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quarta-feira, dezembro 10, 2025

a vantagem de Gouveia e Melo relativamente aos seus dois concorrentes directos, Marques Mendes e Seguro

Eu vou partir do princípio de que os candidatos são honestos, e também patriotas. Num momento em que a ameaça da guerra espreita, essa honestidade e esse patriotismo importam -- mas também, tanto quanto estas qualidades, a noção da História de Portugal e de como, mercê de muitas contingências, iremos, daqui a uns meros três anos, assinalar os 900 anos de independência, no aniversário da Batalha de São Mamede, na qual D. Afonso Henriques fundou uma dinastia, um país e uma futura nação, a partir de povos de diferentes etnias: celtas, romanos, germânicos, berberes, árabes e por aí fora. Estivemos para soçobrar mais de uma vez, mas persistimos -- pela língua e pela cultura, em primeiro lugar; pela religião, também; e pela Coroa nos primeiros séculos, e o Estado a seguir. 

Portugal não resiste sem a língua e sem a cultura, mas precisa, sempre precisou, de uma visão estratégica -- e agora cada vez mais, não apenas por razões militares mas pelo progressivo domínio de um sistema financeiro transnacional que tudo subjuga -- da Economia (das sociedades, portanto) ao indivíduo.

A visão estratégica de Gouveia e Melo é incomparavelmente mais sofisticada e informada que a de Mendes e Seguro -- pelo menos é o que se retira das banalidades que têm dito. A crítica ontem, expendida pelo almirante, à lista de compras do Governo em matéria de defesa não poderia ter sido mais certeira. Onde está o Conceito Estratégico de Defesa Nacional, como já aqui perguntei, a propósito doutras eleições? Está arrumado a um canto; por isso, comprar armamento agora é, como disse o candidato, começar a "construir a casa pelo telhado". 

É isto que o distingue dos outros; o que fará com essa distinção se for eleito, não sei.


quarta-feira, dezembro 18, 2024

4 versos de Camões

«Pois se a troco de Carlos, rei de França, / ou de César, quereis igual memória, / Vede o primeiro Afonso, cuja lança / Escura faz qualquer estranha glória.;» 

 Os Lusíadas, I-13 (1572) 

terça-feira, outubro 29, 2024

tempo de romance

«As poucas pessoas do costume cumpriram religiosamente aquela invocação sentida do caseiro. Resignadas, aceitavam agora a metódica explicação. / -- Esta Torre não se sabe bem de quantos séculos podemos datá-la, mas o certo é que Dom Raymundo da Barbela (crê-se que tenha sido o primeiro grande home da família da Torre) saiu destas bandas para ajudar com os seus homes as cargas de Dom Afonso Henriques, seu primo colateral.» Ruben A.,  A Torre da Barbela (1964)

«Resoluto, Manuel da Bouça levantou-se e, pisa aqui, arrasta ali o pé dolorido, atravessou o pinhal. / Quando, porém, o outeiro, em curva suave de ventre feminino, se cosia ao sinuoso caminho que dava acesso à aldeia, deteve-se, meditativo, a contemplar a sua casita, quase debruçada no Caima.» Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

«Encostou-se ao pedestal da estátua, tirou o lenço da cabeça e olhou para o marido. Este baixou-se um pouco, apontou demoradamente a máquina e disparou por fim. / Mary virara-se outra vez de costas e Giovanni quis adivinhar-lhe a direcção dos olhos, acompanhá-los depois no voo extasiado que terminava na torre do Palazzo Vecchio.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959)

terça-feira, março 26, 2024

150 portugueses (agora é que é - para blogue futuro) 1-5

1. D. Afonso Henriques (1109/11-1185) - Primeiro rei de Portugal e criador dos portugueses.

2. Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) - Cientista, sacerdote, personagem de romance.

