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sábado, maio 02, 2026

notas sobre «Mau Tempo no Canal», de Vitorino Nemésio

Caracterização: romance de costumes; romance de espaço; romance psicológico; romance social, autobiografismo 

Tema: o desencontro amoroso (tema eterno - José Régio), a questão de classe; o entendimento do casamento por Margarida 394-395.

Personagens -- o narrador mostra simpatia por todas Margarida Clark Dulmo, João Garcia, mas também o homossexual Ângelo ou patifes como Januário Garcia e Diogo Dulmo, não são desprovidos de humanidade. Ou seja, não são caricaturas, pecha muito apontada, por exemplo, ao Eça; 

Margarida: uma mulher e três homens: João Garcia, formado em Direito, mas poeta; militar de circunstância; Roberto Clark, o tio de Londres, muito na sua; André Barreto, o aristocrata de modos e extirpe recente, mas endinheirado;

Mateus Dulmo, o velho tio; os mortos, como Margarida Terra ou a moribunda mãe de João Garcia, Emília;

(Alfredo Nina – Jaime Brasil);

a memória de Fernão Dulmo (Ferndinand van Homen) - um dos primeiros povoadores da ilha Terceira, com mercê em 1486, por D. João II da capitania da Ilha das Sete Cidades e outras a descobrir.

Episódios: a "peste" (o imponderável); a caça à baleia (o trabalho); a hospitalidade e os dias passados na Urzelina; a tourada em São Jorge (o lazer); o epílogo perfeito: a serpente

Estratificação social: nobrezas antiga, burguesia recente e povo (Manuel Bana).

Atmosferas: paisagens, clima, o território (ilhéu, neste caso); o mar omnipresente.

Estilo ironia, graça, fluência, riqueza das imagens e das metáforas; Nemésio escreve como a água que corre -- já o escrevi e repito. 

Erudição profunda do esplêndido académico, dada com toda a naturalidade do grande poeta que foi.

quarta-feira, abril 01, 2026

Vitorino Nemésio, escrever como se respira

Vitorino Nemésio (1901-1978) é, consabidamente, um dos maiores escritores portugueses, não apenas do século passado. Grande como poeta, ensaísta, historiógrafo, atrevo-me a dizer (e não sou o único), que escreveu o  mais extraordinário romance da nossa literatura, Mau Tempo no Canal (1944). É um real atrevimento, sabendo que poderíamos convocar para esta distinção umas boas duas dezenas, pelo menos, de outras extraordinárias narrativas. A Nemésio eu poderia juntar, sem dificuldade um ou mais títulos de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Aquilino, Castro, Redol, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, Sena, Saramago, Cardoso Pires -- os grandes romances dos grandes.

Sem justificar, como deveria, a minha escolha por esta obra(-prima) do poeta de O Bicho Harmonioso (1938), apetece-me aludir ao seu estilo, que nos aparece como uma dádiva: Nemésio escreve como respira, sem se dar por isso, do mais trivial às mais profundas elucubrações, do breve registo oral às mais inesperadas ou cintilantes metáforas, com a naturalidade da água que corre; o que não sucede com a maioria dos seus pares, incluindo os atrás referidos, a não ser nos seus grandes momentos, que felizmente abundam. Como Nemésio, muito poucos me dão essa sensação num romance encorpado como a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia; talvez, apenas o melhor Eça, e Machado de Assis, do outro lado do Atlântico. 

segunda-feira, março 09, 2026

o que está a acontecer

«Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para França com a mulher, a sr.ª D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho, menino amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia e com o moleque.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula de que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbère, departamento dos Pirenéus Orientais, ladrara, nas gregas e mitológicas eras, um cão de três cabeças que ao dito nome de Cerbère respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu tratador.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)

«As pequenas impertinências, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue até doirar e poetizar a seu modo; esses microscópicos martírios, que de longe não avultam, actuam-nos, na ocasião, a ponto de nos inabilitar para o gozo do que é realmente belo.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

quarta-feira, março 04, 2026

o que está a acontecer

«Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)

«Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão. / O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«E quando soube que o sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro -- Jacinto "Galeão" correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando furiosamente: / -- Também cá não fico! Também cá não fico!» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

o que está a acontecer

«Naqueles três miúdos que brincam junto a um monte de urze, julgo reconhecer-me a mim e aos meus irmãos. Nas duas sombras que declinam mais à esquerda, parece que distingo o perfil curvado do meu pai e o semblante severo da minha mãe. Na figura debruçada sobre os declives pedregosos da encosta, o recorte de um livro na mão, reconheço Ernest e o seu hábito de venerar a paisagem.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

