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segunda-feira, setembro 12, 2022

aconselho um pouco de calma (ucranianas CXXIII)

 Nota prévia: sou ignorante em muitas matérias, uma das quais a que concerne à táctica militar. A opinião que se segue estriba-se no que ouvi entre sábado à noite e hoje de manhã a três militares -- Mendes Dias, Arnaut Moreira e Isidro Morais Pereira --, todos partidários de uma derrota russa, embora, quanto a mim, apenas o primeiro se mostrasse objectivo e isento.

A contra-ofensiva ucraniana parece ser um facto, tal como os russos parecem ter sido surpreendidos, pelo que, a acreditar nas imagens vindas a público, estaremos entre a fuga, pela surpresa do ímpeto atacante e a retirada táctica, para reagrupamento e contra-ataque.

Não sei se o que fez a diferença foi o tal armamento ocidental; pelo que tenho ouvido, não terá sido decisivo, como desde o início sucede, o auxílio da Nato nas informações prestadas -- além, obviamente do ímpeto de quem defende o país, de onde deveremos retirar o Donbass, de maioria russa e em guerra desde 2014 (o que serve para os ucranianos serve também para os russos), para não falar na Crimeia, russa até à medula, reposta que foi a normalidade, corrigindo-se a parvoíce etilizada do camarada Krushtchev,

Passando da táctica para a estratégia, só podemos arriscar prognósticos, pois ninguém ainda sabe como isto vai acabar e se o bom senso irá prevalecer em ambos os lados:

A Rússia sairá sempre vitoriosa, embora parcialmente, se mantiver Donetsk e Lugansk -- a Crimeia é um dado mais do que adquirido --, além da interdição permanente da pertença da Ucrânia à Nato (quanto à UE, vamos ver); será derrotada se algum destes pressupostos não se verificarem -- para além da derrota objectiva que significa a adesão da Finlândia e da Suécia; no entanto estas não têm, nem de perto nem de longe a importância, desde logo simbólica que a Ucrânia tem para a Rússia.

Mas pode ser que o bom senso não impere, que o Pentágono -- a entidade que está a dar guerra aos russos utilizando a mão-de-obra ucraniana -- ache que pode alcançar um pouco mais e contribuir para a queda de Putin, o grande objectivo, uma jogada muito arriscada. Nesta altura, como mencionou Mendes Dias, há na Rússia mais radicais que o Putin no que respeita à Ucrânia e à guerra surda -- e agora sou eu que digo -- que os Estados Unidos lhe movem, com a cumplicidade perversa ou a subserviência enconada europeias, conforme os casos. Os próximos tempos dirão o que irá prevalecer, tudo depende da habitual ponderação dos interesses em jogo de cada parte.   

Quanto à situação no terreno, aconselho calma e algumas orações concernentes à resposta russa. Demasiado importante, Kiev tem sido poupada, e esperemos que assim continue.

   

quarta-feira, agosto 24, 2022

ucranianas (em férias) CXVIII

1. Parvoíces a propósito da Crimeia. Uma Crimeia ucraniana é uma ficção que a Rússia teve de suportar no tempo da União Soviética, com o camarada Kruschev, tal como depois, com o camarada Ieltsin. O camarada Putin fartou-se. Que maçada para a Ucrânia e para o Ocidente. Podem sempre declarar guerra à Rússia, sandice que alguns andam desejosos se concretize (têm cara de estúpidos, pensam como estúpidos, são mesmo estúpidos). A conversa do Zelensky a propósito da Ucrânia é patética, e só não suscita gargalhadas porque tudo isto é trágico, pelo sofrimento humano e pela pulhice dos vários interventores. Uma Crimeia ucraniana não é só má ficção, é uma anedota mal contada, o que é sempre terrível

2. Portugal lá esteve representado nesta plataforma, como tinha de estar, infelizmente. E com a ministra a dizer inanidades, pelo que ouvi no carro. Continuamos com o argumento analfabeto da invasão injustificada?... Eu sei que a ministra é doutorada em questões de género nas Forças Armadas -- sem ironia, um tema importante, ao nível de uma secretaria de Estado; mas vir para um fórum repetir as baboseiras que os Estados Unidos e a Inglaterra mandam dizer, mostrando que não percebe ou faz de conta que não percebe nada de geopolítica, é desnecessário. Chegava lá, dizia que já tínhamos ajudado muito e continuaríamos a ajudar, e pronto. Ou então temos medo de levar mais um puxão de orelhas do Zelensky. E também sei que os governos enganam os cidadãos.

