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terça-feira, maio 19, 2026

o que está a acontecer

«Para ele, sim, é que os campos estavam mesmo a jeito: ali à mão, bastava prolongar o muro junto ao renque dos pinheiros, pois do lado de baixo o Caima constituía vedação natural. E o senhor Esteves, bem falado e com um presente de trutas, devia estar pelos ajustes, porque, feitas as contas, sempre era melhor ganhar dez duma só vez do que cinco em toda a vida.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Que há[-de alguém] confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre do sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«"O pai foi o inventor do bowling, é isso?", perguntou Mister DeLuxe. "O pai estava sempre bêbado e jogava bowling com as garrafas vazias", insistiu Austin, "Molero fixa-se nisto como no elo de uma cadeia, é o que ele diz."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

quarta-feira, maio 13, 2026

o que está a acontecer

«O apeadeiro desapareceu. Um padre pediu à CP que lhe desse as belas pedras de granito das paredes e do cais, levou-as para a vila e fez com elas uma casa para a terceira idade. O local foi arrasado, mas por desleixo ou esquecimento deixaram as placas que avisavam do perigo de atravessar desatento a linha.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

«["] Há passagens do relatório que esclarecem o problema, passagens aparentemente insignificantes, mas que talvez sejam efectivamente outra coisa, como o facto de o pai jogar bowling com garrafas, quando lá no bairro ainda ninguém sequer sabia o que era o bowling, isto depois de beber o conteúdo das garrafas, eram garrafas de vinho, cerveja, aguardente e o mais que viesse, ele ficava bêbado e depois jogava bowling e partia as garrafas com uma grande bola de prata de chocolates, e o rapaz ficou sempre com o som nos ouvidos, o som de garrafas partidas enchendo a noite, um perpétuo estilhaçar de nervos."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

quinta-feira, março 05, 2026

António Lobo Antunes, para mim

Apanhei o Lobo Antunes no início dos anos 80. Surge num período de renovação da ficção portuguesa, nos temas e modo de narrar, atingindo um público mais vasto (Dinis Machado,  João de Melo, Carlos Vale Ferraz), embora exemplos houvesse já de fuga ao rame-rame discursivo com Nuno Bragança e, antes de todos, Ruben A. Antes de todos, o que não era para todos. Sim, obviamente Memória de Elefante e Os Cus de Judas (ambos de 1979). Com Auto dos Danados (1985), tornou-se para mim evidente que estávamos diante de um grande. Depois distanciei-me, nem sei bem porquê -- necessidade de ler outras coisas e outros autores, provavelmente. Fui mantendo contacto com as crónicas, sempre de nível alto, embora outros cronistas tivessem a minha preferência, por exemplo Augusto Abelaira ou Vasco Pulido Valente. Por vezes era surpreendido pelas letras de canções para o esplêndido Vitorino. Aquelas diatribes com o Saramago irritaram-me, tornaram-.no mesquinho ao meus olhos. Se há coisa que não perdoo, sobretudo num escritor, é a mesquinhez. Lembro-me que o Ferreira de Castro, quando escreveu pela primeira vez sobre o Raul Brandão, afirmou que não o conhecia nem queria conhecê-lo, precisamente por isto. (É claro que viriam a relacionar-se.) Há poucos anos li o Sôbolos Rios que Vão (2010), que alguns apontam como o seu grande livro dos últimos anos. Não me parece, mas não serei taxativo sem uma releitura. Não trocaria uma página do Autos dos Danados por todo o Tôdolos; como não troco o Finisterra  pelo Uma Abelha na Chuva, do Carlos de Oliveira. Continuarei com livros do Lobo Antunes ao longo da vida, os mesmos livros e certamente outros. É o melhor que os escritores nos deixam; é só, na verdade, o que realmente interessa.  

terça-feira, novembro 18, 2025

o que está a acontecer

«Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás de aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«No desânimo da sua mágoa, posso ser tudo: participante, juiz, padre confessor, irmão mais velho. Enquanto eu apenas oiço ecos. Uns dele, outros do meu íntimo, alguns que não sei o que os causa, nem de que fundos aparecem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

«"É óbvio", disse Mister DeLuxe, "não estou a falar dos burriés, estou a falar das idiossincrasias de Molero". Debruçou-se sobre a secretária e virou uma folha do calendário de mesa. "Ainda estávamos no dia de ontem", disse ele. "Temos várias pistas", disse Austin, "um tabique, uma casca de banana, uma sina, um escarrador, uma tela de Miró, uma mancha negra debruada a vermelho.["]» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

terça-feira, novembro 11, 2025

o que está a acontecer

«Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos? // 1/3/71» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

