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segunda-feira, abril 27, 2026

o que está a acontecer

«No Talasnal o Emílio Riço já nos noventa e seis anos de idade morreu com a boca cheia de moscas a apanhar o sol da tarde, e a mulher foi dali levada à força para um asilo da Lousã, mais cega do que uma fraga e com o juízo de todo varrido da cabeça, porque também com mais de noventa anos punha de fora da blusa os sacos vazios das mamas e gritava, Olívia de Ataíde, pura e bela!,» Ascêncio de Freitas, A Noite dos Caranguejos (2003)

«E de repente dobra o ângulo oposto da casa, vem direita a mim. Um breve ruflar de saias compridas no silêncio, desliza imperceptivelmente, traz um molho de couves num braçado, tia Luísa. / -- Já vieste, Paulinho?  / Pára um pouco ao pé de mim. / -- Estás morta! -- grito-lhe eu para o espaço em redor.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«Alguns tentaram abrir as conservas com as chaves apropriadas, mas não conseguiram melhor que esventrá-las depois de terem cortados os dedos nos irregulares e afiados rebordos metálicos. / -- Quem lhes metesse as chaves d'arame pas goelas a baixo! -- resmungou um gigante fardado, grande como um eucalipto, de olhos pequenos e redondos, mal encaixados pela testa curta, as maçãs do rosto avermelhadas e que transmitia a ingenuidade do sorriso de uma criança própria dos simples de espírito.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

quarta-feira, abril 22, 2026

o que está a acontecer

« -- Se quiserem comer comam, se não, comam merda, mas não façam barulho. Julgam que estão na catequese, mas já vão ver como elas mordem!... / Os soldados calaram-se durante uns momentos e prepararam-se para comer, limpando as facas de mato às calças ou enterrando a comprida lâmina na terra seca a fazer de esfregão.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«O carro acelera na tarde quente, a areia da alameda range. Paro, desligo o motor, um silêncio mais desértico. E um pequeno susto insinuado às coisas. São três malas apenas, o resto virá depois. Tomo duas, subo o balcão até meio, vou buscar depois a outra.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«não nos hão-de convencer que volte a censura, isso seria uma desumanidade e agora somos europeus. qualquer iniquidade do nosso peculiar espírito há-de ser corrigida pela europa, para sempre. isto é que é uma conquista. e é como respirar, existir oxigénio e usarmos os pulmões, não se mete requerimento, faz-se e fica feito e não passa pela cabeça de ninguém que seja de outro modo.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quarta-feira, abril 15, 2026

o que está a acontecer

«sardinhas em molho picante, nougat, doce de maçã, bolacha...Filhos da puta, ainda gozam ca malta! Se calhar esses finórios da administração julgam que isto é alguma excursão com pandeiretas e cervejas geladas... / -- Já vos disse para estarem calados -- rosnou o furriel, que parecia de todos o mais velho.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo no caminho. Se ao menos uma breve ideia. Não tenho. Não é bem a vida que faz falta -- só aquilo que a faz viver. Trago o carro para dentro, vou metê-lo na garagem.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«as ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. não importam. as liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. é um dado adquirido, como existir oxigénio e usarmos os pulmões.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

