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segunda-feira, outubro 02, 2023

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 «Distanciada do brasido, a velha panela, com uma perna já fracturada, fumegava, tecendo na boca negra do forno uma cortina vaporosa.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) / «E lá ia, que remédio!, de balde ao ombro, a espreitar alguma maracha que precisasse de engravatada, por oscilação das terras, ou canteiro mais soberbo por desequilíbrio da gleba.» Alves Redol, Gaibéus (1939) / «Quem o visse à distância, julgá-lo-ia um belo barco de recreio, garbosamente galgando a planura azul e mansa.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)

terça-feira, agosto 06, 2013

Manuel Ferreira: "as bocas famintas, senhor"

Empurrados do interior, os povos buscavam o litoral na esperança de uma mandioquinha, de um caldinho de peixe, de um cana para chupar, ou de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrasados pelos ventos da miséria. Nem a sopa da Assistência evitava que no alvor da madrugada a carroça da Câmara levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados, frios. Nem a sopa da Assistência o evitava, bem se pode dizer: as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar. 

início de Hora de Bai (1962), de Manuel Ferreira