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11 de nov. de 2009

PEREGRINAÇÃO



Ai de mim
entre esses peregrinos mortos,
os que olharemos para o passado
com melancólico remorso.

Tentaremos dizer alguma coisa,
mas já não saberemos dizer nada...
Até que, então, tenhamos aprendido
a fazer tudo o que não dá mais
para fazer nesta jornada.

E nos arrependeremos
de não ter suportado as feridas
que os espinhos da vida causam
como justo preço cobrado de quem
colhe uma rosa.

Ai de mim
entre esses tristes cavaleiros
que temos feito do sonho alheio
um campo santo para guerrear.

Ai de mim, ai de nós
que não poderemos mais
voltar...

Julis Calderón

25 de out. de 2009

SE ESSA RUA FOSSE MINHA...



Se minha rua fosse realmente minha
como minha alma é irreversivelmente
minha, por ela só caminharia alguém
para quem ter a paz de quem caminha
é dádiva de liberdade de quem tem...

Poetas e loucos e bêbados e pássaros têm
o ímpeto incontrolável de cantar também.
Passariam os sonhos dos amantes idosos
e o amor dos mais novos querendo passar
os que seguem do fim e voltam do início
e os que ficam só para não ter que voltar
e os que levam a vida sem ter que querer
e os que nunca terão o dever de explicar.

Os cativos do corpo viciado em ternura
e o êxtase das bailarinas de súbito no ar
e o olhar pueril da solidão das varandas
ancoradas no cais do luar e essa vontade
imensa de partir daqui para poder voltar.

Julis Calderón

NUMA FOLHA DO DIÁRIO



Há sonhos antigos
que habitam meu outro lado
como se a alma de porta aberta
fosse uma casa abandonada
por fantasmas de ancestrais...
... sempre me deixam rosas
desaparecidas entre o legado
dos escombros...

... como se meu coração fosse
aquele velho salão das armas
de um barão que não se sabe
se morreu daquela obscura
sensação de peso do crepúsculo
nos ombros.

Mas chego sempre ao final da rua
(ou do sonho) e percebo que minha
sombra sempre fica para trás
levando minh’alma só...

...e sempre volto e vejo
que lá está minha alma no jardim
com seu infinito olhar de rosas
debruçado na janela da alvorada...

Compreendo então que somos
dois para apenas um sonho só
ou dois sonhos para min’alma só.
Um de mim apenas ressonha
os sonhos que o outro sonha
– como o vento e o pó...

Julis Calderón

11 de set. de 2009

AVISO



Não demoro, favor aguardar...
Necessidade extrema de saber
onde minha alma está.

Não haverá tempo de sentir
saudade, pois devo voltar pouco
tempo depois que terminar
a eternidade...

Então, eu não estou aflito.
Estou só de coração sentado
na pedra bruta de minha vida
onde jaz calada – no meu grito
cúbico de súbito abafado – a alma
sem liberdade de ficar perdida.

Rogo não interromper a pressa
nem irritar a paz do meu conflito.
Quem me encontrar primeiro,
devolva-me com toda a urgência:
minha alma vai necessitar do amor
que dê conforto ao meu espírito...

Não demoro, favor aguardar...
Necessidade extrema de saber
onde todos um dia vão perder
a irrecuperável oportunidade
de se reencontrar!

Julis Calderón

INICIAÇÃO EPÓDICA



Não fixarás raízes
em terras ocupadas pelos sonhos
que se perderam da esperança de sonhar:
sonhos perdidos são lembranças mortas
de pássaros banidos da memória
do remoto destino de cantar...

Não tornarás felizes
aqueles a quem impões acreditar
na primavera em que nem tu acreditas
ser sonho estacionado na reinvenção da vida:
a fé traída pode até ser encantada
mas desencanto é razão perdida...

Não curvarás a alma
às grades do cárcere do coração
por onde vazam relâmpagos de claridade:
claridade é a luz da sombra penetrada
como a aurora é a janela da alvorada
e a alma o cárcere da liberdade...