terça-feira, janeiro 27, 2026

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Vida em superfícies lisas, desinfectadas, vida no instantâneo presente. Vi há dias um filme: Le Viol. Interiores brancos, ou seja, sem cor, móveis sintéticos. E nas paredes, quadros à Mondrian -- a estéril geometria. O tempo -- criação do nosso abandono. O futuro deve inventar uma eternidade à rebours. O instante neutro.» Conta-Corrente 1 (1980) § António Ferro: «Não sou um discípulo de Óscar Wilde. Quando o li pela primeira vez, tive a impressão de que tinha sido plagiado.» Teoria da Indiferença (1920) § Jorge Amado: «Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua.» Navegação de Cabotagem (1992) § Aquilino Ribeiro: «Ia-se à Senhora da lapa, à Senhora da Penha do Vouga, de cruz, estandarte e borracha à tiracolo, no bornal o pão amarelo de azeite e ovos, no merendeiro as trutas do Paiva. Em toda a parte punha ramo a nossa mocidade -- rapazes capazes de arremeter contra uma baioneta, moças a puxar para loirinhas, que por aqui não correu sangue africante.» O Malhadinhas (1922) § Machado de Assis: «Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano: «4/I/73 // Exmo Senhor Prof. Doutor Marcello Caetano, / Ilustre Presidente do Conselho // Senhor Presidente, // Como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura encontra-se detido pela DGS em Caxias desde a noite de 31 de Dezembro.  A este respeito permita-me V. Ex.ª que leve ao seu conhecimento o seguinte.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. José Freire Antunes 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Uma melancolia suave. Não desesperante. suave Compreende-se a "vontade de chorar por nada". É o súbito espaço vazio, a vertigem. A solidão. A solidão de não se estar sempre connosco. As gerações futuras deverão desembaraçar-se do tempo. Parece que já o tentam.» Conta-Corrente 1 (1980) § Machado de Assis: «Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras: / -- Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...» Histórias sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais» § Aquilino Ribeiro: «Seroava-se nas lojas das vacas e aos sábados batia-se a ribaldeira até as Três Marias empalidecerem no céu. Invernos inteiriços como os dos lagartos. Mas, ah, logo que se ouvia a corcolher: tem-te lá, tem-te lá, Barrelas vazava-se por esses caminhos de Cristo em votos e romarias.»  O Malhadinhas (1922) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Relativamente aos abatimentos, que o meu amigo faz aos livros que por aí tenho, são eles tamanhos que não os aceitaria eu. É certo que autorizei o Eduardo a abater, mas também com abatimento da percentagem que lhe designei. Sem isso não terão eles tão desgraçado fim. Prefiro recolhê-los porque merecem mais alguma estima. Do seu muito amigo // C. C. Branco // 30 de Julho 67.» in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § António Ferro: «OBRAS DO AUTOR - Alguns papéis ao vento e muitos na gaveta...» Teoria da Indiferença (1920§ Jorge Amado: «Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale a pena escrevê-las, não lhes encontro a graça.»  Navegação de Cabotagem (1992)

sábado, dezembro 13, 2025

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Vejo as ervas no jardim abandonado, uma cadeira desmantelada no terraço do pavilhão. Ao longe, o mar de um tempo muito antigo. Há só dez anos que ali vou, e todavia tudo recuou já muito. Assim, em momentos bruscos, estampa-se-me a visão flagrante do irremediável.» § Jorge Amado: «Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porquê. Trata-se, em verdade, da liquidação a preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida.» Navegação de Cabotagem (1992) § José Duarte: «Não acham que é muita... / Música... / para tão poucos minutos?» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, -- outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final. / "Está acabado", pensava ele.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Manuel Tiago: «Ao Lambaça, que julgava ter de fazer passar a fronteira a algum importante dirigente, André parecia uma criança insignificante e inofensiva, diminuindo, quase ao ridículo, a incumbência. A André, o aspecto e a expressão de Lambaça avivavam desconfiança e prevenções acerca do seu carácter.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867) .../... «A maior parte dos livros que me propõe em troca, a tenho nas Memórias da Academia. Outros, afora aqueles, já os possuo, e alguns não interessam ao género dos meus estudos.» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947)

segunda-feira, dezembro 08, 2025

o que está a acontecer

«I- De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. -- A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. - Lord Byron e um bom charuto. - Travam-se de razões os ílhavos e os bordas-d'água -- os da calça larga levam a melhor.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«Olho-o um instante, olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro -- o futuro... E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção. Preparar o futuro, preparação para a morte.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«No intuito de expiar o sítio, segundo a pia frase de Fr. Francisco Brandão, ergueu a piedade um altar encostado à seteira por onde o regicida abocara a escopeta, e aí foi arvorada aquela milagrosa imagem do Crucificado, que despregou a mão revolucionária no dia em que o duque bragantino foi aclamado rei.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

terça-feira, dezembro 02, 2025

o que está a acontecer

«I. Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.»  Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Um silêncio súbito, silêncio da terra. Só vozes ermas dos campos, ouço-as no calor parado da tarde. Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«Fez-se um silêncio de expectativa risonha. E o professor, debruçando sobre a secretária os bigodes pendentes e amarelados, perguntou-lhe: -- Quais regras da ciência? -- E ele, entreabrindo os lábios finos que nunca se sabia quando sorriam ou se apertavam de contrariedade, respondeu: -- A observação e a experimentação. -- Ah, muito bem, e como foi que o senhor observou e experimentou a alma dos animais? -- Como, senhor doutor? Pessoalmente --. E foi uma gargalhada geral.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)

sábado, novembro 29, 2025

o que está a acontecer

«Uma vez, numa aula de filosofia (o professor era um pobre diabo, muito lendário pela degradação intelectual a que chegara, e a quem, certo dia, na indisciplina ruidosa que eram essas aulas, demonstrámos o argumento de Diógenes arrastando todas as carteiras, sentados nelas, para os vários cantos da sala), D. Ramon levantou-se, e objectou que todos os seres vivos tinham alma, o que, segundo as regras da ciência, era uma verdade, e não um ponto controverso da especulação filosófica.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)

