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quarta-feira, março 04, 2026

o que está a acontecer

«Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se.» José Saramago, A Jangada de Pedra (1986)

«Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão. / O leitor provavelmente há-de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente maiores delícias, do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)

«E quando soube que o sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro -- Jacinto "Galeão" correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando furiosamente: / -- Também cá não fico! Também cá não fico!» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

sábado, fevereiro 21, 2026

o que está a acontecer

«No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)

«Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora. / No convés lavado de fresco, Juvenal Gonçalves, o busto flectido sobre a amura, ressuscitava a pretérita visão, com tanta pureza emotiva como se, realmente, fosse a primeira vez que ali aproasse um navio.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

«Depois, já não é a praia nem o mar, é a serra, com os seus socalcos montanhosos, as escarpas verdes semeadas de xisto e de granito. Esvaíram-se as figuras de Natália, de Carolina, da pequena Laura, mas a montanha enche-se de outros vultos.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

a 'condessinha' -- «A Catedral» (2)


 Continuar: «D. Francisco Diogo de Pina Coutinho, 3.º marquês de Pombeiro e 5.º conde de Linhares, cujas genealogias entroncavam na mais antiga nobreza do reino, fora um dos grandes fidalgos portugueses que entraram, em 1640, na conjuração nacional contra o jugo de Castela.»  Manuel Ribeiro, A Catedral (1920) Início do cap. II, pp. 29-39 da minha edição.   


Capítulo que mostra as origens familiares de Maria Helena de Monforte, a condessinha. Os antepassados estiveram na Restauração, na Guerra da Sucessão de Espanha, contra os franceses nas Invasões, contra D. Pedro e com D. Miguel na Guerra Civil, cujo destino de expatriação partilharam. «Toda a história da sua casa era um pouco a história de Portugal.» É o pai de Maria Helena, D. Álvaro de Ataíde, que se retira de Paris, quando a República é implantada -- a primeira referência que permite situar no tempo a acção do romance. Morta a mãe, Eulália Zarco, filha dos condes de Borba, ainda jovem, deixando o pai na apatia, embora estremecendo a filha criança, esta será educada pelo capelão da casa materna, Monsenhor Santana, um tradicionalista, e por uma tia freira, madre Maria Peregrina, superiora de um colégio religioso entretanto encerrado pelo governo.

Uma educação para o exercício da autoridade e sentimento de superioridade dado pela estirpe, colide com o temperamento afável e bondoso da condessinha, que, fruto também da educação é dotada de um expressivo sentimento religioso, que pratica na capela de família, situada na charola da Sé de Lisboa. 

«Ela não era inteiramente como monsenhor pretendia. Maria Helena sentia-se realmente superior, não porque fizesse pedestal de alguém, mas porque pairava em um mundo de idealidades. Sua soberania não se alimentava de humilhações. Monsenhor fora talvez ludibriado. Em vez dos graves princípios brotando das sementes dos seus conceitos, irrompia da alma da condessinha uma flora tenra, suave, como seara de linho que se estrelava de flores azuis do sonho. A história aparecia-lhe sobre refrangências de lenda e os heróis sobressaíam nimbados em fundos de religiosidade. Ser vassalo da Igreja era prestar fidelidade ao bem.»

quinta-feira, maio 29, 2014

falou o Rocha

As circunstâncias rocambolescas da Coroa portuguesa depois da morte de D. João VI (1826), com D. Miguel no exílio, regência da infanta Isabel Maria, império de D. Pedro no Brasil, entourage da rainha viúva Carlota Joaquina... uf!, e o povo de Lisboa, bem guardado, mas na expectativa... 
A circunstância de não se fazer hoje historiografia assim, tão colada ao conjuntural, mesmo quando a pequena história possa espoletar os efeitos mais momentosos e inesperados, a verdade é que o acontecimento, o facto -- ou a percepção que dele possamos ter -- não pode nem deve ser ignorado, nem o papel do indivíduo pode ser subestimado, pesem todas a condicionantes.
Rocha Martins é um excelente exemplo. Os grossos volumes sobre o fim da monarquia são interessantíssimos e até essenciais para se comprovar a temperatura política do tempo. Monárquico liberal, opositor activo ao Estado Novo, estes escritos tinham também um objectivo cívico e político. Repare-se no antetítulo, "Liberdade Portuguesa"; tal como o explicit, nada inocente:  «A Liberdade [com maiúscula...] estava implantada. Cabia aos seus adeptos defender o estatuto que D. Pedro IV outorgara, mas praticando as virtudes que exigem as doutrinas dos homens livres: o respeito pela opiniões alheias, dentro da Lei, e sem ofensa das que professamos. / Só assim existirá o verdadeiro equilíbrio do espírito democrático e liberal.»
Rocha Martins, A Carta Constitucional (s.d.)

sábado, agosto 19, 2006

Assalto à mão armada

Nunca pensei acabar assim. Dirigindo-me na Mala Posta até Coimbra, neste ano do reinado de D. Maria, nossa Senhora, que Deus guarde, fomos assaltados, perto do Luso, por um grupo de bandoleiros, armados de fuzis de pederneira e gritando vivas a D. Miguel. Depois de nos haverem extorquido todos os bens, forçaram-nos a assistir ao estupro das mulheres que connosco seguiam viagem. Confundindo-me com um célebre publicista que em Lisboa escreve nas folhas em defesa da restauração da Carta, deixaram-me vivo, porém enterrado até ao pescoço, com a minha pena, papel e tinteiro ao lado, para -- disseram-me entre risos alvares -- escrever com a boca louvores «ao malhado do D. Pedro» (Sua Sereníssima Majestade Imperial) e missivas de socorro aos meus amigos do Ministério.
De «Três Estórias com Data» (1994)