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sábado, janeiro 24, 2026

o que está a acontecer

«Moram as Teles, e as Teles odeiam as Sousas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortesias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só têm um fim na existência: estrear todos os semestres um vestido no jardim.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Eu vou à frente, que esse aí está às escuras, tem as janelas de dentro trancadas. Dá como este para o caminho. A cama é alta. É um leito. Antiga, sim. A senhora conhece que é de cana! Pois será, será. Deitaram-lhe esse verniz, também mo disseram.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«E a história. E história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia: essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da mulher  que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

domingo, janeiro 18, 2026

o que está a acontecer

«Mora a qui a insignificância, e até à insignificância o tempo imprime carácter. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo, que de quando em quando sai do torpor e clama: -- O inferno! O inferno!. Mora um chapéu, uma saia, o interesse e plumas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Este quarto não valerá a pena a senhora vê-lo, é interior, tem duas camas de leito. A senhora não gostará dele, pois não? Este aqui é um bom quarto. Cama de casal. Que às vezes já se tem deitado aí uma pessoa só. Com licença.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«Dezoito anos!... E degredado da pátria, do amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!... É triste! / O leitor decerto se compungia; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria! / Amou, perdeu-se, e morreu amando.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

segunda-feira, janeiro 12, 2026

o que está a acontecer

«Paciência... paciência... Já a mentira é de outra casta, faz-se de mil cores e toda a gente a acha agradável -- Pois sim... pois sim... / Cabem aqui seres que fazem da vida um hábito e que conseguem olhar o céu com indiferença e a vida sem sobressalto, e esta mixórdia de ridículo e de figuras somíticas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos, e todo se embalsama no perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade!  A passagem do seio de família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abra ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«A senhora está a olhar pra esta sala? É grande, é, e tem esta mobília toda, e tão alta que quase chega ao tecto. Comprámo-la com a casa. Foi quando chegámos da Alemanha, já fez agora um ano. Entre por aqui, entre. Cuidado com o degrau.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

sexta-feira, janeiro 09, 2026

o que está a acontecer

«PORTO COVO // 3.ª feira. 1 de Julho.   1975 // -- Boa-tarde, minha senhora. Tenho quartos, sim. Ainda cá não tenho ninguém. Dos meados deste mês em diante é que eles aparecem. O ano passado até me pediram para os deixar dormir no chão. E que bem dormiram alguns! Se dormiram!» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«Já vou quase no fim da praça quando ouço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça de ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T., que chega em estado.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«É a paciência, que espera hoje, amanhã, com o mesmo sorriso humilde: -- Tem paciência -- e os seus dedos ágeis tecem uma teia de ferro. Não há obstáculo que a esmoreça. -- Tem paciência -- e rodeia, volta atrás, espera ano atrás de ano, e olha com os mesmos olhos, sem expressão e o mesmo sorriso estampado.» Raul Brandão, Húmus (1917)

sábado, julho 27, 2019

vozes da biblioteca

«Ai os turcos, uns porcos, tanto comiam batata crua, como comiam carne de gazela, uma carne preta que eu não sei o que era aquilo, mas remelgavam os olhos quando vissem a gente comendo carne de porco!» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)