3. Calouste Gulbenkian (1869-1955) - Mecenas, coleccionador de arte, engenheiro petrolífero.

4. Damião de Góis (1502-1574) - Cronista e diplomata.

5. Eça de Queirós (1845-1900) - Escritor e diplomata.

(recordando os pressupostos)

sábado, janeiro 13, 2024

caracteres móveis

«Dois filhos a criar, outro a vir, a casa num brinco, o marido um fidalgo, montes de roupa a lavar, passajar e engomar -- os dias, Senhor, tão curtos, as horas vão-se num rufo.» José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso (1960)

«Os poucos homens que o cumprimentaram arrastaram uma sílaba indecifrável, a esmorecer.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

«Um dos mais esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha "O Cortador", colaço de Afonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de cavaleiro, velara as armas na Sé de Zamora), aparece logo na batalha de Ourique, onde também avista Jesus Cristo sobre finas nuvens de ouro, pregado numa cruz de dez côvados.» Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires (1900)

quarta-feira, setembro 13, 2023

Portugal, 1128 - uma lista de 150 portugueses (1-5)

1. D. Afonso Henriques (Coimbra[?}, 1109/1111 - 1185). O Conquistador. Fundador do reino, do estado e da nação portuguesa. 2. Egas Moniz (c. 1080 - 1146). Aio do primeiro rei, pertenceu à nobreza medieval de entre Douro e Minho, esteio da força de D. Afonso Henriques. 3. D. João Peculiar (Coimbra [?], ? - Braga, 1175). Arcebispo de Braga, o grande negociador da política externa e de alianças, do reino recém formado. 4. Gualdim Pais (Amares, c. 1118/20 - Tomar, 1195). Cavaleiro templário, chegando a grão-mestre, representa nesta lista o papel das ordens militares na fundação. 5. Mafalda de Sabóia (Avigliana [?], c. 1125 - Coimbra, 1158). A primeira rainha, dela provêm todos os reis de Portugal, incluindo o actual rei sem trono, Duarte de Bragança. 

pressupostos

sexta-feira, junho 09, 2023

Duarte Galvão

9 de Junho de 1517:  Duarte Galvão, autor da  Chronica do Muito Alto e Muito Esclarecido Príncipe D. Afonso Henriques, Primeiro Rey de Portugal, morre na Ilha do Camarão, ao largo do Iémen, no Mar Vermelho (n. Évora, 1446). 

quinta-feira, maio 11, 2023

150 portugueses: #7. SANCHO I, o Povoador (Coimbra, 1154 - Santarém, 1211)

Para um futuro blogue. Sancho I, aliás, Martinho, aliás Sancho Afonso,  quinto filho de Afonso Henriques e Mafalda de Sabóia. Desde cedo adestrado no exercício das armas, acolitou o pai na governação após o desastre de Badajoz (1169). Guerreiro nato -- após a efémera conquista de Silves, adopta o título de "Rei de Portugal e dos Algarves" --, foi também muito mais que isso: um organizador do território, com a atribuição de muitos forais e um estreito recurso às ordens militares, essenciais para a fixação do território, o que não impediu sérios conflitos com a Igreja, até à ameaça de excomunhão. Entesourou moeda, estimulou o comércio e os mesteres, fomentou o estudo de clérigos em universidades de que o reino recente obviamente carecia. Trovador e cultor das artes, é-lhe atribuída a cantiga de amigo "Ai eu coitada como vivo". Sancho I foi o homem devido no momento certo. 

quarta-feira, abril 26, 2023

150 portugueses: #4. Gualdim Pais (Amares, c.1118/1120 - Tomar, 1195)

 

Para um futuro blogue. Nascido em Amares, Gualdim Pais, filho de  Paio Ramires e Gontrode Soares, da nobreza de Entre-Douro-e-Minho, foi um cavaleiro de D. Afonso Henriques, depois guerreiro-frade, chegando a grão-mestre dos Templários. Combatente na II Cruzada, na Terra Santa, teve um papel fundamental na consolidação e fixação do território durante a Reconquista. Mandou erigir vários castelos, entre os quais o de Almoroul, e deu foral a Pombal e Tomar, cidade na qual resistiu ao cerco imposto por Almançor. É um dos nomes que representa o papel das ordens religiosas, não apenas as militares, na construção do estado.

sexta-feira, abril 21, 2023

150 portugueses: #3. D. João Peculiar (Coimbra?, ? - Braga, 1175)

Para um futuro blogue. Calcula-se que natural de Coimbra, arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, a luta pela primazia do arcebispado contra Compostela e Toledo, junto dos papas, a sua intervenção política com Afonso VII de Leão e Castela, as várias viagens a Roma em missão diplomática confiada por D. Afonso Henriques, fizeram dele, como escreve Avelino de Jesus da Costa na entrada do Dicionário de História de Portugal, não apenas um dos fundadores do reino, como o que se chamaria o ministro dos Negócios Estrangeiros do rei Conquistador. Participou na conquista de Lisboa, onde exortou os cruzados na que seria uma chacina que não poupou ninguém, a começar pelos próprios cristãos da cidade, incluindo o seu bispo.