«Durante a guerra com o "outro, com o pedreiro-livre" mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrós atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar o couro.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de quando em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques  e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbático companheiro.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

sábado, fevereiro 21, 2026

o que está a acontecer

«No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora. / No convés lavado de fresco, Juvenal Gonçalves, o busto flectido sobre a amura, ressuscitava a pretérita visão, com tanta pureza emotiva como se, realmente, fosse a primeira vez que ali aproasse um navio.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Depois, já não é a praia nem o mar, é a serra, com os seus socalcos montanhosos, as escarpas verdes semeadas de xisto e de granito. Esvaíram-se as figuras de Natália, de Carolina, da pequena Laura, mas a montanha enche-se de outros vultos.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

terça-feira, fevereiro 17, 2026

o que está a acontecer

«Só depois de dobadas várias décadas sobre o dia em que Zarco se apossara da terra ignorada, é que o Atlântico se tornara, para os lusos, ser feminino -- Atlântida legendária e de novo virgem, que eles iam deflorando pouco a pouco, sob o impulso da ambição e da glória.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933) 

«Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer de saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinhoEça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Do plano desviado donde as observo, nenhuma rivalidade lhes perturba os modos brandos e sabe-me bem que assim seja. Agora, uma menina de cabelos escuros brinca sozinha, correndo descalça pela orla da espuma. Às vezes dobra-se, enterra as mãos na areia molhada, espera que a onda venha tocar-lhe os pés.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

o que está a acontecer

«O que estava para além, não se sabia; lendas e pensamentos estabeleciam cortina espessa, que vinha das alturas do céu, onde se acendiam as luminárias orientadoras, e, golpeando a enorme massa líquida, descia até profundidades abissais, julgadas sem fim. Proa que aspirasse a rompê-la devia ser de caravela onde apenas gesticulassem heróis ou loucos, votados, por livre desejo, à morte.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu salvador", enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Eu, que nunca fui poeta, não consigo ignorar o encanto docemente melancólico do crepúsculo, quando a noite desce devagar. Natália avança pela praia, os cabelos em rebuliço, a mão em pala sobre os olhos. Carolina aproxima-se pela outra banda, no seu passo inclinado. Quando as trajectórias de ambas se cruzarem, como dois raios de luz convergentes, as duas mulheres hão-de encarar-se sorridentes, segurando os vestidos que o vento quer levantar.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

sábado, novembro 01, 2025

o que está a acontecer

«Tinham acabado de almoçar. / A sala esteirada alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em Julho, um domingo; fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé da água; nas duas gaiolas, entre bambinelas de cretone azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«-- Olhava em torno de esguelha, com lumes de esperteza no canto do olho. / -- Lá vem o Chumbo. Aquele é o Antero Chumbo. / Eram baforadinhas sonoras que ele saboreava como um perfume. Sorvia o comentário, seduzindo-o, provocando-o.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

«Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é a paixão comum de exercícios diferentes, ou o exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia se vingança.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

quarta-feira, outubro 29, 2025

o que está a acontecer

«Ficara sentada à mesa a ler o "Diário de Notícias". Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soustache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis e rubis miudinhos davam cintilações escarlates.» Eça de Queirós, O Primo Basílio (1878)

«Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes os seu exercício.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972) 

«Havia certa imponência no seu jeito de segurar com os dedos claros, de unhas roídas, uma pasta acorcodilada e sempre pletórica. O andar, cuja morosidade provinha de infidelidades ao pedicuro, convertia-o ele numa altiva pachorra ao singrar entre mesas a caminho do seu cenáculo, como lanchão bojudo coleando no porto em demanda do cais.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória (1947)

quarta-feira, outubro 15, 2025

O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro

 

 


O Egipto, civilização eterna fundada há cinco mil anos (!), que continua a suscitar tanto interesse em todo mundo, deixou também um legado ao estado que continua a ostentar o seu nome -- o Egipto contemporâneo, que, como ainda hoje mesmo as notícias nos recordam, persiste como um dos países mais importantes à escala global, por várias razões.

Eça de Queirós e Ferreira de Castro visitaram-no com décadas de intervalo e em séculos diferentes (1869 e 1935). Romancistas diferentes, com idades diferentes, tal como diversas foram as circunstâncias em que por lá andaram, deixaram o testemunho escrito, tanto acerca do tempo dos faraós, como aquilo que os seus olhos puderam observar no terreno.

Sobre as diferenças e semelhanças dos dois olhares irá constar minha conversa,  nesta sexta-feira, 17 de Outubro, às 18 horas, no Museu Ferreira de Castro.