«Os atalhos velhos, abandonados, encheram-se de mato. Vai-se agora pela estrada, ou corta-se pelos caminhos abertos nos baldios pelos tractores da Câmara. Da linha do comboio de via estreita, abandonada, ficaram os carris a marcar a presença, e um ou outro poste donde pendem ainda os fios do telégrafo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003) 

«Abro a porta devagar, ela range para o espaço do jardim. É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam. Alguns têm só terra ou hastes secas de roseiras. Vejo-as do portão, o carro à entrada a trabalhar. Depois meto-o na garagem, que é um barracão ao lado de casa.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

domingo, novembro 23, 2025

o que está a acontecer

«Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.º ano dos liceus. As suas calmas e sonhadoras extravagâncias, o seu ar de senhor de idade, o mistério de adulto de que rodeava a sua figura pequena e atlética, a sua profunda convicção de que, desde o século XII ou XIII, a Espanha devia à sua família o condado de Barcelona, as perguntas absurdas feitas com o ar mais convicto e ingénuo do mundo, com que ele era o terror dos professores inseguros, e o seu famoso sistema filosófico que tudo explicava e o dispensava, "graças ao controle das energias do cérebro", de estudar as lições (salvo em casos de última emergência), tudo isto não fazia dele um ídolo nem um chefe, mas um ente respeitadíssimo, apesar da ironia com que todos o apontavam.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst. 1979)

«Por estes lados, o viajante só vê montes. Desertos, amarelados, pedregosos, às vezes com uma ermida no alto, outros coroados de espinhos. Nalgumas encostas os sulcos dos campos lavrados. Aqui e além bocados de vinha, casebres perdidos, rochedos cobertos de musgo, aldeias tão longínquas que são apenas manchas brancas na paisagem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«E a que foi acontecendo aos outros -- é a História que se diz? abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

terça-feira, novembro 18, 2025

o que está a acontecer

«Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás de aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«No desânimo da sua mágoa, posso ser tudo: participante, juiz, padre confessor, irmão mais velho. Enquanto eu apenas oiço ecos. Uns dele, outros do meu íntimo, alguns que não sei o que os causa, nem de que fundos aparecem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«"É óbvio", disse Mister DeLuxe, "não estou a falar dos burriés, estou a falar das idiossincrasias de Molero". Debruçou-se sobre a secretária e virou uma folha do calendário de mesa. "Ainda estávamos no dia de ontem", disse ele. "Temos várias pistas", disse Austin, "um tabique, uma casca de banana, uma sina, um escarrador, uma tela de Miró, uma mancha negra debruada a vermelho.["]» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

domingo, novembro 16, 2025

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Penso pouco na morte, hoje, começa a ser-me um fenómeno natural. Um certo cansaço? Uma fadiga de tudo. Estar. Ser, olhando erradiamente, ler talvez. A sensação de que tudo está feito.» Conta-Corrente 1 (1980). § José Bacelar: «Ora a Vida, todos o sabem, é uma coisa infinitamente complexa. Os lados, as facetas das coisas (facetas umas habituais, outras raramente apontadas) são em número infinito. Por outro lado, em número infinito (porque o homem é vário) são também os pontos de vista. E o espírito livre não pode por isso admirar-se de que as coisas sejam olhadas pelos homens de maneiras quase sempre muito diferentes.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Machado de Assis: «O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança apenas soube do incômodo, não quis outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visitá-lo. «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Meu amigo: // D. Ana e eu lhe agradecemos mui cordialmente a oferta de um laborioso e utilíssimo trabalho. Na 2.ª edição do "Cavar em Ruínas", se se fizer em minha vida, farei menção da nota do meu amigo» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § Jorge Amado: «Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e de por vezes participar, de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes.» Navegação de Cabotagem (1992) § Manuel Tiago: «André era também baixo, magro e moreno. De cabeça descoberta, os cabelos tombavam sobre a testa. A expressão contraída mais destacava a sua juventude. / Desagradaram nitidamente um ao outro.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Duarte: «Amanhã... / Billie cantará para vocês... / e para mim aqui sozinho». Cinco Minutos de Jazz (2000)

