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sexta-feira, outubro 24, 2025

40 ANOS DE SERVIDÃO - da tradição como fonte

«Ramo verde florido, / florido de bela flor, / do meu amor tão querido, / onde está o meu amor? // [...]»

A procura do amor aos dezanove anos. O poema mais antigo de Sena publicado (creio) num dos primeiros livros póstumos, fiel e amorosamente editado (no sentido anglo-saxónico) por Mécia -- Variações sobre Cantares de D. Dinis.

Parafraseando Ruy Belo: D. Dinis e Jorge de Sena, dois poetas contemporâneos. Conheceria já os conceitos de modernidade e tradição do Eliot? Ver. 

terça-feira, setembro 02, 2025

serviço público: não se deixem levar por bonitas palavras vazias, para enganar lorpas

Eu, que não sou especialista em Defesa, até concordo, na generalidade, com os pressupostos aduzidos por Ana Miguel dos Santos neste artigo. Não estou eu farto de falar do desperdício do nosso soft power?, das exigências iniludíveis da nossa situação geográfica e geopolítica?, da necessidade de reavaliar o nosso conceito estratégico nacional?...

O problema deste artigo e outros que saíram e sairão é que fazem tábua rasa da situação em concreto -- ou seja, a forma como a Rússia -- superpotência militar e científica, grande potência económica, como se está a ver, e um dos padrões da cultura europeia e ocidental -- se vê ameaçada pela predação e pelas subculturas que se tornaram bandeiras ideológicas do Ocidente, e, obviamente quer ignorar o papel dos Estados Unidos na crise por eles criada, obviamente derrotados, como percebeu Trump. 

Isto é: a Europa comprou o confronto entre os Estados Unidos e a Rússia, por fraqueza e ausência de estratégia própria que não fosse a dependência dos americanos; e agora que a América quer sair, esmifrando aliás a UE, esta, patética, sem força nem orientação para além dos robertos que lhe dão a cara, quer assumir toda a despesa -- não estando nós, europeus, livres de sermos arrastados para uma guerra em largas dimensões, em virtude de provocações que ocorram no Báltico ou alhures.

Perante isto, que nos dizem as bonitas palavras de Ana Miguel dos Santos? Que Portugal, estado com todos aqueles atributos, divergindo do seu vizinho e aliado na Nato -- que por acaso é a maior superpotência mundial --, e divergindo ainda dos seus países irmãos, como gostamos de dizer, os da CPLP, deve continuar a alinhar com a acefalia da UE, e vá de ir até aos 2% e a seguir saltar para os 5% do pib em gastos militares (ditados por terceiros) e como se tal fosse possível. 

Este tipo de argumentação, que passaremos a ouvir insistentemente, nem sequer precisa que lhe aduzamos os graves problemas sociais, económicos e políticos dela decorrentes. Militar e políticamente será um desastre para a Europa e para nós por arrasto. Ou crê a articulista que a Rússia se resignará a largar a sua Ucrânia ao Ocidente?... Mas por esta andar, nem será preciso nenhuma guerra com a Rússia para rebentar com a UE -- ela prórpia, com a ajuda dos Estados Unidos disso se encarregarão.

"Coragem estratégica" é saber ler os interesses permanentes da nação portuguesa e as linhas de força que fizeram de Portugal um estado de nove séculos e que pode resumir-se nisto, pelo menos desde D. Dinis: primeiro o Atlântico, e só depois a Europa. O que Portugal tem demonstrado na guerra da Ucrânia como noutros assuntos, para além de desorientação e desleixo, tem sido, ao contrário, cobardia estratégica -- e dela dificilmente sairemos quando os dirigentes são isto. 

domingo, março 16, 2025

Camilo Castelo Branco, no dia do bicentenário

Rafael Bordalo Pinheiro
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (Bairro Alto, Lisboa, 1825 – São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, 1890).

