1.
Acabo
de ver a lista de cinquenta nomes assinalados como o cânone literário
português, na opinião de três académicos: António M. Feijó,
João R. Figueiredo e Miguel Tamen. Lista bastante defendida no
anúncio da editora como nas declarações ao Observador.
Antecipando-se à discussão que aí virá, espera-se.
As
escolhas são sempre louváveis, desde que honestas e justificadas,
porque representam (ou podem representar…) a coragem de escolher
como a de excluir. O título, porém, é de menos, pois mesmo sem me
pronunciar sobre o que ainda não li, já o posso fazer sobre as
ausências. E há ausências de peso, que absolutamente não poderiam
verificar-se numa obra que se arroga a pretensão de estabelecer o
dito cânone, se o título é para levar a sério. Aliás, o mesmo
Observador, com
desenvoltura jornalística, anunciara que o
cânone viria aí, perguntando(-se): "Quem
são os grandes escritores que formam o cânone da literatura
portuguesa?"
Ora, enquanto leitor não totalmente destituído ou desinformado,
considero que é um jogo de apostas avançar com nomes que tenham
publicado há menos de cinquenta anos; mas o que me parece temerário
é trazer para o cânone autores que tenham entrado por este século
adentro. Diria até que todos quantos iniciaram a publicação da
totalidade ou da parte mais importante das respectivas obras depois
do 25 de Abril de 1974 deveriam estar ausentes dum livro que se
arroga a pretensão com que se intitula.
Claro
que podemos sempre arriscar nomes, percepções (eu tenho algumas,
que apenas têm o valor dessa intuição, mais ou menos alicerçada
nas minhas próprias qualidades de leitor, satisfatórias ou
medíocres, para o caso é irrelevante). E, no fundo, é mesmo disso
que se trata, com excepção para o século XIX, o único período
que me parece (quase) incontroverso. Talvez, por isso, mais
apropriado -- embora menos comercial e cintilante -- fora reconhecer
isso mesmo com um título mais singelo, umas Propostas
para a Fixação de um Cânone [Literário
Português], ou coisa que o valha. Tenho pena, porque demasiada presunção ou falta de humildade envenenam-me a
leitura; e tanto faz que venham agora dizer que se trata de uma mera
lista como outras possíveis, o que se vê à vista desarmada.
Começo
por subscrever no texto da página da editora, certamente da autoria
de um dos coordenadores: «Os grandes escritores não são escolhidos
por consenso ou por votação popular, mas por terem sempre leitores,
mesmo que poucos, ao longo do tempo.» Certamente que o livro
desenvolverá o conceito. Eu acrescentaria que
Os grandes escritores de uma língua e de uma
comunidade são aqueles que inauguram um modo de expressão cuja voz
continua a fazer-se ouvir nas vozes de outros que lhe sucederam,
tendo inscritos um conjunto de tópicos reveladores da pertença a
uma nação e/ou a um território.
O mesmo
texto informa que não se trata de “um guia neutro para a
literatura portuguesa”. Se a neutralidade absoluta é impossível,
não deve deixar de ser perseguida num trabalho desta natureza, sob
pena de irremediavelmente o comprometer não digo na sua
credibilidade, mas na utilidade que pode ter para quem não esteja
muito interessado nas opiniões dos editores e respectivos
colaboradores.
Parece
que o livro tem artigos sobre movimentos e revistas literárias (cuja
dimensão desconheço), o que, à partida, tornará híbrida a
natureza da obra, oscilando entre o ensaísmo e a historiografia
cultural. [ver 5., adenda] Quanto a isso, talvez ainda não se fizesse melhor do que a
História da Literatura Portuguesa,
de António José Saraiva e Óscar Lopes, pese embora as suas
(poucas) omissões quanto a escritores relevantes: se a memória não
me atraiçoa, lembro-me dos nomes do romancista, ensaísta e poeta
Francisco Costa
(1900-1988) e do poeta presencista Fausto
José (1903-1975), mas haverá outros.
Uma
nota marginal, incrédula e possivelmente preconceituosa sobre a
inclusão numa obra deste teor de artigos sobre literatura feita por
mulheres e por homossexuais: não são temas de somenos, mas não vejo grande
utilidade numa obra que pretende definir o cânone. É o espírito do
tempo que levará, em obras futuras, a escrever-se sobre escritores
vegetarianos, por exemplo. Que interesse tem isso para o Cânone, a
não ser marginalmente? Não vejo.
2.
São-nos servidos
cinquenta autores, por ordem alfabética. Mais uma vez, o título peca
por abusivo, para ser suave. Se a intenção fosse a de estabelecer o
cânone só
por coincidência chegaríamos a um nome redondo, cinquenta. O cânone
será o que será, 47 ou 114. No entanto, cinquenta nomes para
novecentos anos de país parece-me modesto, por muito restritivo que
se seja.
