FUNDADOR DO MAIOR BANCO DO MUNDO ACREDITAVA NAS PESSOAS
Estranho ser pouco conhecido o banqueiro que mais revolucionou o sistema bancário, fundou e geriu o maior banco do mundo, colocando-o ao serviço das pessoas, e não das fortunas! Claramente privilegiava os pobres, apostando sempre em gente desfavorecida, mas empenhada em trabalhar honestamente, e não em magnatas interessados (legitimamente, entenda-se) em ganhar dinheiro através de investimentos financeiros, como faziam os bancos no início do séc. XX. Ainda por cima, teve uma vida algo aventurosa, pontuada por decisões vanguardistas, empolgantes para um argumento cinéfilo. Aliás, teve alguns – «It’s a Wonderful Life» do seu amigo Frank Capra (1946), «The First Dollar» (em rodagem) e os documentários: «A.P. Giannini – Bank of the Future» (2023) e «A Little Fellow: The Legacy of A.P. Giannini» (2025) – mas a personalidade inspiradora de Amadeo Peter Giannini (1870-1949) caiu no esquecimento demasiado depressa.
Descendente de italianos, nasceu em San José, na Califórnia, inserido numa comunidade de imigrantes da Ligúria, no Noroeste de Itália, que se aplicavam arduamente ao trabalho agrícola para singrarem no Novo Mundo. Aos seis anos, viu o pai ser morto por um trabalhador, que tinha vindo recolher a jorna de 1 USD, embora tivesse faltado ao trabalho. Como o pai Giannini se recusara a pagar-lhe um dia não trabalhado… acabou por pagar com a vida. Apesar do horror daquele desfecho macabro, o pequeno órfão de seis anos não se tornou vingativo, nem ressabiado contra aquele e outros empregados (e empregadores) violentos, antes enquadrando o acto brutal no desespero da pobreza generalizada, patrões incluídos. Explicava que na sua família não se falavam de tragédias, apesar de terem vivido várias, mas apenas das grandes oportunidades encontradas no novo país. Em relação ao assassinato do pai, Amadeo limitava-se a repetir, com realismo e noção da importância da vida de cada pessoa: «Não se pode morrer por um dólar». Percebera bem o nível de aflição de quem mata por tão pouco, sentindo-se chamado a ajudar os mais carenciados. Aprendera com os pais uma forma de solidariedade lúcida e construtiva, proporcionada à comunidade local pelo ‘Swiss Hotel’, gerido pelo casal Giannini.
Valeu à sua mãe, que enviuvou com pouco mais de vinte anos e 3 filhos pequenos (Amadeo era o mais velho), o apoio da comunidade italiana. Passado uns anos, voltou a casar e Amadeo descobriu o gosto pelo negócio e pela relação com os clientes na microempresa do padrasto (comércio alimentar). Entusiasmado pelo sucesso no trabalho, faltava-lhe tempo para estudar. Pressionado pela mãe e pelo padrasto, continuou os estudos, onde também teve êxito, chegando a conseguir abreviar alguns anos de escolaridade. No liceu, apaixonou-se pela matemática, de grande utilidade para a vida. Na faculdade, os professores deram-lhe o diploma ao fim de pouco tempo, reconhecendo que Amadeo sabia mais do que eles, fruto do estudo em casa e da prática na empresa do padrasto, que delegava nele tarefas e decisões estratégicas. Ficou-lhe do curso a máxima «no comércio, quem mais sabe, mais ganha».
