António de Cértima: [14.8.1961] «Subo um pouco mais e, da planura verdejante do Rond Point, os olhos divertem-se a seguir o movimento da multidão zebrada de cores que sobe e desce a Avenida, e a aprisioná-la lá em cima, num cartaz modernista, junto do Arco glorioso que nos fala das preocupações arquitecturais e do instinto das batalhas do vencedor de Arcole e Austerlitz.» Doce França (1963) § Fialho de Almeida: «Porque, seriamente, nós volvemos de novo à flor desta sagrada terra que nos devora, uma vez, muitas vezes, em regiões várias, climas, vários e disfarçados consoante o humorismo da química que nos manipula.» «Pelos campos», O País das Uvas (1893) § Machado de Assis: «Naturalmente o vulgo não atinava com ela; uns diziam isto, outros aquilo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta: -- a causa da melancolia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia.» «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § José Bacelar: «Gritar, vituperar, amaldiçoar -- está bem ainda. Mas ai daquele que não faz como os outros -- ai daquele que friamente levanta um pouco o véu.» Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana (1936) § Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (1955): .../... «Bem vê, portanto, que a nossa camaradagem e amizade sai intacta do prémio, como não podia deixar de ser. / Diga-me quando puder qualquer coisa sobre a antologia do Pascoaes. Não voltou a pegar-lhe? Era bonito aparecermos com isso no próximo inverno. Quando passar pelo Porto, previna-me. Gostava de estar consigo. / lembranças à Mécia e o melhor abraço do seu / Eugénio.» Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, ed. António Oliveira, 2015 § Raul Brandão: «A terra é dos probes -- teima ele. / Cheira a monte e arfa no escuro uma coisa sagrada -- o sonho dos pobres. As figuras da realidade desapareceram, outras figuras estão presentes como sombras carcomidas e que chegam ao céu. Um momento a brasa ilumina as mãos da senhora Emília que parecem de morta.» O Pobre de Pedir (póst., 1931)
quinta-feira, abril 24, 2025
zonas de conforto
quinta-feira, março 20, 2025
o que aconteceu
«Ecoam os passos na eira deserta, abre-se a porta da cozinha e o criado atura ao lume um braçado de poda: entre estalidos, a labareda ilumina as figuras atentas, o homem seco como as vides e a cabeça toda branca; a senhora Emília metida na sombra, calada como se não existisse; os filhos, o José que é ladrão, a Rosa que acabou nas vielas; e o criado, o Manco, sempre a cantar, como aqueles grilos a quem se tira uma perna para cantarem melhor.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
sábado, fevereiro 22, 2025
o que aconteceu
«Agora deitem Vossorias consultas e digam-me: quem tudo lo manda no concelho? Quem? O doutor Alípio, o filho da Ruça da Folgosela, com porta aberta aos marchantes na feira de S. Mateus. Quem recolhe boas novidades? O pele-de-asno do Bisagra com umas barreiras rabosanas, donde não valia a pena enxotar a milheira, quando ainda o mundo não andava torto.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)
«Oh! moços que vos dirigíeis vivamente a S. Carlos, atabafados em paletós caros onde alvejava a gravata de soirée! Oh! tipóias, apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros quantas vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil réis por mês e o meu jeito encolhido de enguiço, me excluíam para sempre dessas alegrias sociais, vinha-me então ferir o peito -- como uma frecha que se crava num tronco, e fica muito tempo vibrando!» Eça de Queirós, O Mandarim (1880)
«À saída da aldeia, recuou estarrecido. Vira um fantasma branco a destacar das trevas, e agachado na raiz dum castanheiro. / -- Ó Zé da Mónica, és tu? -- perguntou o suspeito fantasma. / -- Sou eu, tia Brites -- respondeu o rapaz suspirando ofegante. / Credo! Que medo você me fez!» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)
domingo, janeiro 05, 2025
o que aconteceu
«Para tomar o comboio em Lamares, que ficava a quinze quilómetros de distância, era-lhe preciso atravessar o aberto cenário onde tinha mourejado sonhadoramente: searas espessas de trigo a ondular, sobreirais pardos de tristeza e pousios de esteva florida, babada de mel e de mormaço.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
«--Vi-o! / Também a senhora Emília, cada vez mais apagada e humilde, o espera com o olhar que revela um peso insuportável. / Sentada no lar, não tira os olhos de Fortunato. Vai-lhe falar? Não se atreve. Não bolem, ele negro e curvado, ela em frente com a boca sumida e as cinzas frias ao meio dos dois a separá-los. Amar não é nada. Amar na dor e na desgraça é que é a lei suprema da vida.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso -- como o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lépido couceiro. Não que me revolvesse o peito o apetite heróico de dirigir, do alto de um trono, vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jamais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida de um correio choutando; mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champanhe, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vénus.» Eça de Queirós, O Mandarim (1880)
