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sábado, agosto 13, 2022

o atentado a Salman Rushdie

 só mostra o que todos sabíamos: uma vez lançado o anátema, a sanção que o acompanha só se esvai com a morte, o que significa que, se escapar desta, a sua vida continuará a correr perigo. 

Religiões à solta só conhecem a linguagem da força, triste facto. Infelizmente, isto já não vai lá invertendo as políticas de direita, como dizem alguns. Mas como deter largos milhares de fanatizados e as suas armas brancas ou veículos tornados máquinas de morte? 

Como já não estamos no tempo do Pombal, que mandava executar quem lhe fizesse frente e ameaçava o papa; nem no do Joaquim António de Aguiar, o liberal "Mata Frades"; nem se admite agora o achincalho da República, ou o que o Zé Estaline fez na União Soviética, transformando igrejas em garagens (um homem prático) ou, ainda, o controlo férreo das confissões como se processa na China -- como lidar com estes selvagens? Dialogar sobre quê, se há com eles uma raiva e um sentimento de humilhação que se lhes cola à pele e ao nome, e que sublimam com estes actos irracionais, consequência de um profundo mal estar existencial?  Ainda por cima camuflados no seio de uma comunidade ela própria dividida em face destas acções? Como se lida com isto? Rebentar com Israel? Não me parece exequível, nem desejável. Mostrar (ao menos) equidistância na questão palestiniana? E o resto?... Nós por cá ainda vamos indo; franceses, belgas, alemães, etc. estão metidos num molho de bróculos. 

segunda-feira, novembro 22, 2021

a reunião do capítulo da Sé: A CATEDRAL ( 1920), de Manuel Ribeiro, cap. VII

[retomo a leitura comentada do esplêndido romance de Manuel Ribeiro. O que está para trás pode ser lido aqui]

continuar: «Havia aquela tarde reunião no CapítuloInício do cap. VII, pp. 133-150 da minha edição).

O estado da Igreja portuguesa é o grande debate no capítulo, com posições distintas, nesse período de perseguição durante a I República. Uma das correntes, defendidas pelo cónego Rocha, «um fundo reaccionário». sustenta que a Igreja deve combater no campo do inimigo, usando armas idênticas, como a criação de um partido cristão. O beneficiado Trigueiros, por sua vez, representa a corrente ultraminoritária que toma o partido de uma igreja nacional, independente de Roma -- com tradição, aliás, no cristianismo ocidental, e também entre nós, com Pombal, que chega a ameaçar o papado com uma acção desse género, como forma de pressão na questão jesuíta. Uma terceira posição, idealista, a única que disputa importância com a primeira, defendida pelo nosso conhecido padre Anselmo, é a de uma igreja que se afirme pela penitência e oração dos seus membros, tendo como referência o exemplo do Padre Cruz (1859-1948). Uma quarta personagem intervém decisivamente, o beneficiado Tiago, cosmopolita e ardente, erudito, epigrafista consagrado, defensor das obras de restauro da Sé levadas a cabo por Luciano. Defensor de uma Igreja universal assente em Roma, à imagem de Gregório VII (Século XI), não teme os partidos laicos ou a Maçonaria, vistos como manifestações já decadentes, nem crê suficiente para a regeneração da influência da Igreja o papel da penitência ou da oração, por manifestação exclusivamente individual; para si, a Igreja é a instituição perene da Humanidade, a única capaz de redimi-la:

«Foi a Igreja que salvou o mundo. Cristianizar é desbravar. [...] Ela é, de facto, a garantia, a única força inquebrantável contra o desagregamento anti-social, o despenhamento na barbárie! Que Ela domina as consciências, que tiraniza os espíritos! Mas o templo cristão franqueia as suas portas, acolhe os que o buscam sem distinção e não inquire das crenças de quem lhe cruza o limiar, porque os homens -- todos os homens! - são filhos de deus e nenhum o ultraja com sua presença. Onde há aí casa assim tolerante? A Igreja é bela, a Igreja é única! Só ela pode satisfazer um espírito ansioso, só Ela pode dar a felicidade à alma, porque, no meio dos turbilhões sociais que tudo arrastam e aniquilam, a Igreja é o amigo que nunca trai, o braço que nunca se esquiva, a porta que nunca se fecha...». 

A questão religiosa vai de par com a Questão Social, é este o desafio, sem perda de tempo em enfrentar o jacobinismo organizado. Podendo depreender-se -- o desenrolar da narrativa o dirá -- que a luta decorrerá no seio das massas, desvalorizando os partidos e a Maçonaria, conforme a interpelação ao padre reaccionário:

«Não há alianças com cadáveres, senhor cónego Rocha! O mundo velho agoniza. Saudemos o mundo novo! No naufrágio das sociedades, mais uma vez a barca de Pedro se orientará para novos rumos.»

O padre Tiago traz a discussão a ideia de intervalo defendida pelos anarquistas: está-se num processo intervalar (O Intervalo, note-se, é o título de um romance de Ferreira de Castro em 1936, só publicado em 1974), em que o velho mundo está a ruir e um mundo novo está ainda por alcançar. É pois um momento de luta, demolição e sangue. O capítulo está boquiaberto:

«Os padres olharam-se estupefactos. Que significava tal linguagem? Até onde queria padre Tiago chegar? Transigir com a Revolução? pactuar com a anarquia? Mas o beneficiado estaria doido?...»

