Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

terça-feira, dezembro 02, 2025

o que está a acontecer

«I. Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.»  Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Um silêncio súbito, silêncio da terra. Só vozes ermas dos campos, ouço-as no calor parado da tarde. Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«Fez-se um silêncio de expectativa risonha. E o professor, debruçando sobre a secretária os bigodes pendentes e amarelados, perguntou-lhe: -- Quais regras da ciência? -- E ele, entreabrindo os lábios finos que nunca se sabia quando sorriam ou se apertavam de contrariedade, respondeu: -- A observação e a experimentação. -- Ah, muito bem, e como foi que o senhor observou e experimentou a alma dos animais? -- Como, senhor doutor? Pessoalmente --. E foi uma gargalhada geral.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)

sábado, novembro 29, 2025

o que está a acontecer

«Uma vez, numa aula de filosofia (o professor era um pobre diabo, muito lendário pela degradação intelectual a que chegara, e a quem, certo dia, na indisciplina ruidosa que eram essas aulas, demonstrámos o argumento de Diógenes arrastando todas as carteiras, sentados nelas, para os vários cantos da sala), D. Ramon levantou-se, e objectou que todos os seres vivos tinham alma, o que, segundo as regras da ciência, era uma verdade, e não um ponto controverso da especulação filosófica.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)

«Os atalhos velhos, abandonados, encheram-se de mato. Vai-se agora pela estrada, ou corta-se pelos caminhos abertos nos baldios pelos tractores da Câmara. Da linha do comboio de via estreita, abandonada, ficaram os carris a marcar a presença, e um ou outro poste donde pendem ainda os fios do telégrafo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003) 

«Abro a porta devagar, ela range para o espaço do jardim. É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam. Alguns têm só terra ou hastes secas de roseiras. Vejo-as do portão, o carro à entrada a trabalhar. Depois meto-o na garagem, que é um barracão ao lado de casa.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

domingo, novembro 23, 2025

o que está a acontecer

«Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.º ano dos liceus. As suas calmas e sonhadoras extravagâncias, o seu ar de senhor de idade, o mistério de adulto de que rodeava a sua figura pequena e atlética, a sua profunda convicção de que, desde o século XII ou XIII, a Espanha devia à sua família o condado de Barcelona, as perguntas absurdas feitas com o ar mais convicto e ingénuo do mundo, com que ele era o terror dos professores inseguros, e o seu famoso sistema filosófico que tudo explicava e o dispensava, "graças ao controle das energias do cérebro", de estudar as lições (salvo em casos de última emergência), tudo isto não fazia dele um ídolo nem um chefe, mas um ente respeitadíssimo, apesar da ironia com que todos o apontavam.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst. 1979)

«Por estes lados, o viajante só vê montes. Desertos, amarelados, pedregosos, às vezes com uma ermida no alto, outros coroados de espinhos. Nalgumas encostas os sulcos dos campos lavrados. Aqui e além bocados de vinha, casebres perdidos, rochedos cobertos de musgo, aldeias tão longínquas que são apenas manchas brancas na paisagem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«E a que foi acontecendo aos outros -- é a História que se diz? abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

sexta-feira, outubro 24, 2025

40 ANOS DE SERVIDÃO - da tradição como fonte

«Ramo verde florido, / florido de bela flor, / do meu amor tão querido, / onde está o meu amor? // [...]»

A procura do amor aos dezanove anos. O poema mais antigo de Sena publicado (creio) num dos primeiros livros póstumos, fiel e amorosamente editado (no sentido anglo-saxónico) por Mécia -- Variações sobre Cantares de D. Dinis.

Parafraseando Ruy Belo: D. Dinis e Jorge de Sena, dois poetas contemporâneos. Conheceria já os conceitos de modernidade e tradição do Eliot? Ver. 