O cânone,
cronologicamente, começa com Fernão
Lopes e
termina com uma única autora viva -- escritora extraordinária,
aliás, Maria
Teresa Horta (1937),
arrolada nas "Três Marias". Vou seccionar os
cinquenta nomes em três grupos: até ao século XVIII, séculos XIX
e XX.
Escritores nascidos
até ao século XVIII, são onze, ou seja, 22% do total: Fernão
Lopes (c.1380-c.1460), D. Duarte (1391-1438), Gil Vicente
(c.1465-c.1536), Sá de Miranda (c.1481-1558), Bernardim Ribeiro
(c.1482-c.1552), Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583), Luís de Camões
(c.1524- c.1580), Frei Luís de Sousa (1555-1632), o Pe. António
Vieira (1608-1697), António José da Silva (dito O
Judeu,
1705-1739) e Bocage (1765-1805).
Comecemos por notar
a estranha ausência da poesia trovadoresca, o que sem dúvida estará
justificado [ver 5.]. O problema, mais uma vez: uma obra que se define como O
Cânone não
poderia deixá-la de fora, porque mais canónico que o trovadorismo
não há. Fica a curiosidade pela justificação. Quanto ao resto,
nada a dizer quanto às presenças, a não ser registar a boa
surpresa de ver o rei
eloquente,
D.
Duarte,
que talvez não estivesse mal acompanhado do seu irmão, o infante
D. Pedro
(1392-1449), príncipe
das sete partidas,
aliás um dos grandes portugueses destes quase 900 anos.
Sendo também
restritivo, e sem querer alardear erudição que me fique curta nas
mangas, a grande perplexidade é a ausência do Pe.
Manuel Bernardes
(1644-1710), prosador onde bebem Camilo e Aquilino. Não pertence ao
cânone o Bernardes? Outra perplexidade, Francisco
Rodrigues Lobo (1580-1622),
não apenas o poeta, mas também o prosador de A
Corte na Aldeia (1619);
também não?...
Fico-me por estes
dois, mas poderia lançar o António
Ferreira (1528-1569)
de A
Castro (póstumo,
1587), o ascetismo bucólico do Frei
Agostinho da Cruz (1540-1619),
os sermões do Frei
António das Chagas
(1621-1692).
Também a literatura
dos Descobrimentos e da Expansão me parece subrepresentada, a não
ser indirectamente, dos cronistas aos autores de relatos, o Gomes
Eanes de Zurara
(1410-1474) ou o
Pero Vaz de Caminha
(1450-1500). O meu conhecimento dos autores deste período é superficial, mas não me parece que o cânone literário
português os possa deixar de fora.
3.
O
século XIX é facílimo. Eles aí estão todos bem à mostra, à
espera de quem os pique, excepto um, que ficou para trás, e não
devia. Não há grandes dúvidas sobre os autores que integram o
cânone oitocentista, onze também aqui, como o correspondente a toda
a literatura escrita até ao século XVIII: Almeida Garrett
(1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1870), Camilo Castelo Branco
(1825-1890), João de Deus (1830-1896), Júlio Dinis (1839-1871), Eça
de Queirós (1845-1900), Oliveira Martins (1845-1894), Antero de
Quental (1848-1891),Gomes Leal (1848-1921), Cesário Verde
(1855-1886), António Nobre (1867-1900).
Apraz-me
ver João
de Deus
e Júlio
Dinis
neste rol. Há trinta anos teriam sido varridos, certamente ainda se
faria sentir sobre ambos o labéu da "ingenuidade", quando
não, no caso do romancista d'A
Morgadinha dos Canaviais, o
de escritor cor-de-rosa. Há porém uma ausência que não
compreendo, e ela é a de Fialho
de Almeida
(1857-1911). Nunca ninguém escrevera como ele e eventuais epígonos
não atingem o seu nível, nem por vezes no mal-estar que provoca.
Trata-se de uma falta significativa. Há um nome
cuja não inclusão me levanta as maiores dúvidas, o de Ramalho
Ortigão (1836-1915).
Então e As
Farpas?,
deitam-se fora? Imitando a parcimónia: tenho também dúvidas de que
o Guerra
Junqueiro
(1850-1923) seja arredado de ânimo leve, mas, dos três, é aquele
cuja ausência menos me choca. E, já agora, lanço um nome para
ponderação, o do exímio contista que foi o
Conde de Ficalho
(1837-1903). Não me parece que lá ficasse mal, mas precisaria de
relê-lo para ter uma ideia mais segura.
