O INDIFERENTE
Ao Poeta Luís Edmundo, no dia da nossa
visita ao Salão La Case, no Louvre.
Les donneurs de sérénades
Et les belles écouteuses
Échangent des propos fades...
Watteau-Verlaine-Samain
Fêtes Galantes
No azulor do silêncio o parque se edulcora...
Luarizam-se os cetins, afinando os corpetes...
Desprendem-se os roclós, soltam-se os manteletes...
Sons de viola de amor, mandolina ou mandora...
Vinhos de Asti e Tokay... Granadinas de Angora...
Confeitilhos. Bombons. Caramelos. Sorvetes.
Ruge-ruges... A ouvir-lhe o flautim dos falsetes,
Da canção de Damis Climène se enamora...
Ré... mi... sol... si... lá... lá... Afectadas, fictícias,
Fluidicamente, as mãos arpejam as carícias...
-- Ui! que frívola eu sou! -- Oh! tão frágil não és...
E o indiferente, a sós, na pelúcia da brisa,
Violeta azul que em tons de opala se arcoirisa,
Gracilmente desfolha o coração de Agnès!
Schahrazade / Poesias Completas
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sexta-feira, junho 23, 2006
quarta-feira, maio 03, 2006
Antologia Improvável #128 - Martins Fontes
ALVURAS
Ofertou-lhe uma túnica um vizinho,
Ampla, de larga roda e alto capucho.
E ele a vestiu, sem lhe notar o luxo,
Grato a essa utilidade e a esse carinho.
E saiu. Mas, na curva de um caminho,
Topa com um velho anão, tardo e gorducho,
Tipo de serviçal, talvez de bruxo,
Que ia à feira vender um cordeirinho.
Logo o Santo lhe diz que trocaria
Sua túnica pelo companheiro
Anho, que, nos seus braços, não balia.
E, unidos por afecto verdadeiro,
Não mais se separaram, nem um dia,
São Francisco de Assis e o seu cordeiro.
I Fioretti
Ofertou-lhe uma túnica um vizinho,
Ampla, de larga roda e alto capucho.
E ele a vestiu, sem lhe notar o luxo,
Grato a essa utilidade e a esse carinho.
E saiu. Mas, na curva de um caminho,
Topa com um velho anão, tardo e gorducho,
Tipo de serviçal, talvez de bruxo,
Que ia à feira vender um cordeirinho.
Logo o Santo lhe diz que trocaria
Sua túnica pelo companheiro
Anho, que, nos seus braços, não balia.
E, unidos por afecto verdadeiro,
Não mais se separaram, nem um dia,
São Francisco de Assis e o seu cordeiro.
I Fioretti
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quinta-feira, julho 14, 2005
A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (3)
Eu devia êste livro a essa Amazonia longínqua e enigmática, pelo muito que fez sofrer os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida. E devia-o, sobretudo, aos anónimos desbravadores, gente humilde que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crónica definitiva, que à extracção da borracha entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua existência. Livro bárbaro, como a vida que enquadra, como o scenário que lhe serve de fundo, êle completa em muitos pontos, à margem do entrecho, o meu romance «Emigrantes».
Num, a paísagem ridente do sul do Brasil; noutro a paísagem magestosa do Norte. Em «Emigrantes», o exílio pelo estômago; neste, o destêrro pelo espírito. E nos dois, a uni-los indissoluvelmente, a luta pela vida, a conquista do pão, a miragem do oiro -- um oiro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam. (...)
Do «Pórtico», 1ª edição
Nota: as naturais referências aos seringueiros, «à gente sem crónica definitiva», objecto das preocupações sociais do autor. A conquista do pão é um dos mais conhecidos e importantes livros do príncipe Piotr Kropótkin, uma das grandes figuras da história do anarquismo, influência decisiva em Ferreira de Castro, sobre quem, de resto, projectou escrever uma biografia, nos anos 30, a pedido do poeta brasileiro Martins Fontes, um devoto do libertário russo.
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