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segunda-feira, agosto 11, 2025

zonas de conforto

«Palavra era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João. Assinava-se de cruz e muito judeu seria aquele que negasse os dois rabiscos lavrados de seu punho, porque não era só negar dois rabiscos, mas o grande sinal de lisura e de verdade que Jesus Cristo deixou aos homens ao morrer num madeiro para nos remir e salvar! Vão lá agora com essas!...» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)

«O rapaz tornou a tolher-se de medo, e perguntou a meia voz: / -- Seria a alma? / -- Do senhor capitão-mor? Não me pareceu; que ela ia de saia escura e levava um saiote pela cabeça. / Neste comenos, descia o moleiro do lado da serra pela barroca escura com dois jumentos carregados de foles, e vinha cantando: // Já fui canário do rei, / Já lhe fugi da gaiola, / Agora sou pintassilgo / Destas meninas d'agora.»  Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)

«Diante de cada cruz pregada nos troncos da mata, tirava o seu barrete de pele de coelho, rezava uma ave-maria. Ao passear na lagoa, mais reluzente, sob a amarelidão da tarde entre os seus altos canaviais, que uma moeda de ouro nova, deixou um molho de carqueja e de achas para o ermita, que ali erguera a sua choça de rama.» Eça de Queirós, S. Cristóvão (c. 1891/1912)

terça-feira, setembro 26, 2023

101 contos portugueses #6

 O Senhor dos Navegantes, de Ferreira de Castro (1954)

"Deus", insatisfeito com a sua obra de criação, aparece inadvertidamente ao narrador com uma braçada de ex-votos para destruir -- ou o contrassenso da sua existência, pela voz de um louco. 

Ou seria mesmo Deus, e não um louco? Se na leitura que fez do conto, Egas Moniz remete para uma manifestação de patologia psiquiátrica, E. M. de Melo e Castro, ao recolhê-lo na sua Antologia do Conto fantástico Português, abre a porta à especulação, mesmo que saibamos do ateísmo do autor, pelo que a questão é pertinente. 

Metafísica: Só no revolucionário -- como Jesus Cristo -- há a possibilidade de uma parcela do divino 

Incipit: «Branca, airosa, pequenita, erguida sobre o tope de uma colina, a Capela do Senhor dos Navegantes divisava-se de longe, como um farol.»

terça-feira, novembro 30, 2021

os cabelos em pé: A CATEDRAL (1920), de Manuel Ribeiro, cap. IX


Continuar: «Ora aqui tem, senhor Luciano -- dizia padre Tiago no Capítulo, desdobrando diante do arquitecto uma larga folha de papel coberta de garatujas -- Aqui tem a minha colheitas de "siglas".» Início do cap. IX, pp. 159-180 da minha edição.

A propósito das tais siglas que o padre epigrafista trouxe a Luciano, discorre-se sobre o significado possível dessas marcas de canteiro e a condição dos operários medievais. Destes para os da actualidade vai um pulo. É quando se sabe que os homens que trabalham no restauro da Sé são sindicalistas. Os cabelos em pé da maioria dos padres circunstantes, E então é chamado João Coutinho, um dos mestres pedreiros, que entabula um diálogo, primeiro com o cónego Rocha, depois com o liberal ou progressista padre Tiago. 

Deve dizer-se que Coutinho representa esses sindicalistas cultivados, como era seu apanágio. Recorde-se que o quase mítico Manuel Joaquim de Sousa (1883-1944), secretário-geral da CGT, era sapateiro de profissão; essa mesma CGT que fundou para os trabalhadores o diário A Batalha, com um importante suplemento cultural, bem como a revista Renovação. O seu discurso, sempre sereno, pauta-se  pelos pressupostos ideológicos do anarco-sindicalismo: federação de trabalhadores dos vários sectores, com vista à eclosão de uma greve geral que irá desencadear a revolução social, demolindo a sociedade iníqua do presente. E para isso o Estado terá de ser desmantelado, e com ele todos os aparelhos coercivos, sem falar na Santa Madre Igreja, o grande anestésico moral ao serviço da classe dominante; como, aliás, se infere das palavras do cónego, um ultramontano. O mesmo, porém, não sucede com o padre Tiago, cuja dialéctica se desloca para o terreno do operário. «-- A Igreja perfilha em absoluto as suas doutrinas, senhor João Coutinho.» -- apresentando o Messias como um socialista e revolucionário, e que, na verdade, diga-se, fez sempre parte do apostalado inconformista laico. Portanto, não é de estranhar que a arenga apologética do padre Tiago, ao apresentar a ideia de Igreja Universal como precursora do federalismo; e o próprio Jesus Cristo como primeiro socialista, «que disse melhor nalgumas parábolas o que Karl Marx definiu mal em indigestos tratados.» Mas não deixa de afirmar que o materialismo é pobre para a dimensão humana: «E depois?, sim, e depois? Que é que encontram no termo da sua jornada? O estéril negativismo, a monotonia do nada, a tristeza do fim. É inegável que os senhores planam acima da terra-a-terra vulgar, acima dos outros homens que refocilam como vermes nos mais abjectos egoísmos; mas isso é nada, isso é ainda rastejar, comparado a esse frémito duma alma crente batendo as asas para Deus.» E, com estocada de mestre, desafia: «Porque não tenta, pois, o grande voo? Teme a vertigem? Ofereço-lhe o meu braço, o braço forte da Igreja que não recusa nem se recusou a ninguém, jamais!» Curiosa é a reacção de Coutinho, após a demonstração de eloquência do padre epigrafista. Percebe que esta é uma outra estratégia de adaptação e sobrevivência da Igreja, «sinuosa», «elástica», adaptando-se a todos os regimes. E pergunta-se, apreensivo: «A Igreja, que escapara ao liberalismo, que sobrevivera às repúblicas, ia ainda surgir, como escalracho, nas searas vermelhas da sociedade futura?»  Se a contenda cortês, porém oposta, entre estas duas personagens secundárias do romance, o operário sindicalista e o padre progressista terão algum remate, é o que se verá. Para já, continuo assombrado com este processo de conversão de Manuel Ribeiro, aparentemente assim, à vista de todos. O que me levará à leitura do livro de Gabriel Rui Silva, Manuel Ribeiro -- O Romance da Fé, para melhor descortinar o modo.