quinta-feira, outubro 09, 2025

zonas de conforto

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1925): «Paris, 14/10 // Meu caro Castro, // Como vai isso? Bem? Não sei se já lhe escrevi ou não. Ando arrasado das viagens, hábitos alterados... o diabo. O M. Domingues já veio? / Estou na R. Richer, 26 Pension Home. Se  for necessário qualquer coisa escreva até ao dia 20. / Recomende-me à "Tertúlia". Abraça-o o am.º e camarada / Jaime» Cartas a Ferreira de Castro (2006) - ed. Ricardo António Alves § Vergílio Ferreira: «Fomos a Fontanelas, levámos o Lúcio, de Bolembre. Lúcio cresce, distancia-se. Não decerto no afecto -- no que no-lo marcou como criança. Com ele, também, a fuga do tempo. A casa do Rogério -- o jardim. Súbita melancolia, o espectro do passado, ou seja da morte.» Conta-Corrente 1 (1980) § José Duarte: «Em nome do Pai... / e do Filho... / e de John Coltrane» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «É  preciso dizer que ele padecia do coração: -- moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico. / -- Para quê? disse o mestre. Isto passa.» «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Manuel Tiago: «Mas em todo o seu físico, na rigidez do tronco e no dispor das pernas, nos gestos e olhares, transparecia qualquer coisa que o distinguia de um vulgar lavrador, qualquer coisa de arrogante, ousado e impertinente. Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Bacelar: «E pontos de vista todos eles igualmente admissíveis, todos eles dignos de atenção, todos eles justos. Assim, que, na complicada construção dum edifício, o carpinteiro considere tudo sob o ponto de vista da carpintaria, o pedreiro sob o ponto de vista da alvenaria, o pintor sob o ponto de vista da pintura, são realidades contra as quais o espírito livre nada tem que dizer. Nada mais natural -- e nada talvez mais necessário.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Fialho de Almeida: «Duma ocasião, sozinho no meu quarto, eu considerava uma rosa branca que emurchecia num copo, tão triste! Disse-lhe assim: "Tu sofres!" Ela curvou-se mais sobre a haste, aquiescendo, e vi-lhe duas lágrimas nas pétalas. Nunca pude saber quem fosse esta mulher.»  O País da Uvas (1893) - «Pelos campos»

quarta-feira, julho 30, 2025

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Serei agora capaz? Tento. Seguro-me ao argumento de que me dá prazer ler os registos dos outros. Lêem-se sempre com curiosidade. Um motivo para insistir -- satisfazer a curiosidade dos outros. Mas terei eu "outros"?» [1-II-1969], Conta-Corrente 1 (1980) § José Bacelar: «Para o espírito livre -- ou seja: para aquele espírito ao qual não foi feito o dom magnificente dum Absoluto, Absoluto que ele considerará coerentemente de raiz divina ou incoerentemente de raiz humana -- não existe, ou não existe ainda, se quiserem, uma Verdade única: o que existe, de facto, são pontos de vista.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Machado de Assis: «-- Pai José, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado. / -- Sinhô comeu alguma cousa que lhe fez mal... / -- Não; já de manhã não estava bom. Vai à botica... / O boticário mandou alguma cousa que ele tomou à noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § José Régio: «Isto ao cabo de longos intervalos em que ia fugindo uma paisagem árida, escalavrada, monótona, queimada do frio e escurecida não só do dia brumoso como de toda a tristeza  de Rosa Maria. / Do outro lado da estação, a caminheta esboçava no escuro o seu grande vulto bojudo. Rosa Maria ia subir, quando um homem alto a segurou quase violentamente:» Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941) § Frei João Álvares aos monges do Paço de Sousa (24-XII-1467): .../... «E estas cousas eu as escrevo e ponho aqui, não por vã glória nem por me gabar, somente por ficarem na memória apegadas sem esquecerem  e não tão somente durarem nos entendimentos, mas ainda nas cartas e nos livros, por que ouçam e falem e se recordem pera sempre.» .../... in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965) § Fialho de Almeida: «Argumentam daí: a susceptibilidade requintada que  faz certas mulheres terem síncopes aspirando o perfume de flores é um caso vulgar de histeroarte. História!... são as almas dos amantes mortos, dos maridos, dos filhos, que volvem nas flores, mordidas de ciúmes, esfaceladas de saudade, ocultas sempre na evolação mais aromática das nectáreas, e anos e anos errantes primeiro que se lhes depare quem procuram, e que um dia, subitamente, quando as pobres mulheres vão mergulhar a narina na urna duma gardénia, lhes ciciam de dentro: "Sou eu, não tenhas medo, eis-nos de novo, juntos, outra vez!"» O País das Uvas (1893) -- «Pelos campos» § José Duarte: «Amanhã há trombone» Cinco Minutos de Jazz (2000)

