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quinta-feira, março 30, 2023

mais do que um "divulgador"

Era um dos grandes escritores vivos, no que há crónica diz respeito. Fernando Lopes-Graça foi outro caso semelhante, um dos grandes do século passado, embora o próprio Lopes-Graça só se assumisse como músico e compositor, propositadamente, pois não queria contribuir para menorizar aquela que era a sua razão de ser, a música.

José Duarte, que morreu hoje, além de um ouvido sobredotado e uma capacidade nata de comunicar -- e não é nada fácil falar de música sem cair no oco lugar-comum --, foi um extraordinário escritor, como eu muitas vezes lho disse e até escrevi. Ele gostava, claro, e dizia-me que também Fernando Assis Pacheco lhe elogiava a forma, e esta, acrescento, não é menos importante que o fundo. Vai-se o homem com as suas imperfeições, ficam (não só) os livros. 

domingo, janeiro 02, 2022

diário de leitura

 «De uma maneira geral, parece que nos encaminhamos para uma clarificação de propósitos, para um "descongestionamento" de processos, para uma arte mais simples e, quiçá, mais "popular", mais profundamente enraizada no humus humano, hoje, depois da trágica prova do mais espantoso conflito da história, fertilizado pela dor e pela semente das ideias generosas e certamente melhor preparado para desabrochar em florescências menos particularistas e de sentido mais universal.» 

Fernando Lopes-Graça, nota à 2.ª ed. de Introdução à Música Moderna, 1946 

A interessante evolução do modernista-presencista Lopes-Graça para uma visão da arte empenhada, neo-realista, em divergência dos antigos companheiros da revista coimbrã, que não era de todo um bloco monolítico -- nem de resto poderia ser, sob pena de contrariar o espírito livre da presença.

quarta-feira, março 03, 2021

caracteres móveis

Crença. «Se não estivéssemos plenamente convencidos de que o pai de Hamlet morrera antes de começar a peça, não haveria no facto de ele passear à noite, pelas muralhas, envolvido pelo vento leste nada de mais extraordinário do que no de qualquer cavalheiro de meia idade aparecer intempestivamente depois de escurecer, num lugar ventoso -- o cemitério de St. Paul, por exemplo --, apenas para perturbar o espírito fraco de seu filho.» Charles Dickens, O Natal do Sr. Scrooge (A Christmas Carroll, 1843 - trad. Lucília Filipe).  


P
rogresso
. «Se o moderno é, pois, um critério de actualidade, se todos os grandes artistas, escritores ou pensadores de qualquer época histórica foram sempre modernos, quer isto dizer que eles foram sempre actuais, isto é: foram sempre determinados pelas forças vivas do presente, que são as forças agentes do futuro, as forças que operam o devir histórico, as que garantem a continuidade e o progresso da actividade humana.» Fernando Lopes-Graça

Soneto: «Assentado na orla dum soneto / ribeiro onde desliza minha mágoa» Cristóvão de Aguiar, Sonetos de Amor Ilhéu (1992)

Notas: Dickens: O narrador assegura-nos que Marley, o sócio de Scrooge estava morto («Isto deve ficar perfeitamente entendido, pois de contrário nada de maravilhoso ressaltará da história que vos vou contar.»). Ou seja, a "suspensão da descrença" de Coleridge, que certamente Dickens leu: quando lemos ou vemos ficção, a boa premissa será a de fingir para nós próprios que acreditamos no inverosímil que se nos apresenta. Lopes-Graça: O materialismo marxista aplicado à ponderação estética. Aguiar: ribeiro que lava as mágoas.

domingo, fevereiro 28, 2021

caracteres móveis

Castidade: «Afinal o caso era banal, simples e puro como castidade de santo.» Ruben A., «Sonho de Imaginação», Páginas I (1949).   Comentário: Não há nada menos banal e complicado do que a castidade de um santo. A pureza é sempre dos que conheceram a sujidade.


Do eterno:
«O moderno é de sempre, o moderno é o eterno.» Fernando Lopes-Graça, Introdução à Música Moderna (1942). Comentário: O agora nunca vem com prazo de validade.