Escritor completo, cultivou todos os géneros literários: é o efabulador romântico de Romance de um Homem Rico (1861) e Amor de Perdição (1862), o escritor realista de A Queda dum Anjo (1866) ou O Retrato de Ricardina (1868), o romancista “histórico” de A Filha do Regicida (1875), o autor ironicamente à la page com o naturalismo em Eusébio Macário (1879) e A Corja (1880); é o poeta de Nas Trevas (1890); o dramaturgo de O Morgado de Fafe em Lisboa (1861); o folhetinista de cordel de Maria! Não me Mates que Sou Tua Mãe (1841); o polemista de O Clero e o Sr. Alexandre Herculano (1850) ou Vaidades Irritadas e Irritantes (1866); o memorialista das Memórias do Cárcere (1862); o crítico de Esboços e Apreciações Literárias (1865); o biógrafo de D. António Alves Martins – Bispo de Viseu (1870); o epistológrafo da Correspondência com Vieira de Castro (1874); o antologiador do Cancioneiro Alegre (1879); o historiador comprometido do Perfil do Marquês de Pombal (1882); o publicista de O Vinho do Porto (1884)…

Entre as convulsões da Guerra Civil e a agonia do Ultimato, o Portugal do século XIX, dos Cabrais à Regeneração, espelha-se na obra de Camilo. Mas, erudito, vem de trás, das crónicas vigiadas de Fernão Lopes aos cartapácios fantasiosos de Frei Bernardo de Brito; prosador exímio e mestre da língua, é herdeiro do Padre António Vieira e está também na génese de Aquilino Ribeiro; instável, sarcástico, violento e ao mesmo tempo lírico, encerra uma verdade envolta em fingimento que não deixa indiferente o leitor do século XXI.  

É um dos génios tutelares da cultura portuguesa. O seu nome próprio, Camilo, tem dimensão idêntica aos de Camões, Vieira, Bocage, Garrett, Antero, Eça, Cesário ou Pessoa. Amor de Perdição emparceira em peso e relevância canónicos com Os Lusíadas, Menina e Moça, Viagens na Minha Terra, Os Maias, O Livro de Cesário Verde, , Clepsidra, Mensagem, Andam Faunos pelos Bosques, A Selva, Mau Tempo no Canal, Sinais de Fogo, Para Sempre – clássicos absolutos. Escritores como Teixeira de Pascoais, Aquilino, Vitorino Nemésio, José Régio, João de Araújo Correia, entre muitos outros de primeira água, sentiram-se interpelados pelo génio do «colosso de Seide», dedicando-lhe estudos de amplitudes várias; também artistas plásticos como Roque Gameiro, Stuart Carvalhais, Francisco Valença, Leal da Câmara, Diogo de Macedo, Tom, João Abel Manta ou Mário Botas não lhe ficaram indiferentes.

O tempo, ele próprio – em boa parte graças aos jornais e às bibliotecas itinerantes, primeiro, ao audiovisual e aos curricula escolares, depois – encarregou-se de tornar o acervo literário de Camilo em elemento identitário dos portugueses, o que se verifica quando a cultura popular se deixa impregnar pela criação erudita, e vice-versa. Esse intercâmbio fecundo é a glória dos criadores: por um lado assegura a perenidade do seu nome e de parte da sua obra; por outro, acrescenta densidade à comunidade nacional em que o autor e os seus livros se fizeram.

O legado artístico camiliano constitui-se como património incomparável. O mesmo se passa com outras manifestações seculares equivalentes em importância: das cantigas de D. Dinis e os autos de Gil Vicente à obra romanesca dos nossos maiores escritores contemporâneos; das gravuras rupestres do Vale do Côa aos projectos de Siza Vieira, passando pelos painéis de Almada Negreiros; das sonatas de Carlos de Seixas às sinfonias de Luís de Freitas Branco e à guitarra de Carlos Paredes; dos retábulos da escola de Nuno Gonçalves às telas de Júlio Pomar, dos retratos de Columbano aos cartoons do seu genial irmão, Rafael Bordalo Pinheiro – a cultura portuguesa não é susceptível de ser apreendida sem estas, e outras, manifestações do espírito. Assim com Camilo Castelo Branco.


