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terça-feira, maio 19, 2026

o que está a acontecer

«Para ele, sim, é que os campos estavam mesmo a jeito: ali à mão, bastava prolongar o muro junto ao renque dos pinheiros, pois do lado de baixo o Caima constituía vedação natural. E o senhor Esteves, bem falado e com um presente de trutas, devia estar pelos ajustes, porque, feitas as contas, sempre era melhor ganhar dez duma só vez do que cinco em toda a vida.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Que há[-de alguém] confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre do sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«"O pai foi o inventor do bowling, é isso?", perguntou Mister DeLuxe. "O pai estava sempre bêbado e jogava bowling com as garrafas vazias", insistiu Austin, "Molero fixa-se nisto como no elo de uma cadeia, é o que ele diz."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

terça-feira, maio 12, 2026

revista de imprensa

«Para o lobo o povoado não é uma aspiração: -- é uma necessidade. E quantas vezes o lobo encontra o seu quinhão tragado pelos vermes.!»

Ferreira de Castro, «"Os novos" -- Conceitos de Zaratustra», A Hora #1, 12-III-1922

(da edição fac-similada, apresentada por Paulo Samuel)

quinta-feira, maio 07, 2026

o que está a acontecer

«Até parecia injustiça de Deus que aqueles campos tão férteis, tão vastos, estivessem quase ao abandono, porque o senhor Esteves, sendo rico, morava na vila, nunca vinha ali e o rendeiro, velho e sovina, preferia deixar a terra sem cultivo a pagar a alguém que o auxiliasse.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Invejo -- mas não sei se invejo -- aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (póst., 1982)

«No meio, porém, da decadência dos Godos, algumas almas conservavam ainda a têmpera robusta dos antigos homens da Germânia. Da civilização romana elas não haviam aceitado senão a cultura intelectual e as sublimes teorias morais do cristianismo. » Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

quinta-feira, abril 09, 2026

o que está a acontecer

«não se preocupe, continuou, a conversa é mais para o distrair e, se ficar distraído sem reacção, também não lho levo a mal. é o que fez a liberdade, acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos, e podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano ouvia, com interesse, o filho, enquanto utilizava a língua como um palito, ora empolando a face direita, ora a esquerda. Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: -- Vamos lá a falar baixo. // -- "Chouriço de carne em óleo de mendobi", que raio será esta mistela avermelhada?... -- interrogava-se o Torrão, um soldado lingrinhas, uns olhos escuros de pardal brilhando debaixo da pala do quico, lendo o papel amarelo onde estava escrita a ementa:» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

sexta-feira, abril 03, 2026

o que está a acontecer

«um povo assim, está a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequívoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atenção. não tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

«Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho. Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para elementos do Partido Radical.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

« -- O filho da mãe que fez as correias tão estreitas é que devia andar aqui no mato a amargá-las com um saco às costas -- resmungou um soldado. / -- De-de-ve ser pa-pa-ra pou-pou-par -- gaguejou outro em resposta. / -- Chiu! -- mandou o furriel, chefe da equipa de cinco soldados. -- Vocês querem que os "turras" saibam que estamos aqui? -- interrogou com cara de poucos amigos. E sentenciou: vamos lá a falar baixo.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

segunda-feira, março 30, 2026

o que está a acontecer

«1. o fascismo dos bons homens - somos bons homens. não digo que sejamos assim uns tolos, sem a robustez necessária, uma certa resistência para as dificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens e ainda conservamos uma ingénua vontade de como tal sermos vistos, honestos e trabalhadores.» Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis (2010)

« -- O que me importa e irrita é essa mania que tu tens de achar bom tudo quanto é estrangeiro e mau tudo quanto é espanhol. Mas não me admira nada; mesmo nada; todos os teus correligionários são assim... / Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

«Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo; analisa-se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

terça-feira, março 24, 2026

o que está a acontecer

«Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisseias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos; mas ai, quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencerem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a  entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para toda a restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)

«Ao ver a expressão da irmã, Soriano julgou adivinhar nela uma discordância que se continha por falta de tempo para discutir. / -- Há muitas excepções, é claro, e tu és uma delas... -- acrescentou ele a sorrir. / Não é isso o que me importa -- interrompeu Mercedes, pousando a chávena.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

segunda-feira, março 16, 2026

o que está a acontecer

«Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986) 

«Em Espanha não só se come tarde, mas também se come demasiado. Provavelmente, o nosso carácter violento deve-se, em grande parte, ao excessivo trabalho que damos ao fígado... E é ver as nossas mulheres... Tão bonitas, tão sedutoras antes dos trinta anos! Mas, depois dos trinta, porque jantam tarde e se deitam, quase todas, em seguida ao jantar, começam a exibir umas ancas tão prósperas como se fossem mães de toda a Humanidade...» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada (1950)

«A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclito cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos incrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868) 

quinta-feira, março 05, 2026

António Lobo Antunes, para mim

Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado,  João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra  pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.  

