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13 de mai. de 2009


GRITO ABAFADO

O meu grito é sufocado.
Não parece que é grito.
Parece um grito falado.
Mas ele nunca foi dito.

É a pedra sob as águas
é mágoa de sentimento
é um grito de palavras
retidas no pensamento.

Corpo a corpo desafia.
É faca que cai da mão.
É como pedra que afia
os punhais do coração.

Como resto de festins
sobrevive dos jejuns...
Ele é a fome de todos
e mesa farta de alguns.

Sob a mira dos fuzis
é muralha de granito.
Ressoa a bala no eco
e retorna como grito.

E se me tiram a voz
é daí que me revolto...
O que se fala calado
ecoa muito mais alto.

A. Estebanez

FIINDA DE AMOR À PAAY CHARINHO

Eu, senhor, d’amor coitado
por voss’alma fremosia
foi de tan enamorado
qu’eu chorand’assi dizia:

Suidade, suidade minha,
quando, quando vos veria?

Procurei-te pelos montes
pelas grutas santuários...
(dedos aflitos nas contas
profanas de meus rosários)
Ai, Deus! as águas das fontes
como as ninfas flutuantes
choravam nos estuários...

Quem viss’assi com’eu vi
com tal coita e tan velia,
ness’amor que padeci
de mi (n) tormenta diria:

Alma gêmea de mi (n)’alma,
quando, quando vos teria?

Mays estaveis na cidade
que dos campos não se via
no asfalto da puberdade
dos anjos da mais-valia...
Ai, Amanda de Saudade,
minha vasta claridade
aos poucos se apagaria...

Fremosura d’alvorada
mui louçana senhor mia
e tan muit’enamorada
que, partind’assi dizia:

Barqueiro do meu destino,
quando, quando vos veria?
Não enquanto morra tanta
a esperança conselheira
dos enforcados na ponta
do pau-brasil da bandeira...
Ai, cruzado em terra santa
o Amadis não se alevanta
de chorar a companheira!

Senhor mia, fin rosetta,
non me metta em romaria,
tanto amor em Leonoreta
de suidad’eu morreria...

Que baixinho perguntava:
quando, quando vos veria?

O remate da cantiga
foi à fonte e logo vem,
que cantiga sem remate
já nenhuma graça tem...

Dess’amor de mim senhor,
tendes voss’essa meestria...
Mas a vós, senhor, d’amor!
quando, quand’eu vos teria?

Afonso Estebanez

EU VOU

Se for preciso reinventar
a vida e me fazer de conta
e retomar a alma já pronta
por onde nada mais restou...
Eu vou!

Se for preciso restaurar
a dor e me doer de novo
no cio ardente e copioso
do mal ausente que ficou...
Eu vou!

Se for preciso reanimar
a luz extinta no crepúsculo
imponderável do minúsculo
grão de areia que se apagou...
Eu vou!

Se for preciso me afogar
no charco por mero martírio
ou por razão ou por delírio
o lírio diga por quem vou...
Eu vou!

Se for preciso reinventar
o amor numa paixão suicida
e reencontrá-la além da vida
na lida que a paixão deixou...
Eu vou!

Afonso Estebanez


ERRO DE FATO

Maria dava seu leite
para o filho do patrão.
O patrão, porém, comia
(que Maria lhe servia)
toda a carne do João...

Mas João não tinha nada
que tomar satisfação!...
Então o causo se acaba
(por amor tudo desaba)
na evidente conclusão:

Maria morreu na frente
do revólver do patrão...

Afonso Estebanez

ENTRE PARÊNTESES

Minha vida não é tua
nem é minha tua vida...
Somos partes
fragmentadas
de uma ânfora
partida.

Não são tuas minhas liras
nem tuas liras são minhas...
Ocultamos
a alma nua
na paráfrase
das linhas.

Tuas mágoas não são minhas
minhas mágoas não são tuas...
Somos os lados
dessas calçadas
desencontradas
das ruas.

Por mim não te desesperas
nem por ti eu me desatino...
Somos apenas
os parênteses
de uma linha
do destino.

Afonso Estebanez

26 de mar. de 2009

POEMA ESCRITO NA ÁGUA


Minha mão volta a escrever
entre as páginas das águas
onde o amor me volte a ler
a história de suas lágrimas.

Que nunca me falte a tinta
para o branco da memória
que amor é mágoa distinta
da mágoa de toda história.

E entre as páginas viradas
que inundam meu coração
deixo mágoas derramadas
com sabor de uma canção.

Quantas delas já verteram
das águas todas passadas
e de espuma converteram
dor em flores restauradas.

