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domingo, fevereiro 15, 2026

«Hamnet»

«Hamnet», de Chloé Zao, é mais um título memorável, shakespearianamente falando, na filmografia do Bardo, embora por pouco não resvalasse para o melodrama. A sua intensidade é tal, que acaba por estar ali em cima do muro, tem-te não caias entre o quase sublime e a quase histeria; no fim, aguenta-se e resulta.

A realização delicada e subtil de Chloé Zao recomenda que o vejamos de novo; os desempenhos dos actores -- por vezes em risco de overacting --, em particular a irlandesa Jessie Buckley, força da natureza, um animal de representação; o crescendo do filme, até às fortíssimas cenas finais em Londres, no Globe Theatre.

sexta-feira, março 07, 2025

defesa europeia, ou começar a casa pelo telhado

Ao contrário do que escrevem para aí uns asnos todos os dias, a unanimidade de ontem  quanto ao rearmamento europeu é muito mais aparente do que efectiva. É facílimo concordar com empoderamento (peço desculpa pela palavra horrível) europeu quando se embrulha a Ucrânia com a Gronelândia e o Árctico com o Sahel...

Quando for a doer é que se vai ver, já dizia o Shakespeare: quem comanda quem e o quê, e quem é comandado, contra quem, onde e como. Minudências...

Como até a minha boxer já percebeu, não é possível uma política externa e de defesa comum com esta União Europeia -- felizmente, acrescento, porque se é para isto, mais vale deixar como está.

Continuam sem perceber um boi, estas andorinhas do jornalismo. Mas não são as únicas (ainda ontem, ao ouvir o quase sempre lastimável debate com Agostinho Costa, malgré lui). Tenho aliás aprendido que há tetrápodes que riem e burricos que moderam.

terça-feira, abril 09, 2024

150 portugueses - 26-30

26. D. João I (1357-1433). De bastardo real, Mestre de Avis, a progenitor da Ínclita Geração e rei que inicia a expansão.

27. D. Luís I (1838-1889). Tradutor (bom) de Shakespeare e mau violoncelista num reinado de normalidade burguesa, guardada estava a catástrofe para o filho.

28. Mafalda de Sabóia (c. 1125 - 1158). Primeira rainha, gerou todos os reis seguintes. É avó de todos nós.

29. Infante D. Pedro (1392-1449). Príncipe ilustrado, o das Sete Partidas, senhor feudal e regente centralizador. Acaba tragicamente, o neto de certa maneira vinga-o.

30. Raposo Tavares (c.1598-c.1659). O mais célebre dos bandeirantes, alentejano que rasgou a fronteira do Brasil para ocidente

quinta-feira, setembro 08, 2022

que era isabelina?

Designação de certo modo, inevitável, com setenta anos de reinado. Mas a História dirá. A sua homónima, Isabel I, também de longo reinado (quarenta e quatro anos) é a rainha da afirmação marítima do país -- depois de desbaratada a Invencível Armada, de Felipe II --, a soberana de Francis Drake, Walter Raleigh, mas também de Shakespeare ou John  Dowland -- a era isabelina, o teatro isabelino, sobressaindo do âmbito mais largo da dinastia Tudor. Este brilho irá preparar o apogeu inglês e britânico noutro longo reinado (sessenta e quatro anos), o de Vitória, imperatriz das Índias. O que foi a era vitoriana, creio que ainda hoje o sentimos: de Disraeli a Dickens, de Darwin a Thomas Hardy, dos Pré-Rafelitas a Elgar, e um longo etc. -- é quase parvoíce desfiar nomes.

Com Isabel II, de Churchill a Thatcher, a inevitável desagregação imperial, uma transformação vertiginosa, entrada e saída na UE. Entre muitas outras coisas, vai ser o período dos Beatles, oh se vai, mas também dos Sex Pistols e dos Smiths. E bom é que assim seja, pois irá sedimentá-la mais no tempo histórico que viveu.

segunda-feira, novembro 29, 2021

na estante definitiva

 

40 Anos de Servidão, Jorge de Sena – Uma poesia culta e visceral, que pelas vísceras se comunica, ficando nós leitores também mais cultos e descarnados.

Grande poeta e ensaísta, além de romancista, dramaturgo, contista, epistológrafo, Jorge de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 – Santa Bárbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) concentra a dupla característica do criador excepcional com a excepcionalidade do juízo crítico. Pertence à classe dos cerebrais, os que reflectem sobre a própria obra como se de um recenseador terceiro se tratasse (mas nunca trata, na verdade...).

