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quinta-feira, janeiro 01, 2026

as minhas melhores leituras e releituras de 2025 (tanto quanto consigo lembrar-me...)

leituras:

As Mãos Sujas, Jean-Paul Sartre

Camilo Visto por José Régio (ed. Manuel Matos Nunes)

Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke

Chiquinho, Baltasar Lopes

Lições da História, Edgar Morin

Na Senda da Poesia, Ruy Belo

O Essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, Daniel Pires

O Príncipe com Orelhas de Burro, José Régio

Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen

O Livro dos Cavaleiros, Augusto Casimiro

Sonetos, Bocage (edição de M. Pinheiro Chagas)

Tempos Interessantes, Eric Hobsbawm


releituras:

Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo

Cardoso Pires por Cardoso Pires, José Cardoso Pires com Artur Portela, Filho

Cartas Portuguesas, Sóror Mariana Alcoforado

Frango com Ameixas, Marjane Satrapi

Homem de Palavras[s], Ruy Belo

Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

O Delfim, José Cardoso Pires

Sonho de uma Noite de Verão, William Shakespeare

Terra Fria, de Ferreira de Castro

Transporte no Tempo, Ruy Belo

sexta-feira, abril 04, 2025

a autobiografia de Eric Hobsbawm - II. frases

6. «O jazz introduziu a dimensão de uma emoção física isenta de palavras e de interrogações numa vida sob os seus demais aspectos quase monopolizada pelas palavras e pelo exercício intelectual.»

5. «A seguir ao sexo, a actividade que combina no máximo grau a experiência corporal e a intensidade da emoção é a da participação numa manifestação de massa em condições de extrema exaltação cívica.»

4. «Vivíamos a bordo do Titanic, e toda a gente sabia que o choque com o iceberg se avizinhava.»

3. «O sonho da Revolução de Outubro permanece algures vivo em mim, nalgum recanto da minha intimidade, como se se tratasse  de um desses textos que foram apagados, mas que continuam à espera, perdidos num disco duro de um computador, que um especialista apareça para os recuperar.»

2. «Não tenho qualquer obrigação moral de observar as práticas de uma religião ancestral e muito menos de servir o pequeno Estado-nação militarista, culturalmente frustrante e politicamente agressivo, que solicita em termos raciais a minha solidariedade.» (sobre Israel)

1. «A minha vida desenrolou-se ao longo de quase todo o século mais extraordinário e mais terrível da história humana.»

(continuação daqui)

Eric Hobsbawm, Tempos Interessantes -- Uma Vida no Século XX (2002) Trad. Miguel Serras Pereira, Porto, Campo das Letras, 2005

segunda-feira, fevereiro 10, 2025

a autobiografia de Eric Hobsbawm - .I impressões gerais

Terminei há pouco a leitura da autobiografia de Eric Hobsbawm (1917-2012), Tempos Interessantes -- Uma Vida no Século XX (2002). Nascido em Alexandria, filhos de um judeu inglês e de uma judia austríaca, a infância e adolescência decorrem na Viena pós-imperial, terminando na Alemanha hitleriana, onde se torna jovem comunista, e da qual se desterra para o seu país, a Inglaterra, onde tinha família que só então conhece, pouco depois da ascensão nazi.

Hobsbawm foi um dos grandes historiadores do seu tempo, aliando a análise marxista de base a um espírito simultaneamente crítico e criativo e não-dogmático. Pertencem-lhe ou desenvolveu conceitos como o da dupla revolução (Revolução Industrial e Revolução Francesa), "invenção da tradição", "o longo século XIX" (1789-1914) ou o "curto século XX" (1914-1991), nas suas obras mais emblemáticas: A Era das Revoluções: Europa 1789-1848 (1962), A Era do Capital: 1848-1875 (1975), A Era dos Impérios (1875-1914) (1987) e A Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991)  (1994). Foi também pela atracção pela cultura popular e pelo ethos dos marginais que escreve a esplêndida História Social do Jazz (1959) ou  Bandidos (1969), entre outros títulos.

