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terça-feira, junho 10, 2025

o que está a acontecer

«Vendo-o assim, "Piloto" hesitou um instante, enquanto agitava mais a cauda e tremuras de alegria lhe percorriam o corpo. Logo se decidiu. E, humilde, foi colocar o focinho sobre a coxa do amo, como era seu costume, quando este o chamava, à hora da comida, nos dias em que os dois andavam pastoreando o gado, lá nos picarotos da serra.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947)

«Quando o chefe voltou, depois do expediente e do sinal de partida, padre Dionísio, que aguardara solitário relanceando morosamente a vista, saiu-lhe ao encontro e inquiriu se não viera ao comboio qualquer pessoa da herdade dos Cardeais-» Manuel Ribeiro, A Planície Heróica (1927)

«Em 1875, nas vésperas de Santo António, uma desilusão de incomparável amargura abalou o meu ser; por esse tempo, minha tia D. Patrocínio das Neves mandou-me do Campo de Santana, onde morávamos, em romagem a Jerusalém: dentro dessas santas muralhas, num dia abrasado do mês de Nizam, sendo PONCIUS PILATUS procurador da Judeia, ELIUS LAMMA legado imperial da Síria e J.-KAIAFA Sumo Pontífice, testemunhei, miraculosamente, escandalosos sucessos: depois voltei -- e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral.» Eça de Queirós, A Relíquia (1887)

terça-feira, junho 03, 2025

o que está a acontecer

«Decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha Vida -- que neste século, tão consumido pelas incertezas da Inteligência e tão angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa o meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte.» Eça de Queirós, A Relíquia (1887)

«Nenhum outro passageiro descera. Dois homens rústicos, tipos de guardadores de gado, de mantas e safões de pele de ovelha, ostentando militarmente cajados altos como armas em descanso, atentaram nele, curiosos, pasmados, mas sem quebrarem suas atitudes rígidas, indiferentes àquele estranho que chegava.» Manuel Ribeiro, A Planície Heróica (1927)

«Horácio estava junto de Idalina, também conhecida de "Piloto"; estavam sentados num dorso de rocha que emergia da terra, ao cabo das decrépitas e negrentas casas do Eiró, no cimo da vila. E tão atarefado parecia Horácio com as palavras que ia dizendo à rapariga, que não deu, sequer, pela chegada do cão.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947)

quinta-feira, maio 29, 2025

o que está a acontecer

«Do alto daquela Torre. outrora de menagem, estendia-se um país inteiro, seiva virgem de uma nação. Toda a  História se abria com a paisagem. Que importava que a  Moutosa ficasse ali, riba acima, a vila de Serzedelo mesmo naquele rincão apetitoso de verdura e, lá em baixo, calão, e adormecido, o Lima.» Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

«I parte - A provação - I. O comboio do sul parou na pequena estação sòzinha, perdida no descampado, entre grandes searas verdes já espigadas. Padre Dionísio, moço e ágil, saltou da 3.ª classe, poisou no chão a leve mala de viagem e olhou em roda, à espera que alguém se lhe dirigisse.» Manuel Ribeiro, A Planície Heróica (1927)

«Forçado a deter-se, ele regava, à esquerda e à direita, rudes pedras, velhos castanheiros, velhos cunhais, mas fazia-o alegremente e com o visível modo de quem leva pressa. Em seguida, voltava a correr no faro do seu dono. Cada vez o sentia mais perto e cada vez era maior o seu alvoroço. Por fim, lobrigou-o.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947) 

segunda-feira, janeiro 20, 2025

o que está a acontecer

I. «A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada do comboio do Porto. / A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mãos metida no bolso dum velho paletot cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu da manhã  chovera; mas a tarde ia caindo clara, e pura; nas alturas laivos rosados estendiam-se como pinceladas de carmim muito diluído em água e, longe, sobre o mar, para além duma linha escura de pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos -- que o rapaz magro, comparava às flechas ricamente dispostas dum troféu luminoso.» Eça de Queirós, A Capital! (1877/1925)