sábado, fevereiro 21, 2026

o que está a acontecer

«No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora. / No convés lavado de fresco, Juvenal Gonçalves, o busto flectido sobre a amura, ressuscitava a pretérita visão, com tanta pureza emotiva como se, realmente, fosse a primeira vez que ali aproasse um navio.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Depois, já não é a praia nem o mar, é a serra, com os seus socalcos montanhosos, as escarpas verdes semeadas de xisto e de granito. Esvaíram-se as figuras de Natália, de Carolina, da pequena Laura, mas a montanha enche-se de outros vultos.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

terça-feira, fevereiro 17, 2026

o que está a acontecer

«Só depois de dobadas várias décadas sobre o dia em que Zarco se apossara da terra ignorada, é que o Atlântico se tornara, para os lusos, ser feminino -- Atlântida legendária e de novo virgem, que eles iam deflorando pouco a pouco, sob o impulso da ambição e da glória.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933) 

«Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer de saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinhoEça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Do plano desviado donde as observo, nenhuma rivalidade lhes perturba os modos brandos e sabe-me bem que assim seja. Agora, uma menina de cabelos escuros brinca sozinha, correndo descalça pela orla da espuma. Às vezes dobra-se, enterra as mãos na areia molhada, espera que a onda venha tocar-lhe os pés.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

o que está a acontecer

«O que estava para além, não se sabia; lendas e pensamentos estabeleciam cortina espessa, que vinha das alturas do céu, onde se acendiam as luminárias orientadoras, e, golpeando a enorme massa líquida, descia até profundidades abissais, julgadas sem fim. Proa que aspirasse a rompê-la devia ser de caravela onde apenas gesticulassem heróis ou loucos, votados, por livre desejo, à morte.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu salvador", enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Eu, que nunca fui poeta, não consigo ignorar o encanto docemente melancólico do crepúsculo, quando a noite desce devagar. Natália avança pela praia, os cabelos em rebuliço, a mão em pala sobre os olhos. Carolina aproxima-se pela outra banda, no seu passo inclinado. Quando as trajectórias de ambas se cruzarem, como dois raios de luz convergentes, as duas mulheres hão-de encarar-se sorridentes, segurando os vestidos que o vento quer levantar.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

sábado, fevereiro 07, 2026

o que está a acontecer

«Moram na viela íngreme e cascosa, que revê humidade em pleno Verão, velhas a quem só restam palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como um doido sobre uma coroa de lata que lhes enche o mundo todo.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Juvenal Gonçalves já o surpreendera, assim, de outras vezes.  Mas nunca, como agora, o emocionara tanto, fazendo-o reviver a sensação que deviam ter fruído, outrora, os descobridores, ao ver surgir o arquipélago. Até então, o Atlântico ainda era para os portugueses um elemento masculino, fero e enigmático.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Essa imagem não se ajustava à impressão que eu sentia. Quase no fim da Avenida, tinham os pardais ficado há muito para trás e ainda eu perseguia a ideia rebelde. "Absurda mania", disse comigo, fincando a bengala no passeio. E com imensa surpresa vi-me em frente da casa dos Albalongas.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)

domingo, fevereiro 01, 2026

o que está a acontecer

«Ràpidamente, atravessei as paralelas sombrias da Baixa, e, mais além, na Avenida da Liberdade, vendo o passeio oriental ainda morno de sol, achei ilógico subir pelo outro lado. Por cima de mim, os cachos de pardais enegreciam os troncos seminus, produzindo uma chilreada compacta. Dir-se-ia emanar das próprias árvores, pensei. Mas logo franzi o nariz. Não. Era outra coisa.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)

«Moram os que enriquecem no fundo das lojas, onde as fazendas petrificaram. Mora aqui o egoísmo que faz da vida um casulo, e a ambição que gasta os dentes por casa, o que enche a existência de rancores e, atrás de ano de chicana, consome outro ano de chicana.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Era vulto apardaçado nos extremos, erguendo, algures para o céu, um mamilo vulcânico e deixando que a sua encosta central se doirasse, suavemente, na luz matutina. Visto de longe, a medrar, a medrar parecia recém-nascido no mistério oceânico, para enlevo de olhos fatigados pela monotonia marítima.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

quinta-feira, janeiro 29, 2026

o que está a acontecer

«Moram os que moem, e remoem e esmoem, os que se fecham à pressa e por dentro com uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um ano, até chegar a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte.» Raul Brandão, Húmus (1917)

I. »Manhã alta, toda vestida de azul, com folhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte. Mais do que a terra próxima, como queriam os passageiros e a ciência náutica afirmava, dir-se-ia nuvem estática na luminosidade imperante.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

I. «Entreabre-se uma janela - "Este Novembro de 1917 continua frio mas dourado. Por isso eu hoje desci muito devagar a escadaria do banco e me detive a calçar as luvas, mirando a faixa de céu azul que sorria entre os prédios altos. Seria um verdadeiro crime não aproveitar a doçura da tarde...» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944) 

quinta-feira, janeiro 01, 2026

as minhas melhores leituras e releituras de 2025 (tanto quanto consigo lembrar-me...)