Nestas memórias assume erros de avaliação, como observador-historiador e como político-intelectual. Crítico acérrimo do estalinismo, mas sem nunca cair na apologia do capitalismo ou inflectir para a direita, como sucedeu com tantos intelectuais, à medida que a leitura se desenrola estamos sempre à espera que ele anuncie a sua desvinculação do Partido Comunista da Grã-Bretanha, ao qual aderiu em meados da década de 1930: por exemplo, a tomada de Budapeste pelas tropas do Pacto de Varsóvia, em 1956 (que entre nós está na origem do abandono do PCP por Mário Dionísio). Quando verificamos que ele se mantém no PCGB -- a seu modo, é claro, e como intelectual de espírito objectivo -- por ocasião da Primavera de Praga e a repressão da liderança de Dubcek e do seu "comunismo de rosto humano", percebemos que ele nunca abandonará o Partido -- com maiúscula. No fundo, é o partido que se extingue (em 1991) com ele lá dentro. Percebe-se: velho comunista, renegar o partido seria, na minha interpretação, renegar-se a si próprio e ao trajecto em que consolidou o seu edifício historiográfico: mantendo-se marxista, mantém-se no Partido Comunista, no entanto com outra distensão, diferente da do jovem militante dos anos 30 a 50. Percebe-se também que se sente atraído pelo eurocomunismo de Berlinguer, criando fortes laços com o PCI, nomeadamente com Giorgio Napolitano, intelectual que viria a ser Presidente da República já neste século.

O meu desapontamento prende-se com ausência de referências a Portugal -- apenas duas, uma das quais certeiríssima, ao caracterizá-lo, num parênteses de um capítulo sobre a Espanha, como um "país enclausurado". Não aparecer o 25 de Abril e a revolução que se lhe segue é lastimável (nessa altura andava por outras paragens, mas ainda assim). Não aparece Cunhal, para o qual suponho não tivesse já grande paciência, mas duvido que não se entusiasmasse com Vasco Gonçalves e muito provavelmente com a Reforma Agrária. Há referências indirectas à Guiné Portuguesa e aos "criminosos da Unita"; o Brasil, com um pouco mais de sorte: Prestes, Kubitschek, Niemeyer e principalmente Lula, com quem priva, deliciado com a ascensão do PT. Também não aparecem os escritores, como os comunistas mais internacionalizados, Jorge Amado ou José Saramago, já Nobel e, pela igual ausência, parece que já não terá dado pelo Pessoa do Livro do Desassossego, cujas primeiras traduções na língua inglesa datam de 1991.

Judeu nascido no dealbar do seu short century, meio inglês-meio austríaco, e no olho do furacão nazi quando o extermínio começava, comunista num irrelevante PCGB, historiador assumidamente marxista e de largo alcance, excepto para lá da Cortina de Ferro, onde só foi traduzido na Hungria (sem esquecer a Iugoslávia, outra realidade, em esloveno), noutro post farei uma recolha de frases destes Tempos Interessantes. 

(ver também aqui, Hobsbawm a propósito de Louis Armstrong)


terça-feira, janeiro 21, 2025

'Tempos Interessantes'

Tempos Interessantes (2002) é o título da autobiografia de Eric Hobsbawm, à qual me lancei depois de ter arrastado penosamente a leitura duma porcaria de um livro, que era forçoso terminar. Como escrevia aqui o Jorge Amado, a propósito da implosão da União Soviética, é a História a desenrolar-se diante dos nossos olhos, desde ontem, com a tomada de posse de Donald Trump, a História a acelerar-se debaixo dos nossos narizes. A América assume o seu imperialismo (monroviano, para começar) e vai procurar, tant bien que mal, fazer as suas ententes com a China e com a Rússia.

A UE, a continuar com uma nulidade política como a Ursula -- espelhos doutras nulidades várias --, não sei como sairá daqui cinco anos, quando a senhora se reformar -- se é que ela se aguenta até lá. As outras flores da cúpula europeia são pau para toda a colher, fazem o que lhes mandam; como de costume, não contam. Porém, não estou a ver a UE aguentar-se na nova ordem mundial que se desenha sem uma profunda reformulação política e institucional, que será sempre impossível, creio, com a quantidade de estados que a compõem. A única solução para que a UE não acabe ou retroceda ao estádio de uma espécie de antiga CEE, é a do confederalismo (falo de algo sério, não de simulacros para inglês ver); mas os tempos não estão para isso. Ou estarão?... De qualquer modo, tratar-se-á de uma impossibilidade no actual quadro institucional.