Texto inédito, datado de 31-V-2010

sábado, fevereiro 08, 2025

o que está a acontecer,

«O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. / No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis.» Eça de Queirós, As Cidades e as Serras (1901)

«O próprio gato, depois de ter brincado algum tempo à roda das saias da dona -- "Sape-gato, já me arranhaste!" -- pulou de leve para o lar da chaminé, e dorme agora enroscado na auréola de calor do fogareiro. / Há quantas horas dura a tarefa? Deram as onze na Sé, depois no relógio aguitarrado da casa de entrada, e as duas mãos param um instante na toalha branca, sob o comando da reflexão.» José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso (1960)

«O polícia, que vinha sentado junto do motorista, chupou, quatro vezes seguidas, a ponta mungida do cigarro, atirou-a fora -- e desceu. Sentindo os olhares despejados lá de cima, que davam maior vaidade ao seus gestos, ladeou a furgoneta e, atrás, abriu a porta, que era chapeada e sólida como a de um cofre.» Ferreira de Castro, A Experiência (1954) 

quinta-feira, abril 11, 2024

150 portugueses: 31-35

31. Salgueiro Maia (1944-1992). O operacional da tomada do poder na Revolução. Idealista e incorruptível, pagou cara a façanha de ser um homem sério num país que não presta. Está nesta lista por todos os militares de Abril.

32. Vasco Gonçalves (1921-2005). O seu nome liga-se a um epifenómeno revolucionário numa país de meias-tintas, bisonho e manhoso: o PREC, também conhecido por gonçalvismo. Um meteoro na História de Portugal, suficientemente incisivo  para lá permanecer.

33. D. Afonso III (1210-1279). Cabeça da oposição ao irmão, destituído pelo papa, Deixou-nos o rectângulo conquistado e um filho chamado Dinis.

34. Bocage (1765-1805). No liceu, foi-me apresentado como um dos poetas do pódio (com Camões e Pessoa). Pré-romântico instável, amoroso fulgurante e fescenino, excessivo e único.

35. D. Carlos I (1863-1908). Um rei "morto como um ladrão a uma esquina de Lisboa" (Raul Brandão). Diplomata, artista, oceanógrafo -- assassinado por uma conspiração em que políticos monárquicos manobraram uns simplórios republicanos exaltados. 

quinta-feira, abril 04, 2024

150 portugueses: 21-25

21. Camilo Castelo Branco (1825-1890). Ao cabo de quase novecentos anos, a língua é o maior património dos portugueses; ainda mais do que a sua História, real e mitificada, pois o país pode acabar (nada é eterno), mas a literatura, forjada a partir dessa mesma língua, ficará, mesmo depois de a língua morrer também. Por isso são tão (ou mais, quanto a mim) importantes os grandes escritores (em sentido lato) do que os guerreiros e navegadores que construíram Portugal e a ideia dele. E assim sendo, Camilo, porventura o maior do século XIX (junte-se-lhe Garrett, Herculano, João de Deus, Júlio Dinis, Antero, Oliveira Martins, Eça, Cesário, Fialho e Nobre), é uma presença evidente, por muito exígua que esta lista ainda mais fosse.

22. D. Dinis (1261-1325). Poeta, guerreiro, governante, sexto rei de Portugal, e um dos mais amados.

23. D. Fernando (1345-1383). Nono rei de Portugal, um grande monarca com uma política externa desastrosa. A sua consorte, Leonor Teles (de Meneses), é a mulher mais odiada da nossa história.

24. Garcia de Orta (c. 1501 - 1568). Produto dos Descobrimentos e da expansão imperial, cristão-novo, médico, botânico e farmacêutico. Um dos homens do seu tempo, à escala global.