leituras:

As Mãos Sujas, Jean-Paul Sartre

Camilo Visto por José Régio (ed. Manuel Matos Nunes)

Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke

Chiquinho, Baltasar Lopes

Lições da História, Edgar Morin

Na Senda da Poesia, Ruy Belo

O Essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, Daniel Pires

O Príncipe com Orelhas de Burro, José Régio

Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen

O Livro dos Cavaleiros, Augusto Casimiro

Sonetos, Bocage (edição de M. Pinheiro Chagas)

Tempos Interessantes, Eric Hobsbawm


releituras:

Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo

Cardoso Pires por Cardoso Pires, José Cardoso Pires com Artur Portela, Filho

Cartas Portuguesas, Sóror Mariana Alcoforado

Frango com Ameixas, Marjane Satrapi

Homem de Palavras[s], Ruy Belo

Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

O Delfim, José Cardoso Pires

Sonho de uma Noite de Verão, William Shakespeare

Terra Fria, de Ferreira de Castro

Transporte no Tempo, Ruy Belo

quarta-feira, outubro 15, 2025

O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro

 

 


O Egipto, civilização eterna fundada há cinco mil anos (!), que continua a suscitar tanto interesse em todo mundo, deixou também um legado ao estado que continua a ostentar o seu nome -- o Egipto contemporâneo, que, como ainda hoje mesmo as notícias nos recordam, persiste como um dos países mais importantes à escala global, por várias razões.

Eça de Queirós e Ferreira de Castro visitaram-no com décadas de intervalo e em séculos diferentes (1869 e 1935). Romancistas diferentes, com idades diferentes, tal como diversas foram as circunstâncias em que por lá andaram, deixaram o testemunho escrito, tanto acerca do tempo dos faraós, como aquilo que os seus olhos puderam observar no terreno.

Sobre as diferenças e semelhanças dos dois olhares irá constar minha conversa,  nesta sexta-feira, 17 de Outubro, às 18 horas, no Museu Ferreira de Castro.


 

sábado, outubro 11, 2025

o que está a acontecer

«-- Se eu te tivesse conhecido recém-nascida, teria odiado em ti o rosto incaracterístico da criança, balofo, sem vontade, que ri como um ébrio: -- esse rosto divino que 18 anos mais tarde eu havia de amar pela perversidade do seu sorriso, pela voluptuosidade que dele se desprende e voa até aos meus sentidos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos. Abriram os camuflados, aspirando o cheiro ácido de suor que saía do peito, para se refrescarem.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angústias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitórias da Horta um bater surdo, encaixado.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

quinta-feira, outubro 09, 2025

zonas de conforto

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1925): «Paris, 14/10 // Meu caro Castro, // Como vai isso? Bem? Não sei se já lhe escrevi ou não. Ando arrasado das viagens, hábitos alterados... o diabo. O M. Domingues já veio? / Estou na R. Richer, 26 Pension Home. Se  for necessário qualquer coisa escreva até ao dia 20. / Recomende-me à "Tertúlia". Abraça-o o am.º e camarada / Jaime» Cartas a Ferreira de Castro (2006) - ed. Ricardo António Alves § Vergílio Ferreira: «Fomos a Fontanelas, levámos o Lúcio, de Bolembre. Lúcio cresce, distancia-se. Não decerto no afecto -- no que no-lo marcou como criança. Com ele, também, a fuga do tempo. A casa do Rogério -- o jardim. Súbita melancolia, o espectro do passado, ou seja da morte.» Conta-Corrente 1 (1980) § José Duarte: «Em nome do Pai... / e do Filho... / e de John Coltrane» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «É  preciso dizer que ele padecia do coração: -- moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico. / -- Para quê? disse o mestre. Isto passa.» «Cantiga de esponsais», Histórias sem Data (1884) § Manuel Tiago: «Mas em todo o seu físico, na rigidez do tronco e no dispor das pernas, nos gestos e olhares, transparecia qualquer coisa que o distinguia de um vulgar lavrador, qualquer coisa de arrogante, ousado e impertinente. Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § José Bacelar: «E pontos de vista todos eles igualmente admissíveis, todos eles dignos de atenção, todos eles justos. Assim, que, na complicada construção dum edifício, o carpinteiro considere tudo sob o ponto de vista da carpintaria, o pedreiro sob o ponto de vista da alvenaria, o pintor sob o ponto de vista da pintura, são realidades contra as quais o espírito livre nada tem que dizer. Nada mais natural -- e nada talvez mais necessário.» Arte, Política e Liberdade (1941) § Fialho de Almeida: «Duma ocasião, sozinho no meu quarto, eu considerava uma rosa branca que emurchecia num copo, tão triste! Disse-lhe assim: "Tu sofres!" Ela curvou-se mais sobre a haste, aquiescendo, e vi-lhe duas lágrimas nas pétalas. Nunca pude saber quem fosse esta mulher.»  O País da Uvas (1893) - «Pelos campos»