Julis Calderón

30 de ago. de 2009

RETORNELLO



Nunca mais retornemos ao jardim
como rosas ou lírios ou alegres girassóis
nem como ave celebrando no cipreste
o renascimento infinito da plumagem
em forma de uma flor qualquer.

Soldados armados de ventos uivantes
passariam por lá como nuvens explosivas
e arrastariam nossas almas renascidas
para a invernada dos espinhos.

Retornemos ao jardim em forma
de esperanças e sonhos e quimeras
porque os ventos ceifariam apenas
nossas flores...
Mas não saberiam como levar
as nossas primaveras...

Julis Calderón
(Numa lembrança de Che Guevara)

9 de ago. de 2009

NADA ALÉM DO MEU JARDIM



Eu sempre empreendi grandes viagens
para não muito mais além do meu jardim...
Jamais pretendi chegar ao final de qualquer rua,
se o final das ruas sempre chegaram até mim.

Então eu nunca precisei tomar um trem
com uma mala velha abarrotada de saudade.
Até hoje convivo com a paz de minhas rosas,
companheiras de viagem para a liberdade.

Andar pelo jardim é como dar a volta ao mundo
onde vivo replantando beijos nos canteiros
dos parques das cidades que há no fundo
do lago da memória de minha infância...

E eu não posso correr o risco de deixar
de ser criança, como um velho travesseiro
que se rasga com o tempo e o vento
espalhando pela vida tantas penas
e sonhos e segredos e lembranças
adormecidos neste quarto antigo
onde jazem as minhas esperanças...


Julis Calderón

31 de jul. de 2009

SOBRE A ESPERANÇA



Esperança é o sofrimento da vontade
razoável de correr atrás de uma sobra
de alegria que supomos tenha restado
exclusivamente para nós na vida...
Especialmente aquela que tão simples
ninguém quis, e assim restou perdida...

É quando não podemos tomar posse
de uma árvore que floresceu no pomar
da felicidade humana proibida...

Então a esperança é o padecimento
de acreditar na possibilidade mínima
de tomar posse da sombra da árvore
proibida... Mas toda sombra é uma estrada
livremente asfaltada de luz adormecida...

É quando a esperança é essa vontade
irresistível de caminhar até o crepúsculo
e tomar posse do que resta de cada dia
como o lado luminoso de uma sombra
atirado nos escombros da alegria...


Julis Calderón

A RUA DE NOSSA VIDA



A rua de nossa vida deveria ser tão calma
o quanto são os verdes vales em que passa
a brisa, para quem, apenas estar passando,
é o ofício da liberdade de ser brisa...

Pela rua de nossa vida deveriam passar
apenas crianças de tenra idade, que cantam
quando se esvaem seus corações num ímpeto
incontrolável de felicidade.

Os enfermos de amor que recompõem
a canção do entardecer e o pássaro cantor
que em seus monólogos mais comoventes
redescobre o tom das sinfonias inacabadas,
como os poetas as juras de conspiração
das palavras de ternuras reinventadas.

Lembranças de paisagens desconhecidas.
Os bêbados de fé, as dançarinas em êxtase
subitamente paralisadas, os gemidos de dor
das portas ancoradas nas sombras
já mortas sobre as calçadas.

Os operários temporariamente livres
das correntes da escravidão, que buscam
na vaga claridade da esperança a dimensão
da vasta liberdade que jamais terão...

Julis Calderón

HOMILIA DA CONTRADIÇÃO



Com o tempo que perdi demolindo muros
eu teria construído um castelo de amor para sonhar
se não tivesse perdido tanto tempo construindo muros
para depois tombar.

Com o tempo que perdi desfolhando mágoas
eu teria tempo de secar as lágrimas pelo que não fiz
se tivesse tempo para convencer o mundo que olvidar a pranto
também é ser feliz.

Com o tempo que perdi protegendo frutos
eu teria me encantado muito mais com o pomar
se não tivesse perdido tanto tempo espantando pássaros
que não ouvi cantar.

Com o tempo que perdi removendo espinhos
eu teria todo o tempo reservado para o meu jardim
se tivesse aproveitado a vida para ser melhor do que o lado pior
que há sepultado em mim.


Julis Calderón

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