sexta-feira, janeiro 06, 2017

oh, democracia...

Se o Eça de Queirós tinha razão quando defendeu -- em carta ao seu amigo Oliveira Martins, de apetências cesaristas -- que "a democracia a du bon"; e se não foi ainda desmentida a razoabilidade da conhecida asserção do Churchill, a verdade é que ela está pouco defendida dos demagogos e, dentre estes, os extremistas (Hitler, FIS, Irmandade Muçulmana).

Aparece agora uma nova categoria: a dos patetas que falam em nome do Crucificado de há dois mil anos, que era deus e simultaneamente seu filho, nascido duma mãe fecundada pelo Espírito Santo, que afinal era o pai, mas também era o filho -- trapalhada fascinante que tem ocupado os melhores espíritos, cuja luz, porém, atinge em cheio a mioleira desguarnecida de criaturas como o prefeito de Guanambi. Este, já não se contenta em falar em nome de deus, como alguns colegas do Congresso brasileiro, no triste caso da impugnação de Dilma Rousseff, transmitida urbi et orbi; mas afirma-se deus ele próprio. Um deus cujo diagnóstico poderá ser: 1) um espertalhão; 2) um maluquinho que devia estar internado. Em qualquer dos casos, um indivíduo sem qualidades para o lugar, eleito democraticamente. 

Oh, democracia, a que provas nos sujeitas!...










visto aqui

quinta-feira, maio 07, 2015

J de Jesus Cristo

Jesus Cristo - um revolucionário; um chefe de seita; um extraterrestre; um produto daquela Terra, que enlouquece os homens. Flávio Josefo prova-nos que ele existiu. Não era filho de deus, porque deus, ao contrário dele, não existiu.

sexta-feira, novembro 14, 2014

prolegómenos cristãos à terceira via

Carl Schmitt, Catolicismo Romano e Forma Política. Carl Schmitt (1888-1985) é um autor de referência do pensamento contra-revolucionário, antiliberal e antidemocrático. Dizer só isto, aliás, é dizer pouco. Schmitt foi um nazi desde cedo; e apesar de algumas divergências, traduzidas em ataques de sectores do nacional-socialismo (em nazismo não se pode dizer "mais radicais"...), a verdade é que o autor leccionou na Universidade de Berlim entre 1933 e 1945 -- ou seja, em todo o período em que o führer e os seus sicários estiveram no poder. 
Este ensaio de 1925 pretende reagir ao ataque à Igreja Católica, que ele então denunciava, definindo-a como efectiva representação de Cristo no Mundo: «Ela representa a civitas humana, ela apresenta a cada instante a união histórica entre o devir humano e o sacrifício de Cristo na cruz, ela representa o próprio Cristo pessoalmente, o Deus que se tornou homem na realidade histórica. No representativo assenta a sua supremacia sobre uma época de pensar económico.» (p. 33) E, como seria de esperar, põe nos antípodas duma sociedade regida pela política e pelo direito (oh, ironia...), tanto capitalismo como bolchevismo, alegadamente pólos opostos duma mesma mundivisão: «O grande patrão não tem nenhum outro ideal senão o de Lenine: o de uma "terra electrificada".» (p. 28)
Schmitt oferece, portanto, a referência de um elemento não racional -- a divindade representada pela Igreja Católica -- em oposição a um sistema que não o pode contemplar -- a perspectiva demo-liberal: de um lado, como de costume, os vectores deletérios: a "técnica" e a "economia"; do outro, o institucionalismo da política estribada no direito, com as dicotomias do costume: matéria-espírito, pragmatismo-idealismo, revolução-tradição. 
Da visão da Igreja como figuração  de Deus, não posso deixar de extrapolar para uma ideia de Estado à imagem daquela, logo do "chefe" desse Estado como equiparado, senão ao próprio Deus, pelo menos soberano dessa mesma Igreja, o vigário do Deus. Daí ao endeusamento do chefe (do führer a haver), vai um pequeno passo.
Interessante como leitura e exercício, é ideologicamente intragável. 