3. Quanto ao atentado em Moscovo. É trabalho de serviços secretos. Qual deles? Não faço ideia e estou-me nas tintas (para além de lamentar a morte, etc. e tal), mas é giro de analisar a quem pode servir uma acção destas, o que não farei, pois estaria apenas a palpitar. E de palpiteiros está esta guerra cheia.

quarta-feira, março 31, 2021

Louçã não é maluco

 Francisco Louçã, que é conhecido por ter um enorme sentido de humor, semelhante ao de uma caixa de sapatos, lembrou-se de gozar com uma deputada municipal do PPM, num voto que defendia a equiparação do comunismo ao nazismo, algo que eu contesto, como já escrevi aqui.

A circunstância de haver um grau de natureza diferente entre nazismo e comunismo, não significa que passe a ser legítimo branquear as patifarias do Stálin, que foi um monstro, nem sequer as do Lenine e muito menos as malfeitorias do Trostky. Não se branqueie o bolchevismo, que eu para esse peditório não dou; como não dou para esse outro, que é o de branquear o nazismo com comparações espúrias. 

No entanto, concedo uma sensibilidade especial a Aline Hall de Beuvink, dada a sua ascendência ucraniana. Mas comparar ambos não é objectivo nem verdadeiro. O bolchevismo em acção traduziu-se pela tomada do poder de uma clique não olhando a meios -- o trivial, portanto. O nazismo, entre outras lindezas, tratou de exterminar duas etnias. E a verdade é que o sucessor do dito Stálin, georgiano, foi Krushtchev, ucraniano, que fez todo o seu percurso a lamber as botas do outro.

Um colunista da Rádio Observador, Alberto Gonçalves, que costumo ouvir no carro, esta segunda-feira pegou nesta intervenção de Louçã num jornal da Sic-Notícias desta sexta-feira, obrigando-me a ir vê-lo. E, na verdade, é terrível: Louçã tenta ter gracinha à conta de um genocídio (e parece que manipulou as imagens, é pelo menos a acusação que lhe é feita). O cronista, nessa segunda-feira, ciente de que à figura falta qualquer sentimento de empatia objectiva pela pessoa concreta (é mais fácil simpatizarmos com as grande abstracções) chamou-lhe sòciopata e maluco. Ora eu creio que Louçã não é maluco.