quinta-feira, abril 24, 2025

zonas de conforto

António de Cértima: [14.8.1961] «Subo um pouco mais e, da planura verdejante do Rond Point, os olhos divertem-se a seguir o movimento da multidão zebrada de cores que sobe e desce a Avenida, e a aprisioná-la lá em cima, num cartaz modernista, junto do Arco glorioso que nos fala das preocupações arquitecturais e do instinto das batalhas do vencedor de Arcole e Austerlitz.» Doce França (1963) § Fialho de Almeida: «Porque, seriamente, nós volvemos de novo à flor desta sagrada terra que nos devora, uma vez, muitas vezes, em regiões várias, climas, vários e disfarçados consoante o humorismo da química que nos manipula.» «Pelos campos», O País das Uvas (1893) § Machado de Assis: «Naturalmente o vulgo não atinava com ela; uns diziam isto, outros aquilo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta: -- a causa da melancolia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia.» «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § José Bacelar: «Gritar, vituperar, amaldiçoar -- está bem ainda. Mas ai daquele que não faz como os outros -- ai daquele que friamente levanta um pouco o véu.» Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana (1936) § Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (1955): .../... «Bem vê, portanto, que a nossa camaradagem e amizade sai intacta do prémio, como não podia deixar de ser. / Diga-me quando puder qualquer coisa sobre a antologia do Pascoaes. Não voltou a pegar-lhe? Era bonito aparecermos com isso no próximo inverno. Quando passar pelo Porto, previna-me. Gostava de estar consigo. / lembranças à Mécia e o melhor abraço do seu / Eugénio.» Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, ed. António Oliveira, 2015 § Raul Brandão: «A terra é dos probes -- teima ele. / Cheira a monte e arfa no escuro uma coisa sagrada -- o sonho dos pobres. As figuras da realidade desapareceram, outras figuras estão presentes como sombras carcomidas e que chegam ao céu. Um momento a brasa ilumina as mãos da senhora Emília que parecem de morta.» O Pobre de Pedir (póst., 1931)

sexta-feira, março 07, 2025

correspondências

(Frei João Álvares aos monges de Paço de Sousa, 1467) «Aos filhos amados em Deus, monjes do moesteiro de S. Salvador de Paço de Sousa, da ordem de S. Bento, saúde e bênção em Nosso Senhor Jesu Cristo. Certo é que Nosso Senhor Deus, por sua bondade e misericórdia, ordenou que todos assi fôssemos juntos, como somos, polo legamento da caridade, pola (qual) eu cá onde ando, e vós lá onde estais todos a reveses possamos gouvir de nossos benefícios e orações, e que eu convosco e vós comigo nos hajamos de salvar, e que todos juntamente, feitos executores do que prometemos, possamos receber a glória que nos é prometida se perseverarmos com boa obediência nos santos mandamentos da regra.» .../... in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965)

(José da Cunha Brochado a desconhecido, 1696) .../... «Estas reverentes vozes na fé do indulto deste dia mereçam, meu Senhor, alguma dissimulação na graça de V. Ex.ª, a cujos preceitos quer a minha obediência ter a ousadia de resignar-se. Deus guarde a V. Ex.ª muitos anos / 7 de Maio de 1696.» Cartas**

(Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, 1955) .../... «E, para que lhe não fique a menor dúvida, dir-lhe-ei só mais isto -- um dos poemas do livro, suponho que o intitulado Frente a frente, é-lhe dedicado -- bem assim como todo o livro à Sofia -- dedicatórias essas que retirei, por razões óbvias, nas cópias que mandei. Quando o livro for publicado você encontrará tais dedicatórias no seu lugar.» .../... Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena*


** ed. António Álvaro Dória, 1944

* ed. António Oliveira, 2015

domingo, janeiro 26, 2025

correspondências

(António Cândido a João de Barros, 1907) .../... «O Conselho só conhece dos recursos da comissão quando eles têm por fundamento qualquer infracção por formalidades legais. / Doutros recursos só o Ministro conhece. / Como podia ter havido alguma irregularidade grave no julgamento da Comissão, escrevi a dois colegas meus. / Sou, com a maior consideração, e com verd.ª estima, // De V. Ex.ª / Adm.or e am.º certo e obgd.º // António Cândido // 20-8-907» Cartas Políticas a João de Barros ***

(Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, 1955) .../... «Devo até dizer-lhes que o melhor de mim, passada a decepção que inicialmente tive, se alegrou com a notícia de o prémio ter sido atribuído a um livro do José Terra, com quem simpatizo imenso. Se tiver ocasião de falar com o Cochofel peço-lhe que lhe diga isto mesmo. / Pela vida fora terá o Jorge, com certeza, testemunho de que lhe digo rigorosamente a verdade» .../... Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena**

