lucia2

4New Zealand20

5Bahrain4

6Jamaica6

7Cape Verde1

8Hungary19

9Australia53

10Georgia7

  

 46 Portugal         4

Medalhas ponderadas per capita


1
Dominica4




2Saint Lucia6




3Grenada2




4New Zealand57




5Bahrain11




6Georgia19




7Netherlands86




8Slovenia10




9Australia126




10Hungary44







47 Portugal             9















Medalhas poderadas pelo PIB

1
Dominica4




2Saint Lucia6




3Grenada2




4Georgia19




5Kyrgyzstan8




6Uzbekistan39




7Jamaica12




8Kenya25




9Moldova5




10Armenia7




59
Portugal  
9




















 Medalhas de ouro

1United States40
2China40
3Japan20
4Australia18
5France16
6Netherlands15
7Great Britain14
8South Korea13
9Germany12
10Italy12

57 Portugal            1























Há alguma correlação entre estas posições relativas e as observadas no relatório do Programa de Desenvolvimento Humano - 2022/2023

Parece que não.

Em número de medalhas atribuidas a atletas de cada país (1º quadro) os EUA e a China ocupam, respectivamente,  no quadro do PNUD (UNDP), a 20ª. e a 75ª posições.
Portugal ocupa no relatório das Nações Unidas a 42ª. posição. 
 
Ponderado o número de medalhas conseguidas pelo número de habitantes de cada país,  Grenada, Domínica, Saint Lucia, países do Caribe (Caraíbas) ocupam os três primeiros lugares mas, respectivamente, as 73ª, 97ª e 108ª posições no índice de desenvolvimento humano.
 
Ponderados os valores das medalhas per capita, as três primeiras posições são ocupadas pelos mesmos países das Caraíbas: Dominica, Saint Lucia, Grenada.
Ponderados os valores das medalhas pelo PIB de cada país, observamos o mesmo trio das Caraíbas nas três primeiras posições deste ranking.

Com um análise mais extensa, manter-se-à conclusão de que a correlação entre o sucesso nos Jogos Olímpicos e o Desenvolvimento Humano segundo os critérios do PNUD (UNDP) aproxima-se em países considerados mais económica e socialmente desenvolvidos (a Rússia, 56ª no PNUD não competiu em Paris, a Ucrânia 100ª no PNUD ocupa a 53ª. posição no ranking do número de medalhas per capita) mas afasta-se em países com índices de desenvolvimento menos elevados ou baixos. 
Os caso mais flagrante de correlação discrepante é a China: muito próxima dos EUA no número de medalhas ocupa uma, por enquanto, modesta 75ª posição no índice de desenvolvimento humano.  
Refira-se que há 24 anos, em 1998, a China ocupava a 99ª. posição no relatório PNUD 2000. A Índia,  a 128ª. 
Nos Jogos Olímpicos de Paris, a Índia, pouco motivada para a competição desportiva, obteve 6 medalhas.
 
A Arábia Saudita, que atribuiu um prémio de 1,2 milhões de euros a um atleta seu, vencedor (depois desqualificado) nos Jogos de Tóquio, continua a recusar o acesso das mulheres ao desporto. Não obteve nenhuma medalha nos Jogos de Paris.
 







E, no entanto, os sauditas continuam a pagar milhões a muitos futebolistas em fim de carreira, ou no meio, para eles tanto faz. 
Será que, para eles, o futebol profissional não é desporto? 
Se é esse o caso, estou, quanto a esse assunto, de acordo com os sauditas: 
o futebol profissional é um espectáculo de diversão que deixou de ser uma prática desportiva há muito tempo em muita parte.
 
Contribui a actividade desportiva e, muito particularmente os Jogos Olímpicos para o desenvolvimento humano? Não pode dizer-se que não.
Mas os resultados reflectidos nos rankings parecem apontar que a competição desportiva (não a prática desportiva amadora) são motivação para alguns encontrarem uma porta de sucesso quando não vêm outras abertas.
 
Desportiva é esta pachorra que me assaltou hoje para, como sempre, teclar sem honra nem proveito.