Creio que foi o primeiro livro seu que comprei, e ainda muito novo fiquei esmagado por aquela raiva frontal. Há poemas cujo tom nunca mais esquece. Livro póstumo, organizado pela mulher, Mécia de Sena, de acordo com o que o marido deixara já preparado, contém inéditos e dispersos escritos entre 1938 e 1978, agrupados por ordem cronológica, em paralelo com os títulos da obra édita. O prefácio ostenta uma comovente epígrafe extraída do Hamlet de Shakespeare, seguindo-se a tradução do próprio Sena ...Good night, sweet prince; / And flights of angels sing thee to thy rest! -- ...Boa noite, doce príncipe; / e que revoadas de anjos te conduzam / cantando ao teu repouso.

(1.ª ed., 1979; 2.ª, revista, Lisboa, Moraes Editores, 1982)

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

vozes da biblioteca

«Na sala de jantar da minha avó havia um aparador com portas de vidro e dentro desse aparador um pedaço de pele.» Bruce Chatwin, Na Patagónia (1980) (trad. José Luís Luna)

«Ontem dobrámos o cabo de S. Vicente sob um luar digno dos dramas de Shakespeare.» Eça de Queirós, O Egipto (1869/1926)

«Pequeno, dez, onze anos melancólicos e tímidos, subíamos ao cume da serra que padroa a casa onde nascemos e ali, entre urzes e pinheiros, nos quedávamos a contemplar vizinhas terras.» Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo (1940-44)

terça-feira, maio 03, 2016

do Aborto Ortográfico (mais uma)

Todos os dias a tropeçar nesta porcaria. E, cada vez mais, com erros ortográficos, mesmo segundo os critérios do Aborto. As pessoas estão de tal modo confusas que já não sabem escrever.
A última: documentário sobre Shakespeare, sábado à noite na RTP2. A certa altura aparece na legenda a palavra 'inteletual'. Inteletual, desde quando, porra? E até quando teremos de aturar mais esta cavaquice, sustentada por meia dúzia de académicos que não querem perder a face?
A arrogância satisfeita dos bonzos aliada à ignorância parola, mas cheia de potência, de decisores políticos, com uns pós dos idiotas úteis que acham que romper com o que está é que é progressista... Inteletual, caralho!, li eu e não foi num programa da Teresa Guilherme
(cujo nome, revelou-me a caixa de etiquetas, tem pela primeira vez lugar neste blogue que já não é novo -- e, ainda por cima, ao lado do velho Will. Isto anda cada vez mais inteletual).

terça-feira, junho 03, 2014

Anna de la Cerna e outras personagens

Um romance curto e dois contos esboçados nos primórdios da vida literária, e reescritos na década de 1980, sempre com a grande erudição de Yourcenar, que contudo, não deixa ofuscar a artista que ela é. Lembro-me muitas vezes, da Agustina a propósito; não quanto à quebra dos interditos sexuais, muito mais evidente por parte da belga, como, à partida, me parece mais natural.
«Anna, soror...», o primeiro conto, magnífico, sobre um delicado amor incestuoso, nunca consumado, entre irmão e irmã, passado na Itália espanhola dos sécs. XV-XVI, e na Flandres, então também do Habsburgos. Morto o irmão ainda jovem, ela alimenta esse amor ainda para além da morte, apesar do casamento imposto, da maternidade e da viuvez de Anna de La Cerna, depois sóror...
«Um homem obscuro» que anda ao sabor da vida no século XVII, pela Inglaterra, o além-mar e, principalmente, as Províncias Unidas (Holanda). Natanael, filho dum operário holandês da construção naval, radicado no sul da Inglaterra, embarcado, náufrago, empregado numa encadernadora de um tio, em Amesterdão, amancebado com uma ladra e prostituta, Sarai, de quem tem um filho, empregado em casa de um burguês, com uma bela, melancólica e cultivada filha, a Senhora d'Ailly. A saúde débil faz com que o patrão o envie como guarda duma propriedade na costa duma ilha quase desabitada, onde espera um regresso (a Senhora d'Ailly...), mas o estado deteriora-se e o desengano sobrevém, resignadamente, como a água que corre...
«Uma bela manhã» revela Lázaro, filho de Natanael e Sarai, órfã e a viver com a avó numa estalagem por onde passa, certo dia uma troupe de actores a caminho das cortes da Escandinávia, onde as consorte inglesas apreciam assistir ao teatro do seu país. Fala-se num certo Shakespeare... Ao contrário dos textos anteriores, parece-me que Yourcenar não foi tão feliz aqui, tendo, talvez, fechado a narrativa quando ela teria mais para dar. 