(José da Cunha Brochado a desconhecido, 1696) .../... «Viva V. Ex.ª para ilustre distinção do nosso reino, pois, se este invejou a outro a fortuna do nascimento de V. Ex.ª, outros lhe invejam agora a glória da sua adopção. Cante Lisboa os triunfos que por V. Ex.ª logra na corte de Viena, que, se outra pátria teve a fortuna de fazer seu a V. Ex.ª, ela granjeou o crédito de que V. Ex.ª a fizesse sua.» .../... Cartas*


*** Cartas Políticas a João de Barros (ed. Manuela de Azevedo, 1982)

** Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (ed. António Oliveira, 2015)

* José da Cunha Brochado, Cartas (ed. António Álvaro Dória, 1944)

quarta-feira, dezembro 18, 2024

correspondências

(José da Cunha Brochado a desconhecido, 1696) .../... «Porém, hoje não serei o primeiro mudo a quem o alvoroço dos afectos rompesse o embaraço das expressões, porque a alegre nova da entrada de V. Ex.ª nessa Corte, que passou além da magnificência, dispensou ao meu silêncio estas vozes e ao meu respeito estes júbilos.» Cartas***

(António Cândido a João de Barros, 1907) «Exm.º Snr. // Tenho estado doente e impossibilitado de responder à carta de V. Ex.ª / Ao meu velho amigo T. de Queirós já disse que punha mt.º gostosam.te todo o meu valimento ao serviço de V. Ex.ª, embora, essa hipótese, me parecesse que era sem resultado útil.» .../... Cartas Políticas a João de Barros**

(Eugénio de Andrade a Jorge de Sena, 1955) .../... «De resto, a todas as palavras embaladoras que alguns amigos, prematuramente, me disseram, invocando até o facto de eu ser seu amigo, da Sofia e do Cochofel, respondi eu sempre, que uma das razões da minha amizade a esses elementos do júri provinha de os saber intelectualmente responsáveis e honestos para darem o prémio a quem o merecesse, sem quaisquer implicações sentimentais.» .../... Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena*


*** José da Cunha Brochado, Cartas (ed., António Álvaro Dória, 1944)

** Cartas Políticas a João de Barros (ed. Manuela de Azevedo, 1982)

* Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (ed. António Oliveira, 2015)

terça-feira, novembro 19, 2024

correspondências

(Eugénio de Andrade a Jorge de Sena) .../... «Deixe-me dizer-lhe, hoje, antes de mais nada, que você pensou o que era de pensar de mim -- aceito perfeitamente, sem o menor ressentimento ou conflito, a vossa decisão, e estou convencido que ela foi justa, por muitíssimo ponderada. Sabia já das decisões, e tinha a certeza que hoje ou amanhã chegaria carta sua, pois isso, e só isso, a sua amizade me devia.» .../... Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena***

(Teixeira de Pascoais a Raul Brandão) «29-Maio-914 / Amarante // Meu muito estimado Amigo: // Acabo de ler o El-Rei Junot. É uma obra admirável, um grande Drama! // Brevemente lhe enviarei, manuscritas ainda, as minhas impressões sobre a sua Obra que sairão na "Águia" de Julho. Não pode ser primeiro. Tenho tido muito que fazer. Desculpe. / Com os maiores agradecimentos, sou sempre fervoroso admirador e amigo. // Teixeira de Pascoaes» Correspondência**

(José da Cunha Brochado a desconhecido) «O respeito que sempre tive e devo ter à pessoa e ao carácter de V. Ex.ª, me levou sempre à veneração de suas altas prendas pelo seguro caminho de uma pura e fiel contemplação, entendendo que, como V. Ex.ª é todo espírito e todo inteligência, mais se pagaria das respeitosas meditações da minha fé, que das intrometidas assistências da minha dignidade.» .../... Cartas*


(3) Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (ed. António Oliveira, 2015)

(2) Raul Brandão - Teixeira de pascoais, Correspondência (ed. António Mateus Vilhena e Maria Emília Marques Mano, 1994)

(1) José da Cunha Brochado, Cartas (ed. António Álvaro Dória, 1944)

domingo, outubro 20, 2024

correspondências

(Eugénio de Andrade a Jorge de Sena) «Porto, 30 de Maio de 1955 // Meu querido Jorge: se o Proust não tivesse dito ao Gide palavras semelhantes, eu dir-lhe-ia: valeu a pena ter perdido o prémio só pelo prazer de ter recebido a sua bela carta.» .../... Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (3)

