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quarta-feira, abril 22, 2026

o que está a acontecer

« -- Se quiserem comer comam, se não, comam merda, mas não façam barulho. Julgam que estão na catequese, mas já vão ver como elas mordem!... / Os soldados calaram-se durante uns momentos e prepararam-se para comer, limpando as facas de mato às calças ou enterrando a comprida lâmina na terra seca a fazer de esfregão.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«O carro acelera na tarde quente, a areia da alameda range. Paro, desligo o motor, um silêncio mais desértico. E um pequeno susto insinuado às coisas. São três malas apenas, o resto virá depois. Tomo duas, subo o balcão até meio, vou buscar depois a outra.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«não nos hão-de convencer que volte a censura, isso seria uma desumanidade e agora somos europeus. qualquer iniquidade do nosso peculiar espírito há-de ser corrigida pela europa, para sempre. isto é que é uma conquista. e é como respirar, existir oxigénio e usarmos os pulmões, não se mete requerimento, faz-se e fica feito e não passa pela cabeça de ninguém que seja de outro modo.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quarta-feira, abril 15, 2026

o que está a acontecer

«sardinhas em molho picante, nougat, doce de maçã, bolacha...Filhos da puta, ainda gozam ca malta! Se calhar esses finórios da administração julgam que isto é alguma excursão com pandeiretas e cervejas geladas... / -- Já vos disse para estarem calados -- rosnou o furriel, que parecia de todos o mais velho.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo no caminho. Se ao menos uma breve ideia. Não tenho. Não é bem a vida que faz falta -- só aquilo que a faz viver. Trago o carro para dentro, vou metê-lo na garagem.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«as ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. não importam. as liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. é um dado adquirido, como existir oxigénio e usarmos os pulmões.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quinta-feira, abril 09, 2026

o que está a acontecer

«não se preocupe, continuou, a conversa é mais para o distrair e, se ficar distraído sem reacção, também não lho levo a mal. é o que fez a liberdade, acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos, e podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano ouvia, com interesse, o filho, enquanto utilizava a língua como um palito, ora empolando a face direita, ora a esquerda. Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: -- Vamos lá a falar baixo. // -- "Chouriço de carne em óleo de mendobi", que raio será esta mistela avermelhada?... -- interrogava-se o Torrão, um soldado lingrinhas, uns olhos escuros de pardal brilhando debaixo da pala do quico, lendo o papel amarelo onde estava escrita a ementa:» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

sexta-feira, abril 03, 2026

o que está a acontecer

«um povo assim, está a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequívoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atenção. não tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho. Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para elementos do Partido Radical.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- O filho da mãe que fez as correias tão estreitas é que devia andar aqui no mato a amargá-las com um saco às costas -- resmungou um soldado. / -- De-de-ve ser pa-pa-ra pou-pou-par -- gaguejou outro em resposta. / -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: vamos lá a falar baixo.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

segunda-feira, março 30, 2026

o que está a acontecer

«1. o fascismo dos bons homens - somos bons homens. não digo que sejamos assim uns tolos, sem a robustez necessária, uma certa resistência para as dificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens e ainda conservamos uma ingénua vontade de como tal sermos vistos, honestos e trabalhadores.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

« -- O que me importa e irrita é essa mania que tu tens de achar bom tudo quanto é estrangeiro e mau tudo quanto é espanhol. Mas não me admira nada; mesmo nada; todos os teus correligionários são assim... / Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

«Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo; analisa-se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

terça-feira, fevereiro 25, 2025

4 versos de Valter Hugo Mãe

«agora eu era linda outra vez / e tu existias e merecíamos / noite inteira um tão grande / amor» 

O Resto da Minha Alegria (2003)

quarta-feira, outubro 09, 2019

vozes da biblioteca

«achei que aquele silva era um imbecil dos grandes e que me estava a empatar as energias com retóricas a chegar a um ponto em que a irritação me fazia agir contra a vontade de estar quieto.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Não é bem a vida que faz falta -- só aquilo que a faz viver.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«No telhado antigo, com o pó dos tempos fixado em crostas esverdeadas que nenhuma chuva conseguia lavar, os pardais faziam o ninho na Primavera.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)

sexta-feira, dezembro 21, 2018

vozes da biblioteca

«As virtudes civis e, sobretudo, o amor da pátria tinham nascido para os Godos logo que, assentando o seu domínio nas Espanhas, possuíram de pais a filhos o campo agricultado, o lar doméstico, o templo da oração e o cemitério do repouso e da saudade.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«ficámos um instante a perscrutar o exterior como se quiséssemos que enfim desabasse aquele céu pesado, mas não aconteceu nada.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Vou ser rainha dum minúsculo reino, de um reino de bonecas, frívolo e perfumado, mas no qual as minhas ordens serão sempre cumpridas e os meus desejos respeitados.» Diana de Liz, Memórias de uma Mulher da Época (póst., 1932)

segunda-feira, abril 23, 2018

«e ele dizia-me, se tu / fores um poema de amor / eu apaixono-me por ti, e / eu desaparecia boca / fora para dentro dele» Valter Hugo Mãe, O Resto da Minha Alegria (2003)