segunda-feira, abril 17, 2023

150 portugueses: 2. Egas Moniz (c. 1080-1146)

Para um futuro blogue. Rico-homem da Casa de Ribadouro, um dos grandes magnatas de Entre-Douro-e-Minho, que sustentaram a criação do reino. Crê-se que filho de Monio Ermiges e Ouroana. Foi o aio do jovem Afonso Henriques, por disposição do Conde D. Henrique, seu pai, e mais tarde mordomo-mor do reino. Por isso, de todos os nobres portucalenses, foi o que perdurou no imaginário da comunidade, muito por causa do episódio em que, num cerco a Guimarães pelas forças de Afonso VII de Leão e Castela, empenhou a palavra garantindo que Afonso Henriques lhe prestaria vassalagem, o que nunca sucedeu, cumprindo o velho aio, depositando com toda a sua prole o seu destino nas mãos do imperador. Este episódio, para alguns lendário, foi considerado «verosímil» por Oliveira Marques no respectivo verbete do Dicionário de História de Portugal, reforçado pelo facto de a mesma narrativa constar dos baixos-relevos do túmulo deste guerreiro-político.
Pressupostos aqui e aqui.

sábado, abril 15, 2023

história e bd

Os quase 900 anos de História de Portugal são uma mina que a BD portuguesa aproveitou quase sempre para obras de teor essencialmente didáctico, mas de pouco brilho narrativo. O que não seria, se este filão fosse aproveitado por argumentistas da craveira de Charlier, Greg ou Van Hamme, que por cá não houve, não se sabe bem porquê? Há excepções, claro; e uma delas foi a do saudoso Jorge Magalhães (1938-2018), que fez o que pôde. Em Giraldo o Sem Pavor (1986), Magalhães deixa brilhar um talento com 20 anos, à data da elaboração destas páginas: José Projecto (Évora, 1962), apregoado e evidente admirador de desenhadores como Auclair, Rosinski e Segrelles.

Geraldo Geraldes, “o Sem Pavor”, é uma dessas figuras reais cobertas pelo mito, uma das muitas personagens dum passado a pedir autores. Cavaleiro nobre, mercenário, chefe de salteadores, quando lhe convinha guerreava ao lado dos mouros contra os cristãos como ele. Praticante do fossado, incursão relâmpago no reduto inimigo, tinha, qual guerrilheiro, rectaguardas inexpugnáveis.

Estamos diante duma caça ao homem: depois de matar um cavaleiro de D. Afonso Henriques, Geraldo é perseguido até alcançar refúgio entre os sicários que comanda, não sem antes pernoitar numa casa isolada, onde uma mulher o aguarda. Um pretexto para desenhar cenas de combate, belas figuras humanas e animais de vário tipo, algo que Projecto faz com verificável gosto e competência.


Giraldo o Sem Pavor

texto: Jorge Magalhães

desenhos: José Projecto

edição: Futura, Lisboa, 1986

(Setembro de 2019)






segunda-feira, abril 10, 2023

150 portugueses: Afonso Henriques (Coimbra?, 1109/1111 - 1185)

D. Afonso Henriques, por Soares dos Reis


Para um futuro blogue: Primeiro rei dos portugueses, primeiro rei de Portugal. Filho de Henrique da Borgonha -- por sua vez, neto de Roberto  II, o Piedoso, rei dos Francos -- e de Teresa de Leão, filha bastarda de Afonso VI. 

O que faz um rei medieval fazer um novo reino: o apoio da nobreza senhorial de Entre-Douro-e-Minho (Maias, Mendes, Sousas, etc.), que procuram livrar-se da pressão galega; a densidade política do território que se administra fundada, desde a formação, em 868, por Vimara Peres; a rivalidade entre Braga, primaz das Espanhas, e Santiago de Compostela; as divisões internas dentro da cristandade peninsular; as divisões internas dentro do islão peninsular (almorávidas e almóadas).

