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quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

quinta-feira, agosto 07, 2025

o que está a acontecer

«Introdução Entre as diversas moléstias significativas da minha velhice, o amor aos livros antigos -- a mais dispendiosa -- leva-me o dinheiro que sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pílulas e tisanas. E, quando penso que me curo com as drogas e me ilustro com arcaísmos, arruíno o estômago, e enferrujo o cérebro numa caturrice académica.»  Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins (1882)

«No corpo mirrado, saliente de ossos, só as pernas avolumavam, ponteadas de buracos negros. Na cabeça calva, faces lívidas, queixo recuado, os olhos guardavam um terror de demência, dilatados de espanto pelo próprio grito que lhe escancarava a boca.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«As alfaces, viçosas e tenrinhas, dariam para alimentar todos os grilos que, nas redondezas, formavam em tardes cálidas e noites consteladas, de Verão, uma orquestra interminável e monossónica.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

sábado, agosto 02, 2025

o que está a acontecer

«Mas o grito ainda ecoava, morria aflito e longo. Sentiu os homens agitarem-se na cela comum do rés-do-chão. Perto, soltou-se uma voz lamentosa e resignada: / -- Cala-te, Doninha! / Em baixo, de pé sobre o parapeito de uma das janelas, um homem completamente nu, mãos escuras enclavinhadas nos varões das grades, voltou a gritar.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Mas a mãe portuguesa é capaz de grandes crueldades protestantes, de um desprendimento que, por ser inesperado e um tanto alheio à sua natureza, é de mais difícil digestão. No entanto, sei-o hoje, a minha mãe sofria com o revés na minha vida e não queria que o excesso de afagos a tornasse cúmplice moral da derrota.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«À volta dele criou-se assim uma espécie de mitologia que julgo digna de crónica, embora queira penitenciar-me de ser eu a escrevê-la, pois a um neto de campino nunca deveria ser permitido o acesso a certos meios de expressão que o progresso, sorrateiramente, enfiou pelas nossas fronteiras. / Acuso-me deste ultrajeAlves Redol, Barranco de Cegos (1961)

terça-feira, julho 29, 2025

o que está a acontecer

«Um grito encheu a cadeia. / Num sobressalto, o rapaz ergueu-se da sonolência em que jazia sobre a tarimba e foi até às grades. Alquebrado de torpor, a princípio nada compreendeu. Viu, confusamente, os canteiros cheios de flores, as árvores e, para lá do jardim, o edifício amarelado dos Paços do Concelho.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Resignou-se. Na altura, acusei-a intimamente por me ter recebido assim. Aproveito esta ocasião para corrigir esse erro. Convencemo-nos de que  as mães católicas sofrem muito quando os filhos varões saem de casa e estão sempre desejosas de um regresso para o qual contribuem com pequenas artimanhas, censuras às noras e outras armas do arsenal da mãe latina.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)

«Ouvi chamarem-lhe santo homem, com unção e humildade; mas ouvi também minha avó, de lágrimas nos olhos e ódio na boca, amaldiçoá-lo por mais de uma vez, como se de um tirano falasse. Dum tirano irremediável que nada, nem ninguém, pudesse apear do mesmo trono onde morava Deus.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)  

sábado, março 23, 2024

caracteres móveis

«Durante um ano, Doninha só deu sinais de vida altas horas da noite, todo nu às grades da cadeia, com aqueles gritos uivados para a vila.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«E por aqui, por ali, ladeando o ilhéu Chão ou a caminho do Porto Santo, pequenas canoas abriam para o céu a sua asa branca.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Fincou a pá num calhote de dividir as águas e ficou-se à espreita, enrolando um cigarro.» Alves Redol, Gaibéus (1939)

sexta-feira, novembro 10, 2023

caracteres móveis

«A mãe, -- sentada ao pé da voltaire do avô, embrulhada no cachiné das noites compridas, com uma irritação a que o seu feitio romântico dava uma poesia desafinada, das pessoas que choram e riem sem ter de quê.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944) / «Da cara magra pendiam-lhe duas bochechinhas disformes, os olhos paravam-se, raiados de sangue.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943) / «Galgou o parapeito para seguir com a vista os vultos da mulher e do amigo, já mirrados pela distância, e que ao longo da estrada macadamizada se afastavam e à medida que se afastavam o deixavam mais só.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

quarta-feira, maio 17, 2023

a mão certeira de Gineto & outros caracteres móveis

«Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados.» Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) - «Via o Doninha, já desempregado, mas ainda com a farda de carteiro, remendada e sebenta, arrastando-se pelas portas das vendas, inútil, com as pernas inchadas de buracos que não saravam.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943) - «A recordação do maricas acordava nela a soberba dos Clarks, aquele sentimento maciço, enjoado e um pouco cínico, que contribuíra para correr  Januário Garcia da casa Clark & Sons e envolvia a família Garcia num desdém mais snob que odiento.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

quarta-feira, janeiro 11, 2023

caracteres móveis

«Decidido, arrepiou caminho, arrastando-se em andar lento e pesado, fazendo ranger as velhas tábuas, corredor em fora.» Ferreira de Castro, A Selva (1930)

«Triste e fraca, parece vergada ao peso de uma culpa ou de um remorso.» Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958)

«Um breve ruflar de saias compridas no silêncio, desliza imperceptivelmente, traz um molho de couves num braçado, tia Luísa.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

segunda-feira, dezembro 20, 2021

caracteres móveis

«Era a hora mais custosa de suportar, hora em que a tristeza do dia agonizante inundava de melancolia a própria alma das coisas em redor, quanto mais a sua alma enfraquecida pela longa reclusão.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938).

