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sábado, agosto 09, 2025

3 versos de Manuel Laranjeira

«A tarde lenta cai. E cai também  / Uma melancolia venenosa, / Meu Deus! que se não sabe de onde vem...»

«À tarde», Comigo (1912)

domingo, outubro 25, 2020

"O Cânone" de quem? -- do que falta numa lista, passado a limpo

1.

Acabo de ver a lista de cinquenta nomes assinalados como o cânone literário português, na opinião de três académicos: António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen. Lista bastante defendida no anúncio da editora como nas declarações ao Observador. Antecipando-se à discussão que aí virá, espera-se.

As escolhas são sempre louváveis, desde que honestas e justificadas, porque representam (ou podem representar…) a coragem de escolher como a de excluir. O título, porém, é de menos, pois mesmo sem me pronunciar sobre o que ainda não li, já o posso fazer sobre as ausências. E há ausências de peso, que absolutamente não poderiam verificar-se numa obra que se arroga a pretensão de estabelecer o dito cânone, se o título é para levar a sério. Aliás, o mesmo Observador, com  desenvoltura jornalística, anunciara que o cânone viria aí, perguntando(-se): "Quem são os grandes escritores que formam o cânone da literatura portuguesa?"

Ora, enquanto leitor não totalmente destituído ou desinformado, considero que é um jogo de apostas avançar com nomes que tenham publicado há menos de cinquenta anos; mas o que me parece temerário é trazer para o cânone autores que tenham entrado por este século adentro. Diria até que todos quantos iniciaram a publicação da totalidade ou da parte mais importante das respectivas obras depois do 25 de Abril de 1974 deveriam estar ausentes dum livro que se arroga a pretensão com que se intitula.

Claro que podemos sempre arriscar nomes, percepções (eu tenho algumas, que apenas têm o valor dessa intuição, mais ou menos alicerçada nas minhas próprias qualidades de leitor, satisfatórias ou medíocres, para o caso é irrelevante). E, no fundo, é mesmo disso que se trata, com excepção para o século XIX, o único período que me parece (quase) incontroverso. Talvez, por isso, mais apropriado -- embora menos comercial e cintilante -- fora reconhecer isso mesmo com um título mais singelo, umas Propostas para a Fixação de um Cânone [Literário Português], ou coisa que o valha. Tenho pena, porque demasiada presunção ou falta de humildade envenenam-me a leitura; e tanto faz que venham agora dizer que se trata de uma mera lista como outras possíveis, o que se vê à vista desarmada. 

Começo por subscrever no texto da página da editora, certamente da autoria de um dos coordenadores: «Os grandes escritores não são escolhidos por consenso ou por votação popular, mas por terem sempre leitores, mesmo que poucos, ao longo do tempo.» Certamente que o livro desenvolverá o conceito. Eu acrescentaria  que Os grandes escritores de uma língua e de uma comunidade são aqueles que inauguram um modo de expressão cuja voz continua a fazer-se ouvir nas vozes de outros que lhe sucederam, tendo inscritos um conjunto de tópicos reveladores da pertença a uma nação e/ou a um território.

O mesmo texto informa que não se trata de “um guia neutro para a literatura portuguesa”. Se a neutralidade absoluta é impossível, não deve deixar de ser perseguida num trabalho desta natureza, sob pena de irremediavelmente o comprometer não digo na sua credibilidade, mas na utilidade que pode ter para quem não esteja muito interessado nas opiniões dos editores e respectivos colaboradores. 

Parece que o livro tem artigos sobre movimentos e revistas literárias (cuja dimensão desconheço), o que, à partida, tornará híbrida a natureza da obra, oscilando entre o ensaísmo e a historiografia cultural. [ver 5., adenda] Quanto a isso, talvez ainda não se fizesse melhor do que a História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, pese embora as suas (poucas) omissões quanto a escritores relevantes: se a memória não me atraiçoa, lembro-me dos nomes do romancista, ensaísta e poeta Francisco Costa (1900-1988) e do poeta presencista Fausto José (1903-1975), mas haverá outros.

Uma nota marginal, incrédula e possivelmente preconceituosa sobre a inclusão numa obra deste teor de artigos sobre literatura feita por mulheres e por homossexuais: não são temas de somenos, mas não vejo grande utilidade numa obra que pretende definir o cânone. É o espírito do tempo que levará, em obras futuras, a escrever-se sobre escritores vegetarianos, por exemplo. Que interesse tem isso para o Cânone, a não ser marginalmente? Não vejo.