Veremos até onde quis chegar Manuel Ribeiro.

terça-feira, janeiro 07, 2014

um negro no Panteão: a dignidade que lhe faltava

Quando estive no Panteão Nacional, na trasladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro (o maior prosador português do século XX), a visão dos túmulos de uns insignificantes presidentes da República (insignificantes, num contexto histórico de quase nove séculos, há que ter perspectiva...) foi uma espécie de anticlímax nessa significativa solenidade.
Se o Panteão pretende glorificar os maiores, a triste contigência amalgama a grandeza e a mediocridade; e assim, o que se pretendeu enaltecido acaba por trivializar-se. Ora Aquilino não merecia jazer ao lado de um tipo qualquer, cuja habilidade, astúcia ou outra qualidade prática guindou episodicamente a um mandato presidencial, mais ou menos (i)legítimo ou mais ou menos inócuo. Nem todos os chefes-de-estado tiveram as possibilidades e a ventura de D. Manuel I, cujo túmulo (ou jazigo) é, nem mais nem menos, que a igreja dos Jerónimos...
Também aqui prefiro a grandeza trágica da simplicidade e do isolamento, como o recato do féretro do Marquês de Pombal na Igreja da Memória ou a poética dissolução no nada que é tudo de Ferreira de Castro sob uma rocha numa vereda da Serra de Sintra.
Eusébio no Panteão, porque não? Lá repousa Amália, e também podia estar Carlos Paredes (se uma foi a voz de Portugal, o outro foi a música). Melhor: Eusébio negro da Mafalala está no panteão dum país de negreiros, que é talvez, e felizmente, o mais miscigenado da Europa: celtas e latinos, berberes e árabes, negros e judeus. Nesta perspectiva, que dignidade se dá ao Panteão Nacional e que lição nos oferece a História!

sexta-feira, setembro 15, 2006

Caracteres móveis - Miguel Real

Na História não há culpados, há vencedores e vencidos, povos ou grupos sociais esmagados e outros que constroem as vitoriosas interpretações futuras. Na segunda metade do século XVIII, jogava-se em Portugal um jogo de pólos opostos com um imenso vazio no centro. Este vazio ou esta ausência chamava-se Europa e o seu progresso económico, científico e filosófico. A violência, o extremismo e o vanguardismo de Estado de Pombal medem-se pela intensidade por que tentou, em menos de trinta anos, preencher solidamente este vazio, tornando Portugal menos Portugal e mais europeu. [...] Não o conseguiu, não porque as medidas estivessem erradas, mas porque a violência por que as aplicou criou tanto um deserto em redor do Estado, de que tudo dependia, quanto um campo concentracionário de quase dois mil presos e exilados.

O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa

sábado, dezembro 03, 2005

Sebastião José

Posted by Picasa

Correspondências #24 - O Marquês de Pombal a seu irmão Francisco Xavier Mendonça Furtado, Secretário dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos

Meu Irmão do meu Coração.
Huma das grandes utilidades publicas que trazem comsigo as Companhias de Comercio he a de regularem as quantidades das mercadorias, que devem introduzir, de sorte que tenham huma respectiva proporção, com o consumo dos Paízes onde as taes mercadorias devem ser transportadas: Por que da falta desta justa proporção se segue necessariamente a ruina do Comercio dos Mercadores Nacionaes, e a do Reyno em beneficio dos Mercadores, e dos Paizes Estrangeiros.
A razão he por que, comprando os particulares nacionaes sem regra nem medida tudo quanto lhe querem fiar os Estrangeiros, introduzem de modo ordinario em hum anno Fazendas que necessitam de tres annos p.ª se consumirem. Ora como a esta redundancia se vão acomulando annualmente as outras fazendas, que transportam as Frotas, e os Navios de Licença: Daqui se segue por que não podem vender com lucro, antes lhe he precizo fazello com perda em tanta redundancia: E se segue pela outra parte que os Mercadores Estrangeiros engrossam m.to mais do que deviam engrossar; vendendo de mais aos Particulares todas as fazendas superfluas, que certamente não compra a Companhia; e exhaurindo o cabedal do Reyno em forma que se delle havião de extrahir Hum milhão em dinheiro para lhe venderem o necessario, extrahem mais Dous milhões do que vendem para ficar superfluo, empachando as Logens da America Portugueza.
Para se regular pois a Companhia que S. Mag.e acaba de estabelecer em forma que evite aquelles graves damnos, He o mesmo Senhor servido que mandeis franquear aos Caixas da mesma Companhia nas duas Alfandegas do Grão Pará, e Maranhão, todos os Livros de Abertura para delles tirarem as rellações das Fazendas q. foram para esse Estado pella ultima Frota fazendo tudo o que vos for possivel por que nas mesmas rellações se incluam por hum verosimil arbitrio todas as fazendas, que costumam entrar sem pagarem Direitos com a distinção das suas quantidades, e qualidades debaixo da proporção poco mais, ou menos.
Tambem S. Mag.e manda recomendarvos q o Avizo que deve levar esta seja reexpedido com toda a brevidade, que couber no possivel.
E Eu torno a offerecerme para servirvos com o mayor affecto.
Deus vos G.de m.tos an s
Belleem a. 4. de Agosto de 1755
Irmão m.to am.te vosso
Seb.m Jozeph
In Fritz Hoppe, A África Oriental Portuguesa no Tempo do Marquês de Pombal -- 1750-1777