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sexta-feira, maio 14, 2021

a arte de começar

 «Janela aberta sobre o mundo. Coado, o som do trabalho, do suor. Quase irreal, ali. Procuro e não encontro essa voz. Sereias trazendo notícias de desastres em terras quase sem nome e até de afogados já frios descansando em leitos de algas marinhas. Eu, lá fora. Onde? Os eléctricos estoiram nas calhas e deixam estrelas fugazes nos cabos que enredam a cidade. Teu rosto, a tela queimada para lá da vidraça. Olhos vazios como os meus. Esquecidos algures, no tempo. Eram.. quase azuis, fluidos nas emoções. Luminosos quando irados.»

Vasco Branco (1919-2014), Os Generosos Delírios da Burguesia (1980)

domingo, junho 11, 2017

começar

Camilo não desiludirá, o incipit promete violência e o leitor tê-la-á, num romance histórico, em que , como é bom de ver, não se aprende História, mas se goza o festim da linguagem camiliana. Ferreira de Castro também cumpre o anunciado: três à mesa, quer dizer triálogo, o que significa tensão psicológica, superiormente dada. Já Vasco Branco não promete nem cumpre, num onanismo autocomiserativo insuportável que, infelizmente, distrai de algumas qualidades de estilo (equivalentes aos defeitos) e de uma construção romanesca que poderia ter sido interessante,

1875 - «Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida

1950 - «Encontravam-se os três à mesa de jantar e o velho relógio de pêndulo marcava onze horas menos um quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada

1980 - «Janela aberta sobre o mundo.» Vasco Branco, Os Generosos Delírios da Burguesia