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quinta-feira, abril 30, 2026

notas sobre «O Banqueiro Anarquista», de Fernando Pessoa

I

Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente

Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.

Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.

Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um futuro fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…

E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.

Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)

 

II 

Senão, vejamos:

a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.

Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.

Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.

Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.

Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.

Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?


III

A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.  

domingo, dezembro 12, 2021

na estante definitiva


Nas «Lendas de Santos» de Eça de Queirós (Últimas Páginas, 1912, edição póstuma organizada por Luís de Magalhães), biografias ficcionadas de santos. «São Cristóvão», aliás o único que o escritor concluiu, é um dos textos queirosianos que prefiro. Numa imprecisa Idade Média, aparentemente francesa, Cristóvão é um ser disforme (um gigante) e simples, cheio de amor para dar; amor forjado no conhecimento da incrível história do Menino-Deus, que por amor virá a morrer na cruz ("Cristóvão", o que tem Cristo em si...). De tal forma Cristóvão é possuído por esse amor ao semelhante, que nunca é abalado pelas inúmeras rasteiras e traições que lhe são infligidas pelos seus irmãos em humanidade; o mesmo amor e coração puro que, não suportando a miséria o leva a chefiar  jacqueries... Eça mantinha bem viva a leitura do seu Proudhon. Da narrativa desprende-se  um ambiente benfazejo e etéreo, no meio de guerra e de opressão do forte em relação ao fraco (a mesma atmosfera que se evola do magnífico «O Suave Milagre», trazendo-me à memória, por essa mesma atmosfera miraculosa do indizível «O Gigante Egoísta», do Oscar Wilde). 
Em Eça sempre adorei a sua paixão pela História e a forma simultaneamente séria e lúdica com que lhe pegava. «Santo Onofre» é um dos padres do deserto, indivíduos que fugiam do mundo para encontrar Deus através da oração e da renúncia, sujeitando-se a todas as solicitações do Demónio, que mais não eram do que alucinações provocadas pela carência física e psicológica de tudo... Talvez o menos conseguido.
«S. Frei Gil», cujo plano da obra chegou até nós, poderia ser uma das grandes narrativas queirosianas, provavelmente abandonada (e isto é um palpite; precisaria de verificar cronologias) pelo felizmente concluído A Cidade e as Serras. Várias vezes me veio à memória a dispersão e a inconsistência do Jacinto de A Cidade e as Serras, ou mesmo de Gonçalo Mendes Ramires. Em todo o caso, ficamos com pena do corte abrupto da narrativa quando o volúvel Gil a caminho de Paris, na companhia do escudeiro Pêro, para estudar Medicina, é desviado do intento por um misterioso cavaleiro...
O segundo bloco desta Últimas Páginas, consiste num conjunto de «Artigos Diversos», textos todos de primeira água, em que avulta o também incompleto «O "Francesismo"», um magnífico ensaio de irónica autobiografia cultural.
Eça é sempre Eça. Imortal. 



quinta-feira, fevereiro 06, 2020

na estante definitiva

Há quem diga Jaime Cortesão (1884-1960) o maior historiador português do século XX, avaliação sempre difícil de fazer-se, o maior romancista, o maior pintor, o maior compositor... No caso de Cortesão, ele encontra-se sem dificuldade nos cinco dedos de uma mão.
Este livro documenta a curta passagem do historiador pelo seu país, na cadeia, entre dois exílios. É que também enquanto personagem, foi igualmente marcante no seu tempo.
Uma breve nota para dizer que Alberto Pedroso salvou estas cartas da venda a peso como lixo, tal o destino que teve a papelada da Seara Nova pertencente a Câmara Reys (1885-1961), de que foi fundador e director até morrer.
A epígrafe é um excerto extraordinário de uma carta dirigida a Raul Proença, também do Forte de Peniche, em 14 de Julho de 1940: «... Quero sem tardar, tranquilizá-lo sobre as minhas convicções políticas de hoje. Continuam a ser integralmente as mesmas, que estabeleceram entre nós uma tão estreita solidariedade moral e intelectual. Tranquilize-se. Cada vez sinto mais que em afirmar a minha fé antiga está o meu dever de homem e de escritor…»
Há homens que têm fibra; e há outros que não. E torna-se necessário dizer que esta  antiga foi Cortesão bebê-la ao ideário anarquista de Proudhon e outros, tal como sucedeu com Antero, Eça, Raul Brandão e Ferreira de Castro, para citar alguns.
Da posse: Janeiro de 1993. 



Jaime Cortesão, 13 Cartas do Cativeiro e do Exílio (1940), recolha, introdução e notas de Alberto Pedroso, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1987, 107 págs. Capa: José Maria Saldanha da Gama.