I. «Encontravam-se os três à mesa de jantar e o velho relógio de pêndulo marcava onze horas menos um quarto. Mercedes mostrava-se impaciente. / -- Ramona! -- gritou. -- Então o café? -- E dirigindo-se ao irmão e ao sobrinho: -- Esta mulher está cada vez pior! / Ouviam-se já os passos da criada no corredor e, logo que ela entrou na sala, Mercedes censurou-a: / -- Por mais que eu repita, há-de ser sempre isto! A comida nunca está pronta a horas! Jantamos sempre tarde. » Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

«Ao fundo erguia-se, em decoração latríaca, um altar improvisado com o frontal de magnífica escultura de madeira, e um tríptico por cima, em ar de retábulo. / Próximo da escrivaninha descansava, aberta num atril, a obra de Louis Gonse, L'art gothique, e nos extremos da sala duas estantes de coro, que tinham recebido outrora os antifonários e sentido roçar nas suas fibras o desenrolamento grave do cantochão, acolhiam agora magnificências livrescas, piedosamente resguardadas por litúrgicos panos.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

quarta-feira, janeiro 15, 2025

o que está a acontecer

«Em mísulas e sobre os móveis -- uma credência gótica com baldaquino, um contador do século XVI, alguns tamboretes estofados, cadeiras de coiro lavrado e a escrivaninha de pau-santo -- pousavam gessos clássicos, marfins velhos, objectos de culto, cálices, cibórios, sanefas, paramentos, pequenos modelos de relicários e domos, de púlpitos e sarcófagos e, aos montes, desbordando dos móveis e arrastando-se nos tapetes, dispersos por toda a parte, em álbuns, cartões, portafólios, uma aluvião de cópias e reproduções, em todos os processos e formatos, dos quadros célebres dos museus, das obras-primas da arte de todos os tempos.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

«Também ali perto, por uma tarde fosca de Outubro, chegou um gaio voejando, de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado como é próprio da raça. No saiote desbotado, as duas pinceladas de azul, azul retinto, fulguravam para que se soubesse que um gaio também é gente dos ares.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

«Não alastro as páginas com dedicatórias: a meu pai, à minha mãe, aos meus parentes e amigos, vivos e finados, para que se não diga de mim o que por aqui se propalou a respeito do Brites, que encheu quatorze folhas da sua tese sobre "cryptococus xantogenico", com oferecimentos, envois e uma reclame a uma certa modista da rua d'Ajuda. / Outros livros virão, meu tio amado. // Afectuoso // Anselmo». Coelho Neto, A Capital Federal (1893)

sexta-feira, janeiro 10, 2025

o que está a acontecer

«Pesadas tapeçarias mascaravam vãos de portas e janelas e das paredes pendiam, entre reproduções de baixos-relevos, de vias sacras, de crucifixos e painéis de azulejos, encarquilhadas telas de fundos negros, onde se salientavam, em luz de catacumba, macerações lívidas de ascetas ou vinolências cruas de mitrados.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

«Ofereço, porém, as minhas primeiras letras ao padre Coriolano, porque, sem ele, meu tio amado, eu seria ainda hoje tão bronco como o Venâncio Dias, do rancho de Santa Engrácia, ou como o José Taborda, da cordoaria. / Outros livros virão, nítidos e pensados; e, dentre eles, escolherei o mais digno dos vossos merecimentos.» Coelho Neto, A Capital Federal (1893)

«Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo não o avistasse e engolisse.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

segunda-feira, janeiro 06, 2025

o que está a acontecer

«Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista! // Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balançou-se num instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral.» Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães (1957)

«Entretanto, Luciano, arrancando-se à enlevada adoração, despegou-se da janela e foi sentar-se a uma antiga escrivaninha, remexendo febrilmente pastas repletas de papéis. / O recinto revelava, na verdade, extravagante interior de artista.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

