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terça-feira, novembro 30, 2021

o veto do Presidente à lei da eutanásia

 Como não vivemos num mundo ideal, compreendo a prudência manifestada pelo PR, dando de barato que ele se orienta pelas sua crenças e convicções católicas, algo que não devem ser impostas a ateus, como é o meu caso, que, de formação católica, lança as mãos à cabeça pela forma como as pessoas fogem ao desespero da morte agarrando-se a histórias da carochinha, algumas bem bonitas, como a que vamos celebrar agora pelo Natal, e que para mim será sempre um pretexto de reunião familiar. (Sou um homem de família, felizmente.)

Essa formulação, que indistingue (peço perdão pela palavra) doença fatal de doença incurável, pode ser uma porta aberta para o bicho-homem tratar de eliminar os velhinhos improdutivos e maçadores -- dando, de resto, razão às preocupações manifestadas pelo PCP, que são as únicas que acolho. Não deixa de ser curioso de como esta posição, aliás justa, dos comunistas, infirma o seu optimismo antropológico; mas isso é outra conversa.

No entanto, há problemas. Mesmo não se tratando de doença fatal, provocando grande sofrimento, que autoridade pode ser invocada para obrigar alguém que está há décadas confinado a uma cama a continuar a viver? Em nome de quê? De uma fantasmagoria absurda a que chamam deus? Impor uma parvoíce dessas a quem vê tal como é, uma parvoíce explicada pelo medo da morte, é duma crueldade moral intolerável e imbecil.

P.S. - há por aí uns certos católicos que me fazem confusão. Dizem-se tal e são pela eutanásia. Decidam-se lá pela eira ou pelo nabal.

P.S.2 - Todo o respeito pelos místicos, nenhum pelos que pretendem impor aos outros as suas manias.

sábado, abril 03, 2021

domesticar o animal -- ou a vida, para que serve? -- notas em torno duma frase de Stig Dagerman (1923-1954)

 «Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa.»

Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer (póstumo, 1955)

Tantas vezes me ocorreu semelhante desesperação. A morte é certa, o nada, também. Mas absurda a vida, mesmo sem deuses?

A inexistência de Deus é para mim uma evidência. Que fazemos parte de algo que não conhecemos e ainda menos dominamos, também não oferece dúvidas. Donde vimos? Não sabemos. E a existência de uma entidade operosa é isso sim, um absurdo primitivo. 

(O que distingue os lencinhos brancos acenados a um boneco em Fátima da prostração diante de qualquer manipanso aborígene? Nada. Pelo contrário, assemelham-se pateticamente na expressão da impotência e do pavor da morte).

Para que serve, então, viver. Existimos para a morte? Isso sim, é um absurdo com que nunca me conformei. Dispor da faculdade de existir, ao contrário de biliões potenciais seres humanos que nunca o lograram, já é  consolo suficiente., creio eu. A não ser que sejamos um dos desgraçados cuja existência foi um longo e interminável calvário, do berço à cova, um desses "bobos da vida" de que fala Edgar Lee Masters num poema, a quem só a morta igualitária fará com que venha a sentir-se um homem como os demais. Mesmo no infortúnio, e não há maior do que a morte dos que nos são queridos, a vida compensa-nos -- a não ser que os que deveriam morrer depois de nós desapareçam primeiro. E mesmo aí, havendo descendentes, a sua presença nestes se reflecte. 

Mas não há errância absurda quando a vida tem um sentido, e esse é o de existirmos para os outros. Tornar a vida dos outros melhor, retirar ao absurdo da existência o quinhão de desesperança que ela comporta, e isso está ao alcance de qualquer um, varredor de rua ou poeta, cirurgião ou empregado de mesa. Claro que esta estética, esta ética do quotidiano não está nas mãos dos bobos da vida, das vítimas constantes de abusos de outro tipo, ou dos que morreram demasiado cedo, por doença implacável, capricho da Natureza ou vítimas da escória humana, como os inocentes chacinados em Bagdade por causa das armas de destruição maciça que todos sabíamos não existirem. 