25. Infante D. Henrique (1394-1460). O mítico Navegador, mas homem bastante prático 

domingo, setembro 24, 2023

101 contos portugueses #4

 Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez, Dinis Machado (1984)

Começando por dizer que não se trata bem de um conto, mas de uma micro narrativa ficcional, é-o num modo puramente dinismachadiano (tem de ser assim, atendendo ao D. Dinis e ao Machado de Assis...). Toma de início a maneira de García Márquez -- então no auge da glória nobelizada -- para rapidamente se libertar para umas cores menos tropicais e mais atlanto-mediterrânicas, da paleta que o romancista de O que Diz Molero consagrou, em 1977. Dinis Machado à solta, portanto, livre como num argumento onírico de Van Hamme para Mr. Magellan, que Machado publicara na revista Tintin, de sua direcção, e que tanto marcou a minha geração, e as contíguas. Como o Dinis Machado, só alguns, muito poucos.

O incipit: «Antigamente, eram os barcos.»

segunda-feira, outubro 25, 2021

 «Ramo verde tão querido, / tão querido do meu amor, / de belas flores florido, / florido de bela flor...»

Jorge de Sena, de «Variações sobre cantares de D. Dinis»,

40 Anos de Servidão (póstumo, 1979)

domingo, agosto 22, 2021

A. J. Saraiva (4), «De Alfonso X, o Sábio a D. Dinis»

 


«De Alfonso X, o Sábio, a D. Dinis», o capítulo inicial, pp. 15-22 ocupa 6,5% do total. O primeiro subcapítulo versa sobre "Os cancioneiros e a lírica jogralesca" (16-22). A poesia trovadoresca, uma adaptação em boa parte do lirismo provençal casado com o cancioneiro primitivo galaico-português, de que resultaram as célebres "cantigas" (de amigo, de amor, de escárnio e de mal-dizer), realçando os três níveis, consoante a densidade: do ambiente rural ao cortês, passando pelo doméstico; ou da "tradição oral" ingénua e campesina à "invenção literária" propriamente dita, à "dialéctica dos sentimentos" em meio palaciano.

Os autores referidos: Afonso X o Sábio, D. Dinis, Airas Nunes de Santiago. Os títulos: Cantigas de Santa Maria, Cancioneiro da AjudaConexões: Dante, Petrarca, Bernardim Ribeiro (Menina e Moça).  

"A épica jogralesca" (16-23). Trata das façanhas de Afonso Henriques, gesta vertida para prosa na 3.ª Crónica Breve de Santa Cruz de Coimbra e a Crónica General de Espanha de 1344, cujo original, perdido, foi escrito em português: «O ciclo épico em torno de Afonso Henriques apresenta-nos um herói bravio e instintivo, verdadeira encarnação da nobreza guerreira do século XII, em luta com os Leoneses, o clero e com os Árabes.»

Conexões: Cantar de Mío Cid e Lendas e Narrativas (Alexandre Herculano).

"O romance de cavalaria" (23-25). As traduções do Ciclo da Bretanha, Demanda do Santo Graal, O Livro de José de Arimateia, (séc. XIII) ou a História de Barlão e Josafate, baseado na vida de Buda, cuja tradução portuguesa se fez em Alcobaça, abrem caminho para um romance como o Amadis de Gaula, cujo original em português se perdeu, cuja autoria foi atribuída por Zurara ao trovador Vasco de Lobeira [entretanto, a atribuição já passou para um outro, chamado João Pires de Lobeira].

Conexões: Cervantes, Dom Quixote.

quarta-feira, março 14, 2018

«Desviou com desagrado a vista do Rapto das Sabinas e lentamente desceu as escadas, procurando no chão o movimento veloz da sombra de uma nuvem.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959)

«No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo, 1901)

«Era um aldeão: tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.» Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro (1875)

sexta-feira, junho 05, 2015

P de Portugal

Portugal - país que deveria ter ficado para sempre uma charneca medieval, sem passar nunca do reinado de D. Dinis.