Matéria: «Exagerado em matéria de ironia e em / matéria de matéria moderado» Cacaso, apud Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1974). Comentário: o antidogmatismo, explicado com inteligência.


Misérias (1): «Sempre existiu esta tendência da arte para desculpar um certo tipo de pessoas imorais ou facínoras. É uma das misérias da arte, cobertas por uma auréola de glória.» Gregorio Marañon prefácio ao Lazarilho de Tormes,  (trad. Ricardo Alberty) Comentário: Sobre a novela picaresca e a glorificação de patifórios, em especial o Lazarilho, que considera magistral. Donde se conclui que a arte não se compadece com bons sentimentos.


Misérias (2): «a credibilidade da historiografia portuguesa dos Descobrimentos nunca foi grande» Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses (1990). Comentário: Matemático de formação, é herdeiro, de certa forma do positivismo de Herculano; muito útil para desmontar as patranhas em que somos useiros e vezeiros. No entanto, falta-lhe o golpe de asa de um Cortesão, Jaime, com a sua doutrina do sigilo. Mas prefiro um positivista a um patranhioteiro.




Progresso: «Muito tem avançado a humanidade desde aquelas remotas idades em que o homem, talhando no sílex as suas ferramentas rudimentares, vivia das eventualidades da caça e apenas deixava como herança aos seus sucessores um buraco nos rochedos, alguns grosseiros utensílios de pedra -- e a Natureza imensa, incompreendida, com que tinha de lutar para manter uma existência miserável.» Piotr Kropótkin, A Conquista do Pão (1910, tradução de Manuel Ribeiro) Comentário: O ponto de vista que legitima o optimismo. Como racionalista, preciso de agarrar-me a ele.


Timidez. «A juventude que então arvorávamos não convencia ninguém e uma timidez desprotegida impedia-nos todos os passos em direcção aos empresários.» Ferreira de Castro, do «Pórtico» de A Curva da Estrada (1950). Comentário: Castro reporta-se ao início dos vinte anos, e de como a frustração de mil e uma dificuldades -- entre as quais a de uma timidez desprotegida (estava só e era novo na cidade) fazendo com que abandonasse a escrita de teatro, que ensaiava desde os tempos do Brasil. Ganhou-se, pelo menos, um romancista. 



domingo, janeiro 17, 2021

na estante definitiva

 


 «De maneira nenhuma este ensaio pode ser, nem pretende ser, um estudo exaustivo dos problemas que levantou, e levanta ainda, a música destas quatro primeiras décadas do século XX.»  Da «Advertência preliminar» à 1.ª edição, 1942; 2.ª ed., 1946, pp. 5-7.

Lopes-Graça era um extraordinário escritor, de primeira água e com nervo de polemista. Apresenta-se como músico que as circunstância levaram a escrever sobre música; mas, irónico, adverte «[...] não ser musicólogo -- palavra que o assusta, pelas responsabilidades que impõe a quem se adorna com ela.» E acrescenta que as circunstâncias levam-no pro vezes a escrever sobre música: quanto à primeira, diz não se para ali chamada -- e está-se a ver que a razão é política: tendo sido impedido de aceder ao lugar de professor do Conservatório, para cujo o concurso alcançara o primeiro lugar, tinha de ganhar a vida como professor de piano e escrevendo artigos aqui e ali; a segunda razão prende-se com a alegada incapacidade de dizer não aos convites que lhe dirigem a escrever sobras algo; finalmente a própria idiossincrasia, «[...] o impulso irreprimível que frequentemente nos assalta de sairmos com a pena a defender a música das mentiras, tranquibérnias e despautério com que constantemente a aviltam os próprios que se dizem seus servidores, seus sacerdotes, seus entendedores feros e esclarecidos.» E esta será sempre uma das melhores razões para alimentar uma disposição polemista notável: ideias arrumadas, convicções fortes e a ferramenta que maneja como um escritor de vastos recursos. E, conhecendo-se, avisa para um excesso de calor na prosa, «[...] um tal ou qual ardor prosélito, resulta isso de que nos é impossível escrever a sangue frio sobre um assunto que nos interessa profundamente [...]». Não sei se estava a ser sincero, que possa ser uma cortesia para com o leitor. Mas é precisamente  por cause desse ardor que as páginas de Lopes-Graça se lêem como peças literárias, e hoje tão bem como há oitenta anos.

