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domingo, setembro 01, 2024

um duro coração de manteiga

Na vinheta inicial, sob um sol de canícula, um abutre de longas asas estendidas voa com a cabeça inclinada para o solo; a seguir, em grande plano, vemo-lo a fixar o olhar em algo; depois, a carcaça de um cavalo sendo devorada por um bando de aves; no quarto quadradinho, com o mosquedo a voltear, a carniça é arrancada pelos fortes bicos concebidos para retalhar. A partir da segunda vinheta, filacteras sem o apêndice característico transmitem-nos as reflexões de alguém: «As pessoas não gostam de nós. / Há quem diga que é porque passamos o nosso tempo no meio de cadáveres. / Transmitimos a morte como outros transmitem bexigas. / Também consta que cheiramos mal e que podemos dar azar. / Vá-se lá saber onde foram buscar isso! / A verdade é que as pessoas não gostam de nós. / E ainda bem.» Quinta e última vinheta da primeira prancha: um homem ainda novo, de barba cerrada, vestido de escuro, sentado de caneca na mão e cigarrilha na boca, encostado à carreta que lhe pertence, completa agora o seu pensamento: «Também não gosto delas.» É Jonas Crow – um gato-pingado, um cangalheiro – o herói desta série. Acompanham-no “Jed”, um abutre de asa embriada que Jonas não teve coragem de matar, e os dois cavalos da carroça funerária: “Zephyr” e “Cobalt”.

Pela amostra deste primeiro álbum, publicado originalmente pela Dargaud Benelux, em 2015, a saga de Jonas Crow tem tudo, autores e assunto, para vingar. O texto é de Xavier Dorison e o desenho de Ralph Meyer, ambos parisienses de 1971. O primeiro é argumentista exímio (O Terceiro Testamento, sequelas de XIII e Thorgal); Meyer, tem um lápis ágil e espectacular, além de abundantes recursos expressivos. Diga-se, a propósito, que a semelhança fisionómica com Mike T. Blueberry é, mais do que intencional; é um elo que os autores criam – por razões que nesta fase não são claras – à melhor BD western. A cada um a possibilidade de especular...

Crow é uma personagem, é a personagem: solitário, misterioso (transporta uma história consigo), de mão leve com a artilharia e raiva interior que o tornam temível, além de um coração de manteiga, capaz dos gestos mais altruístas – e também divertidos, como aquela citação da “Epístola de São Paulo aos Californianos”… Se o Duke, de Hermann e Yves H., de quem já aqui falámos, é um pistoleiro que não gosta de armas, Jonas Crow é uma máquina de matar que odeia violência... Aliás, o que não falta é um conjunto de personagens fortes, que tornam este western intenso e áspero, embora a violência não seja gratuita, antes uma exigência da própria trama, dotada destas personagens específicas: um antigo garimpeiro às portas da morte, dono duma cidade, ganancioso e cruel, uma jovem governanta inglesa hierática e sensual, um criado de casa ressentido, uma velha chinesa perspicaz, um xerife venal, e por aí fora, em intriga estonteante.

Undertaker – 1. O Devorador de Ouro

argumento: Xavier Dorison

desenhos: Ralph Meyer

cor: R. Meyer e Caroline Delabie

edição: Ala dos Livros, Benavente, 2019

(Novembro, 2019)






terça-feira, janeiro 09, 2024

terça-feira, maio 02, 2023

o Oeste nunca nos larga

A chamada Conquista do Oeste constitui uma epopeia moderna cuja poética continua a ser alimentada e transmitida principalmente pelo cinema e pela banda desenhada. As perspectivas de abordagem são de tal modo multifacetadas no modo como espelham a condição humana, que o assunto se torna inesgotável. Tiburce Ogier é um dos bons autores de BD da actualidade, artista completo, como desenhador e argumentista. Em Go West, Young Man é apenas o escritor que está presente, convidando uma série de colegas para ilustrarem esta homenagem ao Oeste, através da viagem de um relógio de bolso pela história de conquista, sangue e saque dos territórios do Novo Mundo, entre os séculos XVIII e XX, pequenas narrativas que formam um todo coerente. E é sempre interessante ver num mesmo álbum os nomes de Blanc-Dumont, Boucq, Gastine, Meyer e Taduc, entre outros. A capa é de Enrico Marini. Edição Gradiva, Lisboa, 2023.

domingo, fevereiro 12, 2023

aparas: Jean Doisy


Les Amis de Spirou #! - Un Ami de Spirou Est Franc et Droit..., Dupuis, Marcinelle, 2022; de Jean-David Morvan (argumento), David Evrard (desenhos) e BenBK (cor) Uma belíssima homenagem a Jean Doisy (1900-1955), chefe-de-redacção da revista Spirou, fundada em 1938, criador com Jijé do célebre Fantásio. Quando o semanário é proibido pelo ocupante nazi, em 1943, Doisy cria uma rede de amigos da revista, andando de terra em terra com um teatrinho de marionetes em que figuram o jovem groom e o esquilo Spirou, a sua mascote -- cobertura também para a acção de resistente que Doisy também foi. Émile Bravo, cujo fresco A Esperança Nunca Morre, absolutamente a não perder!, está finalmente a ser publicado entre nós, pusera Spirou e Spip acompanhado pelo próprio Fantásio nesse périplo pelas escolas belgas; uma comovente homenagem de um criador a outro. 

Ronda das editoras: 

Ala dos Livros: Olivier Afonso, Os/Les Portugais; Xavier Dorrison, Ralhp Meyer e Caroline Delabie, Undertaker #4 - A Sombra de Hipócrates, Bernard Yslaire, A Menina Baudelaire.



terça-feira, novembro 12, 2019

«Leitor de BD»


sobre Undertaker - 1. O Devorador de Ouro, de Xavier Dorison e Ralph Meyer,
e O Amor Infinito que Te Tenho, de Paulo Monteiro