Minha mão vem descrever
como faz a flor das águas
que reescreve o alvorecer
da vida isenta de mágoas.

A. Estebanez

METADE DE MIM...


Metade é parte de mim
metade é parte velada
onde minha namorada
renasce do meu amor...

A metade enamorada
é paixão feita sem dor
é o lume da alvorada
na corola de uma flor...

Como rosa antecipada
no canteiro do jardim
assim é a sua chegada
noutra metade de mim...

É descanso do cansaço
da parte reencontrada
onde minha namorada
acorda dentro de mim

E é doce minha amada
perdida de me encontrar
metade sonha acordada
metade me faz sonhar...

A. Estebanez

A VIDA NA CONTRAMÃO


Não me embebedo com nada
porém me embriago de tudo
quanto mais me dão porrada
quanto mais me tenho mudo

Minha alma anda para frente
mas meu eu sempre pra trás
o que eu sonho é indiferente
quando peço o amor me traz

Minha vida anda embriagada
entre a aurora e a escuridão
bate em portas sem entrada
e quando entra é contramão

E esse mundo é tão deserto
que a noite me dorme acesa
com temor de não dar certo
meu despertar sem tristeza

E assim meus dias se calam
como as noites sobre o mar
como as rosas que só falam
quando o amor quer escutar.

A. Estebanez

21 de mar. de 2009

HÁBITO ADQUIRIDO



Meus dias têm o hábito
de caminhar pela alameda sem dar conta de mim.
Um hábito que as tardes me ensinaram generosamente.
Os bolsos cheios de nada e as mãos vazias de tudo...
De volta, o portão de casa entreabre os braços secos
e me convida para entrar...

E vem aquela sensação de que esqueci
de me lembrar do que o dia indiferente não contou...
Retorno em busca da lembrança do sorriso de amizade,
do cântico de um pássaro, de um beijo que me deu a brisa...
E só então percebo que minhas mãos vadias
– não sabendo uma o que a outra anda fazendo –
já me haviam tocado o coração secretamente
com o encanto que as idas e vindas pela vida
acabavam de me dar...

Entro afinal, e num cantinho da memória
um sorriso de criança acende a luz
da minha alma...

Como se alguma flor esquecida
estivesse me estendendo a mão...
... a mão do aroma de rosas
que ainda me acompanha...

A. Estebanez

VOZES E ESTRELAS


Ah, como poeta
eu tenho, Senhora,
perdidos meus olhos
na viagem noturna
de tantas estrelas...
Mas diga, Senhora,
que estrelas são essas
na luz dos teus olhos?
Seriam perguntas?
Irei respondê-las?
Que estrelas são essas,
são essas estrelas
de vagas promessas?
Responda, Senhora,
que estrelas são essas?

Tenho na alma milhões de madrugadas
levo músicas dessas nunca ouvidas e outonais...
Mas só não sei que vozes serão essas
que em tua boca são gotas musicais...

Responda, Senhora,
que vozes são essas
tão meigas na boca?
Reflexos celestes
de ânsias atrozes?
Que vozes são essas,
serão essas vozes
de vagas promessas?
Senhora, responda,
que vozes são essas?

A. Estebanez
(Cantiga in “Canção Que Vem de Longe” – 1966
Homenagem a Alphonsus de Guimaraens – 1870)

CONTAGEM REGRESSIVA


Dez... O eco milenar de um tiro ouviu-se.
Tombou um homem como império que ruísse
e a contagem regressiva principia:
como se naquele instante de enfático silêncio
doesse mais a fome negra de Biafra
que, sem vacas pra adorar, há milênios já doía.
Um tiro se repete e em nós a História se repete cada dia.
O vírus do conflito a espécie perpetua
e em cada cérebro pressente uma guerra gradativa
à medida que a contagem regressiva continua...

Nove... O lavrador aguarda a safra sem convicção.
O poeta e o poema continuam mais herméticos.
Os patéticos sorrisos não traduzem sua origem.
A liberdade ferida pelo vício do consentimento
o que faz é construir paredes.
O amor preso em cadeias do diálogo obscuro.
E tudo o que sabemos fazer é omitir: o silêncio
é o tijolo
que acrescentamos sobre o dorso intransponível desse muro.
Oito... Mas nossos filhos saberão de tudo:
a fome não se oculta toda a vida.
Os seios das mulheres de Biafra
irão cobrar seus dias de abundância.
O lavrador reclamará a sua safra.
O amor propalará sua renúncia
e nossos filhos saberão de tudo
porque cada um de nós é uma denúncia...