«Meu tio, // Há neste livro páginas que vos pertencem, porque eu nunca as teria escrito se a minha Boa Sorte me não tivesse guiado para o retiro de ascetismo voluptuoso onde viveis, em beato sossego, praticando a moral divina de Epicuro e cuidando flores; outras há, e profusas, derivadas da sabedoria fecunda do dr. Gomes, de quem guardo saudades e conceitos; outras, finalmente, que seriam dedicadas à Jesuína se o escrúpulo não existisse na moral privada.» Coelho Neto, A Capital Federal (1893)

segunda-feira, dezembro 16, 2024

o que está a acontecer

«O murmúrio alteou-se, alastrou no silêncio, depois ficou suspenso no mesmo tom percuciente de lamentação e de queixume. Eram muitas vozes em fio que uma espécie de capilaridade transformava em veia líquida de vozes, uma única voz laminada, em jacto monotonia fluente que a dicção verbal cortava em claros-escuros sónicos, de rolamentos surdos de onda. Começara no coro o ofício divino.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

«A VILA -- 13 de Novembro. / Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste... / Uma vila encardida -- ruas desertas -- pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva -- o castelo -- restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures.» Raul Brandão, Húmus (1917).

«Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios.» Fernando PessoaLivro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

terça-feira, outubro 22, 2024

tempo de romance

«Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento. / A história que o homem contava nada tinha de comum com a verdade. Era pura invenção de traz-no-bolso, lérias de almanaque recreativo para uso nos comboios do Minho.» Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

«Então, ele colocou a perna esquerda sobre a direita, e pôs-se a examinar a planta do pé -- os olhos atentos e o indicador tacteando. Era ali... / Do bolso do colete sacou o canivete, abriu-o e começou a tirar fatias de pele dura e gretada. Lá estava o maldito.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Súbito, uma revoada de vozes escapou-se em surdina do âmago da igreja e derramou pelo claustros o clamor inquietante duma dolência arrastada. O murmúrio alteou-se, alastrou no silêncio, depois ficou suspenso no mesmo tom percuciente de lamentação e de queixume.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

quinta-feira, outubro 17, 2024

tempo de romance

«Dias depois do enterro, apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o "Joli". A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um gozo pequeno, extremamente gordo, que tinha vagas semelhanças com o pároco. Com o hábito das batinas, ávido de um dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80)

«Luciano tinha-se deixado ficar à janela e contemplava, com alvoroço e flama estranha no olhar, a basílica que se erguia já doirada nos cumes pelo sol matutino. Vista do ramo transversal do claustro e no prolongamento do eixo da igreja, a ábside desenrolava em frente do espectador a sua elegante redondeza, e o frémito alado dos arcobotantes, com a ossatura frágil em pleno equilíbrio aéreo, dava-lhe tal ar de vida palpitante, que era de recear que a uma carícia mais quente do sol filtrando-se nos poros da pedra, a catedral abrisse as asas e erguesse o largo voo nessa lúcida manhã de tempo claro.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

«"Aqui se erguerá uma casa para pobres da vida pobre, quando Deus for servido!" -- dissera ele. E daí o ficar a água da nascente de muita virtude nas moléstias da tripa, e o lauto senhor Pero Gil, pelo ano de 1443, com autoridade da Sé Apostólica, lançar os fundamentos daquela casa, que tanto edificou a santa Ordem da Penitência em varões pios e de saber.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918)

quinta-feira, setembro 26, 2024

tempo de romance

«Esta conversão dos vencedores à crença dos subjugados foi o complemento da fusão social dos dois povos. A civilização, porém, que suavizou a rudeza dos Bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhe o pior dos males, a perversão moral.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

«Outrora não teria hesitado e, zape-zape, pinheiro arriba, iria ver em que estado se encontrava o novo berço e voltaria, depois, pelos ovos ou pelas avezitas ainda implumes, as pálpebras cerradas e o biquito glutão semiaberto ante qualquer ruído. Mas, hoje, só se fosse em pinheiro baixo e de gaio ou de rola, que eram bons com arroz.» Ferreira de Castro Emigrantes (1928) 