segunda-feira, julho 07, 2025

zonas de conforto

José Duarte: «Oiça "cinco minutos de jazz" uma vez por dia / pelo menos» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Vergílio Ferreira: ,,,/... «O meu "diário" está nas centenas de cartas aos amigos. Lembro as ao Lima de Freitas, L. Albuquerque, Costa Marques, Mário Sacramento, Eduardo Lourenço, alguns mais. Em todo o caso, essas mesmas, falsas. Excepto talvez quando sobre questões "sérias". E ainda aí há quase sempre um disfarce ou o tempero do gracejo.» .../... Conta-Corrente 1 (1969-1976) (1980) § Fialho de Almeida: «Nobres e antigas linhagens, esquecidas entre os homens, ocupam cargos eminentes no reino vegetal, ou são pedras preciosas entre os mineiros contemporâneos. Assim, que poeta não sabe de flores que se aproveitam do beijo que lhes damos para nos dizerem de manso aquele segredo que a nossa amante levara para a cova, e só ela sabia, ela somente...» O País das Uvas (1893) - «Pelos campos» § José Régio: «Já através das vidraças, no comboio, ela entrevira estações semelhantes, com um edifício pobre, esfumado na noite, e em que mal desciam dois ou três passageiros ao grito rouco, melancólico, atirado por um empregado que passava sacudindo a sua lanterna: / -- Chança! / -- Mata! / -- Crato!» Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941) § Frei João Álvares aos monges do Paço de Sousa (24-XII-1467) .../... «E, posto que eu tivesse grande aso, ajuda e favor pera fazer todo bem pera serviço de Deus e da ordem, no tempo em que bispava aquele bom bispo e católico sacerdote e honesto D. Luís, que me fez seu vigairo e visitador dos moesteiros de seu bispado, bem sabeis como vos unistes e viestes contra mim todolos da ordem, por me torvardes que nom visitasse, murmurando do bispo e de mim e assacando-nos muitos testemunhos falsos, dos quais prouve a Deus de nos livrar, e quis por sua misericórdia renovar per mim, indigno seu servo, alguãs cousas boas e honestas da monástica e regular disciplina, as quais eram já envelhecidas e lançadas do uso e fora de memória de todos vós outros.» .../... in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965) § Machado de Assis: «Algumas notas chegaram a ligar-se; ele escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, ele releu essas primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste, por não ter conseguido fixar no papel a sensação de felicidade extinta.» Histórias sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais» 

terça-feira, fevereiro 04, 2025

diários

{1/2/1969] .../... «Segundo a Regina, as virtudes que tenho têm mesmo raízes viciosas:  tolerância por fraqueza, interesse pela arte, por vaidade e coisas assim. Não digo que aconteça isso com todas as ditas virtudes; mas com algumas deve ser verdade. Chega.» Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1 (1969-1976) (1980)

[6/6/1948] .../... «É precisamente essa Democracia de que somos servidores e discípulos. / Daí a tristeza de ver Eduardo Benes desaparecer, para sempre, do Mundo que ele tanto amou, roubando-se ao universo sensível um dos espíritos luminosos que mais trabalhou e se sacrificou pelo progresso e desenvolvimento material e espiritual do homem e da sociedade.» Vasco da Gama Fernandes, Jornal (1955) 