sábado, dezembro 07, 2024
o que aconteceu
«E, quanto mais cismo, mais dou razão ao Miguelão da Cabeça da Ponte, que falava como livro aberto, o grande bruxo. Muitas vezes lhe ouvi dizer quanto estava de boa lua, o que nem sempre sucedia: / -- Tempos virão em que o governarão as terras vãs e os filhos das barregãs.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)
«Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sòzinho, é suficiente para as minhas necessidades.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
«O rapazinho deitou a correr, e lá foi a caminho da serra. Tendo de optar entre os malefícios da alma penada e a biqueira do tamanco do amo, preferia encontrar o defunto capitão-mor. Ainda assim, ia rezando alto quanto sabia da cartilha: os Pecados Mortais, as Obras de Misericórdia, os Sacramentos da Santa Madre Igreja, tudo.» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)
domingo, novembro 17, 2024
o que aconteceu
«Depois da acabrunhadora tristeza daquela infindável viagem, daquela soturna chegada, essa alusão mental à morte recente da mãe chocou-a a pontos de sentir que ia chorar. Se a mãe fora viva, não andara ela por aí sozinha, já de noite, assim carregada, exposta a estas pequenas humilhações que todavia abatem uma rapariga tímida -- e endereçada a parentes pelo visto pouco gentis.» José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941)
«André apertou na sua uma mão seca, ossuda e brusca. Agora próximo, de novo se abriu o clarão do cigarro. André mais adivinhou que viu um bigode negro e um rosto anguloso e moreno. / Os três vultos desceram o talude junto à via férrea e seguiram por uma azinhaga sombria, enfeixada entre renques de árvores de forma confusa.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)
«Ele levantara os olhos devagar, num esforço, e fora então que as ancas da mulher, assim sentada, lhe pareceram mais amplas do que quando ele estava em pé. Os seus olhos fugiram imediatamente do diabo que se escondia ali, sob as saias, redondo que nem uma abóbora; mas logo se enredaram no sorriso que a mulher luzia -- um sorriso brando e húmido.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)
sábado, outubro 12, 2024
tempo de novela
«Acodem os jornaleiros secos e ressecos, as velhas das cabanas e outros -- lá dos altos, para ouvirem o Manco. À noite, nos sítios ermos, juntam-se em bando o Ai-Jesus, o Ladrão, o Seringa, o Abelheiro e alguns tipos escalavrados, e todos eles o querem ver e ouvir.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«Tinha nesse tempo vinte anos. Chegou à idade, foi às inspecções, ficou apurado, e lá vem ele para Lisboa fazer o serviço militar. / Era então um rapaz entroncado, maciço, que trocara há uns anos já o cajado de pastor pela rabiça de ganhão, no Farrobo, uma das herdades do senhor Gaudêncio. Mas, quer a apascentar ovelhas ou a lavrar terra, as léguas largas e quentes da charneca tinham-lhe entrado no sangue.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
«No escuro e no silêncio, luziu a alguns passos o fogo de um cigarro. / -- O comboio já passou -- disse o camarada a despropósito. / Como em resposta, por três vezes o pequeno clarão do cigarro piscou no escuro. Aproximaram-se. O vulto do fumador precisou-se melhor, aproximando-se também. / -- É este o amigo -- disse o camarada. / Não se sabia se falava deste, do fumador ou dos dois.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)
sexta-feira, setembro 27, 2024
tempo de novela
«Um indivíduo assomou-se à janela duma das carruagens paradas e escarrou com estrépito. / -- Vê lá quem vai passando...! -- disse doutra janela uma voz rouca, num modo meio repreensivo meio de escárnio. / Rosa Maria fora obrigada a correr uns passinhos, e o embrulho da velha Leocádia escorregou-lhe; sentiu-se dolorosamente vexada, pensou: «Se a minha mãezinha fosse viva...» José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941)
«A mulher volvera à sua lembrança. Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar no chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio. Dir-se-ia que as suas pernas tinham, nessa hora, uma felicidade independente do tronco, todo um desejo de folgar que começava dos joelhos para baixo.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)