Quanto a esta escória humana, traficantes de toda a espécie, dos passadores de carne humana aos ratos dos mercados financeiros, cujo fim existencial é gerar mais dinheiro sobre dinheiro, marimbando-se para os demais, incluindo os próprios descendentes, a quantos almejam dominar, manipular e servir-se do próximo, aos predadores e necrófagos sociais, não há melhor sentido para a vida do que contribuir para neutralizá-los, nem melhor consolo que travar esse combate, à escala e nas possibilidades de cada um.

A morte já é fatalidade suficientemente dura para que não se lute por uma civilização do Amor, por quimérica que ela nos surja. E essa luta começa dentro de nós, domesticando o animal.

sexta-feira, janeiro 29, 2021

um dia histórico

 A aprovação da legalização da eutanásia pelo Parlamento é mais um passo na libertação das pessoas das parvoíces religiosas que a beatice procura a todo o custo preservar. 

Percebo que por razões éticas e filosóficas (e até religiosas, que é uma possibilidade que a liberdade individual dá) se seja contra, desde que aplicada a si mesmo. Que se queira impingir as crenças próprias aos demais é dum descaramento e falta de noção para os quais não pode haver contemplações.

Postura diferente tem o PCP, que receia que a miséria humana a vários níveis comece a despachar os velhos doentes por dispensáveis. Percebo mas obviamente discordo. Não há autoridade moral e política e muito menos conjuntura social que tenha legitimidade para coarctar a liberdade das pessoas.

quarta-feira, junho 11, 2014

a curva da estrada

Chegar aos 50 será
Boa surpresa   sem
Que fizesse grande
Coisa por isso   o desleixo
Apazigua mas que pague
   Duvido.

sábado, novembro 02, 2013

O meu ateísmo simples acredita em milagres

Encarar como possibilidade a ocorrência primordial duma entidade que paira sobre nós, operosa, intervindo nas nossas vidas, dotada de vontade, e à qual nós devemos a ventura da existência, eis algo que para mim não só é inconcebível, como resulta da tão humana fragilidade carente de sentido e de amparo. 
O grande milagre é termos chegado aqui, sem sabermos ler nem escrever, à real mas não menos presunçosa condição de sapiens, fruto de acasos que se combinaram, desenvolveram e evoluíram necessariamente, até tomarmos consciência de nós: em relação ao universo, primeiro; do nosso próprio mundo interior enquanto indivíduos, depois.
Que esta minha verificação não exclua uma dimensão metafísica, mas não sobrenatural, é uma evidência que seria dispensável enunciar.

(a propósito de um debate, ontem, no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro)

sábado, setembro 14, 2013

RE: ilhas desertas

Ainda não estou em idade só de re-ler, re-ver, re-ouvir, felizmente. Mas não prescindo do conforto de re-visitar todos os livros, discos, filmes que me marcam e me dão um supremo gozo estético e intelectual. Dão, porque em arte detesto a nostalgia. Decidi, então, celebrar-me (!) os 50 anos -- que só se completam a 12 de Junho de 2014 -- a escrever sobre 50 livros, bd's e discos (os filmes e os quadros virão mais tarde, se vierem). Não são OS 50, mas os primeiros 50 de muitos outros que poderiam aqui figurar e que levaria para a sempre desejada ilha deserta. Só impus uma restrição nos livros: a de serem narrativas em português -- talvez porque, de todas as artes que por aqui passam, a escrita foi única que me deu uma ilusão de acolhimento. E criei um blogue, o 50, só para guardar os textos que me possam suscitar cada página, cada faixa, cada prancha. 

quinta-feira, janeiro 10, 2013

O QUE PASSA


Um sol morno que perfura as nuvens e te aquece
Uns seios que apetece trincar
O cheiro molhado da terra
O cão que te abana a cauda
O encontro no chegar a casa
A ilusão de óptica nas jantes dum carro inglês
Aquela frase que te saltou do livro
O verso que veio ter contigo
Um looping de avioneta no céu de cascais
Um vestido curto de fêmea
Uma bica com café do nabeiro
Um sax que não se sabe de onde vem.

5 NOVEMBRO 2012