terça-feira, setembro 30, 2014

da bolsa da avó Francisca

«Por baixo da grande saia rodada, a avó Francisca prendia uma enorme algibeira, da qual tirava as coisas mais incríveis: a caixinha de prata do simonte, o branco lenço de linho para assoar, que o tabaqueiro era vermelho, de meio côvado, e com ramagens, metido na cintura sob o avental; um molho de chaves pequenas e vários tamanhos para as gavetas do toucador, dos armários das cómodas; o rosário de caroços de azeitona das oliveiras que deram sombra ao meigo e triste Nazareno, e seu crucifixo de metal amarelo, que o Reitor do Ermeiro lhe trouxe da Terra Santa e foi benzido pelo Patriarca de Jerusalém; a bolsinha de malha de prata para os tostões e as outras moedas de valor, um saquitel de pano com os trocos de cobre e a chave dourada do oratório D. João V que tinha um Cristo de marfim, muita da devoção da mãe da avó Francisca e ao qual a piedosa senhora fizera a promessa de lâmpada perpétua por o marido voltar são e escorreito das guerras do Napoleão.»

João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão (1967)

domingo, julho 16, 2006

Correspondências #52 - Salomão Sáragga ao «Diário Popular»

Amigo e Redactor:
-- Como V. sabe, devia fazer hoje a minha conferência no Casino. O assunto era: Os historiadores críticos de Jesus. Se tinha escolhido este assunto de preferência a outro, era simplesmente por ser aquele a que tenha mais particularmente aplicado os meus estudos. Nenhuma outra razão me levou a tratá-lo. Que era da crítica considerada como ciência, da sua aplicação especial à história de Jesus, e ao movimento que ele foi o iniciador que eu queria falar, era já público havia algumas semanas. O que porém se não sabia era o dia determinado em que esta matéria havia de ser apresentada publicamente. Os jornais, no entretanto, noticiaram há quatro ou cinco dias que hoje me pertencia ser o conferente, sem se esquecerem de apontar a matéria a tratar. Desde então todos os que se dizem meus amigos (com poucas excepções), e outros que se dizem interessados no meu bem-estar, julgaram que era do seu dever usar de quantos meios a imaginação lhes sugeria para me demover do meu propósito. Não lhes sendo possível desviarem-me do meu intento, por meio de argumentos, os quais confesso eram de nenhum valor, passaram a usar de ameaças, entre as quais apareceram, em primeira plana, que muitos estavam dispostos a usar de pugilato, como último argumento, se eu insistisse. Por quem esta guerra era especialmente movida não o pude saber. Um jornal falou das más disposições dos judeus a meu respeito. Eu, porém, que julgo tão inimigos das ideias cristãs os judeus como os católicos fanáticos, não sei a quem atribuí-la. Não obstante isto tudo, continuava a ser opinião minha e dos meus amigos que devia expor na minha conferência o resultado dos meus estudos, com tanta mais razão quanto por essa forma eu não saía fora dos estudos da minha predilecção.
Estava nestas disposições preparando-me para a conferência, quando vi hoje de tarde a cópia de uma portaria saída do Ministério do Reino, a qual proíbe a continuação das conferências. Se o intuito do autor da portaria é evitar que eu consiga propagar as ideias que tenho sobre Jesus e o Cristianismo, posso assegurar-lhe que o não consegue. Não o consegue porque me resta ainda a imprensa: o jornal e o livro. As ideias que tinha de expor ali sumariamente, dentro dos acanhados limites de uma conferência, poderei expô-las mais tarde, pela forma que mais adequada me parecer. Mas supunhamos que a ciência que tem ocupado espíritos como Strauss, Reuss, Scherer, Vacherot, Renan, Bunsen, Réville e outros não possa ter a sua livre manifestação entre nós e que eu seja obrigado pela imposição da força a calar-me, que modo mais eloquente haverá para demonstrar que as conferências tinham a sua razão de ser? O que faltará para provar que a liberdade de consciência e a liberdade de imprensa são palavras vãs entre nós e que este estado de coisas não deve continuar?
Semeiem e colham depois.
C/V. Lisboa, 26 de Junho de 1871.
De V. etc.
Salomão Sáragga.
In João Medina, As Conferências do Casino e o Socialismo em Portugal

segunda-feira, outubro 31, 2005