Svetlana Alexievich: «Para nós tudo vinha daquele mundo horrendo e misterioso. Na nossa família, o avô ucraniano, pai da minha mãe, foi morto na frente de combate e sepultado algures em terra húngara, e a avó bielorrussa, mãe do meu pai, morreu de tifo enquanto estava com os partisans, os seus dois filhos estiveram no Exército e desapareceram nos primeiros meses de guerra, dos três só regressou um. O meu pai.» A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985) - trad.Galina Mitrahovich § Woody Allen: «Lembro-me de uma tarde em que estávamos sentados num alegre bar do Sul de França com os pés confortavelmente pousados em tamboretes do Norte de França, quando Gertrude Stein disse: "Estou agoniada." Picasso achou essas palavras divertidas, e Matisse e eu tomámo-las como a deixa para partirmos para África.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura -- «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Mikhail Bakunin: «É preciso ser-se dotado de uma grande dose de estupidez, é preciso ser-se cego e surdo para não reconhecer importância a este movimento. E quem quer que tenha conservado uma réstia de vida e de bom-senso, que não tenha sido corrompido por interesses ou doutrinas, reconhecerá, como nós, que só um movimento se não traduz por uma agitação ridícula e estéril, e que traz no seu seio o futuro, o movimento internacional dos trabalhadores.» O Socialismo Libertário, «O movimento internacional dos trabalhadores» - trad. Nuno Messias § Félix Cucurull: «Aqui te estou a escrever estas palavras de despedida neste cartão que perdi quando tinha vinte anos e do qual as chuvas apagaram o nome e a morada. Encontra-la-ás no bico de qualquer pardal. Ao leres as minhas palavras pensarás: "Sempre disse que este moço iria muito longe a escrever histórias divertidas." Entretanto, a rapariga que eu beijei quando ainda tinha gengivas e dentes deve ser já avó.» «Carta de despedida», Antologia do Conto Moderno - trad. Manuel de Seabra § Michael Gold: «Ao longe, na cidade, a noite é calma e silenciosa. Nas ruas dormentes homens e mulheres deslizam em idílios. Os agentes balouçam os bastões e bocejam sonolentos. / No sossego de suas casas, depois de um dia enervante nos tribunais, os juízes lêem versos às esposas. / No escuro dos cinemas, há pares de namorados que, em contacto furtivo, vibram de desejo.» Para a Frente, América -- «Cárcere» - trad. Manuel do Nascimento
segunda-feira, outubro 06, 2025
domingo, setembro 14, 2025
zonas de confronto
Mikhail Bakunin: «Que os homens de Estado e os políticos, aristocratas e burgueses de todos os países se inquietam, temos disso provas nos discursos que pronunciam; não deixam escapar uma só ocasião que seja para exprimir as suas simpatias tão profundas e sobretudo tão sinceras por esta massa tão generosa e tão interessante de trabalhadores, que, depois de ter servido durante todos estes séculos de pedestal passivo e mudo a todas as ambições e a todas as políticas do mundo, se cansou enfim de desempenhar um papel tão pouco lucrativo e tão pouco digno, e anuncia hoje a sua firme vontade de não viver nem trabalhar mais senão para si própria.» «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869), O Socialismo Libertário - trad. Nuno Messias «§ Woody Allen: «Gris era genuinamente espanhol e Gertrude Stein costumava dizer que só um verdadeiro espanhol se comportaria como ele; quer dizer, falava espanhol e às vezes ia a Espanha ver a família. Era realmente maravilhoso de ver.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura - trad. Jorge Leitão Ramos § Svetlana Alexievich: «Certa vez um miúdo vizinho perguntou-me: "O que fazem as pessoas debaixo da terra? Como é que vivem lá?" Também queríamos decifrar o mistério da guerra. / Foi quando comecei a pensar na morte... E nunca deixei de pensar nela, tornou-se para mim o maior mistério da vida.» A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985) - trad. Galina Mitrakovich § Félix Cucurull: «Eu olhava, abúlico, para o levante. Tu comentaste: "Está muito sereno". Nesse momento dei porque o vento me erguia no ar, como se fosse um balão de S. João. Eu gritava: "Dá-me a mão! Agarra-me!" Andei a esvoaçar pelas montanhas. Fiquei preso aos ramos de uma oliveira.» «Carta de despedida», Antologia do Conto Moderno -- trad. Manuel de Seabra § Michael Gold: «Como criança amedrontada, o pobre corpo já sangrento soluça: / -- Fala! / Em torturada agonia, o cérebro arde-lhe e clama: / -- Fala! / E o sangue latejante segreda-lhe: "A tua mulher está à espera... É só falares...". / E em todo ele um milhão de vozes grita: / -- Fala!... Fala! / ...Mas o preso não quer falar». «Cárcere», Para a Fente América... - trad. Manuel do Nascimento