 

sábado, agosto 16, 2025

zonas de conforto

«Mas na grande mudez e no silêncio sente-se o arfar reprimido dos peitos. / -- Jesus há-de voltar para nos dar a terra. / -- Voltar?! Os pobres hão-de ser sempre pobres! / -- Não -- teima o Manco, com o cigarro ao canto da boca --, os ricos que fiquem com o dinheiro, mas a terra é dos probes.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931) 

«E adiante, num pinheiral, apesar de luzir no alto a estrelinha da tarde, e o bom trabalhador ter fome, parou até encher o saco de uma velhinha que, tremendo, e arrimada a um bordão, apanhava agulhas e pinhas. A velha murmurou: "Deus te dê alegria em tua casa!"» Eça de Queirós, S. Cristóvão (c. 1891/1912)

«Barrelas vestia-se com a estopa e o linho dos seus linhares e o burel apisoado das próprias ovelhas. Uma capucha de marca durava dois dias. / No Outono, assim que as sombrias começavam a cair nas esparrelas, um cristão recolhia-se à toca. Lar bem sortido de lenha, de porco na salgadeira, pipinha com o espicho a compasso, o boizana do temporal podia bufar.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)

segunda-feira, agosto 11, 2025

zonas de conforto

«Palavra era palavra, mais ouro de lei que uma peça de D. João. Assinava-se de cruz e muito judeu seria aquele que negasse os dois rabiscos lavrados de seu punho, porque não era só negar dois rabiscos, mas o grande sinal de lisura e de verdade que Jesus Cristo deixou aos homens ao morrer num madeiro para nos remir e salvar! Vão lá agora com essas!...» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)

«O rapaz tornou a tolher-se de medo, e perguntou a meia voz: / -- Seria a alma? / -- Do senhor capitão-mor? Não me pareceu; que ela ia de saia escura e levava um saiote pela cabeça. / Neste comenos, descia o moleiro do lado da serra pela barroca escura com dois jumentos carregados de foles, e vinha cantando: // Já fui canário do rei, / Já lhe fugi da gaiola, / Agora sou pintassilgo / Destas meninas d'agora.»  Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)

«Diante de cada cruz pregada nos troncos da mata, tirava o seu barrete de pele de coelho, rezava uma ave-maria. Ao passear na lagoa, mais reluzente, sob a amarelidão da tarde entre os seus altos canaviais, que uma moeda de ouro nova, deixou um molho de carqueja e de achas para o ermita, que ali erguera a sua choça de rama.» Eça de Queirós, S. Cristóvão (c. 1891/1912)

sexta-feira, agosto 08, 2025

zonas de conforto

«E, vejam, o meu rico linhar do Paul -- água quanta quer, estrume do cortelho, sacho e mais sacho -- não paga a mantença do cultivador! / Voltou-se tudo; de meu tempo, também, homem de palavra era como se trouxesse sempre consigo um alforge de libras. Ajustava o que queria e levantava o que queria de proprietários e de tendeiros.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)

«Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sobre as frondes ressoavam as buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas, um lenhador, um servo, de surrão de estamenha, que rijamente trabalhara no souto desde o cantar da calhandra, prendeu a machada ao cinto de couro, e, com a sua égua carregada de lenha, recolheu pelos caminhos da aldeia, ao castelo do seu Senhor.» Eça de Queirós, S. Cristóvão (C. 1891/1912)

«-- Tu onde vás a esta hora?! / -- Vou à cata de uma cabra. Você viu-a? / -- Eu não. Olha lá, a tua ama Zefa também anda à procura da cabra? / Àgora! A senhora Zefinha está doente há mais de mês e meio na cama. / -- Isso sei eu; mas havia de jurar que a vi saltar agora o portelo da cortinha do rio! Se não era a Zefa era o demo por ela!» Camilo Castelo Branco, Maria Moisés (1876-77)

quinta-feira, junho 12, 2025

há 150 anos com as mãos nos bolsos


Faz hoje 150 anos que o genial Rafael Bordalo Pinheiro criou o Zé Povinho, caricatura do povo português, que ficou sem o que fazer depois da independência do Brasil. Gonçalo Mendes Ramires bem sugeriu  África como remédio para a apatia, mas já era tarde. Bordalo pertencia a essa Geração de 70, a mais crítica da nossa contemporaneidade -- Santo Antero, papá Eça, avô Ramalho, tio Joaquim Pedro, philosophe... 

Queriam-nos mais europeus, sem deixarmos de ser portugueses. Os mais expeditos, ambiciosos, aventureiros emigraram; os outros ficaram, agarrados à enxada.  Salazar ajudou bastante, até que, faz hoje quarenta anos, Mário Soares assinou a nossa inevitável adesão à CEE, no claustro dos Jerónimos 

Imagem magnífica a da cerimónia no vetusto monumento doutras eras, e também túmulo do venturoso Manuel I: o que éramos e o que queríamos ser. Numa geração, passámos da enxada ao 5G. 

