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sexta-feira, janeiro 03, 2025

fragmentos

«A tarefa do crítico é facilitada quando não se trata já duma primeira obra. Uma frase resolve tudo: "É pior que a anterior".» José Bacelar, Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana (1936)

«Ibsen diz-nos em Brandt ou Solness, não me recordo bem: "O que és, deves sê-lo em cheio". És um carpinteiro, um negociante, um pianista ou mesmo um trampolineiro? Sê-o em cheio, completamente. O que tem estragado a vida a muita gente, é o não terem sido nada, a valer. Sempre amadores em tudo, na mesquinha preocupação das almas fracas, de quererem equilibrar, contemporizar, contentar D. Quixote e Sancho Pança, nunca se atrevendo a ser um ou outro e a viver plenamente dentro do caminho traçado. Assim deslizam pela vida, ora recuando de Quichote para Sancho, ora avançando deste para aquele, sempre a procurarem-se sem nunca se encontrarem, sempre a procurarem ser e nunca conseguindo senão parecerEmílio Costa, «A esmo», Filosofia Caseira (1947)

«Luz e trevas são a mesma coisa, em ambas reside a mesma energia. Quem possui ouro no seu âmago tem de aprender a trabalhar com ele, para que as outras pessoas consigam ver que, por trás da aparente escuridão, existe um ser de luz, um ser luminoso. A luz vem das trevas, pois é aí que nasce a luz.» Rui Chafes, «O perfume das buganvílias»Entre o Céu e a Terra (2012)

sexta-feira, dezembro 13, 2024

fragmentos

«1. Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável.» Rui Chafes, «O perfume das buganvílias», Entre o Céu e a Terra (2012)

«A imensa maioria da gente subordina a opinião ao interesse, como norma de vida, raramente subordinando o interesse à opinião. Se, por infelicidade para a tua pessoa, pertences ao número, bem pequeno, dos que subordinam o interesse à opinião, lembra-te daquela verdade, para não seres sempre vítima.» Emílio Costa, «A esmo», Filosofia Caseira (1947)

«Uma máxima não pretende defender um ponto de vista ou indicar uma direcção; uma máxima constata, simplesmente. Não é pois um género actual.» José Bacelar, Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana (1936)

sexta-feira, janeiro 19, 2024

vermelho e negro

«Ânsia sublime de liberdade, que despedaça o ferro, que afronta as balas, que ludibria a própria morte!» Ferreira de Castro, «Evadidos!», A Batalha (1924)* / «Era tão bom que todos nos habituássemos a ser mais indulgentes para os simples erros ou lapsos alheios e olhássemos para a obra, apreciando-a no seu conjunto, avaliando a sua utilidade, e guardássemos os rigores para o que nós próprios fazemos!» Emílio Costa, «Os críticos implacáveis», Filosofia Caseira (1947) / «Qualquer contacto de sexos, que noutra hora seria ternura, no Carnaval há-de ser violência e sangue e estupro.» Jaime Brasil, «Carta do Povo sobre a loucura do Carnaval», A Batalha (1924)**


*Ecos da Semana -- A Arte, o Artista e a Sociedade (edição de Luís Garcia e Silva)  ** Voz que Clama no Deserto (edição de Elisa Areias e Luís Garcia e Silva, 2007)

quarta-feira, janeiro 03, 2024

vermelho e negro

«A actividade do jornalismo nunca deve abrandar, a sua consciência deve ter sempre o mesmo vigor, a sua pena o mesmo colorido, o seu sentimento moral a mesma justa intensidade.» Eça de Queirós, «Revista crítica dos jornais», Distrito de Évora (1867) / «Como Reclus teria sido para todos os Fígaros um sábio completo, se em vez de anarquista e de homem a contas com a polícia, tivesse sido um sábio neutro, ou consentisse em pôr o seu saber ao serviço duma função governamental!» Emílio Costa, «Recordando...», Seara Nova (1930) / «O funambulesco general, digno de opereta, se não levasse a cingir-lhe a cabeça bronca um diadema sinistro, um diadema de sangue mártir, de sangue da Liberdade, protesta contra a entrega à Rússia de determinados vasos de guerra, que à Rússia pertenciam...» Ferreira de Castro, «Sadoul, e Wrangel», A Batalha (1924)

quinta-feira, dezembro 28, 2023

vermelho e negro

«A ter de empunhar uma espada, que ela sirva para fazer triunfar algo que possua signos inéditos, algo que constitua uma nova aspiração; embora esta venha a fenecer em breve, como sucedeu na Rússia.» Ferreira de Castro, «Sadoul e Wrangel», A Batalha (1924)* / «Abrem-se nesta hora as válvulas dos instintos inferiores e os vícios ejaculam-se, em série.» Jaime Brasil, «Carta do Povo sobre a loucura do Carnaval», A Batalha (1924)** «Eliseu Reclus, com o seu vasto saber, desprezava honrarias -- não fingia desprezar, desprezava-as -- vivia pobre, preferia a companhia, a convivência dos operários, dos camaradas em ideias, dos discípulos de boa vontade; não confundia a legalidade com a justiça, nem a autoridade com a razão; e, ainda por cima, proclamava-se abertamente um libertário, um anarquista.» Emílio Costa, «Recordando», Seara Nova (1930)***


* Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade (edição de Luís Garcia e Silva, 2004); ** Voz que Clama no Deserto (edição de Elisa Areias e LCS, 2007); *** Eliseu Reclus (edição de EA e LGS, 2006).

sábado, março 05, 2011

caderninho - da calúnia

Escreve Emílio Costa*: «A quem nunca foi caluniado nem difamado, falta um elemento de muito valor para conhecer o mundo.»
Dizem que só se calunia e difama quem tem algum valor. Porque pode fazer sombra, porque a insegurança de quem calunia acusa a real ou suposta importância daquele que se torna alvo, etc., etc.
Eu, que sei já ter sido caluniado pelas costas, raramente peço explicações àqueles que não têm coragem de afirmar de caras o que insidiam às esconsas. Por algumas razões: em primeiro lugar porque não tenho grandes medos, nem de hipotéticos telhados de vidro -- lido bem com as minhas fraquezas. Não ter medo(s) é óptimo para ultrapassar as rasteirazinhas que nos vão fazendo. Depois, julgo ter um sentido crítico que relativiza o que não é importante e, principalmente, quem não é importante. Gasta-se boa parte do tempo a tropeçar em gente que não interessa, isto é: gente desinteressante. Por último, tenho cara de poucos amigos, quando quero. Há quem pense duas vezes antes de me aborrecer. Claro que preferiria que esse expediente estivesse ausente das relações humanas, menos por mim do que por aqueles que se degradam em praticá-lo.

* Filosofia Caseira, Lisboa, Seara nova, 1947, p. 157.