E antes e depois de tudo: uma personalidade fortíssima (arma-se a si próprio cavaleiro, como só os reis faziam, leio no verbete de Torquato de Sousa Soares, no Dicionário de História de Portugal) e uma têmpera robusta de lutador.

(pressupostos)

terça-feira, abril 04, 2023

os indivíduos na História

 Uma historiografia da qual os indivíduos estão ausentes, não me interessa para nada. Se a história apologética ou mitográfica das grandes figuras já foi ultrapassada há um século, não menos falha se mostrou a historiografia que varreu o indivíduo das estruturas. O menosprezo do papel do indivíduo da história de há muito que que se revelou insuficientíssimo para a tentativa de ler o passado. A fundação de Portugal nunca se perceberia sem a figura de Afonso Henriques, primus inter pares entre a nobreza de Entre Douro e Minho, tal como Luís XIV e Versalhes não são explicáveis sem a Fronda e os passos do jovem rei nela. Nem os Descobrimentos são entendíveis sem o ouro  e a .

sábado, março 25, 2023

"antes as rugas veneráveis"

 «As pesquisas, porém, nada haviam adiantado. O tempo não ia além de Afonso Henriques, embora houvesse quem remontasse mais longe as suas origens. Mas não era a tese litigiosa da fundação que preocupava Luciano. O que ele via na Sé era uma relíquia a desencodear da ganga dos entulhos, um corpo a despojar de ignóbeis cataplasmas. Artista e construtor, entristecia-o ver a catedral romano-gótica completamente desfigurada nas suas linhas típicas, como estátua que tivessem o mau gosto de enroupar para lhe encobrir mutilações. Antes as cicatrizes disformes do que arrebiques casquilhos. Antes as rugas veneráveis do que a maquilhagem de gesso.» Manuel Ribeiro, A Catedral (1920)

terça-feira, março 14, 2023

a vergonha do bom papa Francisco

A propósito desta peste dos abusos sexuais na igreja, ainda há dias vi em imagens de arquivo Francisco manifestar a sua vergonha repetidamente e duma forma dilacerante. Sou ateu, embora de formação católica, como quase todos os portugueses; andei seis anos num colégio de padres e felizmente nunca por lá se ouviu, pelo menos no meu tempo, qualquer escandaleira relativamente a abuso de crianças, embora houvesse por lá um que fazia incursões nos colégios de religiosos femininos (era o tempo da separação dos sexos). Nada deve ter acontecido a esse gajo, que ou já está no Inferno, ou para lá caminha (costuma dizer-se que os patifes têm vida longa).

Não vou elaborar sobre os efeitos nefastos da pseudo-moral judaico-cristã, até por incompetência para tal, nem sobre a hipersexualização do espaço público, nomeadamente publicidade e televisões, que deve virar a cabeça a muito labroste. Tem-se falado nas consequências do celibato obrigatório; neste ponto concordo com o padre Anselmo Borges: para determinados indivíduos, este afastamento repressivo e antinatural do sexo oposto será fautor de uma sexualidade desviante e doentia. Aliás, não se percebe a parvoíce da da sua manutenção, uma vez que não é uma questão dogmática. Traumas da Reforma? É bem possível que a igreja católica esteja a atravessar a sua crise mais profunda dos últimos séculos. No Chile incendiaram-se igrejas, e não foram os revolucionários anarquistas.

Parte da igreja (em que proporção?) é um organismo doentio e malsão. Não é algo que me agrade particularmente, pelo importante papel social que ela tem, e, já agora, por razões histórico-culturais. Portugal existe porque houve uma aliança e uma política inteligente de D. Afonso Henriques no que respeita à ocupação do território. Sem ele, Portugal não existiria, e creio que sem a igreja também não.

Voltando ao bom papa Francisco: alguém viu replicado nestes desgraçados bispos de quem se fala a vergonha excruciante do sumo pontífice? Eu só vi justificações canhestras, pés pelas mãos, já para não falar dum imbecil que é bispo em Beja, um idiota em Santarém, mais o tontinho do Porto. Com excepção daqueles que prontamente agiram, só vi falta de empatia pelas vítimas, estão-se nas tintas para elas. E como cidadão tenho toda a legitimidade para perguntar-me onde acaba o desinteresse anticristão e começa a cumplicidade. 

domingo, agosto 22, 2021

A. J. Saraiva (4), «De Alfonso X, o Sábio a D. Dinis»

 