---- act. Já depois de ter ditado o meu comentário, leio no Público: Só o ouro, o total de medalhas ou a população: como medir o êxito olímpico? Só o ouro, o total de medalhas ou a população: como medir o êxito olímpico?   

Saturday, August 10, 2024

MERCENÁRIOS OLÍMPICOS

 - mas Cuba não ganhou nada
 
O dinheiro compra tudo, mesmo num país que insiste em afirmar-se comunista. 
Estes três "deram o salto". 
São mercenários como tantos outros ao serviço daquilo a que se continua a chamar desporto.

Muitos milhares de outros fizeram o mesmo, não por medalhas olímpicas mas por uma vida melhor.


'Hermanos', mas rivais. Dentro e fora de pista. Três atletas nascidos em Cuba partilharam o pódio dos Jogos Olímpicos em Paris. Nenhum por Cuba. Cada um pelo seu país. Jordan Alejandro Díaz Fortún, por Espanha. Pedro Pichardo, por Portugal. Andy Díaz Hernandez, por Itália. Medalha de ouro, prata e bronze respetivamente. O único atleta cubano, com as cores de Cuba, ficou em oitavo lugar

Saturday, February 06, 2021

O PREÇO DOS NOVOS DEUSES

Por um contrato, até agora secreto, de 672 milhões de dólares, assinado em Novembro de 2017 com o Barcelona, Lionel Messi tornou-se no atleta mais bem pago do mundo.

É o preço dos novos deuses em escalada crescente que parece imparável; a espécie humana paga tributos aos deuses desde o momento em que abriu a boca de espanto  perante o transcendente;

É transcendente o espectáculo produzido por estes outros deuses? Grande parte da humanidade considerará que sim, e, por esse motivo, paga-lhe o tributo que os deuses exigem.

---

(CNN)Barcelona says it "categorically denies" responsibility for the publication of Lionel Messi's $672 million contract, which was reported by Spanish newspaper El Mundo. 

The contract would make Messi the highest paid athlete in sports history.

The club also said it will take legal action against the newspaper "for any damage that may be caused as a result of this publication."
According to the report, Messi's contract, which was signed in November 2017 and runs until June 30 this year, could have seen the star forward earn $167 million a season including bonuses. The written agreement also reportedly includes an image rights contract.
El Mundo also reports that Messi received a "renewal fee" of $139 million for accepting the contract and a $94 million loyalty bonus.
"FC Barcelona categorically denies any responsibility for the publication of this document and will take appropriate legal action against the newspaper El Mundo, for any damage that may be caused as a result of this publication.
"FC Barcelona expresses its absolute support for Lionel Messi, especially in the face of any attempt to discredit his image, and to damage his relationship with the entity where he has worked to become the best player in the world and in football history."
CNN has contacted El Mundo in relation to Barcelona's statement but is yet to receive a response.

In its publishing of the story, El Mundo said the analysis of the document was a laborious process carried out in recent days.
"The world exclusive that El Mundo has published this Sunday is the result of many months of work, accelerated in recent days, when finally the most sought-after document reached the newsroom," reads an excerpt.
Messi has yet to publicly respond to El Mundo's story and didn't immediately respond to CNN's request for comment.
Meanwhile, Messi scored his 650th goal for Barcelona on Sunday in a 2-1 win against Athletic Bilbao.
His first-half free-kick and Antoine Griezmann's second-half winner saw Barcelona, now unbeaten in La Liga since December 5, move second in La Liga ahead of rival Real Madrid.
There has been much uncertainty about Messi's future at Barcelona after he admitted last year that he had wanted to leave the club.
He has also taken aim at the club's hierarchy, notably after former teammate Luis Suarez signed for Atletico Madrid in September.

Thursday, July 05, 2018

ACERCA DE GÉNIOS E DEUSES *


Só compreendo a idolatria por figuras públicas, frequentemente transitórias, por, como refere, uma necessidade da espécie humana, talvez decorrente de  outra imposição dos  genes da espécie, nunca satisfeito com os deuses que fez crescer e multiplicar.

E, afinal, somos cada um de nós, senhores dos nossos destinos? Temos livre arbítrio, ainda que limitado.