(Afonso de Barros a João de Barros) «Figueira, 26-6º-1926 // Meu querido João // Obrigado pela tua pronta resposta à minha precedente carta, e oxalá que o teu optimismo se realize, mas as prisões já começaram!... Cautela meu João! / E conta sempre comigo para tudo (que não poderá ser muito) que eu possa fazer. / Beija os meus queridos netos e querida Raquel, e a ti, beijo-te // e abraço-te de todo o meu coração / Afonso // Faz favor de dar à irrequieta Teresa o papelinho junto e ela que entregue ao [...?]» Cartas a João de Barros (2)

(Raul Brandão a Teixeira de Pascoais) «Meu Exm.º Amigo // Li ontem dum fôlego o Verbo Escuro. Eu gosto imenso de livros assim, mas o seu, tão profundo e tão belo, há-de ser compreendido por poucos leitores. É o livro dum grande poeta e dum filósofo. / Felicito-o e abraço-o. Creia-me sempre / De V. Ex.ª/ad.or e a.º agr.º / Raul Brandão // Alto / 27 Março / 1914» Correspondência (1)



(1) Raul Brandão - Teixeira de Pascoaes, Correspondência (ed. António Mateus Vilhena e Margarida Marques Mano, 1994.

(2) Cartas a João de Barros (ed. Manuela de Azevedo) s.d.

(3)  Cartas de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena (ed. António Oliveira, 2015)

quarta-feira, novembro 22, 2023

caracteres móveis

«A alma do gafanhoto, naquele dia, aproximou-nos dele.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979) / «Se você procurar bem na sua infância, Austin, há-de encontrar nela um gato sarnento que lhe roçou o lombo nas pernas cinquenta ou sessenta vezes, e isto, segundo Molero, marcou a sua vida.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977) /   «Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

segunda-feira, julho 11, 2022

 Aqueles olhos segredando de amor, / aquelas mãos alongando-se de amor, / aquele corpo todo ondulando de amor, / e em mim / só um vago desejo de dormir no seu regaço. – Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão (póstumo, 1979)

segunda-feira, novembro 29, 2021

na estante definitiva

 

40 Anos de Servidão, Jorge de Sena – Uma poesia culta e visceral, que pelas vísceras se comunica, ficando nós leitores também mais cultos e descarnados.

Grande poeta e ensaísta, além de romancista, dramaturgo, contista, epistológrafo, Jorge de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 – Santa Bárbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) concentra a dupla característica do criador excepcional com a excepcionalidade do juízo crítico. Pertence à classe dos cerebrais, os que reflectem sobre a própria obra como se de um recenseador terceiro se tratasse (mas nunca trata, na verdade...).

Creio que foi o primeiro livro seu que comprei, e ainda muito novo fiquei esmagado por aquela raiva frontal. Há poemas cujo tom nunca mais esquece. Livro póstumo, organizado pela mulher, Mécia de Sena, de acordo com o que o marido deixara já preparado, contém inéditos e dispersos escritos entre 1938 e 1978, agrupados por ordem cronológica, em paralelo com os títulos da obra édita. O prefácio ostenta uma comovente epígrafe extraída do Hamlet de Shakespeare, seguindo-se a tradução do próprio Sena ...Good night, sweet prince; / And flights of angels sing thee to thy rest! -- ...Boa noite, doce príncipe; / e que revoadas de anjos te conduzam / cantando ao teu repouso.

(1.ª ed., 1979; 2.ª, revista, Lisboa, Moraes Editores, 1982)

terça-feira, novembro 16, 2021

«E, apressadamente, se constrói o Sol, / amalgamando os homens num só disco.»

Jorge de Sena

segunda-feira, outubro 25, 2021

 «Ramo verde tão querido, / tão querido do meu amor, / de belas flores florido, / florido de bela flor...»

Jorge de Sena, de «Variações sobre cantares de D. Dinis»,

40 Anos de Servidão (póstumo, 1979)

domingo, novembro 29, 2020

20 romances portugueses do século XX (+6)

Há quem faça renda ou bricolage para se distrair, invente cozinhados ou ande à volta de motores; eu gosto de conviver com os livros que me fizeram feliz ou muito feliz, até.