«Infelizmente, corcovo -- do muito que verguei o espinhaço, na Universidade, recuando como uma pega assustada diante dos senhores lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó perante os meus directores-gerais. Esta atitude de resto convém ao bacharel; ela mantém a disciplina num Estado bem organizado; e a mim garantia-me a tranquilidade aos domingos, o uso de alguma roupa branca e vinte mil réis mensais.» Eça de Queirós, O Mandarim (1880)
sexta-feira, setembro 20, 2024
tempo de novela - Camilo Castelo Branco
«O rapaz tartamudeou, tiritando de medo. / -- Perdeste, ladrão? Vai em cata dela, e, olha lá: se a não trouxeres, não me apareças mais, que te arranco os fígados pela boca. / E deu-lhe dois valentes pontapés à conta. / Este João da Laje era um homem de princípios menos maus, assentados em religião e pátria: havia matado dois franceses doentes nas ambulâncias retardadas, e acreditava que o fantasma era a alma do capitão-mor e não a égua branca do vigário.» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)
quarta-feira, setembro 18, 2024
tempo de novela - Branquinho da Fonseca
«Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez!» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
tempo de novela - Aquilino Ribeiro
«Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer. / Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)
segunda-feira, setembro 16, 2024
tempo de novela - José Régio
«Tapando-lhe a estação, havia outro comboio na primeira linha. Mas as carruagens ficavam tão altas que Rosa Maria desistiu de subir, assim carregada, e atravessar para o outro lado. Pôs-se a andar ao longo das carruagens. Soprava, a espaços, um vento seco e álgido, violento, contra o qual baixava a cabeça de lado, avançando a custo.» José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941)
domingo, setembro 15, 2024
tempo de novela
«O "bagatelle" deixou a lata, pousou uma das mãos sujas sobre a escada e olhou para o beiral: / -- Vou pintar a palavra "Missão" no telhado, por causa dos bombardeamentos... / -- Muito bem. É preciso -- apoiou Mounier, sempre com um tom descuidado e já a afastar-se.» Ferreira de Castro, A Missão (1954) § «Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté dos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra -- eu cá nunca me avistei com ele -- mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)
sexta-feira, setembro 06, 2024
tempo de novela
«E o Manco teima e diz, com a ponta do cigarro requeimado ao canto da boca: / -- Jesus Cristo há-de voltar para nos dar a terra. / -- Voltar?! / -- Os pobres hão-de ser sempre pobres. / E o Fortunato: / -- Sempre. Sem pobres acabava-se o mundo. / -- O mundo é dos probes!» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931) § «Eu então, enternecido, dizia à deleitosa senhora: / -- Ai D. Augusta, que anjo que é! / Ela ria; chamava-me enguiço! Eu sorria, sem me escandalizar. "Enguiço" era com efeito o nome que me davam na casa -- por eu ser magro, entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter à cabeceira da cama uma litografia de Nossa Senhora das Dores que pertencera à mamã, e corcovar.» Eça de Queirós, O Mandarim (1880) § «Era por 1813, meado de Agosto, quando o pastor chorava encolhido, a um canto do curral, e pedia ao padre Santo António com muitas lágrimas que lhe deparasse a cabra perdida. / João da Lage, o amo, assomou à porta da corte, e bradou: / Perdeste alguma rês?» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)
sábado, agosto 31, 2024
tempo de novela
«Entrelaço no desenho do seu nome quanto a imaginação me pede de distância e de perigo. Vivo nele. E, enquanto dura a memória dos seus passos, sinto-me tão verdadeiro que quase sou feliz. // Começo sempre por vê-lo sair das berças, Penedono, no Alentejo, onde nasceu e se criou a guardar gado.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943) § «Estava uma noite baça, húmida, morna e sem vento. Depois de se esgueirarem ao longo da vedação, para lá da qual se ouviu, no silêncio, o chocar metálico de dois vagões em manobras, André e o camarada que o ia apresentar desembocaram na via. Seguiram uns cem metros e pararam atentos.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § «Nas tardes de feira, sentado da banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdeal, descocava-se a desfiar a sua crónica perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)
terça-feira, agosto 27, 2024
tempo de novela