«"O quê?", perguntou Mister DeLuxe. "É curioso pensar", disse Austin, passando por cima da pergunta directa, "que o rapaz tirava burriés do nariz quando era pequeno, mas não os comia logo". "Hã?", fez Mister DeLuxe. "Não os comia logo", acentuou Austin, "colava-os à parede para os comer no dia seguinte".  Houve uma pausa. "Gostava deles secos", explicou.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

«Ele retomará o seu desabafo, avivando detalhes, corrigindo versões. Por vezes, a certificar-se de que o sigo ou precisado de cumplicidade, faz de mim testemunha, cada frase torna-se um pedido de compreensão. E porque eu digo que compreendo, para ele é como se eu também tivesse estado presente.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

quarta-feira, novembro 05, 2025

o que está a acontecer

«"Teve uma infância estranha", disse Austin. "Em última análise, todas as infâncias o são", disse Mister DeLuxe. "Molero diz", disse Austin, "que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

«Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício do seu sentido.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

«Ao fim da tarde acabo o meu passeio pelos montes e desço até ao ribeiro. Ele vem pela encosta fronteira, devagar, travado pelas ovelhas que só se mexem depois da boca cheia. Vemo-nos a uma boa hora de caminho um do outro, dois pontos longínquos, e mesmo sem nunca o termos confessado, sabemos que esse momento é para ambos um conforto, a revivência da camaradagem que de crianças nos levava a procurarmo-nos.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)

sexta-feira, maio 03, 2024

curtas

«A melhor das putas, a mais quebradiça e esquinada, conservada de luar e de exercício, ajoelhou-se aos pés dele e abraçou-lhe as pernas, dizendo frases que o senhor pode ler na tela do Pintor, em onomatopeia, que está agora no museu, por decisão camarária, das dez ao meio-dia e das duas às quatro.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) «Eu já sabia que aquele povo subalimentado iludia o estômago com litradas de água e montes de verdura, às vezes ervas selvagens, numa sede provocada pelo sal dos alimentos.» Fernando Namora, «História de um parto», Retalhos da Vida de um Médico (1949) «Mesmo emigrados, não esqueciam a Virgem Nossa Senhora: ainda estava para aparecer o primeiro que, meses andados, não Lhe mostrasse a sua gratidão e grau de prosperidade enviando jóias e dinheiro, lá desde os confins da Califórnia, para Lhe serem ofertados, mais jóias, até, que dinheiro porque não havia, na Ilha, onde cambiá-lo.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932)

sexta-feira, abril 05, 2024

curtas

«A notícia correu célere, deu três pancadas nas portas (era assim que corriam as notícias), as putas vieram ver o turista, os chulos quedaram-se, inquietos, a trinta metros, o Franciú pintou os lábios, as gaivotas suspenderam momentaneamente o voo, cristalizadas no ar, e o Pintor aproveitou para fixar na tela o que nunca mais voltaria a acontecer: o homem de preto tirou a harpa do ombro e dedilhou nela sons prateados que deslizaram ao longo da pedra do cais e se espalharam no dorso das ondas, tornando-as mais oleosas.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) «Não foi à escola; ao invés, ainda não teria os doze anos, ganhava o pão que comia como paquete da casa Miranda, a mais fidalga da aldeia, com casa apalaçada e vastos domínios em vinha, horta, olival, mata e lameiro.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) «Nenhum dos parentes ou amigos que emigrassem, se esquecia de lhes descrever os locais onde cada um trabalhava: granjas com estábulos para centenas de vacas, e mencionar as comodidades e gozos que desfrutavam: casas tão confortáveis que não havia uma sem cortinas nas janelas, e restaurantes e dancings onde uma pessoa se divertia até se esquecer de quem era.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932)

terça-feira, março 12, 2024

curtas

«Ele, rapaz fino de Lisboa, apenas queria brincar com a beleza tenra e limpa de D. Branca.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) / «Quando os marítimos começaram a andar nos barcos com as lanternas penduradas nos cintos, para não chocarem nas cobertas uns com os outros, dado o adiantado da hora, ou para chamarem a noite (tenho a satisfação de deixar isso ao seu critério), chegou ao cais um homem vestido de preto, com chapéu musical, sapatos poéticos, lama nos colarinhos, uma harpa ao ombro e um colete que seria laranja, se trouxesse colete.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) / «Surpreendeu-o a figura de sua mulher, de pé, na franja de espuma, que a onda deixava, na areia, um pouco curvada no empenho de procurar, afastando-se, quando o mar avançava na subida, correndo atrás da resaca, que cada vez deixava menos espaço para a sua empresa.» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa», De Braço Dado (1894)