«Eram dois estes filhos -- Pedro e Daniel. -- Pedro, que era o mais velho, não podia negar a paternidade. Ver o pai era vê-lo a ele; -- a mesma expressão de franqueza no rosto, a mesma robustez de compleição, a mesma excelência de musculatura, o mesmo tipo, apenas um pouco mais elegante, porque a idade não viera ainda exagerar a curvatura de certos contornos a ampliar-lhes as dimensões transversais, como já no pai acontecia.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

«De bordo, em curvas alternando com segmentos de rectas, o tanque era, de em par com o lineamento da escaleira que poucos passos dali conduzia à capela, duma ordenança mais harmoniosa que as rendas por minha mãe tecidas. Sobre ele erguia-se a figueira de muitos anos, sombreando o lugar a que a presença de S. Francisco dera um perfume místico de lenda.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918)

«Neste jardim, que só os cónegos velhos frequentavam em manhãs de bom sol morno no intervalo do serviço religioso, não passeava a esta hora ninguém; e dos claustros, igualmente desertos, subia o silêncio de ruínas mortas, entrecortado pelo murmúrio argentino dum turíbulo que oscilava, com isócrona cadência, por detrás da capela-mor, nas mãos diáfanas duma criança grave.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

sexta-feira, setembro 20, 2024

tempo de romance - Manuel Ribeiro

«No espaço quadrangular, entre o claustro e a abside, tinham talhado, num período recente de desobstruções, um adorável jardim com os clássicos arruamentos de buxo enquadrando modestos canteiros de rosas e gerânios. Alguns pés de glicínias trepavam resolutamente, enroscando-se nos botaréus e nos muros rugosos ou seguindo a linha sinuosa das arcadas.»  Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

quarta-feira, setembro 11, 2024

tempo de romance

«Primeiro, de bandeirolas a tirar miras para o erguer das travessas e a mandar homens na rebaixa, até os tabuleiros poderem receber uma lâmina de água para a sementeira; depois, a dirigir aquele caudal que todos os dias entrava Lezíria dentro, pela regadeira mestra, não fossem afogar-se os pés de arroz ou morrer alguns por míngua.» Alves Redol, Gaibéus (1939) § «Depois de ter corrido a cidade, recomeçava: Preferia os becos, as sombras, os cantos e as escadinhas escusas. E envolvia no mesmo ódio furibundo as luzes dos cafés e os raros transeuntes normais que recolhiam. Era pela antemanhã que o meu delírio atingia o auge.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) § «-- Lá está! -- grita uma voz, louca de alegria. Era certo. Pela proa, um pouco aberto por bombordo, despontava de facto no horizonte um pequeno recorte de costa, ilhota perdida ou cimo de monte, cume de serra afinal.» Joaquim Paço d'Arcos, Herói Derradeiro (1933) § «À esquerda, para lá ainda da falda do outeiro, esbranquiçava, por entre a ramagem estática, o casario da aldeia. Desse lado, certamente de debicar os brincos vermelhos das cerejas, um gaio vinha, de quando em quando, esconder no pinhal o cromatismo da sua plumagem. "Chuá! Chuá!" E era o único grito que quebrava o silêncio, também volátil, das velhas árvores em êxtase.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) § «O destoante casario campeava, porém, já fora da catedral e formava, com o seu largo abraço saindo-lhe discretamente dos flancos, uma como que cintura defensiva lançada à roda da venerável cabeceira do templo, onde resplendia ainda o diadema estilhaçado das capelas góticas.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