sábado, agosto 30, 2025
zonas de confronto
Mikhail Bakunin: «Se há algo que seja alvo das atenções dos conservadores mais respingões, é-o o movimento cada [vez] mais geral e mais forte das massas operárias, não só na Europa como na América.» «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869), O Socialismo Libertário - trad. Nuno Messias. § Svetlana Alexievich: «O que me faz lembrar primeiro a guerra? A minha tristeza de criança por entre palavras incompreensíveis e assustadoras. A guerra era sempre lembrada: na escola e em casa, nos casamentos e nos baptismos, nas festas e nos almoços fúnebres. Mesmo nas conversas entre crianças.» A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985) - trad. Galina Mitakhovich § Woody Allen: «Juan Gris, o cubista espanhol, tinha convencido Alice Toklas a posar para uma natureza-morta e, na sua típica composição abstracta dos objectos, começou a partir-lhe a cara e o corpo, até atingir as formas geometricamente básicas, até que a polícia chegou e o levou.» «Memórias dos anos vinte», Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura - trad. Jorge Leitão Ramos § Félix Cucurull: «Foi então que encontrei o cartão perdido há anos; mas o pequeno rectângulo de cartolina havia passado tanto tempo ao sol e à chuva que já estava totalmente ilegível. Enquanto eu tentava, inutilmente, descortinar qualquer coisa, tu começaste a contar-me histórias de santos, e tiraste um embrulho da mochila.» «Carta de despedida», Antologia do Conto Moderno - trad- Manuel de Seabra § Michael Gold: «Entretanto, na cela, os cinco polícias sovam e interrogam o preso e gritam-lhe que há-de falar!... / As duas matracas e os rudes sapatos martirizam o preso e induzem-no a falar. / O coração opresso sugere-lhe que fale.» «Cárcere», Para a Frente América... - trad. Manuel do Nascimento
quinta-feira, julho 17, 2025
zonas de confronto
Félix Cucurull: «Tu não querias acreditar que eu via o teu corpo. Disseste que tinha feito batota, que eu fazia batota comigo mesmo. As tuas palavras deixavam-me muito compungido. Só me acudiu deitar-me no chão, teimoso, como uma criança que não quer ir para a escola.» Antologia do Conto Moderno,«Carta de despedida» - trad. Manuel de Seabra § Svetlana Alexievich: «O Homem é maior do que a guerra - Excertos do diário do livro - Escrevo um livro sobre a guerra... / Eu, que não gostava de ler livros de guerra, apesar de serem a leitura preferida de toda a gente na minha infância e adolescência. De todos os meus contemporâneos. Não surpreende: éramos filhos da Vitória. Filhos dos vencedores.» A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985) - trad.Galina Mitrakhovich § Michael Gold: «Passa um automóvel na rua e uma rapariga ri-se para o homem ao seu lado. / No corredor da prisão, enquanto o bico de gás solta no espaço sua monótona e triste melopeia, o carcereiro brinca com as chaves. / Saudosamente, os presos do mundo inteiro sonham com os lares perdidos, com carícias já esquecidas.» Para a Frente América... - «Cárcere» -- trad. Manuel do Nascimento § Santo Agostinho: «"Louvarão o Senhor aqueles que O buscarem." Na verdade os que O buscam, encontrá-Lo-ão e aqueles que O encontram, hão de louvá-Lo. / Que eu Vos procure, Senhor, invocando-Vos, e que Vos invoque, crendo em Vós, pois nos fostes pregado. Senhor, invoca-Vos a fé que me destes, a fé que me inspirastes por intermédio da humanidade de Vosso Filho e pelo ministério do Vosso pregador.» Confissões (397-400) - trad. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina § Woody Allen: «Lembro-me perfeitamente destas coisas porque aconteceram exactamente antes daquele Inverno em que todos vivemos naquele apartamento baratíssimo no Norte da Suíça, onde, ocasionalmente, começava a chover e depois parava tão repentinamente como começara.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - trad. Jorge Leitão Ramos
terça-feira, março 16, 2021
cantam como choram
«Depois da guerra, a aldeia da minha infância era feminina. De mulheres. Não me lembro vozes masculinas. Isto ficou dentro de mim: são as mulheres que falam da guerra. Choram. Cantam como choram.»
Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985)
(tradução:Galina Mitrakhovich)
domingo, agosto 16, 2020
história e ficção, mentira e verdade - «Eurico o Presbítero» (2)
Este historiar da alma -- porventura a mais significante das historiografias -- remete-me para a maravilhosa Svetlana Alexievich, que assim mesmo se definiu: «historiadora da alma», aqui já não se socorrendo (exclusivamente) da intuição, mas também do testemunho vívido e vivido.
quarta-feira, fevereiro 26, 2020
na estante definitiva
Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher, (1985 - 1ª edição na União Soviética)
quinta-feira, setembro 12, 2019
na estante definitiva
«Alexievich criou um novo género literário de não-ficção que é inteiramente seu. Escreve "romance de vozes". Desenvolveu este género livro após livro, apurando constantemente a estética da sua prosa documental, sempre escrita a partir de centenas de entrevistas. Com uma notável concisão artística, a sua perícia permite-lhe enlaçar as vozes originais dos testemunhos numa paisagem de almas.»
Por detrás da miséria e do sofrimento surge, em todo o seu esplendor, a beleza da fragilidade, da abnegação e do heroísmo humanos.
Não gostei da tradução, infelizmente, mas o alcance do livro ultrapassa esse senão.
Data de posse: Julho de 20017.
Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher [1985], trad. Galina Mitrakhovich Amadora, Elsinore, 2016, 332 págs.
segunda-feira, julho 15, 2019
lista para a estante definitiva (1-6)
1. A Catedral, de Manuel Ribeiro (1920) - Literatura portuguesa. Romance.
[acho que vou fazer um blogue só para isto, com comentários a cada livro]
sexta-feira, setembro 21, 2018
«Estou só na noite.» Geneviève de Gaulle Anthonioz, A Travessia da Noite (1998) (trad. Artur Lopes Cardoso)
«Eu era um produto da era vitoriana quando os alicerces do nosso país pareciam firmemente assentes, quando a sua situação no comércio e nos mares não tinha rival e quando se consolidava, todos os dias, a grandeza do nosso Império e se afirmava o dever de a salvaguardar.» Winston Churchill, Memórias da Minha Juventude (1930) (trad. Leopoldo Nunes)
sexta-feira, setembro 29, 2017
livros que me apetecem
Antologia de Poesia Erótica, de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Dom Quixote)
Baixo Contínuo, de Rui Nunes (Relógio d'Água)
Ébano, de Ryszard Kapuscinsky (Sextante)
A Margem de um Livro, de Rui Nunes (Cosmorama)
O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho, de Reinaldo Ferreira (Repórter X) (Pim! Edições)
Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
O Quarto Azul, de Georges Simenon (Relógio d'Água)
Reflexões Sobre o Nazismo, de Saul Friedlander (Sextante)
As Últimas Testemunhas, de Svetlana Alexievich (Elsinore)
quinta-feira, setembro 28, 2017
História e ficção, mentira e verdade (Alexandre Herculano)
Este historiar da alma -- porventura a mais significante das historiografias -- remete-me para a maravilhosa Svetlana Alexievich, que assim mesmo se definiu: «historiadora da alma», aqui já não se socorrendo (exclusivamente) da intuição, mas também do testemunho vívido e vivido.
segunda-feira, setembro 19, 2016
microleituras
A conferência, propriamente dita, é a resenha de um admirador português, escritor, conservador e colonialista no sentido histórico do termo, pontos de identidade com o homenageado.
início:
«MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES: / Convidado há muito pelo Instituto Britânico para pronunciar uma conferência nas suas salas hospitaleiras, só agora a minha vida pesada me permitiu retribuir, com a desvaliosa moeda da minha palavra, todas as atenções de que nesta casa tenho sido alvo.»
Autor: Joaquim Paço d'Arcos, Churchill -- O Estadista e o Escritor, Lisboa, s,d,