No meio disto tudo, a grotesca vassalagem da Dinamarca (país tão estimável) diante da América, vai ter como paga a Gronelândia, a que de uma maneira ou de outra vai ter que dizer farewell (em dinamarquês). Mais uma vez: seria para rir, não fora trágico para a Europa, como se estava a ver desde o início, quando a UE aceitou subordinar-se à estratégia americana de confrontação com a Rússia -- estúpida estratégia delineada por estúpidos, com derrota certa.


segunda-feira, maio 03, 2021

1 disco, 1 música

Podia ser grande a dificuldade em escolher apenas uma faixa num disco todo ele excelente -- dificuldade com que me depararei muitas vezes, felizmente. Li algures tratar-se do melhor disco de Armstrong na década de 1950; que é extraordinário, basta ouvi-lo quem não for surdo. O próprio George Avakian, ciente do que ajudara a produzir, termina desta forma as liner notes: «The way I feel about this record, can be summed up this way: When I die, I want people to say: "That's the guy that if it hadn't been for him and Louis Armstrong and W. C. Handy, there wouldn't have been that great record, 'Louis Armstrong Plays W. C. Handy'."».

Em Dezembro de 2005 (vais fazer dezasseis anos...) escrevi este post  a propósito de Louis Armstrong Plays W. C. Handy (1954), um dos meus discos de eleição:

 «Nunca morrer sem ouvir e re-ouvir, muitas vezes, o álbum Louis Armstrong Plays W. C. Handy -- qualquer coisa como o pai do jazz a homenagear e tocar o pai dos blues, músicas que nenhum deles propriamente inventou mas que contribuíram decisivamente para fixar e standardizar. Handy (1873-1958) foi também uma espécie de etnomusicólogo, recolhendo e anotando uma série de temas que músicos anónimos negros iam tocando itinerantemente pelo sul dos Estados Unidos, à guitarra e ao banjo, e por vezes ao piano, durante o século XIX e princípios do XX. Este disco é uma jóia, e claro que lá estão aquelas que Eric Hobsbawm (também um grande crítico de jazz) considerou como algumas das melhores composições de Handy: «St. Louis Blues», «Memphis Blues», «Yellow Dog Blues» e «Beale Street Blues», datadas de 1912-16. Armstrong (trompete e voz) está soberbo, acompanhado por Velma Middleton (voz), Trummy Young (trombone), Barney Bigard (clarinete), Billy Kyle (piano), Arvell Shaw (contrabaixo) e Barrett Deems (bateria). Nas preciosas notas da contracapa, George Avakian dá-nos este testemunho do «pai dos blues»: «"I never thought I'd hear my blues like this." W. C. Handy said again and again. "Truly wonderful! Truly wonderful! Nobody could have done it but my boy Louis!"» [CBS, 1954]

E a faixa que escolho é a sétima, Beale Street Blues.  Beale Street, nas margens do Mississípi, em Memphis, onde tudo se passa, lícito e principalmente ilícito. Composta por Handy em 1916, fala-nos, nostálgica, do bruaá e da urgência da vida. Nenhum lugar trocaria o sujeito poético por aquele sítio de boa e má frequência, fremente de vida, até os taipais fecharem por morte de homem.

Satchmo, cantor extraordinário, dá-nos essa melancolia dos dias passados com tanta graciosidade... Nos solos, sempre fortíssima a trompete, com fraseado e comentários por clarinete e trombone. É ouvir, por favor, aqui.

Referências:

George Avakian: «[...] Louis sings and plays this 1916 classic to a fare-thee-well; this is one of the great blues of our time, and Louis gives it it's most memarable performance.» liner notes


quinta-feira, dezembro 15, 2005

Nunca morrer,


sem ouvir e re-ouvir, muitas vezes, o álbum Louis Armstrong Plays W. C. Handy -- qualquer coisa como o pai do jazz a homenagear e tocar o pai dos blues, músicas que nenhum deles propriamente inventou mas que contribuíram decisivamente para fixar e standardizar. Handy foi também uma espécie de etnomusicólogo, recolhendo e anotando uma série de temas que músicos anónimos negros iam tocando itinerantemente pelo sul dos Estados Unidos, à guitarra e ao banjo, e por vezes ao piano, durante o século XIX e princípios do XX. Este disco é uma jóia, e claro que lá estão aquelas que Eric Hobsbawm (também um grande crítico de jazz) considerou como algumas das melhores composições de Handy: «St. Louis Blues», «Memphis Blues», «Yellow Dog Blues» e «Beale Street Blues», datadas de 1912-16. Armstrong (trompete e voz) está soberbo, acompanhado por Velma Middleton (voz), Trummy Young (trombone), Barney Bigard (clarinete), Billy Kyle (piano), Arvell Shaw (contrabaixo) e Barrett Deems (bateria). Nas preciosas notas da contracapa, George Avakian dá-nos este testemunho do «pai dos blues»: «"I never thought I'd hear my blues like this." W. C. Handy said again and again. "Truly wonderful! Truly wonderful! Nobody could have done it but my boy Louis!"»