sábado, agosto 31, 2024

tempo de romance

«O piedoso intuito não desculpava, porém, a teratologia arquitectónica daquela fachada de prédio burguês, hediondo alinhamento de caixilhos envidraçados, irreverentemente sobrepostos às admiráveis arcaturas inferiores com ogivas que brotavam de esbeltos colunelos geminados.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) § «E sem dúvida falou e abendiçoou aos verdilhões, arquitetravós desses que aí andam na figueira a debicar os figos lampos. Quando para aqui vieres, que a tua mente esteja pura, Libório; este retiro -- sabes? S. Francisco de Assis foi Jesus que voltou ao mundo de pobrezinho -- é tão inspirado como o Horto das Oliveiras.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918) § «Porém essas noites não eram minhas. Estas começavam sempre mais tarde, exigiam-se só, e requeriam disposições extraordinárias. Eu andava então horas e horas entregue a uma espécie de devassidão -- não acho outra palavra -- durante a qual vivia, por assim dizer, todo o meu passado e todo o meu futuro.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) § «-- S'o patrão não andasse de fogo no rabo por mor do rancho, seis dias de molho dava-lhe uns saquitos bem bons. Assim... ainda adrega uma seara como por aqui não há outra. / Andava por oito meses que corria aqueles combros de alto a baixo.» Alves Redol, Gaibéus (1939)

sábado, agosto 17, 2024

tempo de romance

«Os caules nus, quase negros, assimétricos, eram colunas dum templo bárbaro, em cuja cúpula transparente o sol ia tecendo prateada e fantasiosa malha. Por vezes, o tecido incorpóreo esfarrapava-se e descia em fluidos caprichosos, até os galhos, formando pulseiras, ou até o chão, onde coagulava em jóias bizarras.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) § «O sol encontrava-o sempre de pé, e em pé o deixava ao esconder-se. / Estas qualidades, juntas a uma longa experiência adquirida à custa de muito sol e muita chuva em campo descoberto, faziam dele um lavrador consumado, o que, diga-se a verdade, era confessado por todos, sem estorvo de malquerenças e murmurações.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867) § «Reza a história que o servo de Deus vinha trilhado do caminho e tinha sede; aqui lhe foi dado matá-la numa fontainha, que não era este chafariz formoso, talhado, mais parece, para os jardins do papa que para cerca de monges. Por certo que o suor lhe caía do rosto e o bebeu a terra onde pisamos.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918) § «A quadra, bastante vasta, pertencia a um segundo pavimento do claustro e suas capelas, que fora paço episcopal em épocas remotas da Igreja e depois albergaria de clérigos e fabriqueiros. Um dos últimos cabidos reedificara-o à moderna, para moradia do prior, do chantre, do mestre de capela e serventuários que à sombra da basílica ficavam tendo acolhimento e guarida certa.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) 

terça-feira, agosto 13, 2024

tempo de romance

«Em seguida, acercando-se duma janela cujas portadas tinham ficado despreocupadamente abertas, descerrou, num gesto largo, as vidraças de par em par, e aspirou com delícia a onda do ar fresco, que inundou a casa, impregnado dos perfumes que do jardim, em baixo, se evolavam.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) § «Em negócios de lavoura dava, como se costuma dizer, sota e ás ao mais pintado. Até o sr. Morais Soares teria que aprender com ele. Apesar dos seus sessenta anos, desafiava em robustez e actividade qualquer rapaz de vinte. Era-lhe familiar o canto matinal do galo, e o amanhecer já não tinha para ele segredos não revelados.» Júlio DinisAs Pupilas do Senhor Reitor (1867) § «De facto, o prazer de errar pela noite é comum a várias criaturas. Sempre desconfiei de misteriosas afinidades entre todas, por mais que as separem os gostos, os vícios, as aparências, a idade, a condição social. Não obstante tal desconfiança, que não posso bem corroborar com exemplos, eu julgava-me então único.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) § «Extinguiam-se também à vante e à ré do barco, na ponte e na mastreação, os faróis que toda a noite haviam assinalado com a sua luz a marcha do gigante na escuridão do mar. / No tombadilho, ainda encharcado da baldeação, começavam surgindo os passageiros mais madrugadores, friorentos uns, ainda ensonados outros, todos na ânsia de primeiro descobrirem a terra pátria.» Joaquim Paço d'Arcos, Herói Derradeiro (1933)

