domingo, dezembro 28, 2025
segunda-feira, dezembro 01, 2025
domingo, outubro 19, 2025
Borges Coelho, o último dos grandes
Quando comecei a estudar História, um grupo de historiadores de largo espectro, cujo conhecimento e amplidão de estudo iam além da "mera" especialização, impunha-se. Eram eles António José Saraiva (1917-1993), Luís de Albuquerque (1917-1992), Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011), Joel Serrão (1919-2008), Jorge Borges de Macedo (1921-1996), José-Augusto França (1922-2021), Joaquim Veríssimo Serrão (1925-2020), A. H. de Oliveira Marques (1933-2007), José Mattoso (1933-2023) -- e, claro, António Borges Coelho (1928-2025), a cuja defesa da tese de doutoramento assisti e que entrevistei, no século passado, para o JL, além de nos termos encontrado algumas vezes no nosso comum concelho (ABC vivia na Parede).
Era um historiador do contra, e isso fez toda a diferença.
sexta-feira, outubro 10, 2025
seis poemas de Liberto Cruz, na sua morte (1935-2025)
Quem a morte sentiu
Da vida não foge
(Livro de Registos / Última Colheita, 2022)
***
Tenho a idade
deste plátano
e desta tília.
Todavia sei
que não vamos
envelhecer juntos.
(Sequências, 2000)
***
Uma só vida não chega
Nem outra nem outra ainda
Para dizer que te amo
Meu amor meu só amor.
E quando a morte vier
Inevitável e certa
Que seja eu o primeiro
A ficar no livro inscrito.
Que ali discreto seja
E feliz por ter amado
A mulher por que morri
Vivendo. Nada mais quero.
Se de meu amor morri
Morrendo volto a viver.
(Caderno de Encargos, 1994)
***
Como defender a Pátria falando outra língua,
Se outra língua ouvindo sei que esta terra
Minha Pátria não é?
(Jornal de Campanha, 1986)
***
Em Portugal haver mocidade portuguesa
é um pleonasmo a evitar
(Gramática Histórica, 1971)
***
SÓ PORQUE ÉRAMOS PUROS
Só porque demos as mãos
E gritámos bem alto
O nome da amizade,
Só porque trocámos carícias
Sem o prazer dos sexos
E fomos amantes Como o luar e o rio,
Chamaram-nos devassos
E refugiaram-se no mundo
Torpe, em que não caímos.
(Momento, 1956)
terça-feira, setembro 23, 2025
quarta-feira, junho 11, 2025
segunda-feira, abril 21, 2025
um líder excepcional
Baptizado, educado na Igreja Católica, numa família que se dividia entre o ateísmo anticlerical e uma prática religiosa abaixo dos mínimos, por tradição, hábito e superstição, português e europeu, sou um ateu impregnado de cristianismo. Aliás, como qualquer um cujo coração está à Esquerda, a figura histórica de Jesus Cristo, a sua mensagem revolucionária, pregada ainda na Antiguidade, recorde-se, de que todos os homens são filhos de Deus e iguais na dignidade, só pode merecer a adesão de todos quantos atribuem a essa mesma dignidade um valor inegociável e sem cotação em bolsa.
O papa Francisco, Jorge Bergoglio, era desses. Por isso -- com as excepções do costume -- concitou não apenas o amor e a admiração dos seus fiéis, como de todos os homens de boa-vontade, qualquer que fosse a sua religião, ou não professassem credo algum, como é o meu caso.
Além disso, o seu humanismo e bom-senso, uma voz que se elevava sobre os guinchos das hienas da indústria bélica e os seus criados, na União Europeia e alhures, e sobre a indiferença que estes mesmos servos da UE já demonstraram ter diante do genocídio -- creio que só agora assumo esta palavra, e já vou muito atrasado -- dos palestinos e a condescendência para com os criminosos de guerra do governo de Tel-Aviv.
Como esquecer a ida a Lampedusa, no início do pontificado?; as palavras contundentes e cheias de indignação contra a "economia que mata"?; os latidos da Nato à porta da Rússia?; a vergonha excruciante de chefiar uma instituição religiosa com um histórico encobrimento de abusos sexuais generalizados que tornam uma parte da igreja num coio de crime e abjecção? A luta entre bem e mal trava-se também lá dentro. Francisco era do Bem, e só este é admissível.
Vai fazer imensa falta, e espero, que o próximo possa estar à altura do grande Francisco. Afinal, um papa continua a ser um líder político mundial e uma das consciências da humanidade.
quinta-feira, abril 17, 2025
Fernando J. B. Martinho (1938-2025)
E só agora, pelo JL, dei pela morte de Fernando Martinho, com quem estive, em várias circunstâncias, nos últimos trinta ou mais anos, sempre por causa da poesia e dos seus poetas, que ele sabia como ninguém abrir à leitura e comunicá-la.