«Mas imediatamente ele se debruçou na portinhola e falou num tom mais íntimo: / -- Boa noite! Espero tornar a encontrá-la. Elvas não é assim tão longe de Portalegre! E terei muitíssimo prazer... / Pegando atrapalhadamente nas suas coisas, Rosa Maria afastou-se um pouco. Estava escuro e frio.» José Régio, Davam Grande Passeios aos Domingos (1941) § «Esta hora, sobretudo no Verão, era deliciosa: pelas janelas meio cerradas penetrava o bafo da soalheira, algum repique distante dos sinos da Conceição Nova e o arrulhar das rolas na varanda; a monótona sussurração das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véu nupcial da Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas bicais; pouco a pouco o tenente, envolvido com um lençol como um ídolo no seu manto, ia adormecendo, sob a fricção mole das carinhosas mãos da D. Augusta; e ela, arrebitando o dedo mínimo branquinho e papudo, sulcava-lhe as repas lustrosas com o pentezinho dos bichos...» Eça de Queirós, O Mandarim (1880) § «Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas. Como vivo sòzinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
sexta-feira, agosto 23, 2024
tempo de novela
«Mounier parou: / -- Bom dia! Então qual é hoje o trabalho? / Ele vinha a rememorar a influência maléfica que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraìdamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.» Ferreira de Castro, A Missão (1954) § «A maioria, porém, pôs em evidência o facto psicológico, divulgando que o moleiro era homem de maus costumes, tinha sido soldado na guerra do Rossilhão, não se desobrigava anualmente no rol da igreja, nem constava que tivesse matado algum francês.» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876/7) § «Viram-no, e quem o vê fica atónito como o Manco, que anda desvairado pelo alto dos montes, a desafiar o vento com um pau e a pedir lume ao fogo dos relâmpagos. Viu-o o Senhor José, espesso como granito, que nunca pôde comunicar comigo. Viu-o e calou-se. Mas sei que viu o Pobre, porque se pôs a olhar para mim duma maneira singular...» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
segunda-feira, agosto 19, 2024
tempo de novela
«Mas, como sou homem de impossíveis, salvo-me como posso. Encho-me da lembrança mágica do senhor Ventura, que nenhuma razão impediu de correr as sete partidas que chamam em vão por cada um de nós. Na sua figura ponho a realidade do que sou e a saudade do que podia ser.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943) § «-- E Jesus que não vem! / Já muitos o viram. É um pobre -- é um pobre de pedir --, é um fantasma. Ninguém sabe dizer como é esse vulto que desaparece na volta dos caminhos. Não traz sacola, e não passa talvez duma sombra. O seu silêncio mete medo.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931) § «Aos domingos repousava: instalava-me então no canapé da sala de jantar, de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa, costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro.» Eça de Queirós, O Mandarim (1880)
domingo, agosto 18, 2024
tempo de novela
«Na velhice, o negócio tilintado através de gerações, as andanças de recoveiro, o ver e aturar o mundo, tinham-no provido de lábia muito pitoresca, levemente impregnada dum egoísmo pândego e glorioso.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922) § «Entusiasmo-me com a beleza das paisagens, que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942) § «O povo atribuíra aquela morte ao capitão-mor de Santo Aleixo de além-Tâmega, por vingança de ciúmes, e propalava que a alma do homicida, de fraldas brancas e roçagantes, infestava aquelas serras. O moleiro das Poldras contrariava a opinião pública, asseverando que a aventesma não era alma, nem a tinha, porque era a égua branca do vigário.» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)
quinta-feira, agosto 15, 2024
tempo de novela
«Na disposição de espírito em que viera, não só a tinham importunado como quase assustado as insistentes atenções do cavalheiro amável. «Vêem uma rapariga só...» -- pensava ela com a sua psicologia de pouco afeita aos caminhos de ferro e aos desembaraços da mulher moderna. Agora, não havia perigo em compensar o seu aliás respeitoso admirador com esse olhar e um sorriso.» José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941) § «E logo preveniram: / -- O tipo tem já cadastro por desordens, facadas e, segundo parece, também por roubo. A solução é má, mas por nós não vemos outra. Decide tu. / André resolveu aceitar e foi apresentado ao homem. / O encontro teve lugar nas proximidades da estação de Campanhã, distante do centro da cidade, a horas mortas e num sítio deserto.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § «Ao fundo, com uma árvore em frente, tão ramalhuda que quase a ocultava, erguia-se a capela, que, ligada embora ao edifício, avançava sobre o jardim, dando ao todo a forma dum grande L. / Ao entrar na cerca, Georges Mounier viu uma escada posta ao beiral. Junto dela, o "Bagatelle", homem de sete ofícios, pedreiro, pintor, até carpinteiro, se fosse preciso, uma vez por outra trabalhando na Missão, ia remexendo com o pincel a tinta branca coalhada no fundo de uma lata.» Ferreira de Castro, A Missão (1954)