Ortega y Gasset afirmava que, cito de cor, o homem é ele e as suas circunstâncias.

Penso que  o homem é tão só a resultante que enfrenta no mar das circunstâncias em que é lançado no exacto momento em que, de entre muitos milhões de espermatozóides ejaculados, um atinge um óvulo que no período se soltou e ficou por pouco tempo à espera.

Einstein, provavelmente o expoente máximo dos limites atingidos pela inteligência humana nos tempos modernos, fez-se a ele mesmo ou foi apenas a resultante de um acaso primordial que lhe traçou o percurso durante toda a sua vida? O génio fez-se ou aconteceu por mero acaso? 
E o filho dele, o Eduardo, com esquizofrenia revelada aos vinte anos? Fez-se  ou resultou do momento primordial do acaso incontornável de um encontro entre muitos milhões possíveis?

Não, não há génios, há acasos incontornáveis. Escolher no mar das circunstâncias implica optar sendo que a resultado, sempre incerto da opção, é sempre condicionado pela resultante do acaso primordial.

Saltando da ciência para o espectáculo, CR7 é um génio?
Não é. O homem nasceu com habilidades decorrentes de uma ejaculação de uns cento e cinquenta milhões de espermatozóides do sr. José Dinis Aveiro à procura de um óvulo da D. Maria Dolores dos Santos que nos começos de Maio de 1984 estava em posição de espera dele, circunstância que o lançou no mar das circunstâncias. 
Tornou-se um deus, consagrado em estátua, que o tempo destruirá para dar lugar a outras estátuas de novos deuses. Não há imortais. 
A espécie humana é, naturalmente, religiosa. E nunca regateou pagar por isso. Frequentemente com a vida, em nome dos deuses que criou.

E porquê? Porque sabe que é muito transitória a sua existência e ínfima a sua compreensão do universo. E adora ver quem nasceu para ser capaz de um pequeno pulo, um pulinho apenas, e momentâneo, acima do solo a que todos estamos irremediavelmente amarrados. 


---
* Comentário colocado aqui : "Gente simples e mortal"

Monday, June 11, 2018

FÉRIAS


- Então deixou de escrever no seu blog?
- Estou em férias sabáticas ... Tive a sensação que não havia assunto que não tivesse abordado, de uma forma ou de outra, mal ou bem, mais do que uma vez.
- Por que não escreve acerca do Sporting, do Bruno Carvalho?
- Falta dizer alguma coisa?

Monday, February 27, 2017

INVESTIMENTO PAROQUIAL

O E. convidou mais uma vez amigos das mais diversas procedências para jornada turístico-gastronómica, desta vez, outra vez, nos sítios onde nasceu e cresceu até abalar para a capital e tornar-se prestigiada figura pública. Calcorrearam-se ruas, visitaram-se locais, pisados por muitas cargas de história antes de saborear as iguarias de caça num simpático restaurante na aldeia do nosso anfitrião. 

Na freguesia, de que aquela aldeia é sede,  contavam-se em 2011, i.e., antes da união de 2013 com outra freguesia vizinha, menos de 2900 habitantes, cerca de 62% da população contada em 1981. Hoje, cinco anos depois da última contagem conhecida, a população da aldeia não deve ter aumentado, mas deve ter-se alargado o escalão etário mais velho, acima de 65 anos, que em 2011 já representava cerca de 1/3 do total,  e encolhido o mais jovem, até aos 24 anos, não mais que 18,2%. 

Trata-se de uma evolução demográfica típica observada na irreversível concentração urbana, mais acentuada no interior do país, que replica um fenómeno que atravessa todas as sociedades em transição da economia agrária e industrial para a economia de serviços. 
No caso desta aldeia, como de outras que orbitam nas proximidades de cidades ainda com alguma vitalidade económica, a deserção populacional só é parcialmente travada porque se transformam de algum modo em zona residencial daqueles que trabalham na cidade solar. 

O nosso amigo, entre outras virtudes, que são muitas, e lhe minimizam porventura alguns defeitos da sua condição humana, mantém com a sua terra e os seus conterrâneos uma ligação tão duradoura e intensa, que o levam até a acarinhar iniciativas que uma análise friamente tecnocrática rejeitaria liminarmente. 