Carlos Matos Gomes (1946-2025)
Durante uns breves dias fora e desconectado, a morte de Carlos Matos Gomes -- tantas vezes aqui chamado, em serviço público --, apanha-me como a pior notícia desta Páscoa, pelo inesperado e pela falta que fará na análise de um momento internacional em que a inteligência e a coragem estão em suspenso.
terça-feira, fevereiro 04, 2025
Maria Teresa Horta (1937-2025) uma aristocrata do espírito que pairou sobre as elites que não prestam e um povo embrutecido que ela gostaria de ver elevar-se
segunda-feira, novembro 18, 2024
Christian Godard (1932-2024), o autor de Martin Milan
Com a morte do parisiense Godard, um autor tão fino quanto colossal, desaparece um dos nomes históricos da banda-desenhada franco-belga. Se alguns dos seus trabalhos publicados entre nós -- Norbert e Kari, A Selva em Festa, O Vagabundo dos Limbos, aqui apenas como argumentista --, já fariam dele um autor relevante, é com o anti-herói Martin Milan, piloto de táxi-aéreo -- avioneta a que pôs o nome "Velho Pelicano" --, personagem melancólica, dura solitária e solidária, mas com uma ironia subtil, que serve ao autor para dar nota de uma inteligente veia humorística (Franquin, Goscinny, Morris), que Godard entra no panteão dos grandes criadores europeus dos quadradinhos (Hergé, Jacobs, Pratt, os atrás citados e ainda alguns mais). Porque Martin Milan será sempre uma das mais inesquecíveis personagens que a 9.ª arte nos deu.
sábado, novembro 16, 2024
quarta-feira, novembro 06, 2024
sexta-feira, setembro 06, 2024
Augusto M. Seabra, Carl Barks e eu
Muito já se escreveu e disse, e continuará a escrever e dizer-se sobre o impressionante Augusto M. Seabra o crítico por antonomásia, que ontem morreu. Tudo o que já li sobre ele faz jus ao que sempre li dele, muito intermitentemente, uma vez que nunca fui muito à bola com os jornais em escrevia, Expresso e Público, mesmo que se trate das duas grandes referências do jornalismo das últimas décadas, hoje uma sombra do que em tempos foram, e o que foram foram-no por causa de um (grande) jornalista, Vicente Jorge Silva. Eu, sempre antigo, era mais Diário de Lisboa (o extraordinário quotidiano, de Joaquim Manso a Mário Mesquita).
Adiante.
Com familiares comuns, estive uma vez em sua casa, há cinquenta e dois anos. Quase duas décadas mais velho que eu, era um tipo muito simpático. Presenteou-me com uma revista Tio Patinhas que trazia (e traz, porque ainda a tenho) uma daquelas histórias do Carl Barks que faziam sonhar todas as crianças e jovens, e tantas vocações aventureiras despertou -- cientistas, antropólogos, arqueólogos, líricos, viajantes, sonhadores... -- eu na última categoria, modestamente espero: «O segredo da Atlântida».
Aqui fica, em sua memória, que é também minha.
terça-feira, julho 02, 2024
Franco Charais, o militar de Abril que mandou libertar os presos de Caxias,
cagando-se para o Spínola, li aqui, através de mão amiga. Descubro agora a sua pintura, muito pessoal e interessantíssima, alguma inspirada em motivos africanos rupestres, certamente informada pelas missões em África durante a Guerra Colonial, mas também de feição surrealizante, de que deixo alguns exemplos, tirados da net.
segunda-feira, julho 01, 2024
quarta-feira, junho 12, 2024
porra, morreu o Fernando Grade
(ver aqui e aqui, por exemplo); e um texto de José d'Encarnação.
terça-feira, abril 09, 2024
Eugénio Lisboa (1930-2024)
Estive com ele há poucas semanas. Devo-lhe a generosidade de me prefaciar um livro; devo-lhe mais: o exemplo da liberdade de pensar.
Eugénio Lisboa é um ensaísta arguto, culto e informado, e sendo uma autoridade em José Régio e na presença, foi muito mais que isso: alguém que se deixava encantar pelo talento verdadeiro, e pouco atreito a fazer fretes.
Foi também um temível polemista. Temível, porque tinha uma cultura vasta que lhe servia um espírito crítico acerado; e não tinha medo, não andava aqui para agradar, como sucede com tanto patife e tanto invertebrado.
A sua obra de ensaísta claramente ficará -- para os happy few, expressão que gostava de usar. Tenho especial estima por O Objecto Celebrado (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1999), talvez por ser o primeiro que me ofereceu, já eu o admirava há muito. Mas não podemos esquecer o poeta, com grandes momentos, em especial no início, o memorialista e o diarista.
Tenho, há anos, preparada uma antologia de poemas dedicados a Ferreira de Castro, por poetas de várias gerações, começando em João de Barros (1881-1960). No ano passado, num Encontro Castrianos/Regianos, em Vila do Conde, Eugénio Lisboa não pôde estar presente, mas enviou duas óptimas composições, uma sobre José Régio, a outra sobre Ferreira de Castro.
No nosso último encontro, ao fim da manhã de 16 de Março, em S. Pedro do Estoril, dei-lhe nota de que pretendia incluir esse poema na minha antologia, enviando-a depois por mail. A sua resposta, na nossa derradeira conversa, reproduzo-a aqui:
"Caríssimo Ricardo, recebi, li e agradeço a antologia. Tem poemas belos e, toda ela, merece ser retida, até porque reflecte bem a marca de afecto que a obra do escritor suscitou. Para muitos leitores FC ficou como escritor e eterno Amigo. Não é para todos!
Forte abraço do / E.".
Um grande e grato abraço, Eugénio Lisboa!