Do
bucolismo enleado na contemplação dos campos, verdes como os olhos
da amada do sujeito poético, que é Camões, ele-próprio, em
Verdes
são os campos,
ao atrevimento insinuante com que responde ao mote de Francisca de
Aragão. Camões foi um dos muitos poetas que se encantou por esta
algarvia, que fundaria a casa de Ficalho, título outorgado por
Felipe II.
«Aquella
voluntad q(ue) se á rendido,
/ al
puro respla(n)dor d'aq(ue)llos ojos, /
por
quie(n) todo lo al po(n)go en oluido. (o castelhano como língua
culta da corte)»,
poetou
D. Manuel de Portugal, comendador de Vimioso, que Camões considerava
seu par. Composição galante, muito ao gosto dos equívocos
subentendidos e jogos de palavras que povoam o Cancioneiro
Geral,
de Garcia de Resende.
Ao
mote que lhe enviou D. Francisca, “Mas porém a que cuidados?”,
responde Camões com uma redondilha cuja estrofe última é
deliciosamente insinuante: «Ter nuns olhos tão fermosos / os
sentidos enlevados, / bem sei que em baixos estados / são cuidados
perigosos; / Mas
porém, ah! que cuidados!»
Seguida de uma carta, em que escreve, galanteador (e com que
sinceridade?):
Senhora
Deixei-me
enterrar no esquecimento de v. m., crendo me seria assi mais seguro:
mas agora que é servida de me tornar a ressuscitar, por mostrar seus
poderes, lembro-lhe que üa vida trabalhosa é menos de agradecer que
üa morte descansada. Mas se esta vida, que agora de novo me dá, for
para ma tornar a tomar, servindo-se dela, não me fica mais que
desejar, que poder acertar com este moto de v. m., ao qual dei três
entendimentos, segundo as palavras dele puderam sofrer: se forem
bons, é o moto de v. m.; se maus, são as glosas minhas