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segunda-feira, maio 06, 2024

ucraniana CCXXXVIII - com meias-palavras ou directamente, estes querem-nos alinhados numa guerra contra a Rússia. E os interesses de Portugal onde páram?

Três-artigos-três, na mesma edição do Diário de Notícias, a de sábado, que traz a sempre lúcida coluna de Viriato Soromenho Marques -- desta feita sobre marcelices, só muito de raspão aflorando a questão ucraniana, que inconsciente e criminosamente se vai tornando assunto nacional.

Pois bem, o primeiro artigo, do general Valença Pinto, ex-CEMGFA, em «Segurança e Defesa da Europa. Um tema urgente e obrigatório», em que só praticamente o título está certo, começa por falar na "inaceitável invasão" da Ucrânia pela Rússia. Sobre o cerco da Nato ou os mísseís instalados na Polónia (creio), alegadamente para dissuadir o Irão (!), já para não falar da preparação da adesão da Ucrânia à NATO, tudo razões mais do que justificativas para que a Rússia procedesse como o fez, nada diz. (Talvez sejam fantasias; ou propaganda, ver Serronha em baixo). Traça um quadro que me parece correcto no Norte de África e no Sahel -- terrorismo islâmico, tráfico, criminalidades várias --, para sustentar que a influência da Rússia e da China atentam contra os nossos interesses. Ora, parece-me que salvo nos aspectos atrás referidos, os nossos interesses ali não coincidem com os dos franceses (americanos e russos dividem neste momento uma base no Níger...), o que me parece ser um erro grave para um analista militar português; e depois também não seria mal pensado avançar as razões pelas quais os franceses foram chutados vergonhosamente das antigas colónias, A Meloni já explicou porquê. .Mas o general Valença quer fazer-nos crer que, por exemplo, os interesses franceses e portugueses em política externa, especialmente em África, coincidem. Pois só muito parcialmente isso sucede. O general dá ainda de barato a basófia do Trump quanto à Nato. Eu já me enganei muitas vezes, mas ainda não vi lógica nenhuma em que um império global como o americano se desembarace assim dum semi-continente obediente, cujos dirigentes, na sua maioria, não passam de valetes débeis. Claro que haverá sempre a possibilidade terrífica de os Estados Unidos entrarem em guerra civil, mas quem adivinha o futuro? Repetindo-me: sou pelo serviço militar ou serviço cívico obrigatórios, para ambos os sexos, com uma filosofia de base diferente do anterior SMO, mas não de certeza para, por estupidez, fraqueza ou traição, mandarmos os jovens portugueses para a morte em nome dos interesses americanos, ou franceses. A defesa de Portugal compete ao povo português, não a mercenários nem a outros países.

No mesmo número, de Patrícia Akester, especialista em Direito de Autor, publica  «Barómetro Geopolítico: Alta pressão, tempestades à vista, risco de conflito global e um guarda-chuva hegeliano», título arrevesado que não esconde o império da banalidade, do lugar-comum. A citação de Hegel com que nos pipoqueia, aplica-se como uma luva à autora. Nem mereceria comentários, a não ser o carregar na tecla da iminência de uma III Guerra Mundial. Não que ela não seja um perigo real, mas aqui só serve para assustar e encarreirar o rebanho. De resto, como já disse a luminária que está nos Negócios Estrangeiros, "não devemos ter medo dos russos". Repetindo-me outra vez: eu cá dos russos não tenho medo nenhum, tenho é daqueles que alegremente nos andam a empurrar para uma guerra como eles, a começar agora pelo improcriável Macron, que a "Africa Francesa" deitou para o caixote do lixo. (E foi muito bem feito.)

Finalmente, o inevitável Serronha, em «A guerra cognitiva e a guerra das narrativas: a relevância das operações de influência nas guerras», crochetou um texto em que alerta para as enormes capacidades propagandísticas da Rússia e da China, como se não tivéssemos assistido desde a invasão da Ucrânia à maior acção de condicionamento e lavagem cerebral da opinião pública ocidental -- como bem escreveu Miguel Sousa Tavares --, de tal maneira que até finlandeses e suecos se apavoraram com esta quase débil Rússia (em comparação com o poder soviético, em que esses países se mantiveram neutrais, aliás com vantagens para todos), condicionamento que passa pela censura descarada exercida pela UE, que quer proibir o "povo" de ver canais russos por cabo, em inglês, num forte assomo de liberalismo. Serronha propõe ainda mais skills e recursos humanos para a batalha da propaganda (que é real), sob pena de um "desastre estratégico". Desastre estratégico é para onde nos leva as lideranças europeias (que os próprios comentadores prò-Pentágono identificam como fracas), que transformou a UE numa entidade vassala e obediente aos desígnios estratégicos do império americano; desastre estratégico são os governos como o de António Costa e, está visto, o de Montenegro, que nos apequenam, quer na ausência de uma ideia estratégica nacional que não passe por sermos um dos cães dos Estados Unidos, e não uma voz, por acaso secular (estou a repetir-me outra vez), com fortes laços ao Atlântico Sul -- vantagem estratégica que deitamos pela borda fora enquanto nos babamos com a possibilidade do imprestável (exceto na crise da Covid-19) ex-primeiro-ministro possa ser corta-fitas da UE. Os portugueses foram sempre uns basbaques com o "estrangeiro".

