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terça-feira, setembro 23, 2025

o que está a acontecer

«Um dia qualquer, que nos aproximara talvez a circunstância absurda de coincidir virmos ambos jantar às nove e meia, entrámos em uma conversa casual. A certa altura ele perguntou-me se eu escrevia. Respondi que sim. Falei-lhe da revista "Orpheu", que havia pouco aparecera. Ele elogiou-a, elogiou-a bastante, e eu então pasmei deveras.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«Pegávamos nos cocharros, abaixávamo-nos e, fincadas no desembaraço de gente do Monte, atestávamos as quartas com toda a ligeireza, que a arranchada, impacientada pelas sequidões do amanho do alqueive, não nos consentia molezas -- a tal indolência que os cá de cima, com a língua afiada de desdém, afiançam ser jeiteira da gente lá de baixo.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016) 

«I- A Serpente Cega / -- Mas não voltas tão cedo... / João Garcia garantiu que sim, que voltava. / Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora. Eram fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes. Baixou-os um instante e tornou: / -- Quem sabe...?» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

sábado, setembro 20, 2025

o que está a acontecer

«Um caldo parelho a esse mas sem o bacalhau a enricá-lo; açorda singela, já se vê, que os tempos eram outros. Era um migalho de gente, para aí desta altura, mais ou menos. Acudia ao chamamento da mãe, à espera, junto ao poial das bilhas, alcançava a mais tamaninha, à medida dos meus quatro, cinco anitos de gaiata, assentava-ma na cabeça e abalávamos, caminho do pego, até à barroca para onde escorria, pelas frinchas das penedias, a água.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)   

«E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem. Se no mato morreu animal de pouco, certo que cheirará ao podre do que morto está. Quando calha estar quieto o vento, ninguém dá por nada, mesmo passando perto. Depois os ossos ficam limpos, tanto lhes faz, de chuva lavados, de sol cozidos, e se era pequeno o bicho nem a tal chega porque vieram os vermes e os insectos coveiros e enterraram-no.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

«A sua voz era baça e trémula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar. Mas era porventura absurdo dar esse relevo ao meu colega vespertino de restaurante. / Não sei porquê, passámos a cumprimentarmo-nos desde esse dia.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

segunda-feira, setembro 15, 2025

o que está a acontecer

«Soube incidentalmente, por um criado do restaurante, que era empregado de comércio, numa casa ali perto. / Um dia houve um acontecimento na rua, por baixo das janelas -- uma cena de pugilato entre dois indivíduos. Os que estavam na sobreloja correram às janelas, e eu também, e também o indivíduo de quem falo. Troquei com ele uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (1982) 

«Não havia, por esses corgos abaixo, tamanha fartura: arriávamos as quartas. afundávamos os pés no chão barrento e, num instantinho, apanhávamos uma arregaçada para engrossar as sopas d'alho, onde, calhando as pitas terem sido generosas, até o luxo de uns ovos apareciam a boiar na fervura em cima da trempe ao borralho.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)

«Não faltam cores a esta paisagem. Porém, nem só de cores. Há dias tão duros como o frio deles, outros em que não se sabe de ar para tanto calor; o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

sexta-feira, setembro 12, 2025

o que está a acontecer

«Passei a vê-lo melhor. Verifiquei que um certo ar de inteligência animava de certo modo incerto as suas feições. Mas o abatimento, a estagnação da angústia fria, cobria tão regularmente o seu aspecto que era difícil descortinar outro traço além desse.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

«Gente do monte - Colhíamo-las ao rés da vereda que sobe do Barranco do Campaniço, do lado em que entesta com a chapada, já ao endireito do Monte. Logo ali, onde uns palmos de atasqueiro conservam a fresquidão e se tapam de beldroegas pela primavera.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016)