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Saturday, October 28, 2023

E CONTINUÁMOS FELIZES FIÉIS COMUNISTAS

 
O SOL DO FUTURO, na tradução portuguesa do título original italiano "IL SOL DELL´AVVENIRE", é a mais recente realização de Nanni Moretti, insatisfeito por produzir/realizar tão pouco.
A motivação de agora é a Revolução Húngara de outubro de 1956, esmagada menos de um mês depois pelos tanques soviéticos. Nanni Moretti, enredado em dúvidas (e dívidas) sobre a forma como concretizar o seu objectivo artístico e no relacionamento com a sua mulher, também ela envolvida na arte cinematográfica, acaba por terminar o filme com uma saída irónica (só pode ser irónica) que resume as consequências das fracturas que a revolução húngara de 1956 teve no movimento comunista internacional, com particular incidência nos países não abrangidos pela constelação soviética: estamos com os que combatem pela liberdade em Budapeste mas continuamos fiéis ao nosso partido. 
O drama vivido em Budapeste naqueles breves dias de uma revolução abafada que matou mais de 2,5 mil soldados húngaros e cerca de 700 soldados soviéticos e causou mais de  200 mil refugiados húngaros, prisões em massa e denúncias que continuaram durante meses, não faz parte do guião de Nanni Moretti.
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É curiosa a coincidência de há já muito tempo o governo húngaro após a fragmentação da União Soviética ser hoje, para além de membro materialmente interessado na União Europeia, um descarado apoiante do regime em Moscovo e admirador da sua política tendencialmente totalitária. 
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Correlacionados - 

                                                                  O SOL DO FUTURO

"Giovanni é realizador e marido de Paola, uma produtora de cinema com quem trabalha há anos. Enquanto ele se dedica a uma longa-metragem sobre a Revolução Húngara de 1956, ela começa a trabalhar numa outra produção cinematográfica, algo que o deixa bastante ressentido.

E tudo parece estar contra o projecto de Giovanni: a indústria cinematográfica enfrenta mudanças de paradigma difíceis de contornar, o seu casamento aparenta alguns sinais de estar em crise e o co-produtor do seu filme está à beira da falência. Com tudo isto a acontecer ao mesmo tempo, ele vê-se a repensar a forma como encara a vida e a própria arte, a quem se entregou de corpo e alma." - c/p aqui


Thursday, April 07, 2022

AS RAZÕES DE PUTIN PARA ARRASAR A UCRÂNIA

O objectivo último de Putin não é arrasar a Ucrânia mas subjugar a democracia liberal na Europa e, segundo Cirilo, Patriarca de Moscovo, unha com carne com Putin, salvar a humanidade.
 

Segundo Putin, secundado por diversos comentadores políticos, em diferentes momentos no passado, é a presença da NATO nas suas fronteiras uma ameaça que Putin não pode tolerar. Um argumento ridículo que, como a foto acima mostra, são relativamente mínimas as fronteiras de países que confrontam com o extenso território russo, de longe o maior do planeta. 
O poder de atingir com elevada precisão objectivos a longas distâncias, mesmo intercontinentais, das armas de destruição, concebidas pela estupidez do génio humano, nas últimas décadas, ultrapassa a dimensão do continente europeu não russo.
Lançado de território russo ou de um submarino atómico, até o território português, o mais afastado das fronteiras russas, pode ser atingido por mísseis de capacidade altamente arrasadora.

A voracidade dominadora de Putin, que pretende recriar o Império Russo, - cf. aqui - não será satisfeita com  com a subjugação do povo ucraniano mas a de todo o ocidente europeu.
Para atingir esse objectivo conta com vários trunfos, alguns dos quais conhecidos e outros muito suspeitos.
Este ano realizam-se nos EUA as midterm elections que podem retirar aos democratas a maioria nas duas câmaras do Congresso: dos Representantes e o Senado. Se isso ocorrer, os EUA infletirão, seguramente, a ajuda que neste momento estão a prestar à Ucrânia, e, em 2024, Trump ou um herdeiro dele voltarão à Casa Branca e a posição norte-americana nesta guerra de destruição completa da Ucrânia voltará a apoiar Putin na fragmentação da mal consolidada unidade europeia.