quinta-feira, maio 05, 2016

uma carta de Viana da Mota

Viana da Mota (1869-1948) fora professor de Lopes-Graça (1906-1994) no Conservatório. O tema em apreço é o seuOpus 1, o excelente Variações Sobre um Tema Popular Português (1927). Eloquentíssima carta sobre as dificuldades da edição de partituras.
(ler)

quinta-feira, outubro 17, 2013

Fernando Lopes-Graça e a presença


Se me dão licença, o lançamento é já hoje, dia 19, na Casa Verdades de Faria -- Museu da Música Portuguesa, pelas 21 horas. Está tudo convidado.

domingo, março 17, 2013

Viana da Mota: humor de compositor


[Meu caro am.º]
Ia pois escrever-lhe para ali quando a M.ª da Graça me abalou todas as minhas suposições dizendo-me que lhe «parecia» que o seu «Quartel general» -- (-- gostava que me dissessem se há também um «Quartel tenente» ou um «Quartel sargento» e se não deveríamos dizer «Direcção general das Belas Artes --) era em Coimbra.

{a Fernando Lopes-Graça,  29 de Setembro de 1942]

in Fernando Lopes-Graça, Opúsculos (3), Lisboa, Editorial caminho, 1983.
(editor: FL-G)

sexta-feira, abril 15, 2011

Fantasia

cartaz original, 1940
Prossigo com as longas-metragens produzidas por Walt Disney. 
Com «Fantasia», os estúdios atingiram os píncaros da animação, provavelmente porque não se trata propriamente um filme para crianças, mas antes um produto com uma boa dose de vanguardismo técnico e conceptual.  Do fragmento inicial, «Tocata e fuga» de Bach, prestando-se à coloração das grandes massas sonoras trazidas por Stokowski, ao segmento final, representando a oposição entre as trevas e a luz, a «Noite no Monte Calvo», de Mussorgski, e o «Ave Maria», de Schubert. Pelo meio, algumas coisas a reter, desde logo a aprição do próprio Mickey no «Aprendiz de Feiticeiro», de Paul Dukas. Disney continuava a ousar. E, em Portugal, por ocasião da sua estreia, pouco depois, Roberto Nobre e Fernando Lopes-Graça assinavam uma maravilhada crítica conjunta nas páginas da Seara Nova...

sábado, outubro 01, 2005

Correspondências #15 - Viana da Mota a Fernando Lopes-Graça

Lisboa 3 de Abril 1936
Meu caro Senhor Graça
O Prado demorou imenso tempo a entrega das suas composições, depois levou ainda bastante tempo a encontrar o Sassetti, por isso só hoje lhe venho participar o que consegui do Sassetti.
Está pronto a editar as suas Variações, pelo gosto de ter nas suas edições uma obra sua, mas diz que o retraimento crescente do público não lhe dá esperança de cobrir as despesas de impressão. E que para obras vocais ainda a venda é mais resumida do que para o piano. Apesar da obrigação que incluímos no Conservatório de se apresentar uma peça portuguesa nos cursos superiores de piano e de canto a venda é limitadísima porque os alunos emprestam uns aos outros os exemplares.
Sei que este resultado não corresponde ao seu desejo, entretanto aconselho-o a aceitar a proposta do Sassetti, pois, embora as Variações não dêem, no seu entender, o aspecto exacto da sua personalidade actual, não fica por elas mal representado, visto serem m.º características e pessoais.
Infelizmente o Sassetti não pode, atendendo às despesas de impressão e pouca probabilidade de venda suficiente, oferecer-lhe nenhuma comissão.
Diga-me para onde quer que lhe mande as peças de canto e a Cena e dança.
Com os melhores cump.os
seu ded.º
J. VIANNA DA MOTTA
Não vi ainda a sua nota sobre os Nocturnos. Pode dizer-me em que n.º do Diabo ela saiu? M.º lho agradeceria.
Fernando Lopes-Graça, Opúsculos (3)

Fernando Lopes-Graça