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sexta-feira, maio 15, 2026

revista de imprensa

 «Mas como erguer-se o sonho duma literatura, se esse sonho é abafado nesse cárcere de sombras?»

Eduardo Frias, «80% de analfabetos!!»,

Renovação #1, 2-VII-1925

sábado, outubro 11, 2025

o que está a acontecer

«-- Se eu te tivesse conhecido recém-nascida, teria odiado em ti o rosto incaracterístico da criança, balofo, sem vontade, que ri como um ébrio: -- esse rosto divino que 18 anos mais tarde eu havia de amar pela perversidade do seu sorriso, pela voluptuosidade que dele se desprende e voa até aos meus sentidos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos. Abriram os camuflados, aspirando o cheiro ácido de suor que saía do peito, para se refrescarem.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

«Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angústias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitórias da Horta um bater surdo, encaixado.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

domingo, outubro 05, 2025

o que está a acontecer

«Entrava em pormenores, Margarida ouvia-o agora vagamente distraída, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lâmpada defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

«Berenice silenciara-se também, nesse recanto deserto da popa do transatlântico: -- angustiada pela dor da partida: -- da partida do seu amante para um mundo que ela ignorava: -- e que só entrevia através duma neblina colorida, onde os seres e as coisas se revestiam de esplendores estranhos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«I.A Primeira Operação / 1. Um comando não tem fome nem sede... Finalmente veio a ordem desejada, murmurada no passa-palavra, da frente para a retaguarda da companhia de comandos: / -- Parar para almoçar, meia hora, a última equipa monta segurança.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

domingo, setembro 28, 2025

o que está a acontecer

«I- Quem o diria, Berenice?... Sim, porque quando tu nasceste eu já não era um adolescente: -- já tinha realizado aspirações, sofrido desilusões... / Mário d'Albuquerque calou-se por momentos: -- como se o sufocassem as recordações da sua mocidade já longínqua: -- dessa mocidade que já se perdia num céu de olvido e tristeza.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Permiti-me observar-lhe que estranhava, porque a arte dos que escrevem em "Orpheu" sói ser para poucos. Ele disse-me que talvez fosse dos poucos. De resto, acrescentou, essa arte não lhe trouxera propriamente novidade: e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982) 

« -- Demoro-me pouco... palavra! Cursos de milicianos... Moeda fraca! Para a infantaria, três meses. Se não fecharem os concursos para secretários-gerais, então aproveito. Bem sei que há só três vagas mais de cem bacharéis à boa vida... Mas não tenho medo das provas. Bastam algumas semanas para me preparar a fundo... rever a legislação.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944) 

segunda-feira, setembro 07, 2020

a arte de começar - Eduardo Frias (1895-1975) e Ferreira de Castro (1898-1974)

«-- Quem o diria, Berenice?... Sim, porque quando tu nasceste eu já não era um adolescente: -- já tinha realizado aspirações, sofrido desilusões...»

A Boca da Esfinge (1924)




sábado, maio 25, 2019

vozes da biblioteca

«Automaticamente os seus dedos nodosos iam enrolando novo cigarro, enquanto o ombro esquerdo procurava suporte no tronco rugoso dum sobreiro.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«E como a corroborar as últimas palavras da mulher, um criado passou pelo convés agitando uma grande campainha: -- miniatura de sino dobrando tristeza: -- avisando aos estranhos que estavam a bordo, que deviam abandonar o navio, porque este ia partir.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Já então um pouco obeso, mas empertigado por aquela volúpia do próprio mérito, que é sugestiva como um cartaz, -- principiava a usar o seu famoso chapéu preto de grandes abas, que implantava um pouco à banda, com audácia, sobre penungens dizimadas pela seborreia.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

quinta-feira, junho 14, 2018

«Berenice continuava silenciosa: -- quase abstracta: -- os olhos pousados sobre o largo cais: -- esse cais que o sol crepuscular ia empalidecendo: -- e onde uma multidão invejosa ou saudosa dos que partiam, aguardava que o vapor levantasse ferro.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Arrastava-me até casa, subia às apalpadelas, despia-me rezando fragmentos de velhas orações; e adormecia dum sono que parecia não dever ter fim.» José Régio, Jogo da Cabra Cega (1934)

«Com suas altivas lombas, as ramificações da montanha cercavam, de todas as bandas, a vila postada quase no fundo do grande vale, ao pé do Zêzere, que na paz crepuscular adquiria voz forte, correndo e cantando entre os penedais do seu leito.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947)

terça-feira, junho 06, 2017

começar

O Camilo é o Camilo, e o começo de Eusébio Macário é precioso, pela simplicidade, contrastando com o glit muito anos vinte e desinteressantemente "loucos" de Frias & Castro, mesmo que o romance tenha o seu quê para lá do ouropel, e com o malaise do protagonista de Castilho, aliás um nome seguro. Por isso, viva Camilo.

1879: «Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria.» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário

1924: «Quem o diria, Berenice?...» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge 

1989: «Se quisesse definir a invisível peste que o acordar me toldava a existência, a palavra seria bruma.» Paulo Castilho, Fora de Horas

quarta-feira, março 13, 2013

Jaime Brasil: "o último dos últimos"


[Meus caros...]

A mim q. tão afastado ando dos cenáculos literários e q. nas galés do jornalismo sou o último dos últimos, sensibilizou-me a vossa gentil manifestação de camaradagem espiritual.

[a Ferreira de Castro e Eduardo e Eduardo Frias, 20 de  Junho de 1924,
agradecendo A Boca da Esfinge]

Cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 2006
editor: Ricardo António Alves

quarta-feira, novembro 16, 2005

Figuras de estilo #14 - Ferreira de Castro e Eduardo Frias

O navio agora saía da barra: -- balouçava-se já sobre o crespo líquido do oceano.
E Cascaes, adormecida, vergastada pelo mar, dir-se-ia uma dessas povoações de pescadores que, vistas de noite, parecem cemitérios devastados.

A Boca da Esfinge