2.

São-nos servidos cinquenta autores, por ordem alfabética. Mais uma vez, o título peca por abusivo, para ser suave. Se a intenção fosse a de estabelecer o cânone só por coincidência chegaríamos a um nome redondo, cinquenta. O cânone será o que será, 47 ou 114. No entanto,  cinquenta nomes para novecentos anos de país parece-me modesto, por muito restritivo que se seja.

O cânone, cronologicamente, começa com Fernão Lopes e termina com uma única autora viva -- escritora extraordinária, aliás, Maria Teresa Horta (1937), arrolada nas "Três Marias". Vou seccionar os cinquenta nomes em três grupos: até ao século XVIII, séculos XIX e XX.

Escritores nascidos até ao século XVIII, são onze, ou seja, 22% do total: Fernão Lopes (c.1380-c.1460), D. Duarte (1391-1438), Gil Vicente (c.1465-c.1536), Sá de Miranda (c.1481-1558), Bernardim Ribeiro (c.1482-c.1552), Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583), Luís de Camões (c.1524- c.1580), Frei Luís de Sousa (1555-1632), o Pe. António Vieira (1608-1697), António José da Silva (dito O Judeu, 1705-1739) e Bocage (1765-1805). 

Comecemos por notar a estranha ausência da poesia trovadoresca, o que sem dúvida estará justificado [ver 5.]. O problema, mais uma vez: uma obra que se define como O Cânone não poderia deixá-la de fora, porque mais canónico que o trovadorismo não há. Fica a curiosidade pela justificação. Quanto ao resto, nada a dizer quanto às presenças, a não ser registar a boa surpresa de ver o rei eloquente, D. Duarte, que talvez não estivesse mal acompanhado do seu irmão, o infante D. Pedro (1392-1449),  príncipe das sete partidas, aliás um dos grandes portugueses destes quase 900 anos.

Sendo também restritivo, e sem querer alardear erudição que me fique curta nas mangas, a grande perplexidade é a ausência do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), prosador onde bebem Camilo e Aquilino. Não pertence ao cânone o Bernardes? Outra perplexidade, Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622), não apenas o poeta, mas também o prosador de A Corte na Aldeia (1619); também não?... 

Fico-me por estes dois, mas poderia lançar o António Ferreira (1528-1569) de A Castro (póstumo, 1587), o ascetismo bucólico do Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), os sermões do Frei António das Chagas (1621-1692).

Também a literatura dos Descobrimentos e da Expansão me parece subrepresentada, a não ser indirectamente, dos cronistas aos autores de relatos, o Gomes Eanes de Zurara (1410-1474) ou o Pero Vaz de Caminha (1450-1500). O meu conhecimento dos autores deste período é superficial, mas não me parece que o cânone literário português os possa deixar de fora.


3.

O século XIX é facílimo. Eles aí estão todos bem à mostra, à espera de quem os pique, excepto um, que ficou para trás, e não devia. Não há grandes dúvidas sobre os autores que integram o cânone oitocentista, onze também aqui, como o correspondente a toda a literatura escrita até ao século XVIII: Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1870), Camilo Castelo Branco (1825-1890), João de Deus (1830-1896), Júlio Dinis (1839-1871), Eça de Queirós (1845-1900), Oliveira Martins (1845-1894), Antero de Quental (1848-1891),Gomes Leal (1848-1921), Cesário Verde (1855-1886), António Nobre (1867-1900).

Apraz-me ver João de Deus e Júlio Dinis neste rol. Há trinta anos teriam sido varridos, certamente ainda se faria sentir sobre ambos o labéu da "ingenuidade", quando não, no caso do romancista d'A Morgadinha dos Canaviais, o de escritor cor-de-rosa. Há porém uma ausência que não compreendo, e ela é a de Fialho de Almeida (1857-1911). Nunca ninguém escrevera como ele e eventuais epígonos não atingem o seu nível, nem por vezes no mal-estar que provoca. Trata-se de uma falta significativa. Há um nome cuja não inclusão me levanta as maiores dúvidas, o de Ramalho Ortigão (1836-1915). Então e As Farpas?, deitam-se fora? Imitando a parcimónia: tenho também dúvidas de que o Guerra Junqueiro (1850-1923) seja arredado de ânimo leve, mas, dos três, é aquele cuja ausência menos me choca. E, já agora, lanço um nome para ponderação, o do exímio contista que foi o Conde de Ficalho (1837-1903). Não me parece que lá ficasse mal, mas precisaria de relê-lo para ter uma ideia mais segura.