Em Agosto de 2009, já a crise tinha eruptido, anotei aqui indignação pelo início da construção de uma estrutura enorme no ponto mais alto de um dos cumes do monte, a que exageradamente chamamos serra, sobranceiro ao lugar onde nasci. Destinava-se  a enormidade, pela informação dada à minha perplexidade, à construção de um pavilhão para a prática de futsal, a equipa local brilhava nos campeonatos regionais e interiorizara a ambição de chegar ao escalão cimeiro.
Mas há por cá agora tantos jovens talentos que mereçam um investimento daqueles?, perguntou a minha curiosidade mal contida.
Haver, não há, mas contratam-se! Vêm até cá rapazes de vários sítios?
De perto?
De perto e de longe. Com as facilidades que há, hoje em dia, do longe se faz perto.
Engoli em seco as minhas dúvidas sobre o mérito da despesa, de algum modo suportada por algum programa inscrito no orçamento do Estado. 
Sete anos depois, continua especado no monte uma bisarma de aço, só colunas e travessas, sujeita à corrosão do tempo, à espera de apoios financeiros que não virão. Do futsal local não tenho notícias. 

Vem este salto dos sítios do nosso amigo para os meus a propósito do entusiasmo que observei este sábado passado, dele e dos seus conterrâneos,  naquela aldeia ribatejana, onde a agricultura e a indústria já tiveram dimensão que explicou o crescimento demográfico e juventude, que arrebatou troféus que encheram a vitrina na Casa do Povo local, à volta da construção de um centro social no antigo campo da bola e de um novo campo de futebol em terrenos anexos a Casa do Povo, já adquiridos e com financiamento prometido.  

Calei o meu cepticismo a recordar-me do campo de futsal da minha aldeia, qual avantesma à minha espera sempre que vamos a penates. 
Mas espero, sinceramente, que o meu cepticismo venha a revelar-se completamente infundado, e um dia destes o nosso amigo seja convidado para, pelo menos, dar o ponta pé de saída do encontro inaugural no novo estádio da sua terra.  

Thursday, June 11, 2015

A MURRO MELHOR QUE A PONTAPÉ

Segundo esta notícia, Cristiano Ronaldo não é o atleta mais bem pago do mundo. É terceiro.
Os dois (ditos) atletas que mais encaixam são pugilistas.

Sic transit gloria mundi.

Tuesday, August 26, 2014

OS GOULÕES

O meu amigo H. remete-me com alguma frequência artigos de jornalistas, cronistas ou artífices de obras afins, exclusivamente apologistas do combate aos israelitas, venham os combatentes de onde vierem. Suponho que o H. esteja convencido que eu seja tão dedicado aos judeus como ele ao Benfica, desconfiando sempre que, apesar da ausência de evidências, eu escondo uma secreta paixão pelo Sporting. Normalmente, são psicólogos sociais que o dizem, a condição humana opta desde muito cedo por posições políticas, desportivas ou religiosas, geralmente estáveis ao longo da vida, sendo anormais, no sentido que exorbitam da regra geral, e suspeitos, os que vieram ao mundo desprogramados dessas paixões serôdias. Não apenas por laracha, se vangloriam aqueles adeptos, seja do que for, de admitirem mudar de mulher (ou de homem) mas de clube, nunca! E as estatísticas dão-lhes largamente razão onde o divórcio não for condenado pelos credos religiosos.

Hoje o H. enviou-me por e-mail este testemunho de acusação do expansionismo israelita perpretada através de sucessivas limpezas étnicas, agora continuadas nos ataques terroristas a Gaza. Este e outros textos com conclusões idênticas nunca admitem a mínima razão do lado de Israel. Mais: por detrás de Israel pairam sempre os interesses abomináveis dos norte-americanos e, frequentemente, a  traição egípcia. Admitamos que são pertinentes todos os argumentos e consistentes todas as conclusões destes acusadores de Israel. 