sexta-feira, agosto 09, 2024

tempo de romance

I. «O gosto de vaguear de noite...» «O gosto de vaguear de noite, a horas, mortas, era agora o mais querido dos meus prazeres melancólicos. Desde muito novo desenvolvo reais qualidades inventivas em tal género de prazeres: Mas qualidades que sobretudo se revelam no pormenor ou na maneira.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934) § »Rancho». «Ia já para três dias  que o tractor parara e a regadeira não via pinga de água trasfegada do Tejo. / O arrozeiro, apertado pelo patrão, andava numa dobadoura, por marachas e linhas, a deitar olho aos canteiros de espiga mais loira, fazendo piques, agora aqui, agora ali, para que as águas fossem caminhando para a vala de esgoto e os ranchos pudessem meter foices no arrozal.» Alves Redol, Gaibéus (1939) § I.I.«No mar sereno, chão, quase estanhado, de rara mansidão em tais paragens, avançava o Angola, rumo ao Tejo. Mal se espalhavam ainda por sobre a imensa planície líquida as primeiras claridades da manhã. Apagavam-se no céu a esvair-se em rosa e azul estrelas retardatárias no fugir.» Joaquim Paço d'Arcos, Herói Derradeiro (1933) § I.I.«Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde ali, surge aqui, e por fim erguia voo até à copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) § «Sentado na borda do tanque, que uma figueira toldava de deleitável sombra, instruía-me o senhor padre Ambrósio da latinidade.» Aquilino Ribeiro, A Via Sinuosa (1918) § I. «Era a hora de Matinas. A sineta do claustro tangia, a convocar os capitulares para o coro, quando Luciano passou da sua alcova à biblioteca, entreabrindo uma pequena porta e afastando uma massa rígida dum brocado que descia do lambrequim em pregas hirtas, adornado de eucarísticos lavores de seda e oiro.»  Manuel RibeiroA Catedral (1920) § I. «Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo "comilão dos comilões".» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875/80)  § I. «José das Dornas era um lavrador abastado, sadio e de uma feliz disposição de génio, que tudo levava a rir, mas desse rir natural, sincero e despreocupado, que lhe fazia bem, e não rir dos Demócritos, de todos os tempos -- rir céptico, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

quarta-feira, maio 08, 2024

caracteres móveis

«Como o carreiro avançasse, agora, por trecho plano, de urgueira, tojo e carqueja, esporeou a besta e pô-la a trotar.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)

«Mal se achou fora, entre os trigos altos e pujantes, túmidos de seiva, feriu-o logo uma impressão profunda de grandeza.» Manuel Ribeiro, A Planície Heróica (1927)

«Podia tornar a casar-se, que a cobiçavam muitos por mulher limpa de costumes e provada no governo da casa, e retraiu-se.» Aquilino Ribeiro, Volfrâmio (1944)

quinta-feira, maio 02, 2024

caracteres móveis

«A Noroeste, o recorte esguio e cinzento de Sintra servia de pano de fundo à extensa planície que até lá se espraiava em mancha ora verde das relvas, ora amarelecida dos pastos no Outono, ora branca das povoações caiadas que a salpicavam e nas quais, aqui e ali, começavam a tremeluzir, ainda medrosas, as primeiras luzes.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«E em arroubos de apaixonado, envolveu-a na carícia dum tal olhar que a mole inerte pareceu vibrar, estremecer em frémitos de amor, transfigurada e viva na luz doirada que a beijava.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

«Vinha certeiro no silêncio e experimentava fortemente as árvores, que durante um segundo descreviam um círculo cheio, como piões no torpor.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

domingo, abril 28, 2024

caracteres móveis

«A sua voz era baça e trémula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar.» Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego - por Bernardo Soares (póst., 1982) / «E tinham-lha dado sem reserva, confundidos com aquele amor, assombrados por tal fé, convictos, finalmente, de que só ele podia salvá-la, que se ele a não amparasse, a catedral se desagregava em pó, na derrocada irremediável que a deixaria rasa ao solo.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) / «Todas as palavras que se empregam têm, além da significação banal, uma significação que cada um pesa e calcula -- e outra significação superior.» Raul Brandão, Húmus (1917)