4.

Quarenta e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que os três primeiros começam a publicar ainda no século anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda viva e a publicar: Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão (1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de SáCarneiro (1890-1916), Irene Lisboa (1892-1958), José de Almada Negreiros (1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930), José Régio (1901-1969), José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio (1901-1978), Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978), Ruben A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981), Maria Judite de Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa Luís (1922-2019), José Saramago (1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015), Ruy Belo (1933-1978), Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969), As Três Marias: Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016). e Luiza Neto Jorge (1939-1989). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que dificilmente podem ser considerados grandes têm o seu lugar no cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996): porém, eu sei que daqui a cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá, quem saberá dizê-lo?...

Continuando a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a escândalos, num livro que se apresenta como o cânone. A constatação dessa ausência significa que o livro, com título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada, desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o tal que levou o Unamuno a qualificar-nos como povo de suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador português do século (está para ele como Herculano para o anterior, portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes. Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes (1928) não tem um só romance menor.  Tomaz de Figueiredo (1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita, à maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes de O Leopardo, como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias (1902-1983) -- o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista de sangue quente, duma têmpera  de romancista como poucos, de longe um dos grandes do século, como o século fará questão de registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico, no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar, mas creio que será suficie.

Em conclusão: um título desastroso dum livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o mais importante depois de tudo o que está lá dentro.  O organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador: sustentou«Quem acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?


5. Adenda. Folheado anteontem, verifiquei tratar-se de artigos breves. Há um dedicado à poesia trovadoresca e outro ao renascimento, bem como à crítica literária, prémios literários, memorialística, entre outros que não retive. Não vi na consagrado às narrativas de viagens, outra falha importante.

quarta-feira, outubro 21, 2020

"O Cânone" de quem? - do que falta numa lista (4)

(Continuação do comentário à lista de O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen).

Quarenta e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que os três primeiros começam a publicar ainda no século anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda viva e a publicar:Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão (1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952),Aquilino Ribeiro (1885-1963),Fernando Pessoa (1888-1935),Mário de Sá‑Carneiro (1890-1916),Irene Lisboa (1892-1958),José de Almada Negreiros (1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930),José Régio (1901-1969),José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio (1901-1978) Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978),Ruben A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981),Maria Judite de Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa‑Luís (1922-2019),José Saramago (1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015),Ruy Belo (1933-1978),Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969),  Ruy Belo (1933-1978), "As Três Marias": Maria Teresa Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno (1939-2016). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que dificilmente podem ser considerados grandes terão o seu lugar no cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), sem grande escândalo, porém: eu sei que daqui a cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá o mesmo, quem saberá dizê-lo?...

Continuando a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a escândalos, num livro que se apresenta como o cânone. A constatação dessa ausência significa que o livro, com título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada, desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o tal que levou o Unamuno nos qualificasse como povo de suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador português do século (está para ele como Herculano para o anterior), portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes. Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes (1928) não tem um só romance menor.  Tomaz de Figueiredo (1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita à maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes de O Leopardo, como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias -- o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista de sangue quente, duma têmpera  de romancista como poucos, de longe um dos grandes do século, como o século fará questão de registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico, no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar, mas creio que será suficiente.

Em conclusão: um título desastroso dum livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o mais importante de um livro, depois de tudo o que está lá dentro. 

O organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador: sustentou«Quem acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?

em tempo: vou passar a limpo e postar o texto completo



terça-feira, novembro 07, 2017

uma carta de Manuel Laranjeira

...ou da franqueza e da lealdade nas relações e na escrita.

quinta-feira, junho 30, 2016

uma carta de Manuel Laranjeira

Laranjeira por Amadeu de Sousa Cardoso
Carta extraordinária de um espírito brilhante e torturado. Por um lado, pela forma como se expõe a João de Barros na sua assustadora (sabêmo-lo suicida) vulnerabilidade; por outro, no seu agudíssimo conceito sobre a recepção literária e as suas óbvias fragilidades.

