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sexta-feira, outubro 21, 2022

"Anarquismo, Insubmissão, Inconformismo"

      


Estudos sobre Raul Brandão, A Batalha  e Raul Brandão, Campos Lima, Manuel Ribeiro, Neno Vasco, Ângelo Jorge, Jaime de Magalhães Lima, António Gonçalves Correia, Jaime Cortesão e Eça de Queirós, Pinto Quartim, Assis Esperança, Ferreira de Castro, Jorge Teixeira, Mário Domingues, José Régio, João Pedro de Andrade, Roberto Nobre, Alves Redol e os anarquista e anarco-sindicalistas, revista Pensamento
Apresentação por António Baião, Museu Ferreira de Castro, 22 de Outubro de 2022, 15 horas

 

terça-feira, janeiro 26, 2021

na estante definitiva

 2. Continuar: «Na história da estética portuguesa do século XIX, onde situar com mais evidência as primeiras correspondências a uma "arte útil"?» Cap. I: «Até finais de 1935: motivações e primórdios de um trajectória de inspiração marxista» (pp. 11-22).

A década de 1930 foi apaixonante no que respeita a debates e confrontos de posicionamentos estéticos sobre os méritos e deméritos de uma arte útil ou inútil (para simplificar...). A questão vinha já detrás e de fora, no prefácio de Théophile Gautier ao seu romance Mademoiselle de Maupin (1835), proclamando que toda a arte para o ser não deveria servir outro propósito que não o seu próprio, o célebre prinípio da arte pela arte.
Alvarenga recua à Geração de 70 e a Antero de Quental, que no prefácio às Odes Modernas (1865) afirma: «A poesia que quiser corresponder ao sentir mais fundo do seu tempo, hoje, tem de forçosamente de ser uma poesia revolucionária.» Estranho a ausência de uma referência à conferência de Eça de Queirós do Casino Lisbonense, em 27 de Maio de 1871, «A "Literatura Nova" ou "O Realismo como nova expressão da arte», provavelmente porque o texto se perdeu, sendo reconstituída posteriormente através dos relatos da imprensa. 
Esta ideia de uma arte interventiva ou útil nos moldes proudhonianos terá continuidades e desenvolvimentos na geração da Seara Nova como de A Batalha, que ficarão situados, digamos, a meio caminho entre os presencistas e os neo-realistas, para não falar do curioso caso de O Diabo, fundado em 1934 por um grupo de escritores e jornalistas anarquistas e republicanos, que progressivamente passará par as mãos da geração seguinte, propriamente considerada neo-realista, até ao seu encerramento compulsivo, em 1940, circunstância que não é para já abordada; mas será a partir do Congresso dos Escritores Soviéticos, em 1934, com a defesa de um realismo socialista, que o debate irá aquecer, mas com nuances, fazendo o autor o levantamento de algumas tomadas de posição, com especial destaque para José Régio no campo do que eu chamaria de arte livre -- mas nunca de arte pela arte, no seu caso, e um destaque ainda para do outro lado, mas sem intenção polemizante, um outro nome maior: José Rodrigues Miguéis, enquanto ficcionista, em entrevista ao Diário de Lisboa ou, antes dele, no campo da crítica e do ensaio, Álvaro Salema, com o artigo publicado no jornal Gládio, em Janeiro de 1935, «O antiburguesismo da cultura nova», propondo a ultrapassagem dos conceitos defendidos pela Geração de 70, ou seja, uma abordagem marxista da literatura e da arte em geral.
Nestes debates, aparece como sumamente importante o artigo de Adolfo Casais Monteiro, com o artigo publicado n'O Diabo em 1935, «Sobre o que a Arte é, e sobre algumas coisas que não poderá ser», de onde se retira a famosa frase em prol da independência artística, «a arte é, não serve» -- embora o autor não o refira, é uma reacção ao discurso de Salazar na Sala do Risco, em que elabora sobre o papel dos artistas, mas que acabará por ver-se apontado aos que no pólo oposto queriam essa arte comprometida com as ideias ascendentes da humanidade. Há a contraposição de meio termo de Amorim de Carvalho no artigo «O carácter social da Arte», também n'O Diabo, em Agosto de mesmo ano, interpelação directa a Casais, quando escreve que «A Arte pode servir, sem deixar de ser»; e uma síntese de Julião Quintinha em três artigos no mesmo semanário com o mesmo título, «A Arte e os artistas», posição com proximidade à de Régio, nomeadamente no terceiro, «O artista ante o problema social e político»: «Parece coisa natural que o artista, possuído por determinados sentimentos sociais, muito sinceramente os exteriorize na sua obra. O essencial é que não seja faccioso na afirmação ou negação desses sentimentos, que vá até ao ponto de os transformar em baixo instrumento político, e que acima de tudo, não se esqueça do que deve à Arte.» 
Estudo sobre arte, Fernando Alvarenga dá-nos exemplos de outras intenções, com Roberto Nobre e A Cega Sanha do Povo (1935) e Companheiros, de António Lopes (s.d.), que reproduzo em baixo, fechando com uma apreciação de Heliodoro Caldeira, no inevitável O Diabo, a propósito de dois reconhecidos muralistas mexicanos: Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros e dos chamados Frescos de Cuernavaca, apresentando-os como exemplo duma arte a fazer-se, em que estivessem patentes, como ali, a «linguagem simples e reveladora das grandes verdades».