4.
Quarenta
e quatro nomes, 66% da lista para os escritores do século XX, em que
os três primeiros começam a publicar ainda no século
anterior, e a antepenútlima, em data de nascimento, felizmente ainda
viva e a publicar: Camilo Pessanha (1867-1926), Raul Brandão
(1867-1930),Teixeira de Pascoais (1877-1952), Aquilino Ribeiro
(1885-1963), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de SáCarneiro
(1890-1916), Irene Lisboa (1892-1958), José de Almada Negreiros
(1893-1970), Florbela Espanca (1894-1930), José Régio
(1901-1969), José Rodrigues Miguéis (1901-1980),Vitorino Nemésio
(1901-1978), Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978), Ruben
A. (1920-1975), Carlos de Oliveira (1921-1981), Maria Judite de
Carvalho (1921-1988), Agustina Bessa Luís (1922-2019), José Saramago
(1922-2010), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986), Herberto Helder
(1930-2015), Ruy Belo (1933-1978), Fiama Hasse Pais Brandão
(1938-2007), Luiza Neto Jorge (1939-1969), As Três Marias: Maria Teresa
Horta (1937), Maria Velho da Costa (1938-2020) e Maria Isabel Barreno
(1939-2016). e Luiza Neto Jorge (1939-1989). Não discuto nenhum: mesmo os poucos que aqui estão que
dificilmente podem ser considerados grandes têm o seu lugar no
cânone literário português. Estranho algumas ausências, como as
do António Botto (1897-1959) ou Vergílio Ferreira (1916-1996): porém, eu
sei que daqui a
cem anos o Aquilino será lido, não sei se com o V.F. sucederá,
quem saberá dizê-lo?...
Continuando
a ser restritivo -- poderiam estar aqui dezenas de nomes, não
atirados a esmo, em especial na poesia --, avanço com nove
escritores, cuja ausência dir-se-ia escandalosa se houvesse lugar a
escândalos, num livro que se apresenta como o cânone.
A constatação dessa ausência significa que o livro, com
título pomposo e definitivo, serve para pouco, relativamente àquilo
a que se propõe: M. Teixeira-Gomes (1860-1941), ou o primado da
estética, sem par. Ninguém tem a mesma elegância informada,
desassombrada, cultíssima. Manuel Laranjeira (1877-1912), uma
escavação interior desapiedada, que vim a encontrar num Cioran; o
tal que levou o Unamuno a qualificar-nos como povo de
suicidas. Jaime Cortesão (1884-1960), porventura o maior historiador
português do século (está para ele como Herculano para o anterior,
portador de uma ideia de país que foi confirmá-la nas fontes.
Ferreira de Castro (1898-1974), o romance português era uma coisa
antes dele e foi outra depois; ninguém falara do país da
maneira como o fez. Foi o pai do neo-realismo. A partir de Emigrantes
(1928) não tem um só romance menor. Tomaz de Figueiredo
(1902-1970) é uma outra estética, não cosmopolita, à
maneira do Teixeira-Gomes, mas castiça. É o nosso Lampedusa antes
de O Leopardo,
como se dos olhos de um príncipe criança. Saul Dias (1902-1983) -- o pintor
Júlio [Maria dos Reis Pereira], irmão de Régio, poeta da palavra
essencial, justa e definitiva. Alves Redol (1911-1969), ficcionista
de sangue quente, duma têmpera de romancista como poucos, de
longe um dos grandes do século, como o século fará questão de
registar. Manuel da Fonseca (1911-1993,) tão neo-realista e tão
singular, ele é o Alentejo profundo e dramático, por vezes trágico,
no romance, no conto, na poesia. Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004), como não?, a palavra decantada, o canto dos tópicos
nacionais, o mar, as navegações, mas também a liberdade, a
dignidade, que é o contrário da servidão e do aviltamento. E Rui
Knopfli (1932-1997), uma expressão eloquente e desafiante, que
se faz também de uma interpelação ao cânone. Poderia continuar,
mas creio que será suficie.
Em conclusão: um título desastroso dum
livro que certamente terá as suas virtualidades. Mas um título é o
mais importante depois de tudo o que está lá dentro. O
organizador Miguel Tamen, em declarações ao Obervador:
sustentou: «Quem
acha que certos nomes deviam estar lá, tem bom remédio, escreva um
livro. É disso que precisamos.» Como não concordar?
5. Adenda. Folheado anteontem, verifiquei tratar-se de artigos breves. Há um dedicado à poesia trovadoresca e outro ao renascimento, bem como à crítica literária, prémios literários, memorialística, entre outros que não retive. Não vi na consagrado às narrativas de viagens, outra falha importante.