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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Como eu soube que ela me amava


Eu só senti que ela me amava aos dez anos de idade. Minha mãe chegou ao Rio de supetão, sem avisar ninguém. Ao saber que eu decidira pular a quinta série, e em breve prestaria exame de admissão ao ginásio, arregaçou as mangas, colocando seu lado professora em ação. Passou a me dar aulas todas as tardes, na sala do apartamento onde eu morava com papai. Foi excelente professora: metódica, paciente, clara, exigente. Ensinava principalmente matemática, sua especialidade, justo a matéria em que eu era mais fraca. Lembro-me com muito prazer dessas nossas aulas. Eu gostava de estudar, e ela, de ensinar. Em volta da grande mesa preta, junto à janela da sala, nós duas fomos nos conhecendo melhor, começando a nos admirar, nos reencontrando.

Fiz os exames escritos. Junto com os outros candidatos, certo dia compareci ao colégio. Todas as crianças em fila, a diretora começou a ler os nomes dos aprovados, que deveriam passar ao segundo andar, para os exames orais. De jeito nenhum eu queria ficar ali, no meio dos reprovados, cidadã de segunda classe, escória do mundo! Demorou uma vida pra diretora chegar ao “J” e chamar meu nome.

Deixei a fila toda orgulhosa, os pesados sapatos pretos batendo no cimento do chão, plaft, plaft. Ali, no primeiro degrau da escada, encostada na parede, de repente eu a vi. Até perdi a respiração, de tanta surpresa, confusão, descoberta.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

Foi a única vez em que vi minha mãe chorar.