Como escreveu o Almada Negreiros, "Coragem portugueses", etc.


Rui Ochôa


quarta-feira, junho 11, 2025

o que está a acontecer

«A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete.» Eça de QueirósOs Maias (1888) 

«I. Óbito do autorAlgum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.» Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

«Debalde muitos homens de génio revestidos da autoridade suprema tentaram evitar a ruína que viam no futuro: debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquelas eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

terça-feira, junho 10, 2025

o que está a acontecer

«Vendo-o assim, "Piloto" hesitou um instante, enquanto agitava mais a cauda e tremuras de alegria lhe percorriam o corpo. Logo se decidiu. E, humilde, foi colocar o focinho sobre a coxa do amo, como era seu costume, quando este o chamava, à hora da comida, nos dias em que os dois andavam pastoreando o gado, lá nos picarotos da serra.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947)

«Quando o chefe voltou, depois do expediente e do sinal de partida, padre Dionísio, que aguardara solitário relanceando morosamente a vista, saiu-lhe ao encontro e inquiriu se não viera ao comboio qualquer pessoa da herdade dos Cardeais-» Manuel Ribeiro, A Planície Heróica (1927)

«Em 1875, nas vésperas de Santo António, uma desilusão de incomparável amargura abalou o meu ser; por esse tempo, minha tia D. Patrocínio das Neves mandou-me do Campo de Santana, onde morávamos, em romagem a Jerusalém: dentro dessas santas muralhas, num dia abrasado do mês de Nizam, sendo PONCIUS PILATUS procurador da Judeia, ELIUS LAMMA legado imperial da Síria e J.-KAIAFA Sumo Pontífice, testemunhei, miraculosamente, escandalosos sucessos: depois voltei -- e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral.» Eça de Queirós, A Relíquia (1887)

terça-feira, junho 03, 2025

o que está a acontecer

«Decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha Vida -- que neste século, tão consumido pelas incertezas da Inteligência e tão angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa o meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte.» Eça de Queirós, A Relíquia (1887)

«Nenhum outro passageiro descera. Dois homens rústicos, tipos de guardadores de gado, de mantas e safões de pele de ovelha, ostentando militarmente cajados altos como armas em descanso, atentaram nele, curiosos, pasmados, mas sem quebrarem suas atitudes rígidas, indiferentes àquele estranho que chegava.» Manuel Ribeiro, A Planície Heróica (1927)

«Horácio estava junto de Idalina, também conhecida de "Piloto"; estavam sentados num dorso de rocha que emergia da terra, ao cabo das decrépitas e negrentas casas do Eiró, no cimo da vila. E tão atarefado parecia Horácio com as palavras que ia dizendo à rapariga, que não deu, sequer, pela chegada do cão.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947)

quinta-feira, março 27, 2025

o que está a acontecer

«I. Os Rebanhos. Logo que as cabras entestaram à corte, o "Piloto" deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os serviços, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoroçoado da vida. Subitamente, porém, sorveu no ar algo que lhe era conhecido.» A Lã e a Neve (1947)

«Diante dessa varanda, na claridade forte, pousava a mesa -- mesa imensa de pés torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada nessa tarde pelos rijos volumes da "História Genealógica", todo o «Vocabulário» de Bluteau, tomos soltos do "Panorama", e ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott, sustentando um copo de cravos amarelos.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)

«Era uma paixão, uma paixão da alma, a mocidade na velhice, essa ânsia impotente dum coração que quer romper os tecidos atrofiados de cinquenta e cinco anos para dar quatro pulos em pleno ar.. / Quem era a vítima desta paixão impetuosa? Uma menina de quinze anos, que a leitora, enjoada das indecentes cuecas do Sr. Silva, pode ver, no segundo andar desta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata maltesa no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

domingo, março 23, 2025

o que está a acontecer

«A livraria, clara e larga, escaiolada de azul, com pesadas estantes de pau-preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos fólios de convento e de foro, respirava para o pomar por duas janelas, uma de peitoril e poiais de pedra almofadados de veludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela madressilva, que se enroscava nas grades.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)

«O negociante representava cinquenta e cinco anos, bem conservados. No olho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, nesta ocasião, tinha um terçollho, e inflamado,  de mais a mais, pelo calor. / Além do dito, o Sr. Silva estava sofrendo um segundo terçolho no espírito.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854)

«A escuridão remexe. Não se sabe bem onde o sonho acaba e começa a matéria, se é uma cidade desconforme, sepulta em treva e lavada em lágrimas, ou meia dúzia de casebres e uma torre banal. Uma luzinha alumia um Cristo aflitivo na abóboda de pedra sustentada por quatro arcos ogivais.» Raul Brandão, A Farsa (1903)