terça-feira, março 05, 2024

curtas

«A este tempo Carlos, para quem passara desapercebida a cena anterior, saiu da barraca, aconchegando o forte jaquetão azul, esfregando as mãos num contentamento despreocupado, a trautear os compassos alegres de uma canção de caça.» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa», De Braço Dado (1894) / «Macário afirmou-se, e, sem mais intenção, dizia que aquela mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio: porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobrolho espesso, o lábio forte, o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento activo e imaginações apaixonadas.» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst., 1902) / «O Franciú levantava-se muito cedo para carpir os vagabundos, os desorientados, os gatos e também cães, os mais afectuosos, e desprevenidos rouxinóis que o Toledo deixava pelo caminho, amorosamente desventrados.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984)

terça-feira, fevereiro 20, 2024

curtas

«A boca nua de dentes, salvo o tal canino e os restos do outro, chupada para dentro, sarcástica o mais das vezes, comovida outras, com uma língua que vem frequentemente humedecer os beiços, numa passagem rápida, como a que certos batráquios disparam para capturar insectos.» A. M. Pires Cabral, «O saco», O Diabo Veio ao Enterro (1984) «O Norberto nunca se chateava, desenrolar espaço era o seu passatempo favorito (o seu olhar levíssimo partia amiúde nas asas das gaivotas oblíquas), afiava mastros por conta dos donos das embarcações que iam ao cais falar com ele e cuspir para as ondas, agitando o braço direito (o esquerdo, conforme rezam as crónicas da época, era paralítico de nascença).» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) «Os colos eram todos gordos menos o da tia Augusta que tinha dois ossos -- um em cada perna, mas também não era mau.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984)

sexta-feira, janeiro 26, 2024

curtas

 «-- [...] Eu parecia um desses artistas que realizou, certo dia, uma descoberta feliz e passou, depois, o resto da vida a lutar desesperadamente para dar a ilusão de que não se repetia, quando, em realidade, não fazia outra coisa senão plagiar-se a si próprio.»  Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954) / «Nem por ocasião da recolha do gado, a perseguição e correrias conseguiam arrancá-los à prostração nostálgica do mais além, que lhes dava a imensidão do Oceano e certa inveja por aqueles que abalavam para continentes longínquos, vidas que desfrutavam de uma constante renovação de prazeres e vertiginosamente corriam entre espectáculos dos mais variados.» Assis Esperança, «O dinheiro» (1932) / «O Norberto ouviu tudo, mesmo morto, o que não é de pasmar, se escutássemos o Assobio com a atenção que ele merecia: o Assobio falava com os mortos quando qualquer situação o impunha, levava recados para eles, da D. Ifigénia ou da D. Constância, trazia terra das campas para acamar nos vasos de flores que se punham nas janelas, vivia do comércio dos cemitérios sem entrar em concorrência com os cangalheiros.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984)

sexta-feira, janeiro 05, 2024

curtas

«Além disso, os tempos eram confusos e revolucionários: e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira simples e facilmente feliz como a guerra.» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst. 1902) «Houve um enterro, como sempre acontece nestas questões de navalhas e gargantas, e o Navarro animou o velório funesto com a sua imaginação desenfreada, contando histórias líricas e sacaninhas à base de borboletas eventualmente citadinas, requerimentos para nada, manequins chutados de Paris, armazéns de caixotes de sardinhas às quais faltava o gelo, motores hidráulicos aos quais faltava a água, letras do Linhares Barbosa, solstícios e viagens sem regresso.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) / «Naquela imensa serenidade da natureza em festa a formosa inglesa, aspirando as frescas baforadas do mar, pensava com prazer como era bom caminhar, na vida, que se lhe revelava sem nuvens, ao lado daquele rapaz tão belo, tão inteligente, tão seu!» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa». De Braço Dado (1894)

sábado, dezembro 30, 2023

histórias curtas

«Atirada de vinte e cinco metros, talvez aí há quarenta anos, cortando a noite em duas metades (a primeira caiu ao rio e a segunda andou à deriva até surgir a madrugada), a navalha entrou na garganta do Norberto.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) «Nos exames não se podia rir, senão baixavam as notas.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984) / «O falar eu no vinho, no queijo e nas azeitonas não induza porém o leitor em erro; não vá pensar que seja o tio Zé das Candeias algum contador de histórias mercenário ou capaz de fazer chantagem com o muito que sabe para me extorquir estes petiscos da gastronomia rústica.» A. M. Pires Cabral, O Diabo Veio ao Enterro (1984)