[14/8/1961] .../... «À procura da resposta, desci esta manhã a vertente triunfal dos Campos Elísios e, acotovelando-me entre os perfis erectos da mulher parisiense e o cosmopolitismo berrante dos visitantes estivais, cheguei ao fim da perspectiva, a belíssima Praça da Concórdia -- primitiva Place Neuve e depois Praça da Revolução, onde, no cesto da guilhotina, caíram as cabeças de Maria Antonieta e de Carlota Corday.» António de Cértima, Doce França (1963)

quinta-feira, janeiro 09, 2025

diários

.../... «Na realidade, Benes, reflecte nesse livro -- testemunho viril duma época de renúncia e eclipse -- toda a evolução da vida europeia e da inteligência universal: primeiramente, o advento do pensamento democrático nos alvores helénicos e enciclopedistas, todo ele imbuído do puritanismo liberal; a seguir, as lutas pela consolidação orgânica dos anseios populares após a guerra de 14-18 e, finalmente, o panorama exacto da evolução dos princípios a caminho duma Democracia económica e social que não desprezasse o respeito e a dignificação da pessoa humana.» .../... Vasco da Gama Fernandes, Jornal (1955)

.../... «Subimos depois a escala da evolução urbana, paralela à escala da evolução social, e queremos fixarmo-nos no valor simbólico que dá tipo e localização a esta grande cidade do planeta. E de novo a pergunta ocorre às nossas conjecturas: -- Onde é, onde está Paris?» .../... António de Cértima, Doce França (1963)

.../... «Mesmo que não falemos de nós (é-me difícil falar de mim). Aliás como os outros, desconheço-me. Talvez, também porque me evito. A verdade é que quando me encontro bem pela frente, reconheço-me intragável. Mas enfim as virtudes são também desgostantes. De resto, sou pouco abonado.» .../... Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1 - (1969-1976) (1980)

quinta-feira, dezembro 05, 2024

diários

.../... «E então lembrei-me: e se eu tentasse uma vez mais o registo diário do que me foi afectando? Admiro os que o conseguiram desde a juventude. Nunca fui capaz. Creio que por pudor, digamos, falta de coragem. Um romance é um biombo: a gente despe-se por trás. Isto não.» .../... Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1 (1969-1976) (1980)

.../.. «Desde o recordatório histórico das lutas ingentes da humanidade para a sua esforçada emancipação até à esquematização das eficazes soluções para a consolidação da Democracia moderna, tudo Benes focou com inteligência e invulgar cultura. / Quem se debruçou sobre essa obra de meditação e de crítica aprendeu, através duma prosa fácil e emotiva a lição dum extraordinário pensador, sociólogo de primeira plana e político de rasgados horizontes.» .../... Vasco da Gama Fernandes, Jornal (1955)

.../... «Sentimo-nos regressar às fontes da pureza em todas as intenções humanas, mesmo nas mais malignas ou convencionais. // -- Afinal, onde é Paris? / Esta interrogação leva-nos à ideia de uma concepção perimétrica que nos faz recuar desde o actual plano da urbe até aos círculos pantanosos donde emergiram as colinas de Santa Genoveva e Montmartre, sentinelas defensivas da pequena ilha de Lutécia, a cujos juncais aportariam um dia os nautas parisii, fundadores do burgo.» .../... António de Cértima, Doce França (1963)

sábado, novembro 16, 2024

diários

«1-Fevereiro (sábado). Fiz cinquenta e três anos há dias. Como é óbvio, não acredito. Mas enfim, é a opinião do Registo Civil. Acabou-se, fiz cinquenta e três. É aliás uma idade inverosímil, a minha, desde os cinquenta. A "vergonha" da idade (que não tenho) deve vir daí.» Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 1 (1969-1976) (1980)

.../ ... «A esta sensação de plenitude junta-se também uma ideia de plenitude que nos converte, física e mentalmente, nos seres mais felizes da criação. Entra em nós uma espécie de fenómeno cósmico de dissipação generosa, fraternal, que nos põe de bem até com todos os credos políticos e sistemas sociais; perdoando tudo, não odiando nada, desejando sòmente -- ser, sentir, pensar.» António de Cértima, Doce França (1963)

.../... «Benes era, sem dúvida, um homem de excepcional envergadura intelectual e moral. / Quem teve a ventura de ler o seu livro "Democracia de hoje e de amanhã" verificou, sem esforço, que o antigo Presidente da República checoslovaca não conseguiu, sòmente, de maneira superior, interpretar os grandes problemas do nosso tempo. Não se limitou a isso. Foi mais longe.» .../... Vasco da Gama Fernandes, Jornal (1955)