«De Alfonso X, o Sábio, a D. Dinis», o capítulo inicial, pp. 15-22 ocupa 6,5% do total. O primeiro subcapítulo versa sobre "Os cancioneiros e a lírica jogralesca" (16-22). A poesia trovadoresca, uma adaptação em boa parte do lirismo provençal casado com o cancioneiro primitivo galaico-português, de que resultaram as célebres "cantigas" (de amigo, de amor, de escárnio e de mal-dizer), realçando os três níveis, consoante a densidade: do ambiente rural ao cortês, passando pelo doméstico; ou da "tradição oral" ingénua e campesina à "invenção literária" propriamente dita, à "dialéctica dos sentimentos" em meio palaciano.

Os autores referidos: Afonso X o Sábio, D. Dinis, Airas Nunes de Santiago. Os títulos: Cantigas de Santa Maria, Cancioneiro da AjudaConexões: Dante, Petrarca, Bernardim Ribeiro (Menina e Moça).  

"A épica jogralesca" (16-23). Trata das façanhas de Afonso Henriques, gesta vertida para prosa na 3.ª Crónica Breve de Santa Cruz de Coimbra e a Crónica General de Espanha de 1344, cujo original, perdido, foi escrito em português: «O ciclo épico em torno de Afonso Henriques apresenta-nos um herói bravio e instintivo, verdadeira encarnação da nobreza guerreira do século XII, em luta com os Leoneses, o clero e com os Árabes.»

Conexões: Cantar de Mío Cid e Lendas e Narrativas (Alexandre Herculano).

"O romance de cavalaria" (23-25). As traduções do Ciclo da Bretanha, Demanda do Santo Graal, O Livro de José de Arimateia, (séc. XIII) ou a História de Barlão e Josafate, baseado na vida de Buda, cuja tradução portuguesa se fez em Alcobaça, abrem caminho para um romance como o Amadis de Gaula, cujo original em português se perdeu, cuja autoria foi atribuída por Zurara ao trovador Vasco de Lobeira [entretanto, a atribuição já passou para um outro, chamado João Pires de Lobeira].

Conexões: Cervantes, Dom Quixote.

terça-feira, agosto 17, 2021

um passeio com A. J. Saraiva (3)

Afonso VI de Leão
Repartido por treze capítulos, é precedido dum "Intróito", pp. 12-15, com referencia ao provavelmente mais antigo fragmento escrito do galaico-português, inserto numa crónica redigida em latim: a lamentação chorosa de Afonso VI, rei de Leão e Castela, avô de D. Afonso Henriques, após a derrota na batalha de Uclés (1108) diante dos almorávidas, em que morre o seu único filho varão. É uma queixa lancinante, que impressiona pela clareza com que a lemos passados mais de novecentos anos; «[...] ay meu fillo, alegria do meu coraçon e lume de meus ollos [...]».

Citação: «[...] como o mostra a lamentação citada de Afonso VI, quando se formou o reino de Portugal já o Noroeste da Península constituía um espaço linguístico, o domínio do galego-português como língua materna.» 


sábado, maio 01, 2021

portugueses (1)

 


(Coimbra?/Guimarães?,c.1111 - Coimbra, 6-XII-1185)

segunda-feira, outubro 21, 2019

diálogo sobre a questão catalã

Jaime Santos, cujas opiniões demoliberais prezo, pois não divergem muito das minhas,  comentou este post, levantando questões que me parecem úteis trazer para aqui, em vez de ficarem perdidas numa caixa de comentários. Para facilitar a leitura, intercalo as minhas observações com o seu comentário: o texto dele vai entre aspas e em itálico, o meu vai em redondo e a bold.

«Comparar, meu caro, Saddam, Assad ou o Estado Islâmico com o PSOE ou o PP é um bocadinho puxado, penso eu (mesma coisa a compará-los com Franco).»