Roberto Nobre, A Cega Sanha do Povo (1935) - Museu de Faro

António Lopes, Companheiros



Diego Rivera, História de Cuernavaca e Morelos.
 Plantação de Açúcar



Fernando Alvarenga, Afluentes Teórico-Estéticos do Neo-Realismo Visual Português, Porto, Edições Afrontamento, 1989.

sábado, julho 27, 2019

na estante definitiva


Da posse: Outubro de 1990. Apesar do título esquipático, é um livro muito bem esgalhado e arrumado: como escreve o autor no prefácio, trata-se de uma «história da arte, e portanto já menos uma história das obras de arte, e ainda muito menos a crónica delas.» Deu-me imenso jeito quando preparava as 100 Cartas a Ferreira de Castro (1.ª ed., 1992), e que cito na bibliografia. Profusamente ilustrado com reproduções a preto e branco, uma importância acrescida nesse tempo em que ainda não navegávamos na net; e apesar da modéstia das reproduções era um gosto folhear e confrontar as obras no seu tempo histórico. Foi aqui que pela primeira vez vi A Cega Sanha do Povo, de Roberto Nobre, publicado n'O Diabo, em 1935; e talvez também o Café, do Portinari, do mesmo ano, com toda a repercussão que teve na Exposição do Mundo Português (1940), em especial junto dos jovens pintores e dos doutrinário do neo-realismo. Na capa, um ícone neo-realista, O Almoço do Trolha, do Pomar, de 1946.

ficha:
Fernando Alvarenga, Afluentes Teórico-Estéticos do Neo-Realismo Visual Português, Porto, Edições Afrontamento, 1989. 209 págs.

segunda-feira, outubro 22, 2018

sábado, março 16, 2013

Ferreira de Castro: "escreva-me sobre o Algarve"


     [..., meu prezado amigo]

     Se você num momento de melancolia tiver desejo de escrever, escreva-me sobre o Algarve, as suas praias, os seus caminhos. Eu amo tanto a província que vivo nela por imaginação, vivo-a por impressões alheias, quando, como agora, não a posso viver por impressões próprias.