quarta-feira, dezembro 20, 2023

"na hora em que os campos rescendiam" e outros caracteres móveis

«Era sempre no Verão que um paquete português os arrebanhava, e precisamente na hora em que os campos rescendiam aromas da vegetação verde-bronze, e as árvores vestiam seus braços nus, oferecendo sombras acolhedoras.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932) / «Tudo quanto era navalhas, canivetes, facas, punhais de prata, adagas marroquinas, bisturis e outras lâminas de paixão, ou de vertigem, nascia, de preferência à noite, na mão do Toledo das Rondas, que procurava, a larga capa negra esvoaçando ao vento, gravitando num turbilhão de obsessões, vagabundos, amnésicos, esquizofrénicos, outros homens sem bússola, ou sem emprego, prostitutas e gatos, os mais independentes, nas ruas banhadas por um luar insuportável, o luar de antigamente, que morava na Rua do Capelão, juncada de rosmaninho.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) «Vergado sobre os ex-votos, as suas mãos iam desfazendo os barcos de cera e arremessando-os para o abismo, para o sarçal que havia lá no fundo.» Ferreira de Castro, O Senhor dos Navegantes (1954)

quinta-feira, dezembro 14, 2023

atracções obscuras e outros caracteres móveis

«A navalha era do Norberto, até tinha as suas iniciais no cabo, mas foi atraída, por obscuros motivos hipnóticos, para a mão do Toledo das Rondas.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) / «Depois dos achaques, D. Branca ficava cor de cera, parecia pronta para embarcar no comboio mistério da morte.» Ruben A., «Branca», Cores (1960) / «Uns farrapos ténues de nevoeiro, últimos vapores da natureza  que se espreguiça num acordar glorioso, cardavam-se lentamente nos pinheirais, em cujo fundo escuro destacava a construção aguda da capela da Granja.» Conde de Sabugosa, «A aliança inglesa», De Braço Dado (1894)

terça-feira, dezembro 12, 2023

a navalha do Norberto e outros caracteres móveis

«Depois, os homens falavam alto e as mulheres ficavam grávidas, as gaivotas rasavam o cais, alisando a pedra, subindo subitamente, enquanto o Norberto afiava mastros, virados para o céu, com a navalha que um dia se lhe cravaria na garganta.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) «Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo pesado, e eu reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com sola forte e atilhos de couro.» Eça de Queirós, «Singularidades de uma rapariga loura» (1874), Contos (póst., 1902)«Terra aproveitável, aqui e além deitada em poisos, apenas encostas magras, declives que morriam em pequenas planícies cortadas a pique sobre o Oceano revolto.» Assis Esperança, «O dinheiro», O Dilúvio (1932)

quarta-feira, novembro 22, 2023

caracteres móveis

«A alma do gafanhoto, naquele dia, aproximou-nos dele.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979) / «Se você procurar bem na sua infância, Austin, há-de encontrar nela um gato sarnento que lhe roçou o lombo nas pernas cinquenta ou sessenta vezes, e isto, segundo Molero, marcou a sua vida.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977) /   «Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas.» Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas (1972)

quarta-feira, outubro 25, 2023

caracteres móveis

«As rugas riscavam-lhe a cara porque tinha de estar sempre sério e isso é uma das coisas que faz pior à pele: as peles, quando se riem, fazem ginástica, o sangue anda mais depressa e as caras ficam como a erva quando chove miudinho.» António Alçada Baptista, Uma Vida Melhor (1984) / «E aquém dos barcos: as ondas tinham outra maneira de quebrar, o quebrar de antigamente, se é que sabe ao que me estou a referir.» Dinis Machado, Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) / «E, se na palavra senhor  há reverência e submissão ao poder do ouro, do sangue ou da posição, na palavra tio, reluz não sei que luaceiro de afecto, de intimidade, da quente solidariedade dos humildes uns pelos outros.» A. M. Pires Cabral, O Diabo Veio ao Enterro (1985) 

domingo, setembro 24, 2023

101 contos portugueses #4

 Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez, Dinis Machado (1984)

Começando por dizer que não se trata bem de um conto, mas de uma micro narrativa ficcional, é-o num modo puramente dinismachadiano (tem de ser assim, atendendo ao D. Dinis e ao Machado de Assis...). Toma de início a maneira de García Márquez -- então no auge da glória nobelizada -- para rapidamente se libertar para umas cores menos tropicais e mais atlanto-mediterrânicas, da paleta que o romancista de O que Diz Molero consagrou, em 1977. Dinis Machado à solta, portanto, livre como num argumento onírico de Van Hamme para Mr. Magellan, que Machado publicara na revista Tintin, de sua direcção, e que tanto marcou a minha geração, e as contíguas. Como o Dinis Machado, só alguns, muito poucos.

O incipit: «Antigamente, eram os barcos.»