Duas notas: 
1. Não estava a pensar em Saddam ou no Assad (duas personagens muito diferentes), mas simplesmente na Turquia e no PKK, cujo enfrentamento vai muito para além (e para trás) da era Erdogan. Aliás, o Saddam está aqui a mais, pois tratava-se de um psicopata; o Franco e o Assad são dois ditadores que mantêm o poder e a unidade territorial dos respectivos estados pela força que for precisa. Não sei por que razão quer há-de você ser benevolente para com o generalíssimo pela graça de deus...
2. Não se trata de uma questão de grau de repressão -- porque, gostemos ou não, a repressão, mais bárbara ou mais civilizada, está sempre presente --, mas do princípio elementar da autodeterminação dos povos, que aos catalães está vedada.
(Isto leva-me a falar na ignorância atrevida e crassa de muitos comentadores da questão: quando esta se levantou no ano passado, ouvi uma corifeia, a partir do palanque merdiático que detém, comparar o problema com uma eventual vontade de secessão do Porto ou coisa que o valha, para significar a absurdez da situação, no seu vesgo modo de ver. É não ter a mínima noção do que fala; mas como além de falta de noção também lhe mingua a vergonha, continua por aí a perorar, provavelmente não repetindo o dislate, pois alma caridosa provavelmente chamou-lhe a atenção para o disparate). Há dias, não um comentador mas um singelo director de informação, punha a questão secessionista ao nível do Açores e da Madeira, achando que podia comparar o incomparável, não percebendo nada (ou não querendo perceber), misturando autonomias  de natureza diferente). E o que ele devia perceber é que não há espanhóis; ou então: espanhóis somos todos, como lembrou D. João II aos Reis Católicos, os tipos que armaram este sarilho. Açorianos e madeirenses são tão portugueses como transmontanos e algarvios, e não se sentem outra coisa; a Espanha é uma entidade política artificial, imposta pela força das armas, ao longo dos séculos, uma unidade de que fizemos parte em várias situações e das quais saímos porque quisemos sair, ou não quisemos entrar, em várias ocasiões, sempre pela força das armas, em duas delas contra a legalidade, com D. Afonso Henriques e D. João IV (D. Afonso V também quis subjugar Castela e dela tornar-se soberano).

«Os meios devem ser ponderados à situação presente e a Espanha ainda não começou a meter pessoas indiscriminadamente na cadeia ou a torturá-las, ou o que seja (isso não impede as presentes condenações de serem exageradas e sobretudo injustas).»

Não, meu caro, as condenações não são exageradas; provavelmente as sentenças são impecáveis, porque de acordo com a legalidade do estado espanhol, mas profundamente ilegítimas, pois negam um direito básico de qualquer povo (daí a minha referência aos curdos), o tal da autodeterminação. E as leis mudam-se, é uma questão de bom senso, ou de força... 

«Quando alguém se levanta contra uma ordem constitucional (porque a presume ilegítima) deve estar preparado para sofrer as consequências. Nessa medida, Junqueras ou Forcadell merecem muito mais a minha admiração que Puigdemont. Escolhem como Gandhi (ou Mandela que mais tarde se converteu à solução política do conflito na África do Sul), sofrer pelas convicções.»

Sim, deve estar preparado, mas essas considerações implicam um julgamento que não só não adianta nada, como é bastante fácil de enunciar a partir do teclado. O exílio não deve ser um mar de rosas; em segundo lugar, não sabemos que articulação terá havido entre os protagonistas; e por fim, o Puigdemont serve a sua causa em Bruxelas, e não creio que haja catalão que não o apoie.
E, deixe-me que lhe diga, a conversa da constituição é uma treta, pois na transição todos queriam ver-se livres do regime e aceitaram todos os compromissos para acabar com o franquismo. Falar de constituição nesta altura do campeonato é de um grande cinismo (não seu, mas dos políticos de Madrid).

«Relativamente ainda à acção violenta, o insuspeito Camus disse um dia que entre a Justiça e a sua Mãe (que vivia na Argélia), ele escolheria a sua Mãe. Eu faria exactamente a mesma escolha...
E, chame-me cobarde ou reaccionário, não vou criticar nenhum Espanhol ou Catalão (Pied-Noir ou não) que faça também essa escolha. E cuidado com aqueles que a fizerem. O terror, como bem mostra a História, não é normalmente só a arma de um dos lados... A Guerra Civil de Espanha foi tudo menos um conflito entre os bonzinhos e os mauzinhos... Cuidado com o que se deseja...»