Andei aqui uns meses às voltas com o Eurico, e foi giro. Apetece-me agora aumentar a empreitada e escolher 20 romances 20 portugueses do século XX e andar aqui às voltas com eles.

Mas como só o XX não me chega, complemento com cinco do XIX e um do XXI -- a deficiência é minha, certamente, mas até agora apenas um me encheu as medidas neste século.

O critério não me dá facilidades: um por cada autor, tendo de deixar de fora vários, e tantos títulos tão bons -- além dos que esperam por uma primeira leitura. Como não me atenho ao romance, passeio-me também por todos os géneros aqui.

A lista:

Século XIX. 1- Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett (1846); 2- A Filha do Arcediago, de Camilo Castelo Branco (1854); 3- A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis (1868); 4- O Primo Basílio, de Eça de Queirós (1878); 5- O Barão de Lavos, de Abel Botelho (1891). 

Século XX. 1- Húmus, de Raul Brandão (1917); 2- A Catedral, de Manuel Ribeiro (1920); 3 Andam Faunos pelos Bosques, de Aquilino Ribeiro (1926);4 4- Emigrantes, de Ferreira de Castro (1928); 5- Jogo da Cabra Cega, de José Régio (1934); 6- Ana Paula, de Joaquim Paço d'Arcos (1938); 7- Cerromaior, de Manuel da Fonseca (1943); 8- Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio (1944); 9- Servidão, de Assis Esperança (1946); 10- A Toca do Lobo, de Tomaz de Figueiredo (1947); 11- Cárcere Invisível, de Francisco Costa (1949); 12- Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira (1953); 13-: A Sibila, de Agustina Bessa Luís (1954); 14: Barranco de Cegos, de Alves Redol (1961); 15- A Torre da Barbela, de Ruben A. (1964);  16- O que Diz Molero, de Dinis Machado (1977); 17- Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1979-póstumo); 18: O Rio Triste, de Fernando Namora (1982); 19- Para Sempre, de Vergílio Ferreira (1983); 20- Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago (1995).

Século XXI. 2013: As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral.




quarta-feira, janeiro 30, 2019

vozes da biblioteca

«Apenas os relógios soavam as duas horas da sesta e ele -- surgindo inesperadamente, pois todos o julgavam na fazenda -- despachara a bela Sinhàzinha e o sedutor Osmundo, dois tiros certeiros em cada um.» Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela (1958)

«Era uma sala grande, estranhamente vazia, com sacadas para a avenida, em que havia aquelas secretárias muito altas, de se escrever em pé nos grandes livros de comércio, encostadas às paredes.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (1979, póst.)

«o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;»  Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)

domingo, janeiro 27, 2019

vozes da biblioteca

«Buck não lia os jornais; caso contrário, teria sabido das atribulações que o aguardavam, de Puget Sound a San Diego, a ele e a todo o cão que fosse rijo de músculos e de pêlo abundante e aconchegador.» Jack London, O Apelo da Selva (1903) (trad. Rui Guedes da Silva)

«Nada ali indicava uma luta, nem sequer o rasgão da musselina que parecia separado em duas partes: havia apenas o silêncio e uma embriaguês esmagadora onde ele se afundava, separado do mundo dos vivos, agarrado à sua arma.» André Malraux, A Condição Humana (1933) (trad. Jorge de Sena)

«Todas as jovens da região vieram nesse dia a Sevilha, as generosas cabeleiras pendentes brilhando à luz do Sol, emoldurando, graciosas, os rostos corados que se debruçam.» Pierre LouÿsA Mulher e o Fantoche (1898) (trad. Emanuel Godinho Lourenço)

terça-feira, outubro 09, 2018

«E ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis.» Cyro dos Anjos, O Amanuense Belmiro (1937)

«E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem.» José Saramago, Levantado do Chão (1980)

«Mas descobríamos, pouco a pouco, que não havia a mínima falsidade no que ele deduzia ou inventava, ou, o que era o mesmo, que ele vivia num mundo seu, onde não penetravam as ideias dos outros, e onde quanto ele pensava  tinha valor idêntico ao que houvesse pensado um Newton qualquer.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (1979)