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domingo, julho 09, 2023

José Mattoso (1933-2023)

Como todos os grandes historiadores -- Alexandre Herculano, José Leite de Vasconcelos, Jaime Cortesão, Vitorino Magalhães Godinho, Joel Serrão, etc. -- como qualquer grande autor, há um antes e um depois de José Mattoso. Alguém disse que ele e Herculano eram os pilares da historiografia portuguesa no que respeita à Idade Média. Identificação de um País -- Ensaio sobre as Origens de Portugal (1096-1325) (1986), conjugando História pura e dura, com a Geografia (que já vinha de trás, com Magalhães Godinho, bebendo em Orlando Ribeiro) e a Etnologia, é a pedra de toque da sua obra.

sexta-feira, abril 07, 2023

rei, estado, mar, língua e literatura -- ou o quê, quem e como se fez o povo português

É curioso verificar que o povo português é uma criação do país chamado Portugal. Ao contrário do que sucedeu com outros, que ajustaram etnia e território, os indivíduos que coabitaram no rectângulo, muito heterogéneo étnica e morfologicamente, entre o Atlântico e o Mediterrâneo (Orlando Ribeiro), que veio a chamar-se Portugal, cooperando e/ou guerreando-se eram, sucessiva ou simultaneamente, iberos, celtas, romanos, germânicos suevos e visigodos, berberes, árabes, judeus... Como escreve algures José Mattoso, portugueses designava, na Idade Média quando o reino se constituiu, os súbditos do rei de Portugal.

Não oferece dúvidas, porém, a efectiva e significante (embora actualmente nada pujante, também por inépcia dos múltiplos desgovernos) existência de um povo português, forjado ao longo dos séculos habitando maioritariamente no continente europeu num território cuja primeira parcela, até Coimbra, se tornou de facto independente desde há 900 anos, que se cumprirão daqui a um lustro, em 2028.

Este povo, que antes não existia, deve o facto de ser uma realidade não despicienda, apesar de tudo, no mundo global em que vivemos, a dois factores: a criação do estado e a codificação da língua portuguesa, não apenas como veículo, mas como arte. E a perenidade que parece ter alcançado, permitindo-lhe chegar ao milénio (espera-se, pois em História nada é imutável; e chegando lá, em que condições?...), assentou no(s) rei(s) e no exército que lhe assegurou a independência; a localização atlântica, cativando-o para um empreendimento a que não é errado caracterizar como gesta (termo usado como substantivo e não adjectivo), nas suas glórias e misérias, traduzindo-se na expansão extracontinental e na descoberta de territórios, povos e geografias insuspeitados, que tornando a tal perenidade de memória inapagável e irremovível enquanto a humanidade existir. São os séculos XV e XVI, de Henrique o Navegador e Gil Eanes, a Afonso de Albuquerque, "o Leão dos Mares" e Fernão Mendes Pinto.

Finalmente, a língua, vinda do latim e separando-se do galego pela conjuntura politica, património e identidade, que se espalhou; e através da língua, a literatura, em especial a poesia. Se nas restantes artes, não nos podemos equiparar aos grande países -- embora nomes respeitáveis não faltem, da pintura à música, na literatura só há um Camões e um só Fernando Pessoa; e em torno deles, um acervo gigantesco de literatura, dos trovadores medievais aos prosadores dos séculos XIX e XX.

O povo português, que antes de existir Portugal não existia ele próprio, é o resultado miscigenado de tudo isto.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

da identidade nacional

«E era esta a abordagem mais recente do problema, porque a mais antiga talvez fosse a transcrita nas 'Chroncias dos Senhores Reis de Portugal', de Christovão Rodrigues Acenheiro, sim, a edição da Academia diz mesmo diplomaticamente 'Chroncias', e de repente, quando reflectina no que o Mattoso dizia, dei-me conta de que já o D. Afonso IV procurava, no seu modo brusco e medieval, circunscrever por inteiro a identidade nacional, quando escrevia brutalmente ao rei de Castela, seu genro: 'E sem dúvida sabei que os Portugueses nunca deixaram de usar três cousas, a saber, lutar, pelejar com Castelhanos , e demandar com boa vontade mulheres.'.»

Vasco Graça Moura, Naufrágio de Sepúlveda (1988)

terça-feira, abril 01, 2014

Jacques Le Goff

Quando estudei História Medieval, os nossos heróis vivos eram José Mattoso e Jacques Le Goff, que morreu hoje. Eles e outros deram colorido à historiografia sócio-económica, o golpe de asa da pesquisa das mentalidades, do simbólico, do antropológico. E perceberam que as gerações imediatamente anteriores, ao menosprezarem a história política, cultural e individual, bête noire  dos Annales, haviam deitado fora o bebé com a água do banho.