«Lá fora fazia uma luz triste, coada através das nuvens pardacentas que alagavam o céu-» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1942)

«Num espelho ao lado, havia uma fotografia obscena de qualquer estrela decaída.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)

quinta-feira, abril 29, 2021

a arte de começar

 «Um grito encheu a cadeia.»

Manuel da Fonseca (1911-1993), Cerromaior (1943)

domingo, novembro 29, 2020

20 romances portugueses do século XX (+6)

Há quem faça renda ou bricolage para se distrair, invente cozinhados ou ande à volta de motores; eu gosto de conviver com os livros que me fizeram feliz ou muito feliz, até.

Andei aqui uns meses às voltas com o Eurico, e foi giro. Apetece-me agora aumentar a empreitada e escolher 20 romances 20 portugueses do século XX e andar aqui às voltas com eles.

Mas como só o XX não me chega, complemento com cinco do XIX e um do XXI -- a deficiência é minha, certamente, mas até agora apenas um me encheu as medidas neste século.

O critério não me dá facilidades: um por cada autor, tendo de deixar de fora vários, e tantos títulos tão bons -- além dos que esperam por uma primeira leitura. Como não me atenho ao romance, passeio-me também por todos os géneros aqui.

A lista:

Século XIX. 1- Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett (1846); 2- A Filha do Arcediago, de Camilo Castelo Branco (1854); 3- A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis (1868); 4- O Primo Basílio, de Eça de Queirós (1878); 5- O Barão de Lavos, de Abel Botelho (1891). 

Século XX. 1- Húmus, de Raul Brandão (1917); 2- A Catedral, de Manuel Ribeiro (1920); 3 Andam Faunos pelos Bosques, de Aquilino Ribeiro (1926);4 4- Emigrantes, de Ferreira de Castro (1928); 5- Jogo da Cabra Cega, de José Régio (1934); 6- Ana Paula, de Joaquim Paço d'Arcos (1938); 7- Cerromaior, de Manuel da Fonseca (1943); 8- Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio (1944); 9- Servidão, de Assis Esperança (1946); 10- A Toca do Lobo, de Tomaz de Figueiredo (1947); 11- Cárcere Invisível, de Francisco Costa (1949); 12- Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira (1953); 13-: A Sibila, de Agustina Bessa Luís (1954); 14: Barranco de Cegos, de Alves Redol (1961); 15- A Torre da Barbela, de Ruben A. (1964);  16- O que Diz Molero, de Dinis Machado (1977); 17- Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1979-póstumo); 18: O Rio Triste, de Fernando Namora (1982); 19- Para Sempre, de Vergílio Ferreira (1983); 20- Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago (1995).

Século XXI. 2013: As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral.




quarta-feira, outubro 21, 2020

"O Cânone" de quem? - do que falta numa lista (4)

(Continuação do comentário à lista de O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen).

Quarenta e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que os três primeiros começam a publicar ainda no século anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda viva e a publicar:Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão (1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952),Aquilino Ribeiro (1885-1963),Fernando Pessoa (1888-1935),Mário de Sá‑Carneiro (1890-1916),Irene Lisboa (1892-1958),José de Almada Negreiros (1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930),José Régio (1901-1969),José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio (1901-1978) Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978),Ruben A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981),Maria Judite de Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa‑Luís (1922-2019),José Saramago (1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015),Ruy Belo (1933-1978),Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969),  Ruy Belo (1933-1978), "As Três Marias": Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que dificilmente podem ser considerados grandes terão o seu lugar no cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), sem grande escândalo, porém: eu sei que daqui a cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá o mesmo, quem saberá dizê-lo?...

Continuando a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a escândalos, num livro que se apresenta como o cânone. A constatação dessa ausência significa que o livro, com título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada, desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o tal que levou o Unamuno nos qualificasse como povo de suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador português do século (está para ele como Herculano para o anterior), portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes. Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes (1928) não tem um só romance menor.  Tomaz de Figueiredo (1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita à maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes de O Leopardo, como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias -- o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista de sangue quente, duma têmpera  de romancista como poucos, de longe um dos grandes do século, como o século fará questão de registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico, no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar, mas creio que será suficiente.