[a Roberto Nobre, Lisboa, 19 de Setembro de 1922]

Ferreira de Castro / Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994
editor: Ricardo António Alves

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

A Árvore e o Ninho


O maravilhoso poema para a infância (e para todos) de Bernardo de Passos, A Árvore e o Ninho, com capa e ilustrações de Roberto Nobre, edição da Casa do Algarve, Lisboa, 1931.

sexta-feira, abril 15, 2011

Fantasia

cartaz original, 1940
Prossigo com as longas-metragens produzidas por Walt Disney. 
Com «Fantasia», os estúdios atingiram os píncaros da animação, provavelmente porque não se trata propriamente um filme para crianças, mas antes um produto com uma boa dose de vanguardismo técnico e conceptual.  Do fragmento inicial, «Tocata e fuga» de Bach, prestando-se à coloração das grandes massas sonoras trazidas por Stokowski, ao segmento final, representando a oposição entre as trevas e a luz, a «Noite no Monte Calvo», de Mussorgski, e o «Ave Maria», de Schubert. Pelo meio, algumas coisas a reter, desde logo a aprição do próprio Mickey no «Aprendiz de Feiticeiro», de Paul Dukas. Disney continuava a ousar. E, em Portugal, por ocasião da sua estreia, pouco depois, Roberto Nobre e Fernando Lopes-Graça assinavam uma maravilhada crítica conjunta nas páginas da Seara Nova...

segunda-feira, novembro 20, 2006

domingo, agosto 27, 2006

Correspondências #57 - Ferreira de Castro a Roberto Nobre

S/c R. Dº Notícias 44-1º
Lisboa 23/3/925
Meu caro Roberto:
Como vai V.? Louvo-lhe a coragem por uma tão grande ausência... Noutra carta e mais de vagar hei-de increpá-lo por isso. V. não tem o direito de afastar-se assim do campo da luta. Enfim, falaremos mais pausadamente para outra vez.
Por agora quero dizer-lhe que só ontem tomei conhecimento da s/ carta para o Assis. Tratei do caso que nos dizia respeito. Falei com Anahory do A.B.C. Ele aceitou a sua colaboração. E parece-me que V. vai ficar -- fica certamente -- como colaborador efectivo e com muito trabalho. Aí vão agora dois trabalhos meus, que V. devolverá com os desenhos o mais depressa possível. (O Julião Quintinha, entrando ontem no meu gabinete, levou-me a interromper esta carta...)
Portanto, como lhe dizia há 24 horas, V. fica como coalborador do A.B.C., a não ser que a fatalidade se coloque de permeio... O Anahory, a quem mostrei o livro pª crianças que V. ilustrou, ficou bem impressionado. Para sossego da sua sensibilidade, devo dizer-lhe que isto não foi devido à minha retórica ou à minha amizade por si -- mas pelo seu próprio valor e pelo Anahory -- cá para nós -- precisar de mais um desenhador... Logo tratarei com ele sobre preços.
Falei também com o Mário Domingues, que está dirigindo a edição da Batalha (diária). Aceita com muito prazer um boneco seu, para os domingos. Exige-se apenas uma condição: que o boneco seja de acordo com o carácter do jornal, é dizer, que seja de crítica a qualquer facto da burguesia. Para isso talvez você se inspirasse lendo a própria Batalha... Legenda e assunto ao seu critério. Pagam quinze escudos por cada desenho. Agrada-lhe Roberto? Eu escuso de dizer que a mim agradava muito que V. principiasse a surgir nos jornais de Lisboa. Quanto ao Suplemento ainda não falei com o Pinto Quartim, que o dirige. Mas estou certo que ele aceitará também a sua colaboração.
Adeus, meu amigo. Escreva-me, mande-me os desenhos do A.B.C. -- depois, v. tratará directamente com o secretário da redacção, que lhe enviará os trabalhos e a «massa» -- e diga-me coisas... Um grande abraço do amigo, que tem que lhe dar uma grande sova por esse isolamento que é quase um renúncia (ou não?)
JM Fereira de Castro
Correspondência (1922-1969)
(edição de Ricardo António Alves)

Roberto Nobre
















autocaricatura

sábado, março 25, 2006

A Missão















1ª edição (1954)
Capa de Roberto Nobre

domingo, outubro 16, 2005

Castro em Vila Franca (5)