terça-feira, novembro 07, 2017

uma terra sem amos nem apparatchiks

Já não sei quantas vezes aqui escrevi que a melhor vacina que tive para a prevenção do bolchevismo e o comunismo soviético (há outros comunismos) foi a leitura, ainda muito jovem, do Soljenitsin. O Marc Ferro também ajudou, alguns anos depois; e a visão, ainda fresca, da Primavera de Praga -- os tanques do Pacto de Varsóvia contra o povo nas ruas de Praga (o Dubcek é outro dos meus heróis, também já o escrevi, mais de uma vez).
Acontecimento magno da história do século XX, quem o duvida? Revolução mais do que justificada numa autocracia? Igualmente (a execução vil de toda a família imperial não faz esquecer os crimes de Nicolau II e do seu círculo). Que sem ela, as condições de vida dos trabalhadores ocidentais teria sido outra? Parece mais do que evidente. Nunca saberemos que caminho seguiria a Rússia sem a Revolução de Outubro, com Nicolau II ou com Kerensky. Sabemos que Lénin e Trótski tomaram e consolidaram o poder que a Rússia Branca não estava disposta a permitir, tendo, em simultâneo desbaratado os anarquistas de Nestor Makno e outros, nada dispostos a deixarem-se manietar pelos comunistas autoritários, numa velha contenda que vinha do século anterior. E sabemos, também, que a União Soviética, criada em 1922, é uma configuração de Stálin após a eliminação interna dos inimigos, reais ou supostos. É Stálin que torna a Rússia uma superpotência e é com a sua morte, em 1953, que se inicia o declínio. Krushtchev é uma válvula de escape; Brejnev, a sedimentação do estado totalitário e um novo desenvolvimento do imperialismo soviético em taco-a-taco com o americano: Vietname, Iémen do Sul, Angola, Afeganistão, cada um usando(-se) (d)os seus peões. Depois da grotesca parada de senectude ao mais alto nível (Andropov, Tchernenko), Gorbachev foi o homem certo na altura (im)própria. A circunstância de a queda da União Soviética, desmoronando-se de podre, ter ocorrido praticamente sem baixas, é um milagre bem palpável que a Humanidade deve a Gorbachev. Ieltsin (um bebedolas, provavelmente comprado pelos americanos), e Putin, um político frio e superiormente inteligente (muito mais do que gostaria o imperialismo americano -- imperialismo de rapina, como é condição de todos os imperialismos) -- (Ieltisn e Putin) são já protagonistas de outra realidade, que nem por isso deixa de ser herdeira da finada URSS, tal como esta, quando necessário, foi buscar o substrato à alma da Mãe Rússia.       

quinta-feira, novembro 17, 2016

Putin e o TPI

Há coisas demasiado sérias para que se possa aceitar a sua falsificação abastardamento. Uma delas é o Tribunal Penal Internacional. O TPI nasceu mais do que torto: não só não está dependente da ONU, como se distinguiu por uma parcialidade durante a guerra da Iugoslávia que o desacreditou desde o início.
A não-tutela das Nações Unidas até pode compreender-se, dados os impasses que institucionais; porém, o risco de utilização do TPI pelas agendas das grandes potências, resulta ainda pior. 
Na Guerra da Iugoslávia, os sérvios foram, com efeito, os bodes expiatórios do TPI, num conflito que não teve inocentes políticos e militares..
Quando Putin decreta o afastamento da Rússia do TPI, após uma referência deste à situação da Crimeia como "ocupação", mais não faz do que pretextar e sublinhar a situação insustentável em que o tribunal se colocou: uma instituição que não é para ser levada a sério, como já se sabia, acabando, no fundo, por ser contraproducente em relação aos seus fins: julgar criminosos de guerra, procurando, também, ser dissuasor.
Ora, se há um caso em que os russos têm muitíssima razão, esse é o da Crimeia, histórica e politicamente.
Têm razão, do ponto de vista histórico, porque, na década de 1950, Krushtchev o autocrata do momento, resolveu (dizem que após uma noite de bebedeira), retirar a Crimeia da República Soviética da Rússia e integrá-la na República Sovética da Ucrânia. Com o feliz colapso da URSS, os russos, demasiado enfraquecidos para fazerem valer as suas pretensões, limitaram-se a garantir a soberania sobre o porto estratégico de Sebastopol. Com a degradação política da Ucrânia, a Rússia limitou-se a tomar posse de um seu território secular.
Mas não ficamos por aqui: a população da Crimeia, maioritariamente russa, votou pela sua reintegração na pátria. Quem pode censurá-los -- aos cidadãos e ao poder russo? Os cínicos, claro. Acontece que a Rússia é demasiado poderosa para sujeitar-se ao cararejar dos hollandes e das mays e, neste caso em particular, fez o que devia, desprezando uma instituição mal-afamada, para desgraça das vítimas dos crimes de guerra.  