Mas como explicam estes pretensos defensores da causa árabe (qual delas?) as atrocidades cometidas pelos islâmicos entre si, pela guerra sem tréguas entre sunistas e xiitas, que apenas concordam (os que concordam, mas é desses que trata o artigo de J. Goulão) na eliminação de Israel? Como explicam o vandalismo cada vez mais feroz dos talibãs, da Al Qaeda e do Exército Islâmico que destrói barbaramente memórias da cultura histórica dos seus povos?

Os palestinianos têm, sem dúvida, direito a uma pátria. Mas tem esse direito, necessariamente, que concretizar-se sobre a dizimação ou expulsão de mais de oito milhões de pessoas de um território onde a esmagadora maioria nasceu? Perguntem isso a qualquer fundamentalista islâmico, nascido árabe, persa, inglês, francês, ou português até, e ele aprontará imediatamente a arma para provar que sim. E os goulões, aqueles que, sentados nas bancadas, se excitam até ao auge mais com as derrotas dos  adversários que elegeram do que com as vitórias das hostes que adoptaram,  infinitamente menos perigosos mas igualmente embalados pelas opções marcadas à nascença, que resposta têm?

Presumo que não têm resposta.

Friday, July 18, 2014

PORTUGAL ARRASA A ALEMANHA





No tempo em que não havia televisões havia imaginações. 
Era o tempo em que o ego dos portugueses inchava o que podia, a ver, ouvindo, as derrotas que os rapazes do hoquei em patins infligiam a todos quantos lhes aparecessem pela frente, salvo se fossem espanhóis ou italianos, aí as coisas fiavam mais fino, e o tempero patriótico redobrava o desgosto se ganhavam os castelhanos. Os locutores radiofónicos imprimiam tal entusiasmo aos relatos que não havia nenhum português legítimo que não visse mesmo visto a bola a girar quase à velocidade da luz entre os patinadores portugueses para se anichar na rede dos adversários. Seriam raríssimos os que algumas vez tivessem visto ao vivo uma batalha daquelas mas a  ninguém escapava o traçado das jogadas que tinham levado aos golos. Hoquistas e ciclistas rivalizavam em popularidade com os futebolistas mais destacados da altura, mas só os equilibristas de cacete em punho mostravam nas disputas com estrangeiros  de que massa tinham sido feitos os portugueses.

Um dia arribei a Lisboa, e pouco tempo depois fui ver um jogo no ringue.
Uma desilusão total. A bola, pequena e preta, rodopia em distâncias curtas, escapa-se à visão do espectador menos habituado à dança, anda por trás e pelos lados das redes, só se sabe se é golo quando os goleadores levantam os cacetes a celebrar o sucesso. De tal modo que continuo convencido que melhor que ver um jogo de hoquei em patins é ouvi-lo pela rádio. Ou, simplesmente, ler as notícias.

Caramba. No fim, nem sempre ganha a Alemanha.

Sunday, June 15, 2014

Monday, August 13, 2012

OLIMPICOS, MAS POUCO

mais fotos aqui

Um dos maiores circos do mundo, que de quatro em quatro anos monta instalações e pode ser visto em toda a parte do mundo, terminou ontem, e como é costume, com mais pompa e luminância que nunca. Para lá das competições entre atletas e, mais notoriamente entre países, há uma competição em grandeza kitsch entre os países organizadores que se exibe na abertura e encerramento do espantoso evento que se traduz em sucessivos recordes, segundo os observadores geralmente bem informados. O Brasil, próximo anfitrião, já está em pulgas para montar este Carnaval diferente e promete gastar o que pode e o que não pode para conquistar também esta medalha única.

Não me impressiona a generalidade das modalidades olimpicas mas ninguém que esteja acordado pode ignorar o fenómeno que põe tanta gente horas a fio a olhar absorta os ecrans de televisão. Dei uma olhadela a uma ou outra modalidade, continuo a não entender por que desígnio há quem entegue uma parte da sua vida, por exemplo, à tentativa de redução de um milésimo de segundo numa corrida de cem metros; assim como não entendo os critérios que afastam da consagração olimpica os artistas do futebol mais aplaudidos e imperialmente pagos. Dir-me-ão que se pretende preservar a imagem do desporto amador nos jogos olimpicos mas toda a gente sabe que o argumento é treta.