Em conclusão: um título desastroso dum livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o mais importante de um livro, depois de tudo o que está lá dentro. 

O organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador: sustentou«Quem acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?

em tempo: vou passar a limpo e postar o texto completo



quinta-feira, maio 16, 2019

vozes da biblioteca

«Cansado da mesquinhez das terras arrendadas, o pai trabalhava agora na mina de volfrâmio dos ingleses como carpinteiro-escorador.» José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948)

«Lamenta não poder ver a escuridão, porque lhe cobrem a vista novelos de claridade absurdamente negros: novelos ou passadeiras de matéria luminosa que, do que supõe o tecto, descem, pesados, para o que supõe o chão.» João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

«Uma cabeça pequenina, cabelo rapado e com o maxilar inferior tão largo e comprido que parecia impedi-lo de fechar completamente a boca.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

terça-feira, fevereiro 19, 2019

vozes da biblioteca

«A mesma expressão apavorada, mas agora baça e fria, abria-lhe os olhos para o tecto.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Ali estava no que dava uma vida daquelas: Lourenção, o senhor das terras, dos poisios e da gente do Covão, morto a cacete como um cachorro danado!» Carlos de Oliveira, Alcateia (1944)

«Fascinados pela presença do lugre, partir, não interessava de que modo, eis o último recurso a que poderiam deitar mão.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

segunda-feira, dezembro 24, 2018

vozes da biblioteca

«Contra a parede negra da lareira, a meio da frouxa claridade, a curva das costas de Júlia, muito magras, aumenta mais o seu ar de desalento.» Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958)

«Germana, sua prima, era, por seu lado, um tipo fatídico das degenerescências, o artista, o produto mais gratuito da natureza e que se pode definir como uma inutilidade imediata.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954)

«Pele morena, olho aveludado, tipo insinuante de marnoto, camisolita de xadrez azul e preto, calça branca muito justa, , à frente uma grande cesta vestida de oleado, em cujo interior destacavam duma alvura de toalha várias gulodices.» Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

domingo, novembro 11, 2018

vozes da biblioteca

«A hipnose das sociedades ocidentais, rastejando em direcção ao "ter" e ao "produzir", repugna-me, sempre me repugnou, profundamente.» Adalberto Alves, Oriente de Mim (1992)

«D. António Sepúlveda de Vasconcelos e Meneses, senhor do morgadio do Corgo, festejava nesse dia soalheiro de Outubro, em 1807, os vinte anos viçosos da linda Maria do Céu.» Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902)

«Lá dentro, Doninha, todo nu, estava estirado ao comprido, de costas, pernas e braços abertos, sobre o chão imundo.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

segunda-feira, setembro 03, 2018

«Estão ambas junto da lareira apagada, sentadas nos mochos, sumidas nos vestidos pretos.» Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958)

«Lá no fundo, namorando o mistério das águas, uma francesa linda como as coisas mais lindas, aventureira viajada, da qual se fazia conhecer todos os países e todas as raças, o que equivale a dizer que conhecia toda a espécie de homem, tolera, com um sorriso condescendente, o galanteio juliodantesco de uma dúzia de filhos-família brasileiros e argentinos:» Jorge Amado, O País do Carnaval (1931)

«Sou equilibrado, robusto, gosto imensamente de cavalgar, viver a vida em liberdade, e Noémia, ainda como uma rígida moralista, -- jamais deixou de ser o que é: mirrada, abstinente, horrìvelmente feia.» José Marmelo e Silva, Sedução (1937)

quinta-feira, maio 10, 2018

«Na cabeça calva, faces lívidas, queixo recuado, os olhos guardavam um terror de demência, dilatados de espanto pelo próprio grito que lhe escancarava a boca.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

«Nas costas da Cantábria o paquete encontrou tão rijos mares que a sr.ª D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor dos Passos de Alcântara uma coroa de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

«Respirei o ar quente e húmido, cheirando a frutas e a cana-de-açúcar, e pouco a pouco comecei a perceber um outro odor, mais subtil, como o de um corpo em decomposição.» José Eduardo Agualusa, Nação Crioula (1997)

quarta-feira, março 28, 2018

«O sol encontrava-o sempre de pé, e em pé o deixava ao esconder-se.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

«Seca e breve, como uma chicotada, a praga rompe dos lábios azedos da velha:» Manuel da Fonseca, Seara de Vento (1958)

«Não que o meu riso fosse esgar, ou o meu gargalhar inexistente; mas uma certa palidez no semblante geral denunciava (ao que parece) más possibilidades.» Nuno Bragança, A Noite e o Riso (1969)

segunda-feira, março 26, 2018

«Não sei que dolorido impudor, que canalha impulsão, que martirizante impudência me arrasta assim ao registo público do meu aviltamento, à insolente estadeação da própria indignidade.» Abel Botelho, O Livro de Alda (1898)

«Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Num sobressalto, o rapaz ergueu-se da sonolência em que jazia sobre a tarimba e foi até às grades.» Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)