Nota: a selectividade das notícias e das indignações também não deixa de ser interessante: fala-se na Ucrânia e na Geórgia (peões potenciais dos Estados Unidos), mas nada quanto à Tchetchénia, pese embora a especificidade de cada um dos territórios. É um bocado como as notícias que vêm da Síria e do Iraque. Em Alepo morrem sempre crianças; em Mossul, só se abatem os maus do Daesh. Lá está: estorinhas pera entreter meninos. Foi preciso ver as reportagens do Paulo Dentinho, para perceber que metade de Alepo se mantém praticamente intacta: até aqui, só nos chegavam as imagens da zona oriental, captadas por drones ou pela Al-Nusra, com os seus 'capacetes brancos' (parece que queriam atribuir-lhes o Nobel da Paz...) -- segundo ouvi bacorejar numa televisão qualquer.

quinta-feira, março 06, 2014

Na Crimeia, tudo vai acabar bem. Seguem-se as cenas dos próximos capítulos

 Conforme escrevi aqui, não me parecia provável que a Rússia se ficasse, diante das brincadeiras irresponsáveis da UE -- tal como a UE e os Estados Unidos não irão provocar uma guerra (!) por causa da Ucrânia.

A verdade é que a Rússia, ao integrar a Crimeia, toma posse daquilo que é historicamente seu. E vai fazê-lo de forma modelar, depois da decisão do parlamento legítimo da república autónoma ser reforçada com um referendo em que a vontade popular vai ser democraticamente expressa, e corrigir uma idiotice das autoridades soviéticas do tempo do Krushev, a contento -- tal como a Sérvia, diga-se, não pôde corrigir as sacanices do Tito, que criou o problema do Kosovo, entre vários e graves outros. (Pela mesma razão, já agora, sou completamnete favorável à manutenção das Falkland na soberania britânica, pois assim se manifestou o seu povo nas urnas, por muito que vociferem os generais e a politicalha argentina, com os seus complexos de colónia e as suas cortinas de fumo para enganarem os seus concidadãos).

Vejamos como evoluirá a situação no leste ucraniano, e se haverá bom senso por parte das potências e das supostas autoridades da Ucrânia. Nunca será de excluir o pior, mas não por causa da Crimeia, parece-me.

Notícia da resolução parlamentar da Crimeia, aqui: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=721592&tm=7&layout=121&visual=49

sábado, fevereiro 16, 2013

(MOSCOVO, 1952 -- OS DESMEMORIADOS)


 Ilya Eremburg e eu chegamos silenciosos de uma conversa com figuras gradas nos altos escalões a propósito de nosso amigo Jan Drda, atendendo pedido que ele me fez em Praga de onde venho para receber o Prémio Internacional Estaline da Paz: o prémio me credencia. Estamos em Janeiro de 1952, vinte graus abaixo de zero, vento gélido varre as ruas de Moscovo, emborcamos os cálices de vodca no apartamento da rua Gorki, Ilya me diz: Jorge, somos escritores que jamais poderemos escrever memórias, sabemos de mais. No abalo da conversa que acabamos de ter, balanço a cabeça concordando.
Afirmação categórica não impediu que, alguns anos depois, durante o período de Krushtchev, ao se abrir uma pequena brecha no obscurantismo soviético, ao despontar de uma pequena luz no meio das trevas, o autor de Degelo publicasse sete tomos de memórias, sete, nada menos: no sétimo Zélia e eu figuramos, simpáticos personagens. E isso não é tudo, pois Irina me contou, em 1988, estar pondo em ordem os papéis do pai com o fim de editar vários volumes de memórias inéditas que ele não consegui publicar sequer durante a abertura de Krushtchev: Ilya sabia de mais.
Durante a minha trajectória de escritor e cidadão tive conhecimento de factos, causas e consequências, sobre os quais prometi guardar segredo, manter reserva. deles soube devido à circunstância de militar em partido político que se propunha mudar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive acções subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser militante do Partido Comunista, ainda hoje quando a ideologia marxista-leninista que determinava a actividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialismo chega a seu triste fim, ainda hoje não me sinto desligado do compromisso assumido de não revelar informações a que tive acesso por ser militante comunista. Mesmo que a inconfidência não mais possua qualquer importância e não traga consequência alguma. Mesmo assim não me sinto no direito de alardear o que me foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lembranças não fiz anotações, morrerão comigo.

Jorge Amado, Navegação de Cabotagem -- Apontamentos para um Livro de Memórias que Jamais Escreverei (1992), Mem Martins, Publicações Europa-América, 1992,