O que está em causa, já foi dito, não é um confronto entre ideologias mas entre o poder discricionário dos ditadores e a liberdade de pensamento e decisão no ocidente democrático. Onde nem todos afinam pelo mesmo instrumento: Órban, de há muito tempo admirador de Putin, viu o seu mandato renovado e reforçado. Até em França a disputa pela presidência está mais cerrada que nunca. Provavelmente, se Macron for reeleito, Le Pen, declarada admiradora de Putin, admiração recíproca, ficará a poucos pontos percentuais de Macron na segunda volta.
Significa isto que quase metade dos franceses são putinistas?
Não sei, mas todos sabemos que o exército de Hitler desfilou em 1940 na Avenida dos Campos Elíseos aplaudido por milhares de parisienses entusiasmados com o sucesso nazi.

Hoje não há na Europa outro Winston Churchill capaz de enfrentar a barbárie.
Mas se houvesse, o que faria Churchill perante um ditador sentado no maior arsenal nuclear do mundo, capaz de, ele disse-o, de usar o poder mais destruidor de que dispõe se for necessário.
Hitler, quando se encontrava entrincheirado no bunker teria hesitado em usar a bomba atómica se os alemães a tivessem antes dos norte-americanos?


Saturday, June 20, 2015

A GRÉCIA NÃO SAIRÁ DO EURO

Não é um palpite, é uma inevitabilidade.
E por quê?
Mesmo dando de barato que seria tecnicamente possível que a Grécia abandonasse o euro, ou fosse posta borda fora, numa sexta-feira à tarde e reabrissem os bancos gregos dois dias depois com as contas em dracmas, para começar cada dracma igual a um euro, a mudança seria inevitavelmente acompanhada por uma campanha de populismo político levado ao rubro.

Inevitavelmente, porque as consequências imediatas de uma saída da Grécia do euro na vida da grande maioria dos gregos seriam tão dramáticas que, das duas uma, ou Tsipras &Varoufakis conquistavam a Praça Sintagma com manifestantações ululantes contra a malvada União Europeia que expulsara "a pátria da democracia" ou seriam linchados na praça. A saída da Grécia do euro desencadearia uma revolta tão profunda contra os outros membros europeus que implicaria também a saída da União Europeia. Em qualquer dos casos, glorificação ou linchamento dos protagonistas, o ressabiamento grego iria vingar-se da traição ocidental atirando-se para os braços de Putin. Salvo se, entretanto, os norte-americanos não fizessem o que a União Europeia não soube fazer: segurar a Grécia no lado de cá. 

A abordagem da questão grega do ponto de vista meramente financeiro (ou económico, para quem preferir segurar o embrulho por esse lado) parece querer esquecer, para além das perdas financeiras que um "default" grego implicaria nos bolsos dos contribuintes europeus, e, muito principalmente de alemães e franceses, que a Grécia é membro da Nato. Ora é bom lembrar que a fractura geopolítica que atravessa a fronteira com a Rússia desde os Bálticos até ao Mediterrâneo voltou a dar sinais de grande intranquilidade sísmica, para além da ocupação da Crimeia e a indefinição da guerra no leste da Ucrânia . E que se os Bálticos aproveitaram a ocasião do desmoronamento soviético para se colocarem ao abrigo da União Europeia e da Nato, não é de todo descartável a hipótese que a Grécia, ressabiada, se arrogue o direito inelianável de fazer um movimento semelhante ao contrário.

Seria a concretização do sonho de Putin: reconstruir o império onde há, não tantos anos assim, foi membro da polícia política do regime que viu sossobrar. Entre outros, o governo de Budapeste há muito que não esconde a sua admiração pela liderança do novo czar das Rússias.

Entretanto, enquanto a Grécia sai ou não sai do euro, os euros continuam a sair da Grécia.
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Correl . -
Entre outros apontamentos colocados neste caderno : O abraço de Putin
Enquanto a Grécia treme, Tsipras é festejado em S. Petersburgo , Financial Times, hoje.

Greek Prime Minister Alexis Tsipras, centre, arrives to meet business representatives in St Petersburg on Thursday

Sunday, March 22, 2015

A DESCONSTRUÇÃO EUROPEIA

A construção europeia assemelha-se a um daqueles edifícios embargados, algumas paredes por levantar, o telhado meio coberto, sujeitos à erosão dos ventos e das chuvas, em risco de soçobrar perante um vendaval mais forte. As inquietações gregas têm levado muitos politólogos e outros com   devoções ou ofícios aparentados a presumirem que uma eventual saída da Grécia da zona euro e, por tabela, da União Europeia desequilibrará irremediavelmente as fundações do projecto e atirará a médio prazo com o conjunto ao chão. 