Tendo, em parte dos seus livros, o povo como tema, não o povo pitoresco, mas indivíduos pertencentes a determinados grupos sociais desfavorecidos, do emigrante ao seringueiro, da bordadeira ao contrabandista, passando pelo marçano, o pastor ou o operário têxtil, Ferreira de Castro foi o primeiro grande escritor içado do proletariado a operar uma transformação na perspectiva ideológica duma cultura, conseguindo, dessa forma, inscrever o seu nome individual no património literário nacional comum -- o que, convenhamos, não é pequeno feito.
António José Saraiva sustentou que ele «é o primeiro escritor português que não usa gravata.» (Iniciação na Literatura Portuguesa, Mem Martins, p. 158). Isto, que é um altíssimo elogio num país de literatos amanuenses, não significa a ausência de um apuro formal mais do que apropriado à intenção que ele tinha de comunicar-se intensamente. Tal como Régio, ele sentia-se acima de tudo escritor, e via as suas ideias veiculadas pelos livros como formas de servir a arte, e não o contrário... Lembremos as passagens avassaladoras sobre a floresta amazónica em A Selva, as cumeeiras do Barroso em Terra Fria, a tempestade, em A Lã e a Neve, os intensos diálogos interiores em A Curva da Estrada ou em A Missão, a investida dos índios ao acampamento de Nimuendaju em O Instinto Supremo, o primor dos textos memorialísticos, entre outros. Como escreveu Manuel Rodrigues Lapa, na sua clássica Estilística da Língua Portuguesa (4ª ed., Coimbra, p. 124), Castro é «um dos nossos mais elegantes prosadores».
Façamos também aqui um parênteses a propósito de um qualificativo que se tem colado a Ferreira de Castro, que de tão repetido se tornou num lugar-comum. A designação costumeira de «precursor do neo-realismo». No contexto nacional ela é imprecisa e irrelevante. Porque ou há várias maneiras de entender o neo-realismo, em que está sempre subjacente um conflito, um desajustamento social, a luta de classes, uma «tensão de devir», como diria Mario Sacramento, ou o neo-realismo tem de ser visto como a expressão artística de um desígnio político, que é o estar pelo menos de acordo com as posições do PCP sobre os diversos domínios em que a vida se exerce. Num contexto lato, direi, então, que Castro foi talvez o primeiro escritor neo-realista português , e não apenas um precursor; se o entendimento for restritivo, Castro que sendo um comunista libertário, um anarquista kropotkiniano, nunca quis pertencer ao PCP, não é neo-realista, nem precursor do neo-realismo, nem o seu romance A Lã e a Neve, que muitos costumam referir como uma das obras referenciais desta corrente, a começar pelo próprio Álvaro Cunhal, pode, desta forma emparceirar com Fanga, de Alves Redol, ou os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes.
Claro que isto se prende com a matriz ideológica do escritor, essencial para o percebermos, e aos seus livros.
Como disse inicialmente, Castro foi um libertário, um anarquista. O que distingue os anarquistas de outros sectores revolucionários da esquerda é a sua resistência a tudo o que possa restringir a condição livre do ser humano, a única que lhe é natural. E esse tudo manifesta-se nas formas corecivas de organização social, cuja expressão última é o Estado, mas também nas organizações «adjacentes»: igrejas, forças armadas, partidos políticos, tudo enfim, que de alguma forma possa coarctar a expressão da individualidade. Daí que, regra geral, os anarquista se associem por grupos de interesses sócio-profissionais, tendo sido precisamente na área sindical que registaram maior êxito organizativo.
Mas culturalmente também, o anarquismo foi muito forte entre nós, durante a I República. Está ainda por conhecer por dentro o grupo de intelectuais que se exprimia em jornais como o Suplemento Literário Ilustrado do diário A Batalha, a revista Renovação e também o histórico semanário O Diabo, escrito e dirigido pelos anarquistas do grupo de Ferreira de Castro: Julião Quintinha, Jaime Brasil, Assis Esperança, Roberto Nobre, Mário Domingues, Nogueira de Brito, Pinto Quartim e vários outros.
(continua)


(rectificado em 18-X-2005)

quinta-feira, outubro 13, 2005

Roberto Nobre, «Salomé»















Museu de Faro

Caracteres móveis #42 - Roberto Nobre

Fazer arte é mentir com talento.
Horizontes de Cinema