A jovem mais cobiçada entre os italo-americanos de S.Francisco – Clorinda Cuneo – veio a ser a mulher de Amadeo. Este repetia com humor e sinceridade, que fora o «melhor investimento da sua vida». Tratava-se da rica e bonita herdeira do empresário Giuseppe Cuneo. Quando este morreu, a viúva e os outros 9 filhos não hesitaram em pedir a Amadeo para ser o seu representante na gestão da fortuna familiar. Mas Giannini recusou, só se rendendo às insistências da mulher, que lhe implorou esse sacrifício! Percebe-se quanto os talentos de Amadeo eram evidentes e inspiradores de confiança, a ponto de sogra e cunhados apostarem todas as fichas nele. Coube-lhe, assim, suceder ao sogro no Conselho de Administração do banco local – o Columbus Savings & Loans. Foi nessa função, que se apercebeu da atitude algo agiota dos bancos, apenas disponíveis para os ricos. Ficou escandalizado com os juros homéricos de 4% a 7% cobrados aos pobres imigrantes italianos, nas magras transferências para as suas famílias de origem, em Itália. Conseguiu reduzir esses juros, mas o crescendo de divergências com os seus pares no Conselho, levaram-no a bater com a porta e a prometer criar um banco para o povo – a People’s Bank – muito mais rentável do que o Columbus Savings & Loans. Claro que o acharam um lunático louco…
| O casal Clorinda e Amadeo Peter Giannini, conhecido por ‘A.P. Giannini’ |
| Em família, da esq. para a dta: o filho L.M. Giannini, a mulher Clorinda, A.P. Giannini, a filha Clara e o terceiro filho – Virgil. |
Embora soubesse pouco de banca, Amadeo foi pedir ajuda ao seu amigo irlandês James Fagan, especialista no mister. Também estudou afincadamente a matéria e resolveu guiar-se pelas primeiras instituições financeiras de cariz público não lucrativas, surgidas no Renascimento para proteger os pobres da usura comum. Essas confrarias, chamadas ‘Monti di Pietà’ (Montepios), concediam microcréditos sem juros, para viabilizar os negócios dos pobres – a maioria da população. Em 1904, nascia o Bank of Italy, rebaptizado de Bank of America, em 1930, dando créditos isentos de garantias financeiras, desde que Amadeo confiasse no empreendedorismo do pequeno empresário. Baseado na confiança pessoal, Giannini acreditava que lucro e ajuda ao próximo eram compatíveis, considerando convergentes o crescimento do banco e o sucesso do cliente! Por isso, caberia ao banco cuidar e assessorar o cliente. Seguia regras exóticas para o mundo financeiro: «um banqueiro digno desse nome não deve negar crédito a ninguém, desde que seja honesto». Não arriscava na riqueza acumulada, mas na pessoa calejada e afeiçoada à família. Seguia três critérios para investir nos negócios alheios, privilegiando os trabalhadores desfavorecidos e sem acesso ao crédito, como acontecia às comunidades imigrantes de italianos, irlandeses e chinesas, que bem conhecera: 1º empenho e capacidade de trabalho; 2º estabilidade e enraizamento, como ter uma família para sustentar; 3º o projeto empresarial/pessoal ter viabilidade, depois de avaliado meticulosamente por Giannini, que apreciava vanguardismos.
Em 1906, houve mais um revés para a maioria, mas não para Amadeo: na madrugada de 18 de Abril, um sismo de magnitude 7,9, seguido de incêndio (como em Lisboa, a 1 de Novembro de 1755), arrasou S.Francisco. De um total de 4000 edifícios, só uns 300 sobreviveram. Foi o caso da modesta sede do Bank of Italy. Por precaução, Amadeo mudou as reservas de ouro ali guardadas para uma zona mais segura, transportando-as em três carroças camufladas por legumes.
| Os efeitos do terramoto de 1906, na Union Square de S.Francisco. |
Dois dias depois do sismo, enquanto os demais bancos continuavam fechados, Amadeo montou uma mesa na zona do porto da cidade com a tabuleta: «Empréstimos como dantes, até mais do que antes». Em contra ciclo, ofereceu crédito a quantos lhe apareciam com as mãos calejadas (à época, marca de hábitos de trabalho árduo) e uma aliança no dedo – sinal de estabilidade e de necessidade de sustentar a família. O resultado foi a reconstrução do bairro dos migrantes, em tempo recorde (menos de um ano), além do crescimento do Bank of Italy! Em 1930, 96% dos microcréditos concedidos sem garantia tinham sido reembolsados! Além do apoio financeiro, o seu Banco também prestava assistência social gratuita aos migrantes italianos, para melhor se integrarem na sociedade norte-americana. Oferecia-lhes, por exemplo, aulas de língua inglesa, importantes para o exame de naturalização.