Não penso que o Grexit venha a acontecer. A Grécia ocupa uma posição geoestratégica por demais determinante no jogo político de influências entre o ocidente e o leste para ser deixada à deriva à procura do abraço de Putin ou de outro qualquer czar russo no futuro. Por outro lado, qualquer retoma de desenvolvimento da construção da união europeia não pode abstrair-se da localização das raízes mais profundas da civilização ocidental sob pena de lhe vir a faltar sustentação histórica suficiente. Se a queda do império grego de Bizâncio no sec. XV e a submissão dos gregos ao domínio turco otomano durante 350 anos lhe induziu traços indeléveis de uma cultura diferente, e se o Grande Cisma da cristandade os tinha voltado para leste, a unidade europeia tem de fazer-se pelo reposicionamento da Grécia no seu seio e nunca pela dispensa dos gregos nessa unidade. 

Mas admitamos que, por cegueira europeia e abstenção norte-americana, que considero altamente improvável, o Grexit se consuma. Cai o edifício europeu? Cairá, mas levará algum tempo a cair, apesar da aceleração e da dimensão que os factos políticos e os actos bélicos ganharam depois do princípio do século passado. E, no entanto, as ameaças de desmoronamento do edifício europeu são agora mais fortes que nunca. Hoje, os franceses votam na primeira da ronda das eleições locais que, muito provavelmente, confirmarão o alargamento da presença da FN de Marine Le Pen em todo o hexágono francês. As sondagens apontam para 30%, que se vierem a ser confirmadas, ou até superadas, nas urnas colocarão Marine em posição de conseguir chegar ao Eliseu dentro de dois anos.

Se isso acontecer, e pode acontecer, a União Europeia será submetida a um safanão de consequências imprevisíveis e, em qualquer caso, o projecto europeu concebido pelos fundadores será radicalmente alterado. A eventual separação da perna grega tornará a União Europeia perigosamente coxa; a saída do braço britânico tornará até ridícula a sua designação; a saída francesa será um ataque ao coração europeu. Entretanto, terá aumentado a força centípetra a leste, a Hungria já está há muito tempo mais lá que cá.

Merkel e os seus pais fiéis seguidores têm agora menos de dois anos para reforçar o edifício e colocá-lo  à prova de qualquer sismo anti democrático que faça voltar o fantasma da guerra de novo ao território europeu. A actual ebulição grega, se não tiver outro mérito, poderá pelo menos obrigar os europeus à inevitável opção entre a subsistência dos nacionalismos que lhe minam a unidade ou a federação mínima que, de forma suficiente, garanta a solidariedade que cimente uma unidade democraticamente sufragada.

Wednesday, April 25, 2012

A CULPA DAS CALÇAS



A economia britânica volta a entrar em recessão

O euro é geralmente considerado um dos culpados e vítima da crise que ameaça desmoronar a União Europeia. É inquestionável que uma moeda forte exige outros factores de competitividade que compensem e ultrapassem o handicap da valorização cambial em sectores em que o preço é determinante. A competição sustentada numa guerra de preços  acabará sempre por ser ganha por aqueles que disponham de outros argumentos. Aconteceu em Portugal  com o encerramento definitivo ou  a deslocalização de empresas de baixa tecnologia para outras bases mais competitivas. 

Mas, o Reino Unido? O que se passa com a economia britânica, transaccionada na sua própria moeda, susceptível de ajustar-se  e garantir alguma competitividade monetária. 

Não é caso único na União Europeia, onde há situações para todas as justificações plausíveis. Há países da Zona Euro com balanças comerciais superavitárias (a Alemanha é o caso mais flagrante), mas há também a Grécia, Portugal, Espanha, a Irlanda, até a França com problemas de défices incontroláveis ou em vias disso. Fora da Zona Euro, o Reino Unido não está confortável e a Hungria está em situação muito problemática.

Que conclusão pode retirar-se da amostra?
Que não é a água tónica que embriaga mas os espíritos que se misturam com ela.

Sunday, March 25, 2012

A RONDA DA RÚSSIA

Chipre: Uma Grécia em pequenino.
Foi a surpresa do mês.

Começa, deste modo uma notícia sumida numa das páginas do Expresso/Economia de ontem.
Que termina assim: Chipre pode vir a ser o primeiro elo do contágio da reestruturação da dívida grega. A economia sobrevive este ano graças a um empréstimo bilateral da Rússia de € 2,5 mil milhões.