«No pensar que é a vida que se estua / a ilha continua» António Jacinto, «Paisagem concentracionária», Sobreviver em Tarrafal de Santiago (1985)

«Um sino toca algures onde se enlouquece.» José Agostinho Baptista, «Anoitecer», Agora e na Hora da Nossa Morte (1998)

terça-feira, março 27, 2018


«Eu sei por que veio, o que quer, o que faz aqui, / mas tu ergues os cálices / tu olhas para ela e ofereces uma rosa e / repartes o pão / e depois adormeces e entras no túnel que dá / para as colinas de Deus, / para os seus mortos antigos.» José Agostinho Baptista, «Agora», Agora e na Hora da Nossa Morte (1998)

«tão em descuido caiu / seu nome em meu coração / como pedra boca adentro / o silêncio morrendo» Valter Hugo Mãe, O Resto da Minha Alegria (2003)


«Quem canta afunda-se em amargura, / berra, protesta que não há razões / (nem o direito) de negar aos outros / a miséria que nos assiste.» José Alberto Oliveira, «Quem espera?», Mais Tarde (2003)  

segunda-feira, janeiro 30, 2017

"E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu."

Parece que um livro de Valter Hugo Mãe -- autor estimável --, com esta e outras frases, foi considerado apropriado por umas azémolas para ser trabalhado em sala de aula. Eu até posso desconfiar que terá havido quem não passasse das primeiras páginas, posso suspeitar de incompetência. Mas também não me custa a crer na alarvidade de certas criaturas que acham normal que miúdos de treze anos sejam confrontados com esta linguagem. Algumas delas devem até dizer as caralhadas todas à frente dos filhos, ou seja: javardos criados por javardos, que criam javardos, por sua vez. Não admira por isso que o ambiente deste país seja fétido: das tvi's às revistas cor-de-trampa que enxameiam os pontos de venda.

Mas pérola, pérola, é a pergunta dum atraso de vida da TSF a Isabel Alçada, que, justamente, mostra o incómodo com este episódio de barraca: «Questionada pela TSF se esta não é uma posição conservadora», a ex-ministra lá responde, e bem, certamente cheia de paciência e comiseração. Pergunta duplamente estúpida. Em primeiro lugar ,a linguagem que se usa não indica se se é progressista ou conservador. Conheço imensos reaças asneirentos, como progressistas de vocabulário ultrapuritano; ou gente como eu, que diz palavrões com gosto, mas não o faz diante dos filhos ou dos pais. "Hipocrisia", estou já a ouvir alguns. Não; decoro com os mais novos; respeito pelos mais velhos. 
Mas há ainda outro problema na pergunta idiota da TSF, admitindo que ela, pergunta, fosse pertinente e legítima: então quem é 'conservador' tem diminuídos os seus direitos?; só os 'progressistas' (no baço entendimento de quem perguntou) é que têm de ser levados em conta?

domingo, junho 12, 2016

caracteres móveis - Valter Hugo Mãe

«O preço do mundo é a família. Quem mais mundo ganha menos gente carrega,»
«Estar longe», Autobiografia Imaginária (JL, 8-VI-2016)

quarta-feira, janeiro 28, 2015

nem todos somos bons homens (ou mulheres)

«num tempo em que todos somos bons homens a culpa tem de atingir os inocentes»

Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quinta-feira, agosto 07, 2014

da dissimulação

«e, repetia, se não dermos nas vistas, podemos passar uma vida inteira com os piores instintos, e ninguém o saberá.  com a liberdade, só os cretinos mais incautos passaram a ser má gente. tudo o resto preza-se e cabe na sociedade de queixo erguido. e isso leva-nos a quê, perguntei eu.»

Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

porca miséria

Nos topes da Ler, a indigência é esmagadora. Dos 30 livros que por lá aparecem, apenas um existe na minha biblioteca e só dois teriam hipóteses de lá chegar:
Top Fnac não ficção, reinam a culinária & outros livros úteis. Nada contra, nem a favor. O 6.º mais vendido, A Infância de Jesus, de Joseph Ratzinger (Principia), não será uma compra óbvia para um ateu, mas enfim, trata-se da biografia de um famoso.
Top ficção da Bertrand, desesperante. Salva-se A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe (Alfaguara), 7.º lugar. O resto: mistérios & fodilhices de trazer por casa, que eu suspeito não passarem pelo crivo da literatura.
Top geral Wook, socorro, expectativa apenas pelo 6.º, Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto (Quetzal).


terça-feira, setembro 05, 2006

Antologia Improvável #158 - valter hugo mãe

meu amor inventado
ainda assim tanto demoras

O Resto da Minha Alegria

valter hugo mãe