A sua aposta nos pequenos empresários e o aguçado entendimento da psicologia humana levou-o a investir em gente que iniciava negócios nas garagens da família, como Hewlett e Packard, que também se notabilizaram como pioneiros de Sillicon Valley. Giannini incentivava os inventos tecnológicos, percebendo o seu impacto na melhoria das condições de vida das pessoas. A proeza de engenharia da ponte suspensa na Golden Gate foi mais um dos seus investimentos, recusado pelos outros bancos. Amadeo tinha a noção da relevância social daquela ponte para o distrito de Golden Gate. Por isso, perguntou ao engenheiro do projecto – Joseph Strauss: «quanto tempo durará?». Strauss respondeu-lhe «para sempre!» e Giannini, confiante, disse-lhe para avançar: «A Califórnia precisa dela».
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Giannini adiantou verbas do seu património pessoal para financiar parte do Plano Marshall, destinado à reconstrução da Europa. Adiantou também dinheiro, sem juros, ao Governo americano, para o envio de bens essenciais para os países europeus empobrecidos pelo conflito. O esforço de reconstrução do pós-guerra coincidiu e favoreceu a internacionalização do Bank of America, que abriu filiais em cidades asiáticas especialmente carenciadas como: Tóquio e Osaka, Manila, Xangai, Bangkok.
À medida que o Bank of America prosperava e se destacava da concorrência pelo sucesso e pelo modus operandi atípico na banca da época, Amadeo enriquecia, mas preocupava-se em não acumular em demasia, para não ficar escravo do dinheiro. Estabeleceu o limiar máximo de 500.000 USD e o sobrante (cerca de metade do seu património) encaminhou para uma Fundação recém-constituída, que oferecia bolsas de estudo aos filhos dos funcionários do banco e financiava investigações na área médica, entre outros projectos beneméritos.
Não só o enriquecimento não o obnubilou, como não lhe estreitou os hobbies, interessando-se pelas artes e pela cultura, em geral, que considerava vitais para o pleno desenvolvimento humano. Foi o primeiro banqueiro a investir fortemente na indústria cinematográfica de Hollywood, privilegiando os filmes com conteúdo, que fossem além do entretenimento imediatista. Tornou-se amigo de Walt Disney e foi o único banco a conceder crédito à «Branca de Neve e os Sete Anões», cujo orçamento gigantesco desincentivara os outros bancos. Na mesma senda, foi mecenas de Charlie Chaplin, quando o realizador e actor britânico era desconhecido e o excesso de originalidade afugentava a banca tradicional. Ajudou Frank Capra, de quem era amigo, e animou tertúlias culturais com artistas e intelectuais do seu tempo, para aprofundarem temas de intervenção social.
| Amadeo com Joe Rosenberg e Vivien Leigh durante a filmagem de «E tudo o vento levou». |
A invulgar perspetiva de vida de Giannini está bem condensada nos princípios orientadores que deixou ao Bank of America, a soar a um guia para escuteiros, completamente alien na banca: «Nunca nos devemos tornar tão grandes, a ponto de nos esquecermos das pessoas comuns». Especificamente para a fundação, financiada com o seu património pessoal, traçou as seguintes orientações: «Administrem esta instituição com generosidade e nobreza, tendo sempre em mente o sofrimento humano. Não permitam que subtilezas legais (…) anulem os propósitos desta instituição. Como S. Francisco de Assis, façam o bem, não teorizem apenas sobre a bondade.»
| Giannini com a filha Claire (fotogr. de 1928), que lhe sucedeu no Conselho de Administração do Bank of America, numa época em que os cargos de direcção na banca eram um exclusivo masculino. |