Em Outubro passado anotei aqui o que voltei a referir outras vezes depois neste bloco de notas: A Rússia, isto é Putin, espreita a possibilidade de alargar a sua área de influência estratégica, financeira, política e militar, aos ex-membros da ex-União Soviética e, para além deles, aqueles que do ponto de vista cultural se encontram mais próximos dos russos que dos norte-americanos, perante a desorientação da Uniâo Europeia. Referi-me à Grécia e à Hungria. Não me ocorreu Chipre. Já são três, portanto, os pontos de entrada russos possíveis.

Pela boca pode morrer a União Europeia.

Tuesday, January 10, 2012

ASSALTO À DEMOCRACIA

O Washington Post de hoje publica um editorial - Assault on Democracy - acerca das ameaças que impendem sobre a Hungria, membro da União Europeia e da NATO. Um tema que já abordei neste caderno de apontamentos, a última vez aqui - O abraço de Putin -.

Aparentemente os líderes europeus ou não valorizam suficientemente este aspecto da crise ou, embrulhados com o outro lado - o financeiro, consideram prudente manterem-se reservados acerca da ameaça à democracia já muito evidente na Hungria.

A Hungria, que não aderiu ao euro e continua com moeda própria - o forint -, está à beira da bancarrota. As obrigações a 10 anos pagam agora uma taxa de juro insustentável: quase 10%. Mas a Hungria  "tem outro problema: O governo, nacionalista de direita, que detem uma maioria de 2/3 no parlamento, lançou um ataque ao sistema democrático do país através de alterações constitucionais e legislação decorrente que lhe permitem dominar o sistema judicial, os media, as igrejas e o banco central. Com este conjunto legislativo, que entrou em vigor no primeiro dia do ano, o governo do primeiro ministro Viktor Orban está muito mais próximo dos regimes autocráticos da Rússia e da Bielorrússia que das democracias da União Europeia" .

O editorial do Washington Post descreve a seguir um conjunto de diatribes já tomadas com a cobertura da nova legislação e remata: "As novas leis que governam o sistema judicial, as entidades religiosas e os media são incompatíveis com os direitos fundamentais, e a democracia fica em situação instável, a caminho da queda. Para a União Europeia tolerar esta situção num país membro equivale a deixar abrir uma brecha no carácter essencial da comunidade."

Se essa brecha for tolerada quantas brechas mais serão necessárias para estilhaçar a Europa? pergunto eu.

Saturday, January 07, 2012

O ABRAÇO DE PUTIN

Há três meses anotei aqui que para lá da crise financeira que nos fustiga e ameaça desmoronar a Zona Euro e a União Europeia, com consequências imprevisíveis para a Europa, para a economia e o sistema financeiro mundiais, há uma ameaça à democracia que, mansamente por agora, se agiganta.

Ontem falámos desta ameaça ao jantar, em casa do Rado (Radoslav) e da Lenka,  um casal checo, estava também Vahan, um arménio, com um doutoramento pela Universidade de Moscovo, onde residiu durante oito anos, e uma pós-doc em Hannover, na Alemanha, antes ter vindo para o EUA.

De manhã, tinha lido aqui uma referência a um trabalho publicado aqui sobre Milada Horácová a heroína da resistência checa aos totalitarismos nazi e comunista, e enforcada por este, e às cartas por ela enviadas à sogra, à filha e ao marido, documentos angustiantes para quem os lê, passado mais de meio século. Lenka conheceu Jana, a filha de Milada Horácová, na Universidade de Pittsburg, e o marido, actualmente a residirem em Bethesda, NM, e contou-nos algumas das quase insuperáveis dificuldades e os engenhos utilizados naqueles  tempos de terror para saltarem clandestinamente a fronteira.

Correlacionei esta leitura com três artigos publicados no Financial Times nos últimos dias acerca da ameaça que paira sobre a democracia na Hungria, um membro da União Europeia, a braços com uma crise financeira. Os actuais dirigentes políticos, eleitos segundo regras que eles consideraram legítimas mas que querem subverter para garantirem o domínio que, as mesmas regras, lhe podem negar, afastam-se do processo democrático legítimo para imporem aos húngaros  o arremedo democrático confeccionado por Putin.  

Tal como outros países da ex-órbitra soviética que transitaram de uma ditadura comunista para pseudo-democracias de quase partido único (Vahan, o convidado arménio, relatou-nos que o seu país é agora  dominado por sete famílias e totalmente dependente da Rússia) a Hungria perfila-se para se juntar a uma federação de oligarquias sustentadas por processos mafiosos. A Grécia, sim a Grécia, pode ser o próximo convidado a aceitar o convite.

Ingram Pinn illlustration
c/p Financial Times