Numa olhada ao quadro das medalhas olimpicas, ressalta, para além da comparação do incomparável -países com a dimensão económica dos EUA ou da China (os dois primeiros do quadro de honra) com outros centenas ou até milhares de vezes mais pequenos -, a continuidade da supremacia norte-americana perseguida pelo sucesso desportivo da China, replicando o sucesso à vista na ultrapassagem dos americanos na modalidade força económica.

Tanto aparente sucesso de um regime ditatorial acabará, mais tarde ou mais cedo, se não abrir falência entretanto, por questionar as razões do insucesso aparente da democracia.
Até onde dois rankings de grandeza, económica e desportiva, liderados pela China podem suscitar o confronto dialético aberto entre ditadura e democracia?
.
Se ao menos, entretanto, a UE fosse uma entidade politicamente integrada e se apresentasse como tal no Rio... 

Saturday, February 07, 2009

MENS SANA CORPUS SANUS

Não me emocionam os resultados dos chamados resultados dos desportos de alta competição e, nomeadamente, os dias do maior circo do mundo em que se transformaram os jogos olímpicos..

Aprecio a beleza de execução de algumas disciplinas mas não me excitam os recordes que são forjados à custa de esforços e habilidades que nada acrescentam ao progresso da humanidade e frequentemente provocam anormalidades nos atletas.

Não sei quantos desses recordes na dedicação a um objectivo sem préstimo, para além dos milhões que fazem cair no bolso dos atletas e dos que participam no circo, são propulsionados pela utilização de drogas. O que se sabe é que a perseguição da glória efémera até à destruição do corpo há muito que é a completa negação do equilíbrio que os jogos da antiguidade procuravam fomentar.

Saturday, August 16, 2008

MADE IN CHINA


É uma desgraça», afirmou Wang acerca do caso do playback*. A voz que ouvimos era de outra garota que tinha sido seleccionada pela qualidade da mesma mas, que foi substituida por ter, como é habitual nestas idades, os dentes ligeiramente tortos.**
.

Foi muito comentado, e reprovado, o caso do playback da menina chinesa apresentada na abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Por razões idênticas, foi também muito criticado o facto de terem os chineses manipulado os efeitos visuais, transmitidos pela televisão, do fogo de artifício e da representação das diferentes etnias ter sido feita apenas por crianças da etnia maioritária. Muito provavelmente, ouve outras simulações e truques, mas estes três exemplos são mais do que suficientes para podermos fazer uma apreciação do que está em causa.
.
E o que está em causa, isto é, do que estamos a falar é da forma como foi produzido um espectáculo e dos recursos e artifícios que foram utilizados na sua montagem. Um espectáculo que abriu, mais do que uma suprema manifestação desportiva, um negócio em larga escala. Do espírito amador que começou por animar os jogos da era moderna, os jogos evoluíram para um negócio espectacular em que participam atletas hiperprofissionalizados. Nenhum outro sector de actividade económica congrega tanta intensidade de esforço individual e colectivo. Assim sendo, nada é amador porque nenhum erro pode ser cometido por falta de ensaio suficiente para garantir o sucesso do negócio. Um requisito indispensável que, neste caso, foi potenciado pelo facto de a China querer aproveitar os jogos, e por isso mesmo se candidatou com indisfarçado interesse, para afirmar a sua condição de potência emergente incontornável.
.
Se uma menina cantou e outra gesticulou, foi porque assim foi entendido como mais conveniente à encenação pretendida. Aliás, se aceitámos que em "Música no Coração" ou "West Side Story", e tantos outros, criados há dezenas de anos atrás, os protagonistas fossem dobrados por cantores profissionais, porque razão censuramos agora os chineses por fazerem o mesmo? O negócio do entretenimento é basicamente um negócio da ilusão. E nada é mais contraproducente, para quem assiste a um espectáculo de ilusionismo, passar todo o tempo a pensar onde está o truque.
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Ontem foi batido mais uma vez o recorde dos 100 metros. Para quê?
A tal pergunta que, quando é feita, estraga o espectáculo.
.
...............
*www.wangxiaofeng.net, endereço do blogue citado por António.
**Comentário de AChata