Sete... Estamos todos sendo expatriados.
Expatriadas as nossas convicções.
Indesejados os filhos de suas mães.
Nós somos deuses levados à guerra.
Semideuses morrendo de fome.
Estamos todos sendo expatriados
transformados em numerosos vietnames.

Seis... É tempo de jogar o último vintém
dos sonhos idos, dos que ainda vêm
e no resto da vida jogar sua riqueza...
Depois a dor pode cobrar seu pranto
cada sonho cobrar seu desencanto
e a tristeza cobrar sua tristeza.
Cinco... Ainda é tempo para amar.
Improvisemos uma primavera
e proclamemos todos nós iguais:
basta de tombar esses impérios
de homens em conflitos raciais.

Quatro... Enquanto estamos à mesa dos famintos
bradando com os negros seu clamor
virão príncipes vestidos de mendigos
suplicar-nos um pouco desse amor.
Três... E os senhores de nossa liberdade
um dia passarão famintos
mas nós estenderemos nossas mãos...

Dois... E os poderosos virão desatinados
matar a fome com o sobejo dos irmãos.

Um... O amor é a neutralização da bomba.

Zero... ?

A. Estebanez
(Prêmio “Troféu Casimiro de Abreu” do I Torneio Nacional da Poesia Falada –1968 – Governo do Estado do Rio de Janeiro – Secretaria de Educação e Cultura – Departamento de Difusão Cultural)

RIMAS DE MIM...


não sou assim
pesar de mim
não sou de mim
mas sou de mim
porquanto assim
não sou por mim
nem como a mim
nem contra mim
nem entre mim
e nem por mim
e quanto a mim
alguém de mim
não é de mim
não é por mim
ou contra mim
rimas de mim
não era assim
eu ser de mim
mas sou assim
Ô, ai de mim...
eu sou apenas
rimas de mim...

A. Estebanez

PARA MIM É O AMOR


Numa simples folha seca
que desfolhe e vá ao chão
rumo ao abismo do outono...
Para o amor é borboleta.

Uma canção no caminho
entre a brisa e o arvoredo
alguma flauta em segredo...
Para mim é passarinho.

O simples brilho da lama
a luz de semens na cama
e um transluzente infinito...
Para o céu é uma estrela.

E esse dom de comovê-la
como à rosa um beija-flor
nem assim eu posso tê-la...
Para mim não é o amor.

É veneno e não me mata
só me faz servo e senhor
e é o perfume numa faca...
Para mim isso é o amor.

A. Estebanez

MINUETO


Levo todo o amor
do mundo no peito
e uma flor na mão...

E a dona de tudo
– da vida e da morte –
diz – “Não!”

Levo um desamor
profundo no peito
feito pedra em mim...

E a dona de tudo
– do sonho e da sorte –
diz – “Sim!”

A. Estebanez

INCIDENTE


Soldados armados
com baioneta calada
– o capim navalha
invadindo pelos flancos
a casa do general...

A. Estebanez

PRELÚDIO


Mulher, não espantes essa abelha
que está zumbindo entre os fios
de teus cabelos ondulados!

Pode ser uma fada
tentando compor um prelúdio
nas cordas de um bandolim...

Observes as borboletas...

São harpas nas mãos das flores
que executam silenciosamente
a sinfonia da primavera
na ribalta do teu jardim...

A. Estebanez

ALEGRETO


não é festa
ou romaria
ou sombra
virando luz
na fogueira
do clarão...

é a noite
chegando
cedo para
o baile de
verão...

A. Estebanez

PSSSIIU!...


Psssiiu!...
meu amor, pensa baixinho...
não desperta o coração
de seu sonho costumeiro...
é das penas do carinho
que ele faz seu travesseiro...

A. Estebanez

TROVA & ENTRAVE


Passas tão discretamente
como sombra pelo chão...
Tua alma nem pressente
compassar meu coração...

Não é bom que seja meu
o que vem de tuas preces...
Deus não quer que seja teu
um amor que não mereces.

Encarceras minha alma
com tua alma libertada...
A minha fica com calma
e a tua segue sem nada...

Com abraços reanimas
meus desejos de pecado
entre grades clandestinas
de meu cárcere privado.

Se te aceno do outro lado
das calçadas sem correr,
tu me fazer de enganado
pra não se comprometer...

Quem pensa tudo saber
se às vezes tem razão,
se algum erro cometer
não sabe pedir perdão...

É verdade, a todo o dia,
dizes o quanto te amei...
Mas não dizes, todavia,
o quanto te desprezei..

A. Estebanez

PERDIÇÃO


Já nasci
em cada flor
em cada pedra
morri.

Eu hoje me desconheço
de tanto que me perdi...

A. Estebanez

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