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quinta-feira, abril 11, 2024

150 portugueses: 31-35

31. Salgueiro Maia (1944-1992). O operacional da tomada do poder na Revolução. Idealista e incorruptível, pagou cara a façanha de ser um homem sério num país que não presta. Está nesta lista por todos os militares de Abril.

32. Vasco Gonçalves (1921-2005). O seu nome liga-se a um epifenómeno revolucionário numa país de meias-tintas, bisonho e manhoso: o PREC, também conhecido por gonçalvismo. Um meteoro na História de Portugal, suficientemente incisivo  para lá permanecer.

33. D. Afonso III (1210-1279). Cabeça da oposição ao irmão, destituído pelo papa, Deixou-nos o rectângulo conquistado e um filho chamado Dinis.

34. Bocage (1765-1805). No liceu, foi-me apresentado como um dos poetas do pódio (com Camões e Pessoa). Pré-romântico instável, amoroso fulgurante e fescenino, excessivo e único.

35. D. Carlos I (1863-1908). Um rei "morto como um ladrão a uma esquina de Lisboa" (Raul Brandão). Diplomata, artista, oceanógrafo -- assassinado por uma conspiração em que políticos monárquicos manobraram uns simplórios republicanos exaltados. 

quarta-feira, junho 28, 2023

150 portugueses: #11. Afonso III, o Bolonhês (Coimbra?, 1210 - Alcobaça (?), 1279)

Para um futuro blogue. Irmão de D. Sancho II, chega ao reino vindo de Bolonha, feudo de que era conde, pelo casamento com Matilde II. É aliciado a entrar em Portugal num período em que o irmão está em sério conflito com a Igreja e parte da nobreza, preparando-se a sua deposição pelo Papa, e com quem entra em guerra. Usa o título de Visitador, Defensor e Curador do reino, tendo subido ao trono com o afastamento e exílio de Sancho II.  Apesar da maçadora traição ao irmão, ganhou estatuto de bom rei e administrador. Registe-se também que nas Cortes de Coimbra de 1245, o povo está representado pela primeira vez. Quanto à consolidação do território, é no seu reinado que o Algarve é totalmente reconquistado pelos cristãos, delineando-se a fronteira sudeste com Castela, traçada no Guadiana.


domingo, junho 18, 2023

150 portugueses: #10. Sancho II, o Capelo (Coimbra, 1209 - Toledo, 1248)

Para um futuro blogue. Primeiro monarca a ser deposto, é uma figura interessantíssima pelo percurso politicamente trágico. Filho de Afonso II e Urraca de Castela. é ainda menor quando ocorre a morte do pai. Sobe ao trono aos catorze anos, herdando o conflito com as tias, depois resolvido em favor destas. O confronto  passará a dar-se com os ricos-homens e com os poderes eclesiásticos, os bispos do Porto, Braga e Lisboa. O aliciamento do irmão mais novo, Afonso, conde de Bolonha, com o apoio da Igreja e boa parte da nobreza, impele este à conquista do trono. Morrerá no exílio, após a retirada do seu maior apoiante, o rei de Castela e, tal como seu pai, também excomungado. O casamento com Mécia Lopez de Haro, viúva de um nobre galego e de uma princesa bastarda, Urraca Afonso, filha de Afonso IX de Leão e da Galiza, serviu às intrigas palacianas. O reino continuou a expansão para sul, Alentejo e Algarve, com a conquista de várias cidades, entre as quais Beja.

terça-feira, maio 13, 2014

um cafis de apodrecidos cereais nas húmidas matamorras

Durante a Guerra Civil de 1245-1247 -- que também opôs dois irmãos, D. Sancho II, deposto pelo papa, e o Conde de Bolonha, futuro Afonso III --, conta-se uma estória lendária, protagonizada pelo alcaide-mor de Celorico da Beira, Fernão Rodrigues Pacheco (o primeiro deste nome).

H. Lopes de Mendonça, por Columbano
Sitiado pelo próprio infante, que o alcaide tinha por usurpador, Afonso quis vergar Celorico pela fome, até que, em intervenção supostamente divina, uma águia trazendo nas garras uma truta que acabara de caçar, deixa-a cair milagrosamente no recinto sitiado, levando a um estratagema que tem sido glosado noutras situações semelhantes (v. g. Deuladeu Martins): com o pouco de farinha que restava, Pacheco manda fazer pães, que, envolvendo o peixe de água doce, vai oferecer ao Bolonhês, através dum emissário, como preito respeitoso ao irmão do rei -- o único legítimo que reconhecia. D. Afonso levantará o cerco nesse mesmo dia.

Henrique Lopes de Mendonça (Lisboa, 1856-1931), foi um oficial de Marinha, grande historiador dos Descobrimentos e da Expansão, poeta (autor dos versos de A Portuguesa, recorde-se), dramaturgo e ficcionista com acentuada inclinação para a narrativa histórica. A História era a sua paixão, como historiador das Navegações ou ficcionista.
Neste conto, publicado originalmente em Capa e Espada (1922), Mendonça dá lastro à petite histoire e à lenda, pretexto para uma recriação lúdica dum tempo medieval conturbado; e fá-lo com a competência do histroriador.
O estilo é opulento, no bom sentido, português de lei. Mais do que uma historieta lendária, interessa-me e regala-me essa riqueza vocabular, incluindo os arcaísmos, que serve a narrativa.

O incipit: «Na açoteia da torre de menagem, Fernão Rodrigues Pacheco, debruçado sobre uma aberta das ameias, medita.»
Um parágrafo: «E, como a resposta se resuma a um gesto ríspido de impaciência, o agostinho prossegue. Em voz ungida de piedade, relembra as agonias daqueles meses de apertado cerco; o contínuo desfalque dos defensores, dizimados por ascumas e gorguzes, por virotões e pedregulhos, e mais ainda pela pestilência e pela fome. A custo se colhe um cafis de apodrecidos cereais nas húmidas matamorras. A chama dos fornos devora a lenha dos vigamentos, os sarrafos arrancados às mesas, aos escanos, às portadas. Dentro em pouco, toda a parte combustível da vila se reduzirá a cinzas para se transformar numa ilusão de pão as varreduras dos celeiros, a palha dos esteirões, a erva das ruas. À míngua de um mesquinho almanho, sequer, servem de repasto aos sitiados as alimárias mais imundas.»

H. Lopes de Mendonça, «A truta», 14 Novelas Histórias Portuguesas -- De D. Afonso Henriques à Batalha de Aljubarrota, selecção anónima (de José Saramago?), Lisboa, Estúdios Cor, 1965, pp. 125-132