Isto tudo num Sábado, que culminou à noite com variedades, animadas por Diana Soller -- não tenho o link --, com disparates vários, um dos quais foi a sua explicação para  a chamada de atenção por parte da Itália para o despropósito e a inconveniência das declarações do improcriável Macron. De acordo com a nossa especialista, elas, as declarações, devem-se a isto: "medo".  São uns valentaços estes comentadores. Mais valera a mui católica Prof.ª Soller, colaboradora do portal dos jesuítas, prestasse atenção e seguisse com cordura as opiniões do maior jesuíta do nosso tempo, que por acaso é o Papa Francisco. Mas nem sempre a Prof.ª Soller se espalha ao comprido. Logo no início da sessão, um patetinha cujo nome não me ocorre arranca com uma das mais asnáticas perguntas que já ouvi sobre esta guerra (ou então já estamos em modo pavloviano), e era ela sobre se a inclusão de Zelensky na lista dos mais procurados pela Rússia não seria um sinal de desespero de Moscovo. Ahahah, caraças... Felizmente para o canal, a senhora respondeu bem.


sexta-feira, janeiro 12, 2024

se alguém é suficientemente crédulo para acreditar que o Putin vai atacar um país da Nato, agora ou nas próximas gerações, quando ele for já um fantasma, que ponha o dedo no ar -- ou António Costa a comendador (ucranianas CCXX)

1. Agora que a Guerra no Médio Oriente parece estar a escalar e quando quase todos pareciam esquecer-se da Ucrânia, fui alertado pelo comentário do major-general Carlos Branco para a facilidade com que alguns interveniente no espaço público falam sobre a possibilidade de uma guerra da Nato contra a Rússia. 

Bem, ela está aí: os ucranianos já foram sacrificados por dirigentes crédulos e/ou comprados pelos Estados Unidos e agora estão na situação maravilhosa que estamos a ver. Como o Putin nunca mais morre ou é apeado (achando certamente essas luminárias que seria substituído por um factótum ao serviço do Pentágono).

2. O que realmente me enoja, e o que sempre me enojou nesta guerra, são os vigaristas e incompetentes do comentariado. A conversa agora é de não deixar a Ucrânia de mãos a abanar, acenando, muito americana e pentagònicamente, com a ameaça de que o Putin não vai ficar por ali. O último que ouvi, em análise de fiel-de-armazém, um certo tenente-general Marco Serronha, a quem dificilmente voltarei a escutar, terminou a intervenção, uma noite destas, dizendo explicitamente que a Rússia não iria parar naquele apetecido território que um belo dia os americanos e vassalos acharam que poderiam controlar.

Consciente ou inconscientemente o que este comentador está a fazer é a juntar-se ao coro dos que preparam as opiniões-públicas europeias para uma espécie de inevitabilidade de uma guerra com a Rússia. Não estou a ver como isso poderá acontecer e gostaria que avançassem com argumentos minimamente sofisticados. Então acham mesmo que a Rússia vai arriscar uma guerra com a nato sem ser atacada por tropas nato? Com armas nato já ela está a sê-lo, diga-se. Mas parece que ainda não chegou, querem mais armas (mais dinheiro para o complexo militar-industrial norte-americano) mais mortos, mais destruição do país, para este lindo resultado com que os ucranianos foram enganados -- como fomos nós todos, povos europeus, pelo patifes sem escrúpulos do costume e pelos idiotas inúteis que os assistem, no governos e nos mérdia.

3. Este agitar de espantalhos que fazem das pessoas estúpidas é velho e até tem funcionado vezes sem conta (o que não sucedeu com o Iraque, recordemos, pois ninguém engoliu as mentirolas da administração americana da época). Já só falta o passo seguinte, uma vez que os ucranianos com aptidão para combater são cada vez menos e já vamos nos velhos e nas crianças: a Europa e os USA porem boots on the ground, em estrangeiro soa melhor -- ou então, como diz o patusco e informado Mendes Dias: pôr a nossa gente a "jorrar sangue" pela "Ucrânia". Aí é que eu gostava de ouvir o saudoso António Costa dizer outra vez que "temos primeiro de derrotar a Rússia" (já nem falo em Marcelo, que Deus tem, e o seu penduricalho da liberdade, imposto às escondidas ao Zelensky)