O Camus era um individualista, e bem; também eu me considero tal. As nossas opções são sempre sopesadas entre a ética e as convicções, por um lado, e os custos e danos por outro. Cada um deve ter a liberdade de agir em conformidade com a sua consciência, sem entrar no tropel da manada. Mas tenho a certeza de que faria suas as extraordinárias palavras do José Martí: «Si no luchas ten al menos la decencia de respetar a quien sí lo hace.»
O "terror". Chamar terroristas a quem pega em armas para defender-se é o que faz o Erdogan aos curdos do PKK e os que lutaram contra o Daesh, era o que o Salazar chamava aos movimentos de libertação das colónias. Não, meu caro, não faço esse favor aos opressores, mesmo que sejam opressores 'soft' ou 'light'. Se um comando catalão atacar pelas armas a sede da polícia espanhola, não serei eu quem levantará a voz para os condenar, era o que faltava. Embora, como escrevi, considere mais produtiva e inteligente um movimento de desobediência civil essencialmente pacífico e simbólico, mas eficaz. 
Terror é o que fez aquele islamita em Nice, que varreu dezenas de pessoas ao volante de um camião; ou os guerrilheiros da UPA, que massacraram colonos e indígenas, mulheres e crianças no norte de Angola, em 1961, ao contrário do MPLA, que assaltou uma cadeia onde estavam presos políticos nacionalistas / patriotas angolanos. Terror é condenar um líder político a 13 anos de cadeia.
Não, a Guerra Civil foi uma insurreição contra um governo democrático legítimo, chefiada por uma ratazana cujas ossadas vão ser despejadas daquele ignominioso Vale dos Caídos, o tipo que mandou fuzilar o Companys, presidente da Generalitat durante a II República. Não há mauzinhos nem bonzinhos; quando muito tipos do lado certo e outros do outro lado.


«Mas depois, existe um pequeno problema, aparte a falta de coragem dos Partidos Espanhóis que não querem abrir a caixa de Pandora dos referendos e se preparam para abrir a do separatismo porventura violento.»

Não querem, porque a direita espanhola é profundamente reaccionária e franquista, do aldrabão do Alberto Rivera (filho de colonos andaluzes que o Franco mandou para lá, que cortou o 'o' do nome para parecer catalão) ao gajo do Vox, a extracção é toda a mesma: o PP, o partido nascido do franquismo.  Fui um pouco injusto com o PSOE, que quis de facto dar um salto a tempo para outro patamar político, mas sempre bloqueado pelos franquistas do PP. É a minha embirração com o Sanchez, de que me penitencio, em período eleitoral, embora não dê nada por ele, como político ou indivíduo (um tipo que plagiou a tese, não é?...).

«A maioria dos catalães votou, nas últimas eleições, em Partidos Unionistas, a maioria presente no Parlement deve-se a um sistema eleitoral não proporcional e o mesmo se passou na anterior eleição que deu o Parlement que declarou a independência. Fazer um referendo sem sequer se dispor de uma maioria parece-me um bocadinho forçado...»

Creio que está a incluir nessa alegada 'maioria' o Podem, que em bom rigor não é unionista nem separatista (o que faz a propaganda...) E se é como você diz, não percebo por que razão os 'arriba españa' não viabilizam o referendo, gozando do seu triunfo em todas as frentes, e passam pela vergonha de serem desprezados em países civilizados. Aliás, tem-se visto quem vem para a rua em Barcelona, a defender a integração: aqueles embuçados de braço levantado em saudação fascista. Não era preciso ver, já se sabia, mas assim é mais eloquente.

«Quanto à vida ser feita de crises, bom, eu contrariamente àquele escritor francês, prefiro o aborrecimento à barbárie. O aborrecimento tem futuro, a barbárie não tem nenhum...»

Ora, somos dois! Mil vezes o aborrecimento da vida burguesa e medíocre dentro dos carris. Mas, lá está, não irei criticar quem se revolta contra a indignidade. Viver de joelhos deve ser muito aborrecido, e por vezes também deve custar a olhar para o espelho. Li já há uns bons anos uma entrevista dum escritor catalão que se assumia como independentista, e lembrava, com indignação, de como no seu tempo de criança e jovem, estava proibido de aprender a sua língua na escola. É realmente desagradável andar agachado.
Deus queira você tenha razão nesse optimismo quanto à falta de futuro da barbárie. Mas, como tenho dito, os catalães é que sabem. E note que não tenho nenhum preconceito contra os castelhanos, muito pelo contrário; mas as coisas são como são.