«No sonho redimo / o que só a viver / tem sentido.»
A Heroína Inventada», Marketing (1969)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«No sonho redimo / o que só a viver / tem sentido.»
A Heroína Inventada», Marketing (1969)
«Palavras foram o vinho / de uma sede inventada.»
«Palavras», Marketing (1969)
«Antes que o Inverno chegue / volto a ser cigarra. Canto.»
«Canto tardio», Marketing (1969)
«A infância foge dos braços / mas o peso continua: / é a vida que pergunta / quando acaba.»
«Evidência», Marketing (1969)
«Na varanda do vizinho / todas as manhãs / canta / a rola da minha infância.»
«Canto», Marketing (1969)
«Um dia a memória / Há-de falar-me desta chuva / e do que dentro da chuva foi / tédio distância pausa»
«Calendário», Marketing (1969)
«Estava eu nisto e chegou-me da Marconi / um telegrama em cifra / vindo de uma masmorra abjecta com pingos de água sobre o crânio / e nele o preso me dizia que não morrera que não morreria / que não falara que não falaria / pois acreditava na poesia.»
«Divagação», Marketing (1969)
«Eu sabia que a Lua era azul /antes de lá irem dar-me razão;» Marketing (1969)
«O pecado é humano portanto sejamos pecadores e / a pecar nos santifiquemos» Marketing (1969)
«A melhor das putas, a mais quebradiça e esquinada, conservada de luar e de exercício, ajoelhou-se aos pés dele e abraçou-lhe as pernas, dizendo frases que o senhor pode ler na tela do Pintor, em onomatopeia, que está agora no museu, por decisão camarária, das dez ao meio-dia e das duas às quatro.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) / «Eu já sabia que aquele povo subalimentado iludia o estômago com litradas de água e montes de verdura, às vezes ervas selvagens, numa sede provocada pelo sal dos alimentos.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «Mesmo emigrados, não esqueciam a Virgem Nossa Senhora: ainda estava para aparecer o primeiro que, meses andados, não Lhe mostrasse a sua gratidão e grau de prosperidade enviando jóias e dinheiro, lá desde os confins da Califórnia, para Lhe serem ofertados, mais jóias, até, que dinheiro porque não havia, na Ilha, onde cambiá-lo.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932)
«Cá fora, na rua, estava o senhor Joaquim, o dono do macaco e uma data de gente a que os jornais costumavam chamar "populares".» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984) / «Ele tirava o chapéu e ela abria a sombrinha sem que se passasse qualquer outra ligação entre eles.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) / «Quando voltei ao pátio, o velho espremia as mãos e falou-me como se tivesse as maxilas retesadas.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949)
«E na mesma noite noite boa noite branca / fumei Estoril Valetes Kayakes e bebi Compal / depois da Salus e da Schweppes / fumei quilómetros e quilómetros de prazer / quilómetros e mais quilómetros -- há um Ford no meu futuro -- / mais facturas mais fomes mais prazer / e agora já não sei qual dos cigarros com filtro me soube melhor.» Marketing (1969)
«Está tudo perfeito e deito-me no conforto de um Lusospuma / a ver as procissões a passar mesmo sem anjos mesmo sem anjos / que agora são selvagens e voam numa Harley.» Marketing (1969)
«A tarde estava quase no fim, uma tarde espessa e abafada.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «Lágrimas, gritos, lenços brancos, e ódio, ódio contra si próprios por haverem ficado, sabiam lá até quando, apegados àquela terra misérrima e àquela vida que criara odiosas raízes:» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932) / «Nasceu quase com o século, filho, como já vimos, de pai incógnito e de uma dessas heróicas mães solteiras, resignada à sua sorte e senhora do brio bastante para criar o filho de cara levantada.» A. M. Pires Cabral, »O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984)
«Era ele a única pessoa em quem verdadeiramente sentia uma angústia sem censuras.» Fernando Namora, «História de um parto«, Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «Há sempre um pingo que cai ou um surro que se forma ou qualquer outra coloração que disfarça a brancura evidente do branco.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) / «-- [...] O homem ficara com todas as aspirações de um deus e não era completamente deus.» Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954)
«Era como um lírio ou como a neve a impressionar-se de vincadas recordações -- ninguém se apercebera daquela sua aventura -- mas D. Branca não podia ficar toda a vida com a mesma cor -- é tão difícil conservar uma coisa completamente branca!» Ruben A., «Branca», Cores (1961) / «O pai da parturiente, um homem resignado, esperou-me com uns olhos em que havia prece.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «-- [...] O senhor já pensou que poderiam perfeitamente existir bosques aéreos e que o homem deveria andar no fundo dos mares ou no espaço celeste com tanta facilidade como anda aqui na terra?» Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954)
«Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha -- como lhe dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia -- "sentido Vénus".» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst., 1902) / «Os homens, o pai e o marido, esperavam cá fora, sentados numa laje que ocupava quase todo o pátio, onde se abria um canal para esgoto das urinas escapadas das furdas.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «Sobre o seu regaço, na flanela branca do fato, a cabeça negra do cão deixava-se afagar, olhando-a com reconhecimento, quando dois pequenos varinos enlutados se chegaram, pedindo esmola para a mãe, doente e viúva.» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa», De Braço Dado (1894)
«Até que a comadre, não suportando já as minhas hesitações, levou à frente das palavras um dedo sujo, antes que eu pudesse fingir uma reacção, enfiando os dedos nesse mistério impenetrável.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) / «Era coisa nova na época e D. Branca apetecia-lhe experimentar um estudante republicano, tinha mais cor, era mais vivo, fervia mais nos seus ideais avançados.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) / «Ou por falta de paciência para os desfazer um a um ou por lhe ser anojoso partir aqueles símiles de membros humanos, que lhe acordariam, porventura, remotas superstições, ele acercou-se do murozito e lançou os ex-votos, de uma só vez, para a profundidades do desfiladeiro.» Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954)
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.