(ler)

terça-feira, março 19, 2013

Manuel Laranjeira: "só as nulidades morais se não estimam"


[Ex.mº Sr. ...]

É que nós vamos atravessando tempos difíceis, em que cada um que preze a sua honestidade sente precisão de definir a sua atitude, para não ser confundido com as biltres trivialidades que para aí fervilham. Só as nulidades morais se não estimam -- ...ou estimam-se no seu valor real, que é nenhum.

[a João de Barros,  Espinho, 3 de Maio de 1903]

cartas de Manuel Laranjeira, Lisboa, Relógio d'Água, s.d.
editor: ?

sexta-feira, março 10, 2006

Antologia Improvável #110 - Manuel Laranjeira

VENDO A MORTE

Em tudo vejo a morte! E, assim, ao ver
Que a vida já vem morta cruelmente
Logo ao surgir, começo a compreender
Como a vida se vive inutilmente...


Debalde (como um náufrago que sente,
Vendo a morte, mais fúria de viver)
Estendo os olhos mais avidamente
E as mãos p'ra a vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo,
Tudo ma lembra! E invade-me o desejo
De viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
Ter tido tanta fé na vida injusta
...E não saber sequer p'ra que a vivi!

Comigo / Líricas Portuguesas 2ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

Laranjeira



















Desenho de Nuno
(E. S. Manuel Laranjeira,
Espinho)

sábado, janeiro 07, 2006

Manuel Laranjeira

Correspondências #28 - Manuel Laranjeira a João de Barros

Ex.mo Sr. João de Barros:
Um número da sua revista, que me chega agora à mão, veio bruscamente lembrar-me que lhe sou devedor de tanta coisa prometida! e devedor que se está comportando dum modo bem singular.
Peço-lhe que me creia: eu não tive o mais leve intuito em desconsiderá-lo com o meu silêncio e nem sequer tive o intuito a furtar-me a pagar-lhe o que lhe prometi e devo. Isto em mim agora não é alijar uma responsabilidade de mau pagador: é a verdade. Se me conhecesse intimamente estou certo que V. Exª. não só explicaria e perdoaria o meu silêncio amigo (numa significação bem diferente duma cursilería que para aí se chama amizade). Todos nós temos, dormitando no fundo do nosso ser, o nosso demónio (até Antero e Sócrates, que foram integrais como deuses, tinham cada um o seu) a que a psiquiatria de agora chama insultuosamente neurastenia, nevrose, psicastenia... -- e que sei eu? Quando um demónio desperta e reivindica os seus direitos ferocíssimos (ferocíssimos para o nosso pobre ser que tem de sofrê-los) nós esquecemo-nos de tudo -- até de pagar o que devemos. Exponho-lhe estas coisas íntimas e lastimosas, porque estou certo de que me dirijo a um espírito capaz de as compreeender. Doutro modo, se, em vez de tratar de si, se tratasse duma criatura vulgar como a abjecção da vida, creia: eu prolongaria indefinidamente o meu silêncio... -- et je m'en foutrais.
Eu desejava dizer-lhe muitas coisas sobre a sua magnífica plaquette dramática (dramática, não; lírica, bela e intensamente lírica); mas teria de ser longo e maçador. Sendo-lhe a si (devendo ser-lhe!) demais a mais indiferente a minha opinião sobre o valor artístico dela. De resto, uma opinião, boa ou má, seja de quem for, sobre uma obra de arte, não a desnivelará uma linha sequer do lugar justo que o seu valor real lhe marcou. Ninguém, nem Deus (refiro-me a Deus num sentido metafórico!), seria capaz de anular um átomo ao valor da obra shakespeariana, ou de pôr um átomo de génio nos medíocres furtos do Sr. J. D. Uma obra é o que é -- diga-se dela o que se disser. A crítica é apenas um comentário que traduz uma impressão ou uma análise: pode explicar a obra de arte, mas nunca validá-la ou invalidá-la. Nestes termos, a crítica, para o autor da obra de arte, não é lisonjeira, nem agressiva: é indiferente (deve sê-lo!). Por isso não estou a massacrá-lo com a minha admiração.
E quando solverei eu a grande dívida de enviar-lhe o artigo prometido?
Quando o meu demónio deixar.
Espinho, 12 de Março de 1905.
Criado sem préstimo
M.to Ob.do e Admirador
Manuel Laranjeira
Cartas
(edição de Ramiro Mourão)