domingo, abril 27, 2014

Vasco Graça Moura

Portugal perdeu hoje um dos seus maiores. Como poeta, foi um dos mais significativos do seu tempo, cujo estro era suficientemente intenso para impedir que a cultura vasta e sólida afogasse a poética em eruditismo estéril. Será sempre um autor a ter em conta em qualquer antologia do tempo que lhe coube. Enquanto crítico e ensaísta, ombreia com os grandes, sendo também um respeitadíssimo camonista. Acresce uma contínua actividade de tradutor, aclamado pelas versões que realizou de Shakespeare e Dante, entre muitas outras.
Do maior relevo, dentre as muitas funções públicas que desempenhou, foram a direcção editorial exemplar da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, e o brilho com que presidiu à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Num e noutro lugar, o seu desempenho foi reconhecido e louvado por todos os quadrantes politico-ideológicos, e a acção que aí realizou deixou frutos, prolongando-se pelo tempo futuro. E foi, como se sabe, o mais combativo adversário do famigerado Acordo Ortográfico, contra o qual se bateu inteligente e denodadamente, sem que o tolhesse a pesada e desesperante inércia duma sociedade que passava tranquilamente ao largo das preocupações e dos interesses duma vida: a literatura e a história de Portugal. 

sexta-feira, setembro 09, 2011

caracteres móveis - Harold Bloom

Se eu pudesse ter só um livro, ele seria o Shakespeare completo; se pudesse ter dois, seria esse e a Bíblia. E se fossem três? Aí começam as dificuldades.
O Cânone Ocidental
(tradução de Manuel Frias Martins)

quarta-feira, setembro 07, 2011

Dicionário

WWilliam Shakespeare. Shakespeare, escandalosamente simples, foi uma pessoa que viveu e teve a ideia de escrever Hamlet e Rei Lear. Esse escândalo é inaceitável para aquilo que hoje em dia passa por ser teoria literária. Harold Bloom

terça-feira, maio 09, 2006

Caracteres móveis - William Shakespeare

É sempre uma desgraça para os vis subalternos acharem-se envolvidos nas contendas de dois poderosos adversários.
Hamlet
(tradução de D. Luís I)

sexta-feira, setembro 09, 2005

Ratos e homens

But if the while I think on thee, dear friend / All losses are restor'd, and sorrows end.
Shakespeare

No Bosque Proibido, romance de Mircea Eliade, Stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do Metro. No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de Shakespeare, que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam. Os Sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos ceús. Nessa espécie de esgoto, a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.

quinta-feira, julho 07, 2005

William Shakespeare

Posted by Picasa

Antologia Improvável #27 - Luís Cardim

TRADUÇÃO DO SONETO XXX DE SHAKESPEARE

Quando ao foro subtil do pensamento
eu convoco as memórias desta vida
cheia de sonhos vãos, e, revivida,
a velha dor se faz novo tormento;

Então meus olhos baços, num momento,
a mil fontes amigas dão guarida:
volto a sofrer a mágoa já cumprida,
volto a chorar os mortos que avivento...

Então meus olhos duros embrandecem,
passo de pena em pena, e vou somando
a triste soma dos quenão me esquecem,
e da noite sem fim me estão fitando:

Mas se entretanto me lembrar de ti,
perdas não tive, mágoas não sofri.

Horas de Fuga


When to the sessions of sweet silent thought
I summon of rememberance of things past,
I sigh the lack of many a thing I sought,
And with old woes now wail my dear times' waste:
Then can I drown an eye unus'd to flow,
Four precious friends hid in death's dateless woe,
And weep a fresh love's long-since cancell'd
And moan the expense of many a vanish'd sight.
Then can I grieve at grievances foregone,
And heavily from woe to woe tell o'er
The sad account of fore-bemoaned moan,
Wich I new pay as if not paid before.

But if the while I think on thee, dear friend,